30 de julho de 2013

A menos de uma semana da prova que inaugura as férias

Não sei o que se passa comigo ultimamente, mas as corridas matinais de fim-de-semana, de que gosto tanto, têm sido adiadas, ou por imprevistos ou por pura preguiça, e acabo por ir correr só ao final do dia. Por um lado tem sido bom, já que o Trail Nocturno da Lagoa de Óbidos será, como o nome indica, à noite, e assim o relógio biológico das corridas fica já mais ou menos regularizado.

Apesar de ir fazer uma prova de 25km em trilhos, nas últimas semanas foram poucas as oportunidades que tive para treinar nos mesmos. Tentei compensar com alguns percursos em estrada que incluem várias subidas, mas não é a mesma coisa.

Falando sobre o treino de domingo. Ao final da tarde, lá saí eu para um percurso diferente. Geralmente, e sobretudo se for sozinha, não gosto muito de correr em passeios à beira da estrada, mas desta vez ia passar pela casa do meu pai para correr na companhia dele. Apesar de ele também correr é raro treinarmos juntos, devido a horários diferentes, por isso foi uma companhia bem-vinda.
Estudei um trajecto que passava pela cada dos meus pais mais ou menos a meio e ele juntou-se a mim, acompanhando-me nos cerca de 9km restantes.
O meu planeamento não foi muito bem feito, já que as zonas mais difíceis e de subidas mais acentuadas foram feitas ainda eu estava sozinha... Podia dizer que foi para poupar o meu pai, que já não treinava há umas semanas, mas não. Ele, mesmo quando passa algumas semanas sem treinar, consegue acompanhar-me na boa... Estou sempre a brincar (e um bocadinho a sério, vá) a dizer-lhe como isso é desmoralizante para mim. Por outro lado, embora isso já não lhe diga muitas vezes para não ficar convencido :), também fico contente por vê-lo manter a resistência, apesar da passagem dos anos.

Os dados do treino:



Ahah, por uns segundos enganei-vos, não foi?! É claro que estes não são os dados da minha corrida. Sei que não é nada de mais para alguns, mas eu acho que teria de nascer de novo para fazer 18km a esta velocidade. O treino de domingo foi de apenas 15km e a um ritmo muito inferior. Estes são os dados do passeio de bicicleta que dei ontem, atentem bem: SOZINHA! (Isto para mim é um grande feito).

E agora vocês dizem: "ah, mas sendo assim não é lá um grande tempo..." E têm razão, é verdade, não é lá grande tempo (obrigada por salientarem ;) ), mas, não esquecer que este tempo inclui paragens - paragens nos sinais de trânsito, paragens para beber água, paragens para tirar fotos*, paragens para fazer festinhas a um cachorrinho fofinho que uma senhora de idade passeava. Além disso, na bicicleta só tenho uma velocidade, a de passeio. Acho que desde que voltei a andar com alguma regularidade, só fiz um ou dois quilómetros abaixo dos 3 minutos e ia morrendo de adrenalina (mais ou menos aquela sensação que temos nas montanhas-russas mesmo "boas"/más).


* Aqui está uma foto à própria sombra e, menos importante, à paisagem ao fundo.



Mas, como estava a dizer, fui fazer um passeio a solo. Já não tinha coragem de sair para andar de bicicleta sem companhia desde a última vez, em que furei um pneu e um senhor muito simpático e prestável parou para me ajudar. Mas ontem apeteceu-me andar de bicicleta e como, surpreendentemente, não há muita gente com disposição para andar de bicicleta a uma segunda-feira ao final da tarde, fui sozinha.
Claro que evitei zonas de trânsito e mantive-me na 'área confortável', mas foi outro pequeno avanço. Novamente: avista-se um futuro com mais quilómetros em duas rodas (sempre com primazia à corrida, não se preocupem que o blogue não vai mudar de nome para Pedala Como Uma Menina ;) ).


Agora em relação ao TNLO. Sinto que não treinei o suficiente, sobretudo porque não tive disponibilidade para treinos mais técnicos, mas agora também já não há nada a fazer. Hoje fiz apenas um treino curto de 5km e sou capaz de fazer outro até ao final da semana e é tudo.
Tenho noção que não vou lá para competir (nunca vou), apenas para me divertir, mas espero estar preparada para poder desfrutar da diversão, se é que me entendem... Bom, mas como diria Murakami: a dor é inevitável, o sofrimento é opcional.

Estou entusiasmada, porque vai ser uma experiência interessante, pelo menos. Nunca corri de madrugada, coisa que irá acontecer de certeza, já que a prova começa às 21h. Para diminuir o factor-assustador que pode ser correr sozinha pelo meio do mato, à noite,  caso alguém vá e não esteja preocupado com tempos e não se importe de correr em agradável companhia (a minha, caso haja dúvidas), eu agradeço!  Como diz um famoso ditado, "dois frontais (ou mais) iluminam melhor que um".

E já só faltam 4 noites...

28 de julho de 2013

Os pássaros

Porque às vezes corremos para deixar a mente mais leve, e não para treinar o corpo, neste final de semana fui para ao pé do mar. Sem relógio, sem música e, para o fim, já sem ténis (incomodavam mais do que ajudavam, na areia).

E, a uma hora em que já todos se levantavam e preparavam para regressar a casa, foi quando finalmente eu me sentei, a aproveitar o silêncio de uma praia quase só para mim. Nada como o mar para calar os pensamentos a mil.

É então que me apercebo que, nos breves (?) momentos que ali estive sentada, fiquei cercada de gaivotas que regressavam ao areal no final do dia.


E não era uma meia dúzia, eram às dezenas, qual cenário Hitchcockiano.


Claro que fiz o que qualquer criança dentro de nós faria. Levantei-me e desatei a correr na sua direcção, o que as obrigou a levantar voo...


Se foram para longe, ou apenas deram meia volta para voltar ao sítio de onde tinham sido enxotadas sem cerimónia por quem corre, e sorri, mas não voa, não sei, que não fiquei para ver. Começava a anoitecer, e a criança dentro de mim, para além de perseguir gaivotas, tem medo do escuro e da imensidão do mar à noite.


Até à próxima.


Sacudo sem paciência a areia dos pés, calço as meias e os ténis. Sinto grãos pequeninos a picar entre os dedos, mas não faz mal, são só dois ou três minutos de corrida até ao carro. A criança ainda corre comigo: Foi mesmo fixe correr de braços abertos atrás dos pássaros, não foi?. Foi. Pisco-lhe o olho.
Chego ao parque, destranco as portas, mudo de calçado, sujo tudo de areia, mas não me importo. Últimos vestígios da criança despreocupada, que ainda fica um bocadinho a admirar as cores do ocaso. Adormece. Quando me sento e fecho a porta, já sou apenas adulta novamente.

Até à próxima.

Também não sei se o peso que levei comigo o deixei para trás quando corria, o levaram as ondas, ou voou com as gaivotas, mas voltei para casa muito mais feliz.


E, no dia seguinte, houve treino do corpo, no último longuinho (este foi mesmo "inho") antes do TNLO. Reportagem que se segue.

Boa semana!

24 de julho de 2013

Feridas de guerra

Há coisas que quem não corre não iria entender. Porque é que, às  vezes, acordamos mais cedo do que num dia de trabalho para correr, e o fazemos com gosto. Porque é que corremos à chuva. Porque é que corremos ao sol (abrasador). Porque é que às vezes corremos no limiar do sofrimento se 'não vamos ganhar nada'. Porque é que ficamos contentes com menos 2 segundos de tempo numa prova, quando o primeiro classificado já chegou há largos minutos (ou horas).
Mas, se há coisas que quem não corre tem mais dificuldade em entender, é como podemos falar com certa naturalidade e até trocar pontos de vista sobre tópicos, digamos, demasiado informativos. Tenho a sorte de ter amigos "leigos" muito compreensivos, mas nem sempre é o caso.

Foi a conversa do papel higiénico aqui há umas semanas, mas há outras. Porque é que compramos vaselina e a utilizamos em diferentes partes do corpo. Porque é que às vezes é boa ideia os homens terem pensos rápidos nos mamilos. Porque é que publicamos fotos de feridas, bolhas, raspões e dizemos "isto foi na corrida tal" e esperamos comentários apreciativos e partilha de situações semelhantes.  Porque é que sabemos que "epá, se fosse a ti não comia isso na véspera da prova, tem muita fibra...". Porque é que a qualidade de um par de meias é um tema de conversa que gera discussões. Porque é que naquela foto em que eles só vêem alguém  encharcado em suor, vermelhão e desgrenhado, nós vemos alguém que nunca esteve tão atraente...

E a lista continua.


Ler mais sobre a campanha Adidas - Runners. Yeah, we're different
com exemplos de outros cartazes igualmente engraçados: aqui.


Esta é a minha história de uma unha negra. Literalmente.
Dantes ouvia pessoas dizerem que tinham uma ou duas unhas negras e que, inclusive, já tinham ficado sem alguma unha e pensava "mas que raio?! Só podem estar a usar ténis sem jeito ou muito apertados, como é que perdem assim uma unha?? Foge!" Mas, afinal, podem ter uns ténis bons, dois números acima, e mesmo assim ficarem com uma unha negra. Basta, para isso, fazerem 4km sempre a descer, a pique, na pior prova da vossa vida até ao momento.

Claro que isto aconteceu no Almonda (a sério, se esta prova não me matou, estou bem encaminhada para chegar a festejar os meus 100 anos). Lembram-se de na altura, no pós-prova, ter referido que me doíam as pontas dos dedos dos pés? Pois bem, a unha do meu segundo dedo do pé direito ficou metade negra, e só reparei nisso a semana passada, porque tinha verniz por cima. Foi uma surpresa quando descobri, e uma mistura entre "ewww" e "uauuuu".
Nunca tinha tido uma unha negra na vida. Assim como nunca tinha tido raspões nas mais variadas partes do corpo antes de começar a correr. Pernas arranhadas e braços esfolados era quando jogava à apanhada em criança e bolhas nos pés estavam reservadas para os raros momentos de saltos altos novos. Por isso, quem quiser começar a correr para 'ter um corpo bonito', pense duas vezes! Fica o aviso. (Estou a brincar, comecem a correr, que o resto compensa estes pequenos acidentes de percurso).

E era isto que tinha para dizer: fiquei com uma unha negra e conto isso às pessoas com uma pontinha de orgulho. Vocês entendem, não entendem?

(Agora só não me digam que vai cair, por favor, tenho os meus limites!)


Contem-me, o maior estrago que a corrida fez no vosso corpo (lesões à parte)? Quantas unhas negras já tiveram? Se ainda não tiveram nenhuma, é porque não se estão a esforçar o suficiente... ;)

22 de julho de 2013

Pensamentos durante um long(uinh)o

No sábado fui fazer a Tour ribeirinha aqui da cidade. Até ao Cais do Sodré e voltar, a pedalar, contornando obstáculos e turistas, sem incidentes. Foram mais de 20km! Estou tão orgulhosa dos meus progressos, qualquer dia participo num Duatlo (lol).


Ainda não tinha vindo passear a este espaço remodelado à beira-rio. Aliás, a última vez que tinha passado aqui, sem ser de carro, tinha sido em plena participação na Meia Maratona de Lisboa. Na altura, este local ainda estava gradeado e, também devido ao sofrimento, não pude apreciar devidamente a zona.

Para ganhar forças para o regresso ainda comi um geladinho deitada sentada ao sol. O meu bronze de corredora/pedaladora-uma-vez-por-semana está cada vez mais aprimorado, haviam de ver, vai ser uma sensação na praia.

Foi um belo final de tarde, com um ambiente de férias, enquanto as oficiais não chegam.

Depois, no domingo, devido a imprevistos, não foi possível o longuinho que tinha pensado. Ou melhor, o treino realizou-se na mesma, mas não no local que tinha previsto. É pena, porque era um local bonito e novo (para mim) que gostava de conhecer. Fica para a próxima.

Assim sendo, tive de me mentalizar que iria fazer os 20km sozinha, improvisando pelos locais do costume.

Esta é a minha mente durante um treino de 20km:

"Este ritmo está bom, não mexe mais, consigo correr assim para sempre!... Ainda tenho aquele trabalho para fazer, que chatice. Devia ter vestido outra t-shirt. O que é que vou fazer para jantar?  E aquele problema que ainda não sei como vou resolver. Oh, um casal de velhinhos a passear de mão dada, que fofos... Quando for velhinha compro uma autocaravana.  Olá, aquele problema outra veeez. Este ritmo está agradável, consigo correr assim uns bons quilómetros! O fio dos auriculares está a incomodar-me no pescoço, ainda vou ficar com um raspão. Boa, grande música que está a passar agora no one knows tan ta na nan tan ta na nan. Devia ter ido ao SBSR. Acho que vou comprar uma piza. Possível solução para aquele problema. As saudades que tenho de viajar. Devia meter uns meses de férias e ir correr o mundo. Não tenho dinheiro. Podia vender o carro. M***a, ainda não fui comprar as pastilhas para os travões. A rapariga que acabou de passar a correr tem os calções mesmo muito curtos. Gosto dos ténis daquele rapaz. Yep, ficou um raspão. [silêncio] O ritmo está levezinho, acho que aguento assim mais uns quilómetros. Não, esta solução para aquele problema não vai resultar. Há que tempos que não falo com a A. devia ligar-lhe. Tenho de pagar a tvcabo. Já começava era a treinar escalada para o GTSA. Ganda Carlos Sá. Ainda bem que hoje não está assim tanto calor. [silêncio] Podia perfeitamente correr uma Ultra. A minha respiração está fantástica, parece que nem estou cansada. Possível solução alternativa para aquele problema. As pernas já começam a pesar. Esquece a Ultra. Ok, ritmo aceitável, acho que aguento assim os últimos quilómetros. Esta música é chata. Agora não abrandes que estão pessoas na paragem a ver. Tenho de escrever no blogue sobre a minha primeira unha (mais ou menos) negra por causa da corrida. O que era giro, giro, era uma prova no estrangeiro. Conhecer o mundo a correr. Sonhar ainda é grátis. [silêncio] Não me lembrava desta rua ser tão a subir. Vou mesmo comprar uma piza, será demais se trouxer gelado? Hmmm, gelado. 20km, já está! Já agora fazes mais 500 metros, só porque é a descer... Run Forrest Run! Há que tempos que não vou ao cinema. Terminei outra vez com uma segunda parte mais rápida, sou a rainha da corrida progressiva! Ok, agora comer. E chocolate."


E é mais ou menos isto que se passa pela minha cabeça em treinos longos. Pensamentos soltos, aleatórios, desconexos, entrecortados com breves momentos silenciosos de contemplação. Às vezes, se há alguma questão a preocupar-me mesmo muito, penso mais nisso, encontrando muitas vezes uma clareza que não tenho noutras ocasiões, mas geralmente deixo a mente à deriva da passagem dos quilómetros.

Uma coisa que nunca falha - 10 minutos* depois de parar de correr, independentemente do horror que foi o treino, o pensamento é sempre: "Ah, não foi assim tãaaao mau, provavelmente aguentava mais uns quilómetros..."

Não é verdade?

* ou um bocadinho mais, se o sofrimento foi mesmo muito.


Boa semana!

19 de julho de 2013

Quando é preciso um pelotão

Esta semana, o mais difícil foi lidar com o "trauma de guerra" durante os treinos. Sempre que sentia o sol ligeiramente mais quente, sempre que sentia um bocadinho mais de calor na pele, vinham-me à memória imagens de tempos mais dolorosos. Estou traumatizada e ligeiramente mariquinhas, parece que o cérebro já quase se esqueceu do sofrimento, mas o corpo ainda detecta os sinais alarmantes.
Por isso, adiei as corridas para o mais tarde possível ao fim do dia e hoje, em vez de correr, vou andar outra vez de bicicleta. É verdade, está a tornar-se uma coisa semanal, acho que ando inspirada pela Volta à França.

Ontem corri 9km ao final da tarde. Fiquei sem bateria no mp3 a meio, e estava naqueles dias em que precisava mesmo da música para continuar a correr. O que vale é que, por volta do km5, quando já estava a considerar correr só 6km, passou por mim um grupo de senhores que ia com um ritmo apenas ligeiramente mais rápido que eu, e resolvi colar-me à traseira do pelotão, que, desta forma, me cortava o vento e eu aproveitava o embalo (vêem, estou mesmo a aprender com a Volta à França!;) ).

Ali fui durante os 4km seguintes, discretamente entretida a ouvir a conversa alheia (vá lá, não finjam que nunca fizeram o mesmo...) Não ia em esforço, mas aquele também não era um ritmo em que conseguisse manter uma conversa, por isso estava impressionada com a capacidade de debate e contra-argumentação, em movimento, sobre os temas mais banais. Em boa hora terminei o meu treino ao km9, porque foi quando começaram a falar do Benfica.

Um dos homens era amigo do meu pai, por isso agradeci a "distração" que me permitiu concluir a corrida. Além disso, terminei com a segunda parte do treino mais rápida que a primeira. Vitória!

Depois fiz este exercício de fortalecimento de core, que não leva mais de 10 minutos (dentro do meu limite de paciência para este tipo de exercícios) mas cuja eficácia se faz notar no dia seguinte:

- 15 flexões + 1' prancha + 1' prancha lateral (cada lado)
- 10 flexões + 45'' prancha + 45'' prancha lateral (cada lado)
- 8 flexões + 30'' prancha + 30'' prancha lateral (cada lado)

Para mim é suficiente, mas quem tiver mais resistência pode acrescentar repetições e/ou segundos.

Serviu também para me aperceber que, por qualquer razão, tenho mais força na parte esquerda do corpo do que na direita (os segundos em posição de prancha lateral direita foram muito tremelicantes).


E amanhã ou domingo há outro "longuinho", fora da estrada, os meus longuinhos preferidos ultimamente (não sei se já tinha dito isto... Ihih!:) ).

Razão nº11 (que deveria ser a primeira): "Puts a big smile on your face."


Bom fim-de-semana!

15 de julho de 2013

Semana preguiçosa e porque digo não (por enquanto) à Maratona

Depois do trail do deserto, em que tive a confirmação que nunca poderei competir em provas como a Badwater* (podes ficar descansado, Sá!:) ), decidi que não ia forçar o regresso aos treinos. Ia ser uma semana para correr o que me apetecesse e quando me apetecesse, daí ter sido uma semana mais preguiçosa que o normal e a razão de também não ter escrito por aqui.

O pós trail não foi assim tão mau. Doíam-me as coxas e os ombros e, uma novidade, as pontas dos dedos dos pés! Acho que foi devido àquelas descidas que obrigaram a ir em travão durante quilómetros, com os dedos a tocar na biqueira dos ténis, apesar dos dois números acima. No entanto, na terça já estava praticamente recuperada e na quarta corri pela primeira vez. 5km, nas calmas, não me apeteceu mais, e também não insisti.

Na sexta terminei a tarde com um passeio de bicicleta e, após ter tido um fim-de-semana mais ocupado que o normal, ontem ao final da tarde senti saudades de correr. Estava um tempo bom, fresco, e apesar da humidade, peguei nos ténis para fazer a distância que as pernas quisessem.
Não levei música e deixei os bips do Mr.G. serem a banda sonora da passagem dos quilómetros. Terminei ao décimo toque, de uma corrida muito pacífica que me fez recuperar um bocadinho a moral espancada, pisada e esturricada. Estou de volta.

Ahah! :)

Alguns de vocês perguntaram-me qual o objectivo que se segue e, porque não, uma Maratona?

Embora compreenda essa questão, até porque isto dos quilómetros é como uma drog@ que uma pessoa quer sempre mais, de momento, pelo menos para este ano, não faz parte dos meus planos.


Podia dizer que é porque não comecei a correr assim há tanto tempo como isso e não tenho pressa, o que é verdade, podia dizer que ainda não me sinto preparada, o que também não é mentira, podia dizer que tenho outros objectivos primeiro, que tenho, podia dizer que neste momento mais depressa me tornava a pôr nos 40º à sombra do Almonda do que a fazer 30km de treinos em estrada em pleno Verão (estou a brincar!)... Mas a verdadeira razão, e principal, que torna as outras todas pálidas por comparação, é só uma: para se fazer uma Maratona tem de se querer muito, e eu ainda não quero. Ainda não senti o "chamamento da Maratona", se assim quisermos dizer.
Lembro-me, o ano passado, exactamente a primeira vez que o pensamento de correr uma Meia Maratona me veio à mente, para, logo a seguir, sacudir a cabeça e dizer "que ideia disparatada!". Mas, os segundos que levaram desde que formulei esse pensamento até ao mesmo ser tremido por dúvidas, eu sorri.

Sou uma rapariga que gosta da fase da antecipação. Os treinos para uma prova-objectivo são tão importantes como o dia em si, e devem ser vividos, usando aqui uma alegoria romântica, como uma fase de enamoramento. As primeiras trocas de olhares esquivos, os sorrisos envergonhados, os toques casuais-de-propósito, as borboletas na barriga dos primeiros encontros. Ou seja, os treinos para a conquista de uma Maratona são parte do gozo, dão trabalho, e tenho de estar apaixonada.

Concluindo, quero pensar na Maratona e sorrir de nervoso, expectativa e conquista, e isso ainda não me aconteceu. Ainda. Quando acontecer sei que vai ser lindo mas, por enquanto, fico contente de, dia 06 de Outubro, estar na linha de chegada da Maratona de Lisboa e ver-vos conquistar aquela que vos deu tanta luta. Sei que vou ficar feliz por presenciar esse momento de tantos amigos (alguns vocês já sabem quem são, mas quer-me parecer que vão haver novos anúncios nos próximos dias...) e talvez isso depois me inspire. E talvez depois já não pense noutra coisa, e é assim que tem de ser.

Eu irei estar lá, mas para repetir o momento da minha primeira Meia Maratona, que é sempre especial! Se tudo correr bem, será apenas uma semana depois do GTSA, o que significa que não irei estar em condições de bater recordes, mas vou gostar de repetir as passadas naquela que é a minha Ponte, e recordar que, ainda nem há um ano, 21km era uma distância assustadora, e agora faço-a em treinos. Vagarosamente, às vezes com mais dificuldades que outras, mas faço.

É o que digo, isto dos quilómetros é mesmo uma drog@, das boas!

Boa semana!


* Por falar em Badwater, para ficarmos apenas com uma pequena ideia do que Carlos Sá terá de enfrentar, fica aqui o link para o documentário (sem legendas) de um evento anterior: Badwater 135 - Running on the Sun.

9 de julho de 2013

Trail do Almonda

(Aviso: post extremamente longo, mesmo para os meus parâmetros).

Hoje vai ser um bom dia.

É este o pensamento ao acordar.
Mesmo que a primeira coisa que vemos, mal abrimos os olhos, seja o relógio a piscar 5h20 da manhã. Mesmo que não corra nenhum ar através da janela que deixámos aberta durante a noite.
Tento não pensar muito nisso. Hoje vou correr 30km pela primeira vez, ainda por cima em trilhos, hoje vai ser um bom dia.

Obrigo-me a tomar o pequeno-almoço que não me apetece. Talvez por ter acordado mais cedo do que o habitual, o meu organismo não parece entender que preciso de me alimentar e que não vou voltar para a cama. Engulo as torradas empurradas a café com muito custo, e guardo a banana para o caminho.

O carro já acusa uma temperatura exterior de 20 e alguns graus, que foram aumentando ao longo dos cerca de 100km que me separavam de Vale da Serra, a localidade na zona de Torres Novas onde se iria realizar a prova. Tenho o privilégio de assistir ao nascer-do-sol e, por momentos, ao vê-lo assim, a uma luz tão poética e ainda inofensivo, quase que me esqueço porque é que estava preocupada com a sua força abrasadora. Tão bonito, não podes ser assim tão mau, pois não? - interrogo. Horas mais tarde, irei lembrar-me deste momento de fé ingénua.

Não conhecia este local e, ao chegar, fico contente da corrida me permitir ser turista de trilhos escondidos por terras que dificilmente conheceria de outra forma. Ainda a conduzir, admiro-me da considerável serra que se destaca acima da localidade (que se chama, como disse acima, Vale da Serra, portanto não sei o que estava à espera, nem porque fiquei assustada admirada).

Um voluntário prestável e simpático encaminha-me para a zona do estacionamento, onde ainda estavam apenas mais meia-dúzia de carros. Gosto de ir com tempo, para evitar stresses de última hora, daí também o despertador ter tocado a horas tão insanas.

Não tive de esperar quase nada para levantar o dorsal e a t-shirt, por isso fiquei com tempo suficiente para voltar para o carro e começar a ficar nervosa preparar-me para os meus primeiros 30km (já com 28º às 8h20, segundo a conversa que saía pela rádio e que podia já confirmar na pele).
Reforcei a dose de protector solar, comi a banana, verifiquei se tinha tudo na mochila (spoiler: vários géis e barrinhas, cuja maioria nem cheguei a tocar), pus o boné (spoiler 2: nunca menosprezar a importância de um simples boné) e encaminhei-me para a zona da partida, onde dentro de poucos minutos seria feito o controlo zero.


A partida era feita junto ao adro de uma Igreja, onde muita gente se concentrou a aproveitar a sua sombra. Foi também aí que encontrei o Vitor, que também se iria estrear nesse dia nas três dezenas.

O sol já incomodava, mas ainda era suportável. Adivinhava-se um dia quente e uma tarefa difícil, mas nada para o qual já não fossemos mentalizados. (Spoiler 3: há coisas para as quais nem a nossa imaginação mais rebelde nos prepara).

Não olhei para as horas, mas penso que a partida não terá atrasado e foi dada por volta das 9h. Aliás, a minha "estratégia" incluía não olhar para o relógio, para não ver a velocidade nem os quilómetros já percorridos e concentrar-me em concluir as etapas uma a uma, ou seja, só teria de chegar até ao abastecimento seguinte e reiniciar a partir daí. Haveria 5 abastecimentos ao longo de todo o trail, o que significava 6 etapas de cerca de 5km cada. Era mais fácil para mim pensar nestes termos, ou pelo menos foi, até cerca de metade da prova. Mas já lá vamos.

Verdade seja dita, se não gostam mesmo nada de correr em alcatrão, esta é a prova. Ao fim da primeira curva do percurso entrámos logo em trilhos, ainda estradões, de terra (e pedra) e vamos apanhar muito pouca estrada ao longo dos 30km, creio que nem chegará a 3% do total, mas não quero estar a induzir-vos em erro, uma vez que a minha memória ficou muito toldada pelo sofrimento solar.
Mas, como estava a dizer, ao fim de poucos metros, estamos no campo.


Os primeiros quilómetros foram feitos a uma boa velocidade (para trail), ainda com muita gente por perto, todos em fila, e à sombra de uma zona arborizada, que tanta falta fará mais lá para o avançar do dia.
Penso que para resolver o problema de congestionamento do percurso de anos anteriores, por volta do km2, alteraram um pouco o trajecto, o que acrescentou alguma distância à prova, coisa que só descobrirei já na fase final, quando estava mais do que pronta para que a prova terminasse e não havia jeitos.

Apesar de ainda ser uma zona de trilho fácil, já se notava que havia uma abundância de pedras às quais tínhamos de ir atentos, para não colocar nenhum pé em falso. Atrás de mim oiço a queda de alguém, que resulta naquilo que parecia ser apenas um joelho esfolado mas que, mais adiante, impedirá a pessoa de concluir a prova. Toda a atenção era pouca.

Nisto já estávamos a correr há 5km (a estratégia de "não olhar para o relógio" começa logo a ter falhas desde o início) e comecei a ansiar pelo primeiro abastecimento. Não que já estivesse em esforço, o calor ainda era suportável e a minha água mantinha-se fresca, mas quando vamos na ideia de um oásis aos 5km e ele ainda tarda quase 2km a chegar, isso afecta um bocado.

Distraio-me momentaneamente porque me apercebo que a grande Analice vai poucos metros à minha frente. Logo o que pensei: estou lixada. Ela é uma senhora experiente, sabe o que faz, e se está a resguardar-se tão cedo na prova se calhar não seria má ideia fazer o mesmo. Até aqui ainda não tinha andado nenhuma vez, nem mesmo nas (ainda pouco) inclinadas subidas, o que é raro neste tipo de provas, e achei melhor não abusar. Segui com calma até avistar, a poucos metros e à sombra (iupi), as duas mesas coloridas pelas fatias de melancia e pedaços de banana que constituíam o primeiro abastecimento.

Abastecimento 1 (aprox.7km) - Primeira etapa completa.

Aproveitei para tirar o boné e despejar um copo de água fresquinha por cima de mim. Acho que era a atitude geral: um copo para beber, outro para refrescar. Vai ser este pequeno momento fresco que me vai dar alento nas etapas daqui para a frente, saber que quando chegar ao abastecimento vou ter uns segundos de alívio neste prazer tão simples (e, fora destas condições, tão menosprezado) que é sentir a água fria a escorrer no corpo suado e quente.

É aqui no primeiro abastecimento que avisto o meu "companheiro-adversário" de Mafra. Ele também me reconhece, diz que também é a primeira vez que fará 30km e fica uma empatia solidária por saber que há mais gente "inexperiente" e que vem ao desconhecido neste dia de deserto do Almonda. Confesso que, na altura, sem saber ainda a luta que seria, para todos, apenas chegar ao fim da prova, me questionei infantilmente se seria capaz de ficar novamente à frente daquele senhor. Ai ai... as competições parvas que  uma tartaruga de montanha se dá ao luxo de ter na sua mente. Mas foi o que pensei, e estou vergonhosamente a admiti-lo, dêem-me um desconto.

Saio lançada (como quem diz), rumo à segunda etapa, pouco depois da Analice. Claro que ela embala e não a tornarei a ver o resto da prova. O "adversário" ficou para trás a comer uma fatia de melancia. O Vitor segue pouco à minha frente. Acho que decidiu esperar por mim, apesar de lhe ter dito para seguir. Aqui ainda pensava que não queria a "pressão" de uma companhia, por não querer prejudicar ninguém, mas mais para a frente vou agradecer. O que se costuma dizer: "sozinho vais mais rápido mas acompanhado vais mais longe", revelou-se bem verdade.



Nos próximos quilómetros até ao segundo abastecimento (km12) já se começa a sentir os efeitos do calor, apesar de ainda termos direito à misericórdia de algumas sombras. Começa é a juntar-se o incómodo de alguns mosquitos, que zumbem aos ouvidos e se colam à pele. A água que trago comigo já vem quente, só serve praticamente para molhar os lábios, e começo a andar nas subidas, recuperando ligeiramente nas descidas.

Ao engano de irmos a confiar nos atletas da frente, saímos da rota durante um bocado. Tudo bem que foram apenas cerca de 50m, 100m, até alguém que ia atrás nos alertar, mas serviu de aviso para ir com mais atenção às fitas sinalizadoras (o percurso esteve sempre bem assinalado, foi mesmo desatenção. Além disso, era a descer.:)) Daqui para a frente, mais meia dúzia de passos que seja, começam a pesar.

Passamos pela separação dos dois percursos, Mini Trail 12km para a esquerda (a descer) e Trail 30km para a direita (a subir). Curiosamente, nem tive hesitação nenhuma. Sentia-me cansada q.b., mas bem.

Abastecimento 2 (aprox. 12km) - segunda etapa concluída.


Ahhhh, que fresquinho bom! - outro(s) copo(s) de água para cima.
Vários atletas tentavam aproveitar a pouca sombra em volta do toldo ou junto às duas árvores próximas. O "adversário" chegou entretanto e partiu antes de mim, mas eu estou a levar o meu tempo. Tomo o meu primeiro gel (no abastecimento anterior apenas tinha bebido isotónico) e como um pedaço de fruta. Substituo a água que trago no saco da mochila. Daqui para a frente será sempre a subir até aos 15km, já passa das 11h, o sol já torra, há que tomar precauções.

A serra a trepar.

Passar de 200m para cerca de 600m de altitude nestes três quilómetros de subida não vai ser fácil. Graças a Deus que os arbustos que nos rodeiam no single-track dão um pouco de sombra, mas, por outro lado, também impedem a circulação do ar.


Dá-se ali um pequeno efeito estufa, que me começa a fazer quebrar, o que faz com que sejamos ultrapassados por algumas pessoas, mas ainda tenho ânimo para responder à conversa do Vitor (embora com frases curtas e monossílabos) e tirar fotografias. Enquanto tiver vontade de apreciar a paisagem e tirar fotografias é porque está tudo bem.

Passam dois atletas por nós a descer, abandonando a corrida, não sabemos se por lesão ou qualquer outro motivo. Já no segundo abastecimento tinham por lá ficado pessoas. Nunca tinha assistido a tantas desistências numa prova, e isso começou a afectar-me. Tentei abafar as dúvidas por uns momentos, um pé a seguir ao outro... um pé a seguir ao outro... Não penses muito, concentra-te na mecânica da coisa. E, finalmente, cheguei ao topo.

Depois de uma escalada lenta, a recompensa das alturas.


Olhar para trás e pensar que viemos lá do fundinho... a primeira encosta conquistada! O garmin anuncia a passagem dos 15km, metade já estava feito, recuperei um bocadinho a moral.
Claro que neste momento nem queria pensar que ainda havia outra encosta pior para subir, então aproveitei o melhor que pude este pequeno momento de glória, refrescado por uma ligeira brisa.


Do marco para a frente, seria sempre a descer até ao km17. Embora fosse um estradão com alguma pedra, deu, com alguns cuidados, para acelerar o passo e ver o ritmo nos 6:30-7min/km, a loucura! Nas subidas mais valia nem olhar, tinha de ser nestes pequenos momentos. Pequenos últimos momentos de felicidade.


Abastecimento 3 (aprox 17km) - terceira etapa conquistada.

E daqui para a frente vai ser o descalabro.


Atentem bem na foto acima, porque foi a última que tirei. Não vou tornar a ter vontade, energia ou paciência para sacar do telemóvel, e só isso revela bem o meu estado de espírito daqui para a frente.

No abastecimento não havia grande sombra e, tendo em conta as horas e o calor que já se fazia sentir, acho que isso não ajudou. Comi fruta e bebi isotónico. Tornei a mudar a água que já estava quente e, desta vez, qual copo qual quê, foi mesmo de garrafão despejar água para cima. Mas não sei bem o que desencadeou a quebra, empeno, inferno de Dante que se seguiu.

Reparei que algo não estava bem quando retomei a marcha e senti uma letargia que não conseguia combater. Não corria ar nenhum, o ar que entrava nos pulmões era quente e não aliviava. Mesmo nas poucas sombras o calor era insuportável. Fui-me abaixo, abrandei para ritmo de passeio, fiquei preocupada. Na minha cabeça formou-se pela primeira vez a frase que não tive coragem de proferir em voz alta: acho que não vou conseguir.

Comecei a ficar para trás e não devia estar com boa cara, porque o Vitor estava constantemente a perguntar-me se estava bem, com medo que me desse algum fanico para ali, e eu, em pleno "Vale do Deserto Abominável" (pertence a um dos círculos do Inferno de Dante, podem confirmar) que atravessava, só agitava as mãos como quem diz, agora não fales comigo.

Apesar da insistência para descansarmos um bocado, resisti a parar, não adiantava de nada. O sol estava impiedoso, não havia sombras, e iniciava-se uma longa e pedregosa subida até ao km23. Se parasse, era mais tempo que estava ao sol e eu só queria chegar ao próximo abastecimento. Segui a passos muito lentos e forcei-me a comer uma barrinha, pensando que podia ser falta de "combustível" (perdi mais de 2000 calorias nesta prova). Mastigar era um sacrifício, engolir ainda pior. Andei ali que tempos para comer a barrinha toda. Pensei que este tipo de esforço nos desse fome, mas não. Não tive fome uma única vez em toda a prova, e só comi por medo de perder forças, porque ao calor a única coisa que sabia bem era a água e, quanto muito, um gomo de laranja.

Kms 17-23: morte lenta.


Passam pessoas por nós a subir com ajuda dos bastões de caminhada. E eu que tinha os meus em casa, que utilidade! Pensei que não seriam necessários e não queria andar com mais peso atrás, mas arrependi-me bastante. Como quem não tem cão caça com gato, agarrei num ramo de árvore que estava caído lá pelo chão e que acabou por ser o meu fiel apoio naquela subida interminável e tortuosa. Quando chegamos a determinado ponto de exaustão não há cá vergonhas. Estava farta e não queria nem saber se parecia uma pastora sem rebanho, de cajado na mão, em pleno trail do Almonda. Aquela foi a bengala, metafórica e literal, a que me agarrei para ultrapassar uma subida de quase 6km.

Mesmo assim, para mim esta foi a pior parte de toda a prova. Se até aqui íamos com um ritmo razoável, pelo menos para terminar abaixo das 5h de corrida, a partir daqui os quilómetros arrastaram-se e tornou-se impensável fazer qualquer tipo de cálculo. Às tentativas de conversa que o Vitor continuava a fazer para confirmar se eu ainda estava viva, já só agitava uma mão (a outra estava apoiada). Não fales comigo agora. Tinha de guardar a energia para continuar a pôr um pé à frente do outro

No meio disto tudo, foi bom ver a solidariedade entre os atletas. Sempre que viam alguém parado perguntavam se estava tudo bem, se precisava de ajuda, e houve até um senhor que ao ver a minha tentativa infrutífera de me refrescar com a minha água (novamente) quente, despejou um bocadinho da sua água fresca pelo meu pescoço, e soube tão bem! Depois, não sei se para me animar, disse-me que já tinha participado no difícil trail da Serra da Freita e que este de Almonda, num dia como aquele, também lhe estava a ser muito difícil.  E é verdade que acabámos por ir sempre ali num jogo de ora agora passo eu, ora agora passas tu, até ao final. Mas muito obrigado pela força.

Finalmente, avistam-se as ventoinhas e, com elas, o cimo da serra. Conseguir ver o fim da subida, e o ponto do próximo abastecimento, deu-me um novo ânimo e tornei a falar e até a fazer piadas. Neste ponto, a graça era questionável, mas o que interessa é que o meu colega pôde finalmente descansar e apagar o número da organização que já estava, secretamente, prestes a marcar, quando se desse o meu aparentemente inevitável colapso.
Juntamente com outros companheiros de luta, brincámos com a miragem de uma piscina à nossa espera junto ao abastecimento. Largo o cajado. Volto a ter vontade de rir.

Chegámos ao cimo da Serra. Estou viva!

Abastecimento 4 (aprox. 23km) - quarta etapa sofridamente escalada.

A visão, no entanto, era um bocadinho desoladora. Muita gente sentada no chão junto à carrinha, a tentar proteger-se do sol na sua escassa sombra, outros deitados junto a arbustos rasteiros. Não havia toldo que desse sombra suficiente, e foi nesta altura que dei graças por levar boné, o que sempre afastava o sol da cara e dos olhos. Percebi que havia uns quantos atletas que iriam ficar por ali.
Já passava da uma da tarde, o calor era insuportável. Despejo vários copos de água por cima de mim, água essa que vai secar dentro de poucos minutos. Tomo outro gel, e bebo mais água.
Agora ia ser sempre a descer mas, ao contrário do que pensava, não iria ser mais fácil.

Entramos outra vez em single-tracks pedregosos, que dificultam a descida (nem sei como alguém consegue correr naqueles trilhos, mas suponho que os mais experientes o façam). Temos novamente vegetação de ambos os lados, mas, com o sol a pique, já não há sombra. O pó solta-se da terra a cada passada e cola-se à pele. Mosquitos querem aproveitar a boleia. As plantas dos pés começam a queimar do calor e do esforço da descida. A cada curva suspiro por uma recta, mas a descida parece interminável. E quente, insuportavelmente quente.

Metros à frente está um homem sentado a meio do trilho, de pernas esticadas. Penso que talvez tenha caído e se tenha magoado, mas não, estava apenas a descansar. Aqui estamos nós, a menos de 5km da meta, mas cada vez vamos passar por mais gente sentada, que não aguenta dar mais um passo. Ver as pessoas assim dá-me vontade de fazer o mesmo, mas tenho medo de depois já não conseguir retomar. Além disso, ESTÁ CALOR. Está um raio de calor que nem à sombra é mitigado, por isso nem vale a pena. Só já quero terminar. Quero terminar isto e quero o meu duche fresquinho. O meu duche à chegada, de água gelada, já é só nisso que penso.

Quase a chegar ao km27 temos direito a um estradão e tento correr a ver se as pernas ainda se lembram como é. Não dura muito. Custa bastante convencer o corpo a correr nestas condições, em que o instinto de preservação nos impele a fazer exactamente o contrário daquilo que é preciso para concluir a prova: continuar a correr. Todo o nosso organismo em alerta: procura uma sombra, procura uma sombra e descansa, mas nós temos de contrariar isso. Muito difícil.

E assim chegamos à quinta e última etapa.

Abastecimento 5 (aprox. 27km) - A meta tão perto e tão longe...

O único abastecimento em que, para além da fruta, vi também umas barrinhas. Se tenho algum reparo a fazer em relação aos abastecimentos sólidos é apenas este: acho que deveriam ter uma opção salgada, para contrabalançar a perda de sal pela transpiração, sobretudo nestas condições de calor mais extremo. Claro que nesta altura, a quem é que apetece comer? Foi mais água para cima e segue que se faz tarde.

Estava farta, tão farta. Já passava das duas da tarde, já não conseguia desfrutar do percurso, nem da sua beleza, só queria chegar à meta e parar. Sentar-me. Sair do sol.

Oiço o telemóvel tocar, provavelmente a minha mãe preocupada por ainda não ter tido notícias minhas, mas eu nem atendo. Só tenho energia para continuar em frente. De vez em quando refilo. Estou farta. Só me apetece dizer asneiras. Nunca os últimos quilómetros de uma prova me custaram tanto, parecia que andava e andava e não havia meio de os metros diminuirem. Já nem conseguia correr, mesmo em zonas, noutras condições, consideradas fáceis. Continuo a ver pessoas sentadas à beira do percurso, vejo a dificuldade, que também é a minha, espelhada nos seus rostos e só posso sentir admiração. Força, estamos quase lá, mesmo que eu própria ache que 3km ainda é longe comócaraças.

2km- nuncamaisraiosparta!

1km - ondeestáabenditametaporamordedeus.

500 metros - um senhor voluntário diz-nos que a meta está já ali a 500 metros e eu não sei se me apetece dar-lhe um beijinho ou espetar-lhe um soco. São SÓ mais 500 metros, mas também são AINDA mais 500 metros... O meu gps já assinala mais de 30km e eu não vejo a torre da Igreja.

300 metros - lá está ela, já não era sem tempo!

200 metros - vejo o meu "adversário". Vai em passo arrastado e derrotado a chegar à meta. Sei que se acelerasse o conseguiria passar, mas para quê? Isso não interessa. Ele sou eu. Ele é todos os que, como ele, sabendo que não iriam ganhar nada, persistiram nestas condições desumanas só pela realização de cruzar a meta. Mesmo quem não concluiu mas tentou. Não é um adversário, é um companheiro.

100 metros - corro só mesmo para dizer que terminei a correr e para ficar bem na foto, que nem houve.

Meta - Finalmente, porra!

NUNCA MAIS!


Concluir o Trail do Almonda não me deu aquela sensação de vitória que estava à espera. Concluir o Trail do Almonda foi uma sensação de alívio, de "até que enfim", numa luta renhida que, por diversas vezes, temi perder.
Como num combate de boxe disputado até ao último round, cruzar a meta foi o que me deu os pontos da vitória. Posso até ter sido vencedora, mas o Almonda deu-me cabo do canastro.

No abastecimento da meta pergunto pelo meu prémio de "finisher" (o duche fresquinho). As senhoras dizem-me que há duches de água fria, atrás do pavilhão ao ar livre, ou então tenho a opção de tomar duche num balneário, a cerca de 500 metros dali. Fazer mais 500 metros a pé naquela torreira?? Deixe estar.
Vai mesmo ali, vestida, troco só os ténis pelos chinelos (não se preocupem, estava lá mais gente a fazer o mesmo). Um banho de água fresca, depois da travessia do deserto = melhor duche de sempre.

Gostava de dizer que irei voltar ao Almonda, já que foi um adversário duro de roer, mas sinceramente não sei. O sol foi um golpe desleal, que não sei se quero enfrentar outra vez.

Foi esta a minha maior luta até ao momento: 30km, mais de 1000m de acumulado positivo, com 42º e poucas sombras. Se se mantiveram por aí durante todo este extenso relato, também fizeram parte dela, obrigada!


7 de julho de 2013

Trail do Almonda - relato versão (mais ou menos) curta



Com a temperatura que tinha vindo a aumentar nos últimos dias, a menos de 12 horas do evento o já pouco ambicioso objectivo que tinha - tentar terminar abaixo das 5h (isto porque li alguns relatos de anos anteriores em que as pessoas terminaram por volta das 5h00 de prova), alterou para - terminar a prova bem e sem sofrimentos desnecessários ou sintomas desagradáveis.

Claro que isso não foi possível. Terminar uma prova destas sob um sol abrasador (chegou aos 42º) exige muito de nós. Muito sofrimento, muito questionamento.

A todos os que participaram e terminaram hoje esta prova: muitos parabéns! Não sei se vos (nos) elogie se vos (nos) recomende um colete-de-forças. Tendo para esta última. Todos loucos!:)

Foi, como já seria de prever, a prova mais difícil que concluí até hoje. Mas nem os meus medos me prepararam para o que lá encontrei: as subidas duras e longas, as descidas cheias de pedras e dificilmente corríveis, a pouca sombra, o sol a pique, a aragem rara, o ar abrasador.

Não penso repetir. Não pela zona, nem pela distância, nem mesmo pelo D+ já considerável, mas pelo calor. Não tenho espírito de Badwater e custou-me mesmo muito. A não ser que tenhamos um início de Julho 2014 com uns simpáticos 24º (por aí), não sei se voltarei ao Almonda, com pena minha.

Houve várias desistências. Eu própria, por volta do km17, depois do 3º abastecimento, tive uma quebra tão grande que se não fosse a companhia do Vitor, a quem agradeço, não sei se teria continuado.

Concluindo: gostei do desafio da distância, mas não da experiência de ter corrido com 40º à (pouca) sombra.

As matemáticas:

Distância - 30,62km
Tempo - 06:12
Tempo movimento - 05:16 (sim, o empeno foi grande e as paragens nos abastecimentos progressivamente maiores)


Volto depois, com o relato versão longa do meu primeiro Trail do Almonda e recorde de distância.


PS: Sabem quem encontrei por lá também? O meu "adversário" (sem saber) do Raide à Tapada de Mafra! Adivinhem quem "ganhou", nesta disputa imaginária, desta vez? Terá sido a dobradinha? Ou ele vingou-se? Fiquem para ler o resultado (tenho de vos manter em suspense, que vos leve a ler o relato longo, depois de ter revelado já o resultado final). :)

4 de julho de 2013

É sorrir e acenar

Não, afinal não é o post, com os níveis de ansiedade a roçar o máximo, que eu previa. Estranhamente, acho que estou em paz com a percepção de que vai ser uma prova dura (quem sou eu??!).

- Os mais de 1000d+ vão ser duros.
- Os mais de 30º vão ser duros.
- Os 30km vão ser duros (e desconhecidos, para mim).

É correr o que conseguir, andar o que tiver de ser e aguentar-me. Se me sentir sem combustível, é continuar a "sorrir e acenar", como diriam os pinguins do Madagáscar.


Esta semana apenas fiz dois pequenos treinos de cerca de 8km e uma caminhada. Tenho um passeio de bicicleta amanhã, mas também com meninas maçaricas inexperientes, como eu, por isso nada de muito exigente.

De vez em quando, vamos descansadinhas (como quem diz) da vida a fazer a nossa corrida de final de tarde e damos de frente com mensagens generalistas, em locais aleatórios, mas que nos tocam de tal forma que ó-meu-Deus esta frase foi aqui posta de propósito para mim.

Obviamente.

Eu vou confessar-vos uma coisa (não usem isto contra mim de futuro): eu tenho, e apropriando-me do eufemismo de Rui Veloso, um "lado lunar" que, quando desperto, pode adquirir proporções gigantescas. Pode ser desencadeado por situações específicas do dia-a-dia mas, e limitando-nos ao tema, é especialmente feroz em situações de desconforto causadas pela corrida. O cansaço leva ao sofrimento, o sofrimento à dúvida, a dúvida leva ao desânimo e o desânimo à irritação - um ciclo que, como podem adivinhar, não faz de mim a melhor das "atletas".

A fase da irritação pode ser seguida, e são corridas óptimas quando isso acontece, pela fase da aceitação e superação. "Ok, vê lá se atinas, porque estás nisto de iniciativa própria e livre vontade e, no fundo, até gostas" - "Não gosto nada, assim não, isto custa muito" - "Eu sei que custa, mas tu consegues, deixa de ser piegas" - "Não sei se consigo, para ti falar é fácil, porque tu tens asas" (diz o diabinho para o anjinho) - E tu tens cornos, por isso vamos a enfrentar as coisas sem medo. E agora cala-te" (responde o meu anjinho que não prima por valores angelicais, como as palavras doces). E o lado lunar cala-se, ou, pelo menos, não atrapalha.
Mas isto é raro.

Gostava de ser como aquelas pessoas sempre zen, em sintonia com a estrada e o ambiente em redor, e se calhar por isso me tenha virado agora mais para os trilhos, porque a natureza me acalma um bocadinho. Abstrai-me.
E é este o meu desafio maior, para além do físico. É ganhar-me mentalmente. Porque às vezes a minha cabeça desiste primeiro que as pernas e isso torna as corridas difíceis. Já sei que não vale a pena ceder aos pensamentos negativos, porque depois isso passa, damos por nós a lembrarmo-nos das coisas com um sorriso parvo, e o que fica sempre é uma vontade enorme de voltar e fazer tudo outra vez, e melhor. Mas claro que na hora é mais fácil dito do que feito.

Por isso, no Almonda, vou tentar que o lado solar abafe o som do lado lunar. E nada de piadinhas e trocadilhos quanto à força implacável do sol no dia da prova, porque eu já vou preparada com artilharia pesada (e não me coíbo de despejar um copo de água por cima de mim em todos os abastecimentos).

A artilharia "pesada":

Mochila de hidratação + boné + protector solar + vaselina

(Alguma coisa que me esteja a esquecer?)

Os lenços de papel, não tendo necessariamente a ver com o calor/sol, estão ali em homenagem ao Carlos (aka Papa Kilómetros) porque está sempre a relembrar toda a gente para levarem papel higiénico neste tipo de provas, o que eu acho atencioso. Claro que, em vez de um rolo de papel higiénico, levo antes um pacotinho de lenços de papel com uma borboleta, porque sou uma senhora! :)


Faltam 3 dias, conto convosco e a vossa energia fresquinha, enviada na minha direcção.


2 de julho de 2013

De volta à Quinta e faltam 5 dias

Nos últimos dias tenho aproveitado para treinar a minha resistência nos treinos sudoríparos e abafados. Durante a semana não posso correr mais cedo (mesmo assim têm estado cerca de 30º ao final da tarde), então aproveitei no fim-de-semana para dormir até mais tarde e sair para correr já depois da hora habitual, para enfrentar o sol. Enfrentar o sol mas numa zona com bastantes sombras, atenção, nada de masoquismos desnecessários, deixemos isso para o dia da prova.:)

Então, para variar um bocadinho, voltei à Quinta da Conchas.

Muita gente a correr, grupos de amigos a jogar à bola e o palco do Cine Conchas montado. Quem morar ali perto é de aproveitar estas sessões de cinema ao ar livre gratuitas, até dia 13 de Julho (confiram a programação: aqui).

Não fugi das rampas, mas também não insisti muito nelas porque estava cansada e com calor. Uma previsão super animadora para aquilo que me espera no próximo domingo, portanto. Neste tipo de treinos tento não olhar muito para o relógio, porque é desmotivante ver a velocidade média ainda mais alta do que o habitual, mas no fundo sabemos que é por uma boa causa. Como no célebre, e questionável, chavão: o que não nos mata torna-nos mais fortes.

Adiante, foi um treino que acabou por formar um lindo desenho de graciosas curvas pelo parque, tudo em nome da variedade de terreno.



Aquele cantinho superior é a Quinta dos Lilases, adjacente à Quinta das Conchas, e nunca tinha lá entrado. Pensava que a passagem no muro que separa estes dois parques desse directamente para a rua (zona residencial) e só este fim-de-semana é que me deu para explorar aquele bocado. Assim sempre acrescenta uns bons metros ao perímetro do jardim e, se nos mantivermos sempre junto ao seu limite exterior, temos cerca de 3km de percurso (sim, eu entretive-me nestas contas), isto sem contar com os diversos atalhos que podemos tomar lá pelo meio. Uma área nada má para treinos curtos/médios.

Acabei por fazer cerca de 12km, com um test-gel, à marca de géis que estou a pensar levar para os 30km, lá pelo meio.
Apesar dos abastecimentos frequentes que a prova terá, prefiro pecar por excesso do que por defeito e levar vários géis e algumas barrinhas comigo. Neste tipo de corridas nunca se sabe quanto tempo se pode levar a fazer 5km e não quero ser apanhada desprevenida. Depois, tendo em conta que faço sempre parte do prestigiado clube Cauda de Pelotão, nunca se sabe o estado de devastação em que estará a mesa de abastecimentos quando lá chegar. Além disso, terei de pensar nesta corrida por etapas, do género: "é só até ao próximo abastecimento", e depois faço reset, porque pensar em 30km logo assim de seguida é esmagador.

E o calor, já vos falei do que isso me preocupa? Ok, tirando no último post e no início deste, já o tinha tornado a referir? Fica aqui o reforço, só para que não haja dúvidas:

Previsões

Não sei porque é que eu me torturo com este tipo de informação, mas eu sou assim. Prefiro fazer logo o pior cenário possível e depois, com sorte, não ser assim tão mau, do que desvalorizar e depois ter uma surpresa má.


E ontem corri 8km, mas podia perfeitamente ter feito mais, foi outro daqueles dias em que parece que nunca nos cansamos. Ou seja, já esgotei a corrida boa da semana (só temos direito a um treino-uau por semana, não é?) e isso deixa-me apreensiva, devia ter guardado a magia para o Almonda.

Já só faltam 5 dias (tiquetaque... tiquetaque...) e ainda estou medianamente calma. Aguarda-se um próximo post com os níveis de ansiedade a roçar o máximo.

Boa semana!