22 de fevereiro de 2017

Por trilhos de Montejunto

Antes de avançar para os treinos e provas de Fevereiro, não queria deixar em branco um treino especial que houve ainda em Janeiro. E digo "especial", porque voltei a um local onde não tinha sido muito feliz e enfrentei os fantasmas.


Como sabem, a minha última (e também primeira) visita à Serra de Montejunto não tinha corrido muito bem. Não por culpa do local, que é bem bonito, mas por coisas que, pronto, vocês sabem que por vezes acontecem em provas. Bati num muro monumental, rebentei, levei uma marretada... Basicamente, faleci. Sim, foi isso que aconteceu. :) E, na altura, sendo a última prova antes do OMD, foi um grande abalo na minha confiança.
Mas bom, não podia deixar que as últimas memórias de tal local fossem essas, não é verdade? 


Então, e apesar de Montejunto não ter sido a primeira opção, numa manhã fria, mas limpa, de Inverno, voltei ao local "do crime" para salvar a honra da casa.
Como, tirando o percurso da prova, não conhecia os trilhos daquela serra, deixou-se o carro junto ao Quartel da Força Aérea e tentámos recriar algumas partes do trajecto.



O dia estava ventoso e a serra é bastante exposta, valha-nos os tubos/buffs de oferta em várias provas: um para proteger as orelhas e outro para proteger o pescoço, e siga.


Logo à primeira vista, Montejunto tem uma vantagem em relação a Sintra, local habitual dos meus longos: tem maior altitude. 660 metros no seu topo. Claro que o ganho de acumulado não depende apenas disso mas QUERIAS TREINAR SUBIDAS, NÃO QUERIAS?! Agora toma! Pelo menos aqui não conheço o caminho que me espera e vou na inocência, o que às vezes ajuda.


Continuo tão fraquinha, tão fraquinha nas subidas... Mas bom, isso são histórias para outro dia. No entanto, de falta de boa-vontade não me podem acusar. :) 


Os trilhos de Montejunto são bastante pedregosos, mas de vez em quando lá se seguia um estradão, para variar. Um desses estradões, levou-nos até à Torre de Vigia.



Nesse sítio, junto ao marco geodésico, tem-se um belo miradouro natural.




Sem track e sem grandes conhecimentos dos trilhos, acabámos por nos guiar maioritariamente por algumas marcações e percursos definidos


mas, também, por fitas, algumas já visivelmente gastas do tempo e outras recentes, deixadas por anteriores provas!!! A sério, havia imensas...


Será que não recolhem as marcações a seguir aos eventos? É que eram demasiadas para ser só uma ou outra esquecida por lapso. Uma serra tristemente cheia de retalhos.

Montejunto é, assim, uma outra opção para os treinos em serra, embora não tão acessível como Sintra. Não dá para ir tantas vezes. Porém, foi bom voltar a Montejunto. Numa época do ano diferente, num outro clima, embora desafiante de maneira diferente. Não se pode dizer que tenha sido um treino fácil, mas o objectivo de somar desnível foi atingido. E o trauma antigo também foi superado. :)

Treinos por locais diferentes acabam por ser uma alternativa nos meses sem provas, como foi o caso. Uma forma de dar a volta à rotina dos treinos, por assim dizer.

Boas corridas!

6 de fevereiro de 2017

Janeiro

Em Janeiro não houve provas, mas houve treinos pelos locais do costume e outros.








Também não houve muitos quilómetros (penso que não chegaram a 150 km), mas houve o regresso a um regime de treinos mais regular. Cerca de três treinos durante a semana e um mais longuinho durante o fim-de-semana.

Os "longos" de fim-de-semana não foram assim tão longos. Andaram sempre pelas 2h30 de treino, o que, em trilhos, como vocês sabem, pode não se traduzir em grande quilometragem, ou ser até muito pouca, se o desnível e tecnicidade forem grandes. No entanto, a ideia era reconquistar alguma consistência.

As primeiras semanas foram complicadas porque o corpo estava acostumado à manha e não havia meios de se adaptar ao novo regime mais activo. Revoltava-se mesmo! Havia dias em que era pernas pesadas do início ao fim e uma forma horrível a correr (ainda mais que o normal): toda descompassada, encurvada, os braços a baloiçar à frente do tronco... Era quase como se estivesse a aprender a correr de novo.

Frase motivacional encontrada num dos habituais locais de treino. :)

Apesar de tudo, os treinos semanais, em estrada, foram-se fazendo. Onde noto que perdi mesmo MUITA forma foi nas subidas (daí os longos de fim-de-semana, em trilhos, não serem assim tãooo longos). Qualquer elevação as pernas queixam-se, o rabo queixa-se, as costas queixam-se... E eu calada, porque preciso de respirar todo o ar possível e se falar caio para o lado.

Bom, nada que umas quantas visitas às escadas da Praia Grande não ajudem.


Neste dia em específico foram 3x350 degraus, falésia acima e falésia abaixo (e acho que não deve haver um degrau de igual tamanho naquela escadaria, xiça!). Efeitos secundários: 3 dias com dores nos gémeos. Toma lá! O que vale é que a paisagem é bonita...


E assim tem sido. A parte psicológica de quem "já fez" e "sabe que consegue" ajuda muito nos dias de treino mais difíceis, embora a lenta progressão seja, por vezes. desmotivante. Para Fevereiro esperam-se mais quilómetros. Venham eles!

17 de janeiro de 2017

Alenquer Xmas Trail

Ou: o Regresso dos Mortos-Vivos.

Não sei se se recordam mas, corria o ano de 2015, fui acometida de uma qualquer virose apocalíptica que me deixou em modo zombie durante a totalidade do Caldas Ultra Trail. Na altura até estava em forma e a treinar decentemente, portanto foi daquelas coisas que não têm explicação. Digamos que é qualquer coisa que anda no ar e, de vez em quando, entra no corpo de um atleta incauto e suga-lhe toda a energia. No dia seguinte já está tudo bem, como aqueles vírus de 24 horas, e uma pessoa esquece-se.

Desta vez, não foi isso que aconteceu. Desta vez, eu sabia perfeitamente que não estava com treino em condições. Nem sequer tenho a desculpa de ter sido ingénua. NÃO! Eu sabia ao que ia. Eu PEDI que isso acontecesse. Na minha ideia, a única maneira eficaz de me tirar do marasmo de treinos em que me encontrava era inscrever-me numa prova e SOFRER. Ir lá, arrastar-me, ser passada por todos e ainda uma tartaruga e um caracol, em suma: ser HUMILHADA. Era assim que eu ia recuperar a vontade de treinar: ferindo o meu orgulho. (Na altura isto fazia todo o sentido na minha cabeça, não gozem...)

Como é que se diz? "Be careful what you wish for"? Pois...

Árvore de Natal.

Local da Partida.

Na Partida.

Da prova propriamente dita já não tenho grandes memórias. Sei que ao fim de 2 km a correr, em estrada, plana, já ia completamente esbaforida. Depois, entramos nos trilhos e começamos a subir e fiquei ainda pior. Estava difícil estabilizar a respiração e os meus gémeos pareciam dois tijolos.
Aos 4 km disse que quando chegasse ao primeiro abastecimento (aos 8 km) ficava por lá. Entretanto, cheguei, bebi água, recuperei a respiração e achei que podia continuar mais um bocadinho.
Aos 10 km já estava arrependida.

Em Alenquer não há montanhas, mas eles sabem aproveitar as encostas que têm. Sobe. Desce. Sobe. Desce. E a distância de um local a outro, que em linha recta não ultrapassaria os 600 metros, facilmente se transforma em 2 ou 3 km. E sobe. E desce. E sobe. E desce. É isto que é o trail, querias o quê?!
Arrasto os pés, as pernas, o rabo. Alguém que me salve desta montanha-russa infernal! Não estou com disposição para aquilo. "Mil vezes fazer outra Maratona de estrada. MIL VEZES!"

Um pouco à frente apanho um casal cuja mulher vai tão ou mais cansada do que eu. O marido dá-lhe ordens de comando - "Levanta os joelhos!", "Anda, força!" - intercaladas com piadas, numa tentativa de a distrair. Ela nem lhe responde.
Acho piada, porque me revejo. E, sobretudo, acho piada porque não é comigo! Quando ele lhe diz: "Vá que aqui é a direito, dá para correr", e ela lhe rosna qualquer coisa incompreensível como resposta, não consigo evitar um sorriso... Compreendo-a tão bem! É que, nestas alturas, em teoria, sim, é possível correr. Mas, na prática, só nós é que sabemos o estado em que vamos.
Fica aqui o agradecimento a este casal, pois acabei por ir no seu reboque durante uns quilómetros, distraída com outras lutas que não a minha.

Antes do segundo (e último) abastecimento ainda houve um novo controlo de passagem. Houve vários ao longo da prova, cujo percurso carrossel facilitava "atalhos". Também pessoal da cruz vermelha, muitos, perdi-lhes a conta, ao fundo das descidas mais perigosas ou zonas mais escorregadias. Organização humana excelente nesta prova. Felizmente, não precisarei dos seus cuidados, porque a minha lesão era outra, mas foi bom saber que estavam lá. Arrasto-me, mas isso não me vale uma viagem de maca. Quando muito, um colete de forças, por achar que este tratamento de choque era mesmo "o que estava a precisar" para regressar em força...
Escuteiros gritam incentivos no início de mais uma subida e eu só me apetece ofendê-los. Sim, gritei impropérios (dentro da minha cabeça) A ESCUTEIROS! Estou mesmo mal. Mas, em minha defesa, neste momento pouco mais sou que uma zombie. E tantos fotógrafos que havia nesta prova... (In)Felizmente não encontrei nenhuma fotografia minha, mas aposto que estou a sorrir nelas todas, por reflexo, mas, se olharem bem para os meus olhos, a alma estava vazia (assim como as minhas forças).

Olha, afinal sempre encontrei uma foto minha!
Acho que até estou favorecida. :)

Depois do último PAC tenho um breve ressurgimento da energia, mas foi coisa breve, como o último suspiro antes de falecer. Tornamos a subir, pela última vez, esperava eu, mas parecia nunca mais acabar. Quando achava que estávamos quase no topo surgia uma nova encosta, um novo marco ao qual escalar. "Pensavas que estava a acabar, não era? AH AH!" (Ler o último "ahah" com a entoação de gozo do Nelson dos Simpsons).

Quando vi a placa a anunciar que faltava apenas um quilómetro, em vez de festejar só pensei "Oh, não! Aindaaaa?". Nem tirei uma selfie, nem admirei convenientemente o icónico presépio de Alenquer, que daquele local era visível na outra encosta.

Retirado do site da C.M. de Alenquer.

"Não é para isto que corro, não estou a desfrutar nada, nada", é este o pensamento que me assola a poucos metros da Meta. Mas bom, querias sofrer para acordar, e foi isso que tiveste. "Be careful what you wish for..." Pois.

"Xiça, que já houve ultras em que sofri menos!" Felizmente, na chegada tinham Licor Beirão para afogar as mágoas (para que mais haveria de ser? :)). Fiz um brinde e emborquei um shot com o Artur, que, coitado, foi a testemunha silenciosa deste meu arrastar ao longo de 22 km. Mas, atenção, 22 km com 1050 metros de D+! Isso salva um bocadinho o meu orgulho! Não? Ok...

Conclusão: o Alenquer Xmas Trail é uma boa prova, bastante bem organizada, nada a apontar em termos de abastecimentos, meios de apoio (excelente), controlos de passagem ou sinalização - das melhores que já vi em provas, acompanhada sempre de placas com piadas ou a chamar a atenção para alguma coisa.
Para além da t-shirt e da medalha de finisher, no saco de lembranças tínhamos, entre outras coisas, ovos de codorniz! Não sei se é típico da região, mas era algo que nunca tinha comido, e achei piada. Como sabem, não ligo muito a medalhas, por isso gosto de brindes úteis ou originais. Este ganhou pela originalidade!
Além disso, em Alenquer sabem aproveitar o terreno que têm. Não há montanha mas há montes, encostas, quintas, muralhas, trilhos. Uns bons quilómetros da prova foram feitos em trilhos de BTT, num campo verdejante de sobe e desce que, em qualquer outra altura, seria encarado como um parque de diversões mas que, desta vez, obviamente, não aproveitei como deveria.
Em suma, esta é uma prova que merece uma nova oportunidade, com outras pernas e espírito, mas que, desta vez, me deu exactamente aquilo que eu procurava: porrada.