31 de maio de 2013

Um dia hei-de ir mais longe

Esta semana, e uma vez que a paisagem é sempre a mesma, resolvi variar um pouco os treinos e fazer... tan tan tan taaan... treino de séries!  Este tipo de treinos é uma coisa que não aprecio particularmente, aborrece-me, mas, como o tempo durante a semana não é muito, torna-se prático e rápido. E que feliz que fiquei por ver que foi especialmente rápido, pelo menos comparado com o que conseguia fazer há uns meses! Não fiquei assim tão feliz que me puxe a fazê-lo com mais frequência, mas talvez se torne uma coisa mensal (ihih).

Lembro-me, quando comecei a correr, a vitória que era conseguir fazer mais um quilómetro acima do habitual. Quando treinava para as primeiras provas de 10km, chegava aos 7km tão cansada, que me perguntava como era possível alguém fazer Meias Maratonas, já para nem falar Maratonas (Ultras era um conceito que nem alcançava).
Achava que uma Meia Maratona era uma coisa dura e inatingível, reservada apenas para atletas a sério. Bem, todos sabemos que entretanto já fiz duas (três, se incluirmos a do trail, que eu incluo) e digo-vos: TODOS, mais devagarinho ou mais depressa, conseguem fazê-lo, é uma questão de empenho. E depois vão sentir-se tão realizados ao cruzar a meta que não vão querer outra coisa. Talvez, como eu,  mesmo não sendo rápidos, nem atléticos, nem corredores especialmente dotados, se vejam a sonhar com metas mais altas (ou longas, neste caso).

Sei que a parte mental é algo que terei de treinar tanto como a parte física. Não sei se acontece o mesmo convosco, mas quando determino uma distância de treino, começo a ter os primeiros sintomas de ronha quando chega mais ou menos a três quartos da mesma. Se quero fazer 10km aos 7km já estou mais do que pronta para terminar, se quero fazer 15km, aos 10km começo a sentir as pernas a pesar e, nos treinos maiores, o pior é ali a partir do km16. E não estou a referir-me a provas em que, supostamente, temos de adaptar a velocidade à distância. Refiro-me mesmo a treinos em velocidade confortável.
Sei que, nestes casos, é o psicológico que influencia muito. Se um dia, a médio-longo prazo, quiser fazer maiores distâncias, só tenho é de aguentar-me com o cansaço e superá-lo durante praticamente a duração toda da prova. E isso, para além de muitos factores físicos, mentalmente acho que exige mais do que o orgulho de não querer desistir, que às vezes é o que me mantém a correr quando queria era sentar-me na beira do passeio a lamentar-me. Uma verdadeira atleta, eu sei...

Portanto, tenho o gosto que me leva a dar as primeiras passadas, a alegria que me leva a continuá-las, mas preciso de saber se tenho o que é preciso para persistir e concluí-las, quando as coisas começam a doer.

Depois desta conversa toda, em que parece que vou fazer a mala e juntar-me aos tarahumara* já amanhã, é preciso acrescentar que se tratam de sonhos, coisas que gosto de imaginar na minha cabeça, mas para as quais, fisicamente, ainda estou na fase em que estava quando comecei e achava aos 7km que 21km era impossível.
Além disso, gostaria de fazer uma prova de 10km nos próximos tempos, porque tenho um recorde de distância um bocado datado, que gostaria de bater, para depois tirar isso do sistema e dedicar-me a voos maiores. Alguma sugestão?

Amanhã vou fazer um treino mais longuinho e depois, no domingo, tentar passar na Corrida do Oriente, não para correr, mas para fazer de público entusiasta. A segunda melhor coisa para se fazer numa prova.

E agora, para começar bem o fim-de-semana, deixo-vos com esta imagem que um amigo meu,  não-corredor e ainda alheio às maravilhas da corrida (por enquanto) publicou recentemente no facebook:



Um equívoco compreensível. :)


Bom fim-de-semana!


* Por falar em Tarahumara, hoje à hora de almoço passei na Feira do Livro e o  Nascidos para Correr é um dos livros do dia no stand da editora LEYA, aproveitem!

28 de maio de 2013

Corrida do Guincho: Entre Serra e Mar


Ou Doze Razões para Correr pelos Trilhos.


Km1 - Expectativa inicial


Desta vez não estou sozinha, estou entre amigos. No entanto, há sempre uma mistura de descontracção e ansiedade. Por mais provas de trilhos que tenhamos feito, nunca sabemos o que vamos encontrar. 12km em estradão é uma coisa, por carreiros é outra, se tivermos muitas subidas ou obstáculos tudo destabiliza. É impossível prever o que serão estes 12km ou até o ritmo que será possível adoptar
No entanto, como sempre, começamos em piso alcatroado, rolante, uma pessoa entusiasma-se, corre rápido, sente-se bem, e acha que esta vai ser a melhor prova de sempre (no sentido de mais rápida, entenda-se). Nunca dura muito.


Km2 -Variações de terreno


Correr, em recta, pode tornar-se aborrecido. Aqui nunca vai haver esse problema. Saímos do alcatrão entramos em estradões de terra, estreitam-se os carreiros, junta-se relva ou pedras soltas, ramos, troncos e giestas, lama. No melhor dos casos (ou pior, depende da perspectiva), pequenos riachos, seixos e rochas para apoiar os pés em equilíbrio instável. Subidas extenuantes, descidas a pique. Cada curva no caminho é uma surpresa, quer estejamos a adorar ou a detestar o quilómetro em que estamos, sabemos que não vai durar a prova toda, e isso é estimulante.


Km 3 - Obstáculos


Ao dobrar um carreiro, de repente estacamos. Uma fila de gente aguarda, parada, impaciente. Esta situação não é agradável, nem ideal, não estávamos num ponto da corrida em que o descanso "forçado" já  fosse bem-vindo. Atletas põem as mãos na anca, outros mandam bocas, outros piadas, a maioria põe a conversa em dia. Eu tiro fotos.
Quando, minutos depois, chegamos ao local de embate, é uma pequena descida técnica que desemboca num pequeno curso de água. Nem chega a ser preciso molhar os pés. Pousa o pé direito aqui, o esquerdo ali, e obstáculo superado.


Km4 - Factor "surpresa"


Quando pensamos que já vimos de tudo, uma experiência nova. A passada torna-se outra vez mais lenta, temos de ceder e cortar passagem à vez, até entrarmos num pequeno túnel parcamente iluminado por archotes. Não dá para ver onde pomos os pés, mas é enlameado, nem pensar correr.
É mais uma surpresa que estes trajectos nos trazem, e têm sido recorrentes a cada trail. Mesmo quem participou nesta prova o ano passado, não se recorda desta passagem, o que significa que, mesmo repetindo o evento, nem sempre sabemos o que nos está reservado. Não é bom para quem quer comparar tempos com o ano anterior, mas ao menos não há rotina.


Km5 - Mudanças de ritmo


Corre rápido. Embala. Trava a fundo. Sobe a puxar a primeira. Acelera, mete a segunda. Tenta cruzar o atleta da frente pela berma do carreiro. Às vezes ele colabora, outras vezes não. Caminha. Normaliza a respiração. Pára. Tira fotografia. Volta a correr. Acelera. Cansa. Descansa. Respira.
Ritmos certinhos é para esquecer. Já desesperei na espera do km3, agora agradeço o congestionamento na subida, para poder descansar e normalizar a respiração. Pouco depois, um carreiro serpenteia num terreno menos acidentado a seguir às escarpas. Aproveito para ir passando aqui e ali, enquanto estamos em recta ou em ligeira subida, que, nestes casos, é quase a mesma coisa.


Km6 - Entreajuda


Como vamos mais devagar e contemplativos, pelo menos no campeonato em que compito, nesta liga dos últimos, prestamos mais atenção ao outro. Há sempre um comentário ou uma conversa iniciada. Uma senhora atrás de mim dá-me a mão para me ajudar a descer, depois sou eu que a apoio na descida. Sinto que se apoia no meu ombro ainda durante alguns metros, e sigo devagar. Escorrego e quase caio, umas mãos solidárias agarram logo o meu braço e ajudam-me a recuperar o equilíbrio. Está tudo bem? Está tudo bem! Seguimos. À frente a situação repete-se mas, desta vez, a protagonista não sou eu. Está tudo bem? Está tudo bem! Seguimos.


Km7 - O Mar


Acho que dispensa mais palavras.


Km8 - Subidas

Começam as subidas e mais subidas, que culminarão no Muro. Não o famoso "muro" que esgota as reservas de energia dos atletas ao fim de muitos quilómetros, mas um muro físico, de cimento. Dezenas, ou centenas, de metros a penar num inferno pessoal, sadicamente aliviado por sabermos que não somos os únicos a atravessá-lo.  Cada um ataca-o como pode: valentemente a correr, com passadas pequeninas e constantes, a andar, de costas curvadas, cabeça baixa e mãos atrás das costas ou agarradas às coxas e, até mesmo, de "marcha-atrás".
Parede, rampa quebra-costas, queima-coxas, "para que é que me meti nisto", "raios parta  <censurado> da subida" - são vários dos epítetos que se lhe podem associar.
Esta é um exemplo, mas quase todas as subidas em trail são assim. Impiedosas, cruéis, irresistivelmente desafiadoras, um teste à resistência física e, sobretudo, mental. Acredito que as dúvidas passem na cabeça de muita gente, o desespero na cabeça de alguns, mas o alívio, e orgulho, que se sente ao chegar ao fim, quase que chega à alma de todos. Esta já está! Livre, até próxima. Uma de cada vez, é assim que se consegue.


Km9 -Vento



Apesar de todos os cognomes acima atribuídos e, diga-se, igualmente merecidos, soube ontem que a zona da rampa em questão tem o adequado título de Cabeço do Vento.
Este quilómetro não é uma apologia do vento. Vento é do pior nas corridas e neste dia não foi excepção. Estava forte, fustigava, empurrava-nos para baixo nas subidas e travava o nosso avanço nas descidas, atirava-nos poeira e bronzeava-nos com uma camada de pó, enquanto chorávamos os ciscos nos olhos e cuspíamos sabe-se lá o quê, que o vento gozão trazia, como que zombando com os atletas sôfregos de ar.
Mas, quando chegávamos lá ao cimo, por entre terra seca distinguia-se o aroma a maresia, e o vento trazia-nos o som que só as localidades costeiras têm. Abrindo os braços quase que podíamos abraçar o horizonte. É o mais perto de voar, com os pés no chão.


Km10 - Descidas


É o bom de um percurso circular, sabemos que, depois de muito subir, as descidas terão de aparecer eventualmente. Nem todas servem para embalar, ou melhor, nem todas servem para embalar para toda a gente, que há sempre aventureiros destemidos ou sem travões. Começou a parte decrescente da corrida, o pior ficou para trás e agora é desfrutar da paisagem (mas deitando um olho ao chão).


Km11 - Carreiros (single tracks)


A minha parte preferida de todos os trails é esta: carreiros estreitos, pelo meio das árvores, onde temos de ir com atenção a raízes, ramos baixos e silvas. Para quem preserva a vida ou pelo menos o esqueleto intacto, não dá para grandes velocidades. Mas por momentos, com imaginação suficiente, sentimo-nos em exploração numa grande aventura na selva, ao invés de numa pequena mata anexa à localidade.
Distraio-me e faço mais um arranhão na perna, mas não importa, é de pouca gravidade. Passei por pelo menos um outro atleta com uma "marca de guerra" no joelho muito pior. Além disso, estamos quase a terminar, as pernas parece que adivinham e deixam por instantes de sentir o peso dos quilómetros que ficaram para trás. Elas sabem que a meta é já ali.


Meta - Comunhão



A sensação de comunhão, com o ambiente que nos rodeia, connosco próprios, é frequente em estados de esforço físico e, para mim, sobretudo nestas provas que privilegiam o contacto com a natureza. Mas a meta...
Quem, a chegar à meta, apesar do ruído ambiente, das palmas, dos gritos dos amigos, da confusão, nunca experienciou aquele segundo de silêncio, aquele momento em que o pórtico está já ali, nós sorrimos de coração cheio e parece que tudo à nossa volta pára e, quando damos por nós, a linha de chegada já foi cruzada? Isso, meus amigos, é a breve plenitude do esforço e glória, e a razão porque tantos de nós corremos.

Não sei onde as minhas pernas me levarão em futuras corridas mas, por enquanto, estou bem aqui.


PS: Obrigada ao Vitor, por algumas das fotos que ilustram este relato, e aos restantes companheiros de corrida, pela companhia!

26 de maio de 2013

Por entre a Serra e o Mar

12km* que souberam a pouco.

 

Excepto esta subida, esta subida já não soube a pouco:

Eu sei que não parece assim tão má... Nunca parece.

Foi o tamanho "ideal", pena ser em cimento/alcatrão.

Também foi uma das provas onde apanhei um dos maiores engarrafamentos. De parar o trânsito durante vários minutos.

Biiip biiiiiiiiiip

E os assados do almoço familiar pós-corrida também souberam a pouco:

São muitas, mas éramos muitos.

Foi um bom domingo. Não percam o próximo episódio: Entre Serra e Mar - a Corrida do Guincho.

Boa semana!


* Apesar do cartaz anunciar 13km, o regulamento dizia 12km. Foi um bocadinho menos (aprox. 11,6km, no meu gps).


24 de maio de 2013

Alento nos treinos rotineiros

Esta semana começou com um pequeno treino de recuperação. Os meus gémeos estavam doridos, não o sentia a caminhar nem a correr, mas sim ao toque! Parecia que me tinham andado a dar socos nos músculos, o que, se formos bem a ver as subidas em que me meti, quase que vai dar ao mesmo. Na altura, depois da prova, fiz alguns alongamentos, mas de forma insuficiente, já que havia coisas mais prementes a tratar, como sentar-me.

Mas, como estava a dizer, fiz um pequeno treino de cerca de 35 minutos lentos na segunda-feira e depois um treino de 8km na quarta onde, estranhamente, me apetecia correr cada vez mais rápido, apesar de ainda me sentir cansada. Acho que se deveu ao clima perfeito que estava para correr - nem muito calor, nem frio, nem vento, apenas uma pequena aragem refrescante - e pessoas q.b. na rua a passear e fazer exercício.

Fui durante um bom bocado a "seguir" dois homens que costumam correr por ali e que eu já sei que fazem mais ou menos o mesmo trajecto que eu, e a um ritmo descontraído (para eles). Acho que isso também ajudou a tirar a mente do esforço, concentrar-me em não perder alguém de vista em vez de andar a olhar para o relógio.

Já comentei isto com algumas pessoas: apesar de gostar muito do sítio onde corro - tem espaços verdes, é uma zona bonita, tem uma boa extensão e, o mais importante, sem trânsito - a verdade é que também se torna aborrecido correr sempre pelos mesmo locais e ver quase sempre as mesmas caras, agravado pelo facto de correr quase sempre à mesma hora. Muitas vezes dou por mim em modo autómato, quase que podia fazer o percurso de olhos fechados. Reconheço os cães que os donos vão passear, o senhor de idade que dá o seu passeio e diz sempre Boa Tarde, a miúda que corre-comó-caraças e que ainda não sabe mas um dia vamos ser as melhores amigas e fazer o treino juntas, o homem que treina com a t-shirt da Meia Maratona Rock'n'Roll Lisboa, os ciclistas, os putos do skate... É ao mesmo tempo uma familiaridade reconfortante e desmotivante.

Por isso é que tenho tentado ir para locais diferentes ao fim-de-semana, altura em que me dá mais jeito a deslocação propositada para treinar.

No entanto, recentemente há uma novidade que tem animado os meus treinos de final de tarde. Um grupo de jovens/senhores tem-se reunido num dos muitos relvados para jogar uma partidinha de futebol, numa batalha de equipas que poderia ser designada por: Futebol Clube da T-shirt -versus- Sport Clube do Tronco Nú.

Aqueles segundos que levo a passar e, por conseguinte, a assistir ao improvisado torneio, são (foram) um dos pontos altos dos meus treinos esta semana. E não pensem que é porque começo a ouvir "Playing With The Boys" na minha cabeça, como se estivesse a rever em câmara lenta a famosa cena de abdominais suados voleibol do Top Gun, mas em versão futebolista (e peço desde já desculpa pela referência tão datada, juro que não sou assim tão velha e nem gosto particularmente do Tom Cruise), porque não se trata de nada disso. Há ali físicos para todos os gostos, desde six-packs definidos a verdadeiros six-packs da cervejinha. Não é isso que interessa. O que gosto de ver é a alegria com que um grupo de amigos se junta no final de um dia de trabalho para aproveitar o restinho de sol a fazer exercício físico. Mesmo que passem mais tempo "fora de campo" porque estão a ter uma cãibra, ou a discutir porque o colega é um sarrafeiro ou a descarregar o léxico de vernáculo que não podem atirar ao patrão, aquela horinha ali a jogar futebol deve valer-lhes pelo dia todo.

É esse um dos poderes do exercício físico, deixa-nos mais leves (com sorte nos dois sentidos). E é contagiante, agora que chegou o tempo mais quente, ver tanta gente que se junta para correr, caminhar, andar de bicicleta ou praticar qualquer desporto de equipa, na busca do corpinho de Verão ou apenas para aliviar a mente da rotina.

E são estas pequenas coisas que dão alento nos treinos rotineiros. Ei, uma pessoa tem que valer-se do que há! Quais são os vossos truques?


Tenham um óptimo fim-de-semana, este domingo há trilhos outra veeeez! Que bom. :)

21 de maio de 2013

Raide à Tapada de Mafra

O antes

Acordei antes do sol porque gosto de ir com tempo quando não conheço bem a zona para onde vou. Cheguei cedo, o estacionamento é logo ao lado e a secretaria é dentro do Parque Desportivo. Nesta altura ainda estava pouca gente e não tive problemas nenhuns a levantar o dorsal. Meia hora mais tarde e estaria um caos.
No caminho de volta ao carro encontro um senhor que conhecia de outras andanças e descobri recentemente que também corre. E não corre pouco, ia fazer os 42km. Disse-me que o truque era "descansar nas subidas". Embora entenda a teoria, na prática ainda me é um conceito alienígena. É certo que há subidas que só se consegue fazer a andar, mas isso não significa que descanse. As pernas a queimar devido ao esforço e a respiração a descontrolar denunciam-me sempre. Mas anoto mentalmente este conselho, pode ser que um dia me faça todo o sentido.

Parque Desportivo Municipal Engº Ministro dos Santos

A partida

A corrida teria início em plena pista, o que foi uma estreia para mim. Percorríamos uns três quartos da mesma, antes de sair do Parque. Faltam cinco minutos para o início e dirijo-me para o local. Sei que devia, mas nem aqueci. Estou a ficar nervosa, terei de começar devagar e tenho receio de ficar muito para trás e me perder, estou no meio de atletas dos 21km e 42km (os participantes das caminhadas partiam depois), devem ser bons... O que faço aqui? Sei que é porque gosto mesmo disto. Terá de chegar.
No meio de tantas caras pareceu-me ver uma conhecida. Um amigo que se vai estrear, em trilhos, nos 42km. Deve estar tão ansioso como eu, por isso junto-me a ele, que os nervos, partilhados, diminuem (não é um ditado oficial, mas podia).

E às 09h em ponto, aí vamos nós.

Os primeiros quilómetros

Muito rápido. Estou a começar este tipo de prova muito rápido. Para mim. Para o meu companheiro dos 42km é pisar ovos, mas quis poupar-se ao início e fez-me companhia. Acho que o facto de começarmos em pista puxa por nós, é o Bolt dentro de cada um que vem ao de cima.

Cruzámos a vila de Mafra, ainda com pouca gente nas ruas, em direcção ao convento. Umas senhoras em frente ao mercado batem palmas, alguns atletas começam a caminhar nas primeiras subidas. Ainda são pequenas subidas urbanas, são corríveis, não quis andar. No entanto, falo cada vez menos.

Passando o Convento entra-se no Jardim do Cerco. Continuamos sempre a subir, está a ser um belo aquecimento... Passamos pelos jardins, a gaiola das aves, alguns pavões passeiam alheios aos seres corredores que se lhes atravessam no caminho e interrompem o descanso da manhã.

Saímos do jardim e entramos em estradões de terra. As subidas começam a inclinar e são visíveis os efeitos das chuvas dos últimos dias no terreno. Agora é que já não falo mesmo. Tenho de optar, e prefiro a respiração controlada.



Tapada de Mafra

Por volta do km4 tive de insistir para a minha companhia deixar de ser um cavalheiro e continuar em força, aquilo não era velocidade para ele e eu não queria essa "pressão" sobre mim. Além disso, pouco mais à frente seria a divisão dos dois percursos. Fiquei sozinha, mas não solitária, no meio do bosque.

Minutos depois, começo a ouvir tiros! Tudo bem que estávamos a aproximar-nos da zona da Tapada sob jurisdição militar, mas não estava à espera de nenhuma simulação bélica. Ainda por cima, os colaboradores que encontro apontam o caminho para o lado de onde vem o som... Hmmm, não sei se gosto disto.

Mais à frente, a explicação: estávamos a atravessar um campo de tiro, onde alguém praticava a sua pontaria.

Campo de tiro, ao fundinho.

Nesta altura, ia um homem mais ao menos ao meu ritmo. Já nos tínhamos ultrapassado mutuamente algumas vezes, eu passava-o nas subidas, que ele optava por caminhar, e depois ele acabava por apanhar-me nas descidas, onde eu tenho um medo que me pelo de me estatelar. 
Nestas situações é inevitável fazer-se alguma conversa, até porque o homem tinha uma mochila igual à minha, o que eu achei engraçado.
Desta vez, aprendi, e a minha mochila pouco chocalhava. Levei apenas um depósito de 1 litro, o que foi mais do que suficiente, já que os abastecimentos foram frequentes. Sinceramente, a mochila até teria sido dispensável, mas não gosto de ficar dependente dos abastecimentos se ficar com sede e, além disso, quero começar a praticar correr com ela. É confortável e, desta vez que não fazia barulho, até me esqueci que a levava. A ver se falo dela aqui, para quem esteja interessado numa compra dessas.

Claro que o senhor não sabia mas, indo ao mesmo ritmo que eu e tendo a mesma mochila, foi marcado para meu adversário numa competição (saudável). A partir daquele momento foi game on! e que ganhe o melhor (e que a melhor fosse eu ihih). Vamos a isso.

Por volta do km 7, avista-se a separação dos dois percursos. Não tirei foto, mas a subida que se seguia à seta dos 42km era assustadora! Se estivesse inscrita na "Maratona" ainda hesitaria em continuar ou encurtar para metade... (ahah, hesitaria uns segundos, mas não encurtava de certeza!).
Estava a adorar o percurso e, com o passar dos quilómetros, o meu "adversário" deixou de conseguir recuperar a distância nas descidas. Tive de começar a ficar mais atenta à sinalização, já que os atletas da frente rapidamente ficavam escondidos por uma curva ou encosta.

Primeiro abastecimento


Mesa do "pequeno-almoço", a seguir à ponte.

Aos 9,5km, o primeiro abastecimento. Pode parecer uma longa distância para situar o primeiro, mas, não sei se por ser um local com bastantes sombras ou se devido ao facto de o céu estar encoberto, não se deu pelo tempo passar. Até então, só tinha dado um pequeno gole na água  que trazia.

Na mesa, que não fotografei, havia água e sumos, bem como os famosos gomos de laranja, marmelada e barrinhas de cereais. Só comi um gomo de laranja, bebi um copo de água e segui. Geralmente perco imenso tempo nos abastecimentos, o que faz parte, mas hoje ia sozinha e queria ver se conseguia diminuir o "elapsed time" habitual.

Depois deste abastecimento nunca mais tornei a ver o senhor que me acompanhava, que deve ter demorado um pouco mais tempo. No entanto, poucos metros depois sou passada por um rapaz que ia com um belo ritmo!  O abastecimento deve-lhe ter feito bem.

Começam a abundar as subidas, mas começa também a minha parte preferida de todas as provas de trail (e outras) em que já participei.

Meditação em movimento

Estou sozinha. Vejo ao fundo, antes de serem encobertas pela paisagem, as t-shirts dos atletas que me precedem. Atrás, sei que vêm outros que passei ou ficaram no abastecimento. Estou sozinha, mas não me sinto insegura. Qualquer coisa, há ouvidos à distância de um grito. O estradão é corrível, a paisagem é apaziguadora e posso abstrair-me.



Tirei poucas fotos nesta parte, mas guardo as imagens na memória. Acabei de passar um picadeiro onde um jovem montava um cavalo branco, sob o olhar atento do instrutor. No lado oposto, um pequeno veado (?) espreita pela cerca. O meu olhar perde-se com tanto para onde se dirigir. Não cheguei a ver animais em liberdade, embora haja relatos de quem tenha avistado alguns javalis. Se os havia, foram afugentados pelos atletas mais rápidos e já estavam fora da vista para mim. Mas passei árvores centenárias com formas elegantes, pontes em madeira e riachos, muito verde. Estava em paz!
A mente livre, mas o coração debate-se, num misto de querer partilhar esta experiência que merece ser vivida por toda a gente e a vontade de querer guardar este segredo só para mim, com medo que futuras multidões "estraguem" esta comunhão com a natureza.

Nesta dicotomia entre a generosidade e o egoísmo, sigo.



Tenho um breve momento de pânico, porque acho me abstraí demasiado e perdi a direcção. É o problema de ir sozinha, temos de ir extra-atentos à sinalização. Ao longe avisto a seta laranja. Continuo no caminho certo.



Segundo abastecimento

Depois da placa que me obriga a reduzir a velocidade e ir atenta a crianças e animais, passo uma pequena ponte em madeira e chego ao segundo abastecimento. Estávamos cerca do km13 e a partir daí seguia-se no caminho cénico para o céu. Pelo menos era o que  gráfico de elevação dizia.


Estão a ver, diz mesmo no gráfico, não inventei... ;)

Neste abastecimento comi mais um gomo de laranja e um quadradinho de marmelada. Na brincadeira, perguntei ao colaborador se daqui para a frente era sempre a descer. Ele responde: "É pior do que parece!" Eu rio-me, e ele apercebe-se do que disse. Emenda: "Quer dizer, parece pior do que é!!!" E ri-se também.



"A vida é uma escalada, mas a vista é linda"

Tendo analisado o gráfico de véspera, tinha preparado frases feitas, slogans motivadores ou até, em último recurso, um arsenal de asneiras, para estes 4km, mas não foi preciso.

O rapaz tinha razão, era pior do que parecia parecia pior do que era.


Se este é o caminho cénico, não quero morrer ainda.


Tirei algumas fotos nesta altura, embora as nuvens nos tenham agraciado com alguns chuviscos durante a subida. Até isso foi perfeito.

Um atleta atrás de mim, ao ver-me tirar tantas fotografias, pergunta se quero que me tire uma foto. Eu ia lá pôr a minha cara vermelha e suada à frente destas paisagens!... Falámos um bocado, comentários habituais sobre a dificuldade da subida, sobre o estarmos quase a chegar... São clichés, mas gosto destas trocas de conversa nos trails, é o meio termo perfeito entre o tempo sozinha e a companhia dos "colegas de luta" no caminho.

Quase lá.


Mas nem tudo foram rosas, esta parte foi dura. Tive de caminhar durante um bom bocado e mesmo assim custava-me respirar.

Como melhor inspiração, lembrei-me da frase que diz um primo meu, pouco mais velho, e que já teve de ultrapassar "montanhas" muito piores: "a vida é uma escalada, mas a vista é linda".

E era mesmo.


A partir daqui não tirei mais fotos porque era sempre a descer e tinha que aproveitar. Ou, pelo menos, parecia que era sempre a descer, pelo gráfico... Na realidade não foi bem assim, mas não faz mal. Depois de certas subidas, há outras subidas que parecem rectas.

"Olha, vem lá uma senhora"

A 3km do fim, o último abastecimento, onde praticamente já nem parei. Fiquei toda contente porque finalmente avistei um pequeno carreiro, sempre a descer (houve poucos single-tracks neste percurso) e pensei que poderia acelerar um pouco no final, pois estava a sentir-me bem. No entanto, depois da primeira curva, uma multidão: Apanhei com os caminheiros dos 10km à frente! Que grande azar.
Eles até eram céleres a desviar-se, sempre que pedia licença, mas depois do meu momento de trail-yoga solitário, foi um choque ter de estar sempre a anunciar a minha passagem.

No entanto, não me posso queixar porque...

"Olha, vem lá uma senhora!" (Palmas) - É verdade que nisto das corridas as mulheres ainda estão em minoria. Sobretudo nisto dos trails. Mesmo assim, pelo que reparei na linha de partida, ainda eramos umas quantas (grande minoria é certo, mas umas quantas). No entanto, nem imaginam a festa que era quase sempre que as outras pessoas, da caminhada ou apenas a assistir, viam passar uma rapariga a correr. Todos sorridentes, batiam palmas e desejavam força! Até me dava mais pica para continuar a correr, mesmo que a minha vontade fosse de andar, nos troços mais complicados. Quer dizer, estão a desejar-me força, não posso fraquejar agora!
A sério, muito obrigada, pessoas, caminheiros e voluntários de Mafra, tudo pessoal porreiro.

De volta à Vila

Quando saio da Tapada deparo-me já com uma vila acordada e agitada. A sinalização continua impecável (é mais fácil haver falhas nas zonas mais urbanas) mas, mesmo assim, colaboradores em bicicleta indicam-nos o caminho. Continuo a ter de desviar-me dos participantes da caminhada, que invadem os passeios. Opto por correr na estrada, com os devidos cuidados. Falta pouco e acelero.

A meta

Sou alcançada por um senhor que vem com uma óptima passada. Diz-me para ir com ele, mas eu não consigo acompanhá-lo. Já vejo o Parque Desportivo, onde iremos entrar e percorrer o quarto de pista que ficou em falta, até à chegada. Na minha cabeça ia a voar. Aquele piso da pista, depois dos buracos e tropeções do caminho, parecia nuvens fofinhas.


Passei um homem já mesmo quase a chegar à meta. Também não gosto quando me acontece isso a mim, mas não me consegui controlar. Se a meta não estivesse já ali, acho que teria dado uma volta completa à pista, para terminar em grande!

Espectáculo de prova. Terminei a achar que poderia continuar mais um bocadinho mas, o que é melhor, com vontade de fazer mais um bocadão. Não se pode pedir mais que isso.

O resultado

Terminei com 02:29, mas isso não quer dizer nada. Estas 02:29 não explicam as subidas a pique e escaladas por rochas, em que vemos a média baixar para 11 min/km. Também não explicam as descidas em que pouco mais rápido vamos, por medo de sairmos disparados e cair. Não explicam também os quilómetros que fazemos surpreendentemente rápido, para o percurso, sem nos apercebermos, porque estávamos tão embrenhados no momento. Não explicam tudo aquilo que vemos e experienciamos. Não explicam, mas é o que fica no relógio de uma infinitude de momentos, que se vêem assim traduzidos na frieza dos números, tão insuficientes para tanta vida que há nos trilhos.

O bling-bling

No outro dia mostrei-vos a parte de trás da medalha, hoje fica a parte da frente.


Depois, tivemos também direito a um vale de desconto na entrada na Tapada de Mafra. Já estive a pesquisar no site, e aquilo tem sugestões de passeio (sinalizado, com ou sem guia) engraçadas, talvez volte lá em breve. Para quem nunca lá esteve, merece a visita!


Considerações finais

Não sei quantas edições já terá tido este evento (-> falha minha), mas estava muito bem organizado. Era fácil perdermos-nos por todos aqueles caminhos na mata, se não estivesse tudo sinalizado em condições. Para além das habituais fitas, tinha também setas laranja, bem presas a postes e árvores, para desencorajar os furtos brincalhões. Em termos de pessoal, penso que foi a prova com mais colaboradores em que estive, dispersos ao longo do percurso, entre zonas de abastecimento, opções de trajecto, ciclistas a controlar o percurso... Como disse, mesmo sozinhos, não nos sentimos perdidos.

Houve três abastecimentos ao longo de toda a prova e um no final, e isto apenas para os 21km. Não tinham muita variedade, mas tinham mais do que suficiente, inclusive para pessoas que não levassem líquidos ou outros alimentos consigo.

Para um evento com tantas opções de distância - 42km e 21km competitivos, caminhadas de 21km, 15km e 10km - seria de esperar algum caos, que até nem houve. Havia muita gente para levantar o dorsal no dia, mas a partida não atrasou e a Competição e Caminhada partiram separadas. Só de referir aquela zona quase no final onde os percursos se uniram, o que, para quem vem a correr, se pode tornar chato. Se calhar os atletas mais rápidos conseguiram evitar cruzar-se com quem vinha a caminhar, por isso, não se podendo alterar futuramente este pormenor, para o ano só tenho um remédio: correr mais depressa! (Ou fazer os 42km... ;) )

Como eu sou uma leitora incansável e atenta de tudo o que é pormenor técnico acerca dos trails em que participo, o que pode ser bom e mau ao mesmo tempo, reparei que atribuíram um 4 (em 5) de dificuldade física à prova dos 21km. Sinceramente, e olhem que eu sou do mais piegas que pode haver, penso que esta nota tenha sido mais pela distância, que já é considerável, do que propriamente pela parte técnica. Não era um trail muito difícil em termos de terreno e, exceptuando aqueles quilómetros 13-17, as subidas também não eram assim tão significativas (cerca de 500 de D+ no total).

De resto, como nunca usufruo das massagens nem dos banhos, nem fiquei para a entrega de prémios e sorteios vários, não me posso manifestar acerca disso. Mas tinham água quente e casas-de banho limpas no Parque, a dois passos da Meta, o que dá sempre jeito.

Concluindo, para quem estiver em dúvida em relação ao ano que vem: participem!


E como todos nós sabemos que nenhum relato de trail fica completo sem a foto aos ténis enlameados, aqui estão eles (lembram-se deles tão limpinhos e novos aqui há umas semanas?):

Sim, o enquadramento de forma a apanhar a bela t-shirt ao fundo, foi propositado.

Companheiros que ainda não me deixaram mal. Já os passei por água, mas não se vão manter limpos muito tempo, que para a semana há mais!


19 de maio de 2013

A Meia "surpresa"

Hoje, corri por aqui:

Bonito, não é?

Hesitei bastante antes de me inscrever nesta prova. Tive conhecimento dela ainda antes de fazer o Trail de Sesimbra. Pensei "vou fazer os 20km e logo vejo como me sinto". Fi-los, e senti-me muito bem. O tempo passa, inscrevo-me no Trilho das Lampas e penso "pronto, agora é de vez, se estes 18km também correrem bem, inscrevo-me. São só mais 3km, não há-de ser nada". Igualmente: fi-los, e senti-me muito bem. Mas a data limite a aproximar-se e eu a inventar dores e desculpas... Tive de me dar duas chapadas (mentais), para deixar de ter tantas inseguranças parvas. É correr. O destino do mundo não está nas tuas mãos. No pior dos casos, tens de andar mais do que corres, qual o problema? Mariquinhas pffff.

E, como sempre, inscrevi-me, participei, e não me arrependi nada (e o mundo continua nos eixos).

Contei a pouca gente que ia a Mafra. Contei aos meus pais porque, pronto, se lhes ligasse a polícia a alertar que a filha andava perdida nos montes da Tapada, convinha ao menos estarem de sobreaviso. Contei a mais uma ou duas pessoas, daquelas que sei que não me dizem "Estás maluca!", mas sim "És maluca, força nisso!" e também a um ou dois de vocês, porque não me controlei. De resto, estava por minha conta.

Corri, em algumas partes do percurso sem avistar ninguém nem para trás nem para a frente, e sentia-me tão em paz que apetecia-me dizer a toda a gente que ainda não o fez: "têm de experimentar isto!"

Tanto que acho que o Billy Idol não se vai importar que eu faça uma adaptação do seu sucesso dos anos 80, que me veio à cabeça algumas vezes (não levei mp3).

Dancing Running With Myself


If I had the chance
I'd ask the world to
run
And I'll be
running with myself

Oh
running with myself
Oh
running with myself

Well there's nothing to lose
And there's nothing to prove
I'll be
running with myself

Sweat
Sweat
Sweat


Portanto, foi a minha prova de trilhos preferida até ao momento. Digo sempre isto, mas é verdade. Por várias razões, que explanarei na devida crónica, mas sobretudo por serem 21km e pela envolvência da paisagem. Não desfazendo da paisagem das outras, mas é uma questão de gosto pessoal: esta tinha muitas árvores e sombra (que hoje não foi necessária) e um ambiente mais de bosque, o que eu aprecio.
Embora o facto de ter sido o trail em que fiz a melhor média ao quilómetro até ao momento, também tenha ajudado... :)



Tenham uma óptima semana e vão correr, de preferência por um sítio bonito!

16 de maio de 2013

Abril águas mil... Ah, mas já é Maio.

Hoje tive uma companhia inesperada no treino de final de tarde: a chuva! Repentina e gelada. Ia no primeiro quilómetro quando começaram os primeiros chuviscos e pensei "ah, isto deve ser daquelas nuvens fraquinhas e passageiras"... Huh huh. Caiu de tal forma que fiquei encharcada em poucos minutos, e ainda por cima não ia com a roupa mais adequada (algodão pareceu-me uma boa opção na altura...). Foi um erro de principiante, mas nunca pensei que chovesse. Acabei por ter de me abrigar um bocadinho debaixo da portada de um prédio, que pensei ser um local discreto e deserto e depois, quando vou a ver, era daqueles vidros espelhados que dava para uma espécie de sala de reuniões. Com pessoas, lá dentro. A verem a rapariga desgrenhada e a pingar e provavelmente a interrogarem-se quem era aquela maluquinha encharcada... Olá, sou eu! Não foi nada embaraçoso... (aiiii...).

Acabei por encurtar o treino e correr apenas 6,5km (embora a uma velocidade razoável, para mim), a juntar a mais 6km que tinha corrido na terça. Foi uma semana fraca, mas não faz mal, que o fim-de-semana vai ser puxadinho.

Algumas ideias alternativas aos géis de corrida, que ficaram do último post:

- Frutos secos
- Marmelada
- Barras de cereais
- Chá verde
- Mel

Em relação ao mel, e por já ser mais de uma pessoa a referi-lo, andei a investigar e encontrei isto:

"It's easy to use honey as a source of energy for long-distance events - in fact, you can treat it just the same as any other carbohydrate gel, as honey takes a similar time to get from mouth to muscle - around 15 minutes. To maintain the body's glycogen stores in endurance events, most runners require 30-60g of carbohydrate per hour. A tablespoon of honey contains 17g of carbohydrate - so two to three tablespoons every hour should keep your glycogen stores topped up."

Não tenho bases para saber se este artigo tem alguma fundamentação científica. Como tudo, suponho que é uma questão de experimentarem e, se o vosso organismo se der bem com isso, é uma opção.

No entanto, o meu "fuel" preferido continua a ser este:

Gomas. (Mas não necessariamente um kg delas, é para racionar)  

Antes, durante, após, ou até se não tiver treino. ;)


Tenham um óptimo fim-de-semana!

13 de maio de 2013

Cerveja para ver correr e outros combustíveis

E assim se passou uma semana cheia de sol, na qual pude tirar os meus calções da gaveta e começar a aprimorar o meu bronze à corredora (versão atlética do bronze à camionista). Durante a semana fiz apenas dois treinos, e curtos (6km + 7km), porque estava com uma dor no pé desde o Trilho das Lampas. Como não me doía a correr e acabou por passar com o tempo, penso que tenha sido apenas um mau jeito devido às muitas torcidelas que dei ao longo do percurso.

No sábado foi dia de treino de força (verdade! Fiz treino de força sem ser "obrigada" devido a mudanças ou semelhantes, nem me reconheço), mas mais sobre isso depois. O jantar foi um belo peixinho em casa dos pais, porque existe a tradição que eu impus ao meu irmão, adversário clubístico, de vermos, sempre que possível, os derbies/clássicos juntos, coisa que ele adora (e por "adora", quero dizer odeia) e fica sempre muito feliz e acha imensa graça aos meus despiques e picanços constantes (e por "ficar feliz e achar imensa graça" entenda-se "ficar chateado e não me falar o resto da noite"). Mas não faz mal, porque o inverso também acontece (infelizmente com muita frequência nesta última época...) e é para isso que serve a família: amor incondicional, mesmo que nos dê cabo dos nervos.

Penso, mas não quero auto-difamar-me, que foi no sábado que bebi as primeiras cervejas do ano. Acho que sendo um ano sem os grandes eventos desportivos de verão (Europeu, Mundial, Jogos Olímpicos...) vai ser fraquinho. É incrível como assistir a outras pessoas a fazer desporto na tv puxa por uma cerveja, mas é um facto inegável. O mesmo não acontece quando vemos um filme, ou uma série, nem nunca ouvi ninguém dizer "olha, vai-me aí buscar uma mini que vai começar o telejornal", ou "temos de ir comprar um pack de seis para assistir mais logo à novela da noite", mas se vamos assistir a um jogo, nem que seja da 2ª divisão B, se vamos torcer pela Félix nos 10.000 metros, tentar perceber o interesse de um jogo de golfe ou até aplaudir a competição de dardos numa reportagem local, temos de ter cerveja. É obrigatório.

Depois desta inusitada ode à cerveja, o treino de ontem:

Não sei o que se passa, mas ultimamente anda a custar-me muito acordar cedo ao fim-de-semana para ir correr. O mesmo não acontece em dias de prova, devido à ansiedade que me faz despertar antes do toque, mas tem sido um custo para sair da cama para o treino matinal, sobretudo agora que nem há a desculpa do estar frio lá fora e os lençóis estarem quentinhos. Assim sendo, corri os 14km já ao final da tarde, com algum calor e muito movimento, mas fizeram-se bem.

E agora mostro-vos o lugar especial (um cantinho da gaveta da cozinha) onde tenho guardado algumas amostras e sugestões de "combustível" para a corrida.


Sei que parece uma bela colecção, mas, na verdade, apenas tenho dois. O resto são embalagens vazias de referência e amostras.

- Os sticks de magnésio, mais à esquerda, são uma amostra que trouxe do Trilho das Lampas, disponível gratuitamente onde se levantavam os dorsais (segundo o que questionei, serão usados mais para recuperação e não para ingestão durante a prova, mas não tenho a certeza).
- Energy Up, Victory Endurance, sabor laranja: nunca experimentei, mas vi à venda num supermercado, e por um preço mais baixo do que tenho visto por comparação e trouxe para experimentar. Ainda não abri, mas pelo toque é de consistência mais líquida do que os outros.
- Extreme  Gel, Gold Nutrition, sabor ananás: é o que resta de dois géis que um amigo do btt me arranjou. Foi aquele gel que experimentei no Trail de Sesimbra e achei intragável de doce. O outro era de frutos silvestres, este de ananás, pode ser que não seja tão mau (espero).
- Aptonia fruit&play, sabor maçã/banana: invólucro vazio do gel que comprei, quando estava a treinar para a minha primeira Meia. Vende-se na Decathlon e é muito bom, sabe mesmo a polpa de fruta (provavelmente porque é mesmo).
- Isostar, pastilhas efervescentes: embalagem vazia. Vinha com uma pastilha, cortesia do dealer amigo do btt, mas já se acabou e não sei se alguma vez irei comprar. É um pouco caro e não gosto muito de bebidas isotónicas.

Porque é que estou a partilhar isto convosco agora? Eu sempre fui uma rapariga de frutos secos e marmelada nos treinos mais longos, e sempre achei que chegava bem. De certa forma, continuo a achar, pelo menos nas distâncias que actualmente corro. (E também sou um bocadinho forreta e pobre para gastar assim dinheiro.) Mas um dia, não estou a dizer que seja para já, gostaria de começar a correr cada vez maiores distâncias e não há dúvida de que este sistema dos géis se torna mais prático. O meu pai é da velha guarda e nunca na vida tomou uma coisa destas, e o único amigo (para além de vocês, claro ;) ) que tenho que também corre, é muito à frente e utiliza, cito, o seu "próprio gel", uma espécie de DIY, ou faça-você-mesmo, de energia desportiva. Acredito que seja eficaz e até mais em conta, mas uma coisa de cada vez!

Já usaram ou costumam recorrer a géis durante as provas/treinos mais longos? Algum que recomendem? Outras alternativas?

Boa semana!

8 de maio de 2013

Trilho das Lampas

Já participei em alguns (poucos) trilhos, mas ao final da tarde/início da noite, foi a primeira vez. Gostei muito, só adicionou ao desafio que já são as provas de trail, porque a partir do momento em que deixamos de poder contar com o sentido de que mais dependemos, temos de estar alerta, quase como se fosse activado o nosso instinto de sobrevivência (o que não é exagero, já que houve partes do percurso à beira de uma falésia). No entanto, com os mínimos cuidados tudo corre bem, e é possível, e muito, desfrutar desta experiência. Só se devem assegurar de que têm um frontal com um bom foco (o que não era o meu caso) ou, em compensação, bons companheiros de percurso, com os respectivos focos auxiliares (o que foi o meu caso). Mas vamos à história.

Cheguei bastante cedo, já que não conhecia a zona e queria precaver-me de eventuais "desvios de percurso".

A Partida/Meta, ainda vazia.

Fui levantar o dorsal, ainda pouca gente na fila, e entregam-me também um apito relativo ao evento. Achei uma recordação engraçada, para além de útil, pois já vi que em algumas provas é um acessório obrigatório e apesar da minha mochila já vir com um incorporado, não a tinha levado para a corrida de hoje.

Fui fazer tempo para dentro do carro, que consegui estacionar a poucos metros do local, sempre de olho a ver se via alguém conhecido. Estava com receio de ter de fazer a prova sozinha, pois o meu frontal não tinha grande potência, para além das pilhas já serem antigas. Já me imaginava a ficar sem luz a meio de um bosque e protagonizar um momento Blair Witch Project dos trilhos... Não seria agradável.

Acabei por encontrar o João e o Vítor, com quem acabei por correr o percurso todo. Geralmente sou apologista do "amigo não empata amigo" nas corridas, mas trilhos é diferente e sabia que o cavalheirismo dos colegas e o meu instinto de sobrevivência acima referido haveriam de nivelar as nossas passadas.

A Partida já mais composta.

Garmins ligados, à procura de satélites (e procura, e procura...) e, por volta das 19h30, era dada a partida. Os primeiros metros são corridos numa zona de habitações, mas depressa entramos em terra batida.


Como os primeiros quilómetros eram relativamente acessíveis, acabaram também por ser feitos a um ritmo um pouco elevado para estas andanças, mas sentia-me bem e acompanhei os colegas.


Claro que não tarda muito e aparece o que é bom: as subidinhas!


Por enquanto ainda eram mesmo só subidinhas, e aguentei-me bem, sem necessidade de parar.

A luz do fim do dia dá uma cor bonita às coisas e eu estava encantada com a paisagem. Aliás, fui apanhada em diversas fotos de máquina fotográfica na mão, mais concentrada em captar o ambiente do que em ver onde punha os pés... culpada! No entanto, todas as tentativas de tirar um auto-retrato em andamento resultaram nisto:

Perfeito.

O que vale é que as demais paisagens compensaram.



Ao longo do percurso iremos apanhar alguns cursos de água. Alguns possíveis de atravessar através de pontes e outros aos saltinhos por pedras em equilíbrio instável. Mais uma vez, os fiéis Trabuco não me deixaram ficar mal e não escorreguei nenhuma vez.

Por volta do km5, o primeiro abastecimento, onde crianças nos estendem prontamente os copos de água. Todos muito simpáticos e  empenhados na sua tarefa de hidratar os atletas. Foi engraçado.


A passagem neste primeiro abastecimento até foi rápida: engolir a água do copo e seguir. 

Entretanto, era uma corrida contra o sol. Literalmente.


Nesta altura questionavamo-nos se ainda conseguiríamos chegar à praia antes do sol se afundar totalmente. Tínhamos esperança, até que o Manuel, um rapaz que se juntou a nós durante uns quilómetros e que conhecia a zona, disse que no km8 nos esperava uma boa "subidinha" (neste caso o "inha" já é piada...).

E a verdade é que, depois de atravessarmos mais um pequeno curso de água (só imagino como seria esta prova na época das chuvas!)...


Lá estava ela, a subidinha.


Como podem reparar, estão alguns atletas mais acima a aproveitar para descansar ver as vistas.

Comparativamente à escalada de Sesimbra, esta subida não foi tão custosa, quanto mais não seja porque era aos ziguezagues e permitia descansar um pouco nos entretantos, ao contrário da outra que era uma parede. Ou isso ou estou finalmente a ficar com músculo e as coisas tornam-se mais fáceis (fazer figas!). :)

Foi por aqui que "perdemos" o Manuel. Não sei se nos tornou a apanhar mais à frente, quando estava escuro, e não reparámos, mas de qualquer forma espero que tenha feito uma boa prova.
 
Lembram-se da conversa sobre a utilidade das meias de compressão? Os meus colegas de corrida levavam uma calçadas, eu não. Imaginem quem se arranhou nas silvas quando começou a escurecer?


Não foram eles...

Com tudo isto, o sol estava a ganhar a corrida.


Mas o certo é que, mais tarde ou mais cedo, lá alcançámos um dos marcos do caminho. A praia da Samarra.


E ainda com uma nesga de pôr-do-sol ao fundinho... Vitória!


Foi por volta desta altura que achámos melhor ligar os frontais, já que a subida que se seguia era puxadinha, enlameada e, bom, a modos que à beira de uma escarpa... Todo o cuidado era pouco.
Em cima, bombeiros e demais elementos da organização alertavam-nos para o percurso e estavam atentos. Aliás, fica aqui uma palavra em relação a esse aspecto, já que foram impecáveis ao longo de toda a prova. Toda a zona passível de maior risco tinha sempre alguém a controlar.

Já se viam outros "pirilampos" atrás também.


Depois desta fase, tivemos uma ilusão de óptica em relação ao abastecimento dos 12km, que parecia "já ali" (é o que dá o lusco fusco), mas ainda exigiu alguma perícia e cuidado a ser atingido, pois tivemos de descer e subir novas encostas.

A foto abaixo, dos colegas no abastecimento, não foi censurada, embora pareça. É o que dá tirar fotografias com flash a pessoas com frontal posto. Fica a lição.


Neste abastecimento, como de costume, para além da água comi uns gomos de laranja. Acho que as laranjas são mais saborosas nestas situações do que no dia-a-dia normal, não sei se será impressão minha ou um facto comprovado.

Soube bem esta pequena pausa. (Já percebo porque é que neste tipo de corrida o meu Tempo de Movimento e Tempo de Prova são sempre tão díspares....) Estava a noite fresca, via-se pelo vapor que saia da nossa respiração, mas sentia a pele a colar da humidade. O pior foi depois...

E convencer as minhas pernas de que ainda faltavam 6km para o final?? Está bem, está! Provavelmente devido ao frio, arrefeci muito rápido e foi um custo para voltar a entrar no ritmo. As pernas: "Deixa-te estar mas é aí quietinha e come gomos de laranja, que nós queremos descansar". Eu: "Mas não pode ser, ainda falta, tenham lá paciência". Foi um debate que ainda durou uns bons 500 metros. Como era ligeiramente a subir não tiveram outra opção que não mexer-se. Mas quem é que manda aqui?!

Nesta altura, deu um jeitaço, juntamo-nos a um senhor que tinha um frontal com um foco espectacular. Até comentei com ele que aquilo pareciam os médios de um carro! Como já vos disse de início, o meu foco era muito fraquinho, os focos combinados de nós os três iam servindo para iluminar razoavelmente o caminho, o pior era quando nos afastávamos um bocado. Por isso esta companhia veio na altura certa. Obrigada Senhor dos Médios!

Acho que não era este o Senhor dos Médios, mas não tenho nenhuma foto dele.

Penso que houve algumas pessoas que se perderam, mas eu acho que o percurso esteve sempre bem sinalizado. O problema era se não tivéssemos iluminação suficiente, já que às vezes as fitas estavam colocadas em postes altos, outras em arbustos, e era uma questão de irmos direccionando o foco em caso de dúvidas. Passámos, inclusive, por um local que estava ladeado por archotes, o que deu um efeito visual bonito.

Nisto, tornamos a entrar na zona de moradias, que estava silenciosa e praticamente deserta àquela hora.  (Era tarde, mas não tão tarde!) Estávamos quase a chegar à meta, e eu estava surpreendida com o bem que me estava a sentir. Comentei com o Vítor que o facto da prova ser ao final da tarde ajudou bastante, já que o fresco regenerou um bocadinho e aliviou a dificuldade. Se fosse em qualquer outro horário, eventualmente teria quebrado por causa do calor, já que era um percurso com poucas sombras e muita humidade. Assim sendo, sentia-me bem, e há que aproveitar esses raros momentos de bênção desportiva.

Quase a chegar! Não é a Meia Maratona das Lampas, mas serve o propósito.

Além disso, com apenas* (* nem acredito que estou a escrever isto!) um D+ de cerca de 350 metros para os 18km, acho que foram uns trilhos acessíveis, com um trajecto bastante "corrível". Não tanto para mim, claro, mas para os atletas mais experientes, o que permitiu bons resultados.

Não sei se as minhas 02h29 foram um bom resultado ou não, mas acabámos sorridentes, e nem foi um sorriso forçado, por isso acho que somos equipa vencedora. Obrigada aos companheiros "de equipa", pela companhia e por iluminarem o meu caminho. -> Awwww.... Seria um comentário mesmo querido, se não estivesse a referir-me aos frontais. ;)

Em relação à organização da prova, acho que não há muito a acrescentar ao que tem sido dito noutros relatos. Foi notória a preocupação pela segurança dos atletas, o que a meu ver é o mais importante, os abastecimentos estavam à distância adequada e tinham o necessário (o 1º: água, o 2º: água e fruta), o percurso estava bem sinalizado e, como extra, ainda tivemos direito a umas lembrancinhas no final. Na minha opinião de leiga, esta primeira edição não poderia ter corrido melhor.

Como sempre, não vejo a hora de voltar a repetir a experiência, com a novidade de ter ficado mesmo entusiasmada com esta vertente nocturna! (Com um frontal em condições).