28 de agosto de 2013

Que bem que se treina no campo

Como as férias já se acabaram e eu ainda estou em negação, fica aqui uma lista, incompleta, das razões porque gosto de correr na minha Serra.


1 - Água

O facto de, em alguns locais, darmos três passos e depararmos com uma açude, ribeira, poço, fontes, cursos de água, é refrescante visualmente...

Água.
Água.
Água everywhere.


e fisicamente. É como um banho de gelo natural ali à disposição no pós-treino.

E as DEZ unhas dos pés ainda intactas, seus agoirentos!:)

Primeiro os pés, depois as pernas, eventualmente (e para os menos friorentos) a submersão total.


2 - Ar

Como não posso ilustrar o ar, deixo-vos uma foto bonita com muito céu azul.

O ar é mais puro. Tem o cheiro do feno seco, da palha húmida, de pinheiros, do leite dos figos verdes que se cola nas mãos, da pele molhada de água doce, do pó que se levanta com as passadas, do vento de final de tarde na montanha.
Correr no campo não só nos limpa os pulmões como permite desfrutar de um vasto leque de experiências olfactivas.

Algumas experiências olfactivas são menos agradáveis que outras, mas fazem parte... :)


3 - Altitude


Tendo à disposição um campo de treinos que em pouco mais de uma dezena de quilómetros varia entre os 650 e 1500 metros de altitude, aproximadamente, é um teste de resistência. Todo o percurso é um carrossel e o que parece ser uma recta é quase sempre uma subida (ou descida, depende do ponto de vista) pouco inclinada.
A respiração também fica descontrolada, mas isso já acontece normalmente, por isso não sei dizer se se deve aos efeitos do ar mais rarefeito (acho que a altitude não é assim tão significativa para isso) ou apenas à minha forma...


4 - Paisagem


Depois de acima ter referido os estímulos olfactivos, que dizer dos visuais? Desde o terreno árido e rochoso, típico da zona, a pinhais cerrados, mato selvagem, vales pintalgados por árvores de frutos, quintas a cortar geometricamente o horizonte, ribeiras que serpenteiam por entre os vales. Quebra a rotina mental e é um desafio para as pernas.


5 - Abastecimento

Disponibilizado pela natureza e rico em antioxidantes.



Com sorte, também se apanham umas árvores de fruta à beira do caminho, sem vigilância dono.


6 - Subidas

Muitas. E à escolha do freguês.

Rampas com uma componente trail.

Escadas que nunca mais acabam.

Parede de rochas (visto de cima)

Confesso que gosto especialmente de me armar em trepadora e escalar rocha acima. Já quando era pequenina lembro-me da grande ginástica que tinha e como era destemida para estas coisas (sempre que apanhava os meus pais distraídos), parecia que nunca me cansava. Agora canso-me bastante (diz que é a PDI...), mas gosto na mesma!

Claro que a grande maioria destas rampas foram feitas a andar, por vezes avançando muito lentamente, e não a correr, mas não faz mal. Acreditem, é um excelente treino muscular (as minhas coxas que o digam) e tenho pena de o tempo ter sido pouco.
Além disso, falta praticamente um mês para o Grande Trail da Serra d'Arga, e parece-me que também vai haver muito que "escalar" por lá, iupi! -> Vamos a ver quanto tempo se mantém o "iupi"... :)


7 - Calma

Nada bate o som do silêncio da montanha! A sensação de paz que se atinge é talvez comparável a correr junto ao mar, ao nascer do sol, com a praia vazia de gente e o mundo ainda a acordar. Mas o silêncio da montanha é mais profundo, parece que vem de dentro.
Vivo na cidade, tenho um trabalho que me obriga a falar bastante, corro para casa, para os transportes, para as compras, para o que me esqueci, para o que preciso fazer. Corro a min/km e a minha mente corre a anos-luz. Quando finalmente me sento, falo com amigos, família, bebemos café, cerveja, uns copos, ouve-se música. Gosto disso e uma pessoa habitua-se a viver assim, quase sem dar conta do ruído. No entanto, sou uma pessoa introvertida, que precisa dos seus momentos a sós e recuperar as energias no silêncio contemplativo. A montanha é a minha igreja.

Igreja.


E por último, que pode parecer contraditória à alínea anterior, mas não é:


8 - Aventura

O que será que se esconde por detrás daquelas ruínas? Aonde vai dar aquela ponte? Será que o homem da quinta se esqueceu de prender outra vez os cães? É hoje que vamos dar de caras com uma família de javalis? Pisar uma víbora? Escorregar ladeira abaixo?



Cada trilho novo é uma descoberta.


Agora que estou de volta, tenho de começar a pensar numa lista sobre as vantagens do treino na cidade (que também há, só tenho de pensar mais um bocadinho).


Boas corridas!

26 de agosto de 2013

Vamos fazer parte da claque


www.ultratrail.tv/en


No link acima podem assistir à partida das diferentes provas que ocorrerão esta semana no Monte Branco.

PTL - Segunda-feira, dia 26, 22h locais (21h Pt)

TDS -  Quarta-feira, dia 28, 07h locais (06h Pt)

CCC - Sexta-feira, dia 30, 09h locais (08h Pt)

UTMB - Sexta-feira, dia 30, 16h30 locais (15h30 Pt)

O percurso mítico será o último a ter início, mas a primeira prova começa já em menos de 10 minutos. Preparem essas palmas! :)


Boas corridas e sonhem grande.

22 de agosto de 2013

Queres ir à Corrida do Tejo?



A organização simpaticamente disponibilizou cinco dorsais para a Corrida do Tejo, a realizar-se dia 15 de Setembro. Poderia distribuí-los como quisesse, inclusive oferecê-los a amigos. E como aqui somos todos amigos, tenho quatro desses dorsais para vocês.

Quem quiser participar e ainda não se tenha inscrito, envie-me um email a dizer "Quero ir à Corrida do Tejo e o teu blogue é lindo!" (-> estou a brincar, não precisam de escrever esta última parte, a oferta é isenta ;) ) Os quatro primeiros ganham as inscrições.

Os selecionados terão posteriormente de enviar os seguintes dados:
- nome completo
- nº BI ou Cartão Cidadão
- data de nascimento
- localidade de origem
- email
- tamanho da t-shirt (o dorsal é impresso na camisola)


Mais informações sobre a prova em www.corridadotejo.com ou na página do facebook.


Vamos todos para parecermos muitos? :)


Boas corridas!


*#ACTUALIZAÇÃO#*

Os dorsais já foram todos entregues, obrigada pela participação!

18 de agosto de 2013

Silêncio

Como já devem ter reparado (ou não, que de certeza que estão mais ocupados com as vossas próprias férias/ressaca pós/antecipação de), este blogue está de férias.

Nestas ocasiões, o acesso limitado ao mundo virtual é uma benção.


Na foto acima, numa das poucas corridas que tenho feito (eu sei....), na minha habitual pose de 'Abraçar o Mundo', também conhecida por 'Cristo Rei' ou 'O Avião', mas prefiro 'Abraçar o Mundo'.

Em compensação, tenho feito muitas caminhadas. A mesma pessoa que se recusa a acompanhar-me em corridas porque "isso cansa muito", não se coíbe de me levar em caminhadas ou, direi melhor, em autênticas explorações pela selva serrana, escaladas, onde a probabilidade de cair em silvas, escorregar em rochas, ser picada por insectos ou, pior, ter um encontro imediato com vida selvagem (da assustadora, como as cobras, não da fofinha, como esquilos) é bastante elevada. Mas correr, "isso é que não!".

No entanto, não me estou a queixar. Adoro as aventuras, é treino de trail, e há sempre pequenos recantos escondidos à espera de serem encontrados pelas minhas pernas cansadas e sujas de pó.



Não, decididamente não me estou a queixar.


Continuação de boas férias (se for o caso) e boas corridas!

8 de agosto de 2013

Trail Nocturno da Lagoa de Óbidos

Estou sentada num café, em conversa com uma amiga, enquanto faço tempo para o início da prova. Vejo entrar um cavaleiro dos tempos medievais, cinturão e botas de couro, peças em napa, casacão de pele, escudo empunhado no braço esquerdo. À minha volta ninguém parece notar a estranheza de tal personagem, como se fosse um cliente comum a frequentar uma qualquer taberna das lendas arturianas. Pára durante uns segundos sob o beiral da porta, como que a hesitar ou a criar suspense numa cena de tensão. Por momentos, quase que penso que o ouvirei gritar "Freedooom!", ao melhor estilo de Braveheart, mas não. Leva a mão ao bolso das suas calças rústicas, saca de uns quantos trocos de um desapontante cunho moderno, dirige-se à máquina e tira um maço de tabaco.
Trata-se de um episódio de choque de épocas e culturas apenas explicado pela convergência das datas. O UTNLO e o TNLO realizar-se-ão durante a última noite da Feira Medieval de Óbidos. T-shirts técnicas, coloridas e fluorescentes invadem a Vila e destacam-se por entre uma multidão que assiste a representações históricas. De vez em quando, damas de coroas de flores e vestidos esvoaçantes passam por mim, seguidas de pequenos grupos de atletas de mochilas às costas, meias de compressão e frontais.  

No dia 02 de Agosto de 2013, o meu gosto pela corrida e interesse por cenários históricos uniram-se numa harmonia improvável e eu estava nas minhas sete quintas.

Ao final da tarde, a caminho das muralhas.

É para mim cada vez mais difícil fazer estes resumos de provas. São sempre tantas experiências vividas e pormenores que diferenciam cada participação, que fico perdida no mar de palavras e imagens que quero transmitir. Porque, no final de tudo, corro para criar memórias e escrevo para as recordar.
Comecemos pelo início e uma das coisas que fez a noite: a equipa.

Para prevenir as surpresas e temores que a escuridão pode encerrar, perguntei por aqui se haveria alguém sem companhia que não se importasse de se juntar a mim. Sabia que o Vitor, companheiro de outras corridas, iria participar, mas não posso estar sempre a exigir a sua paciência e disponibilidade, sobretudo depois do que teve de aturar no trail anterior...:) Por isso, fiquei muito contente quando uma rapariga, cujo marido ia fazer os 50km, me disse que também estava sozinha nos 25km, e que os poderíamos fazer juntas. É assim que conheço a Andreia e, já no local da partida, apresenta-se o Marcelo que, apesar de se queixar da sua recente pouca forma, suspeitei logo que era rapaz para nos deixar no seu pó (no bom sentido).

No local de partida, a escutar o briefing inicial.

Às 21h45, 45 minutos depois da partida do UTNLO, damos início à nossa corrida. Há aqui um pormenor engraçado, uma vez que se trata de uma partida simbólica, que nos leva a descer escadinhas e percorrer ruelas da vila, entre aplausos, incentivos e high-fives, durante cerca de 500 metros, até chegarmos à entrada onde se encontra o pórtico.

Local da "verdadeira" partida

Daqui para a frente já é a contar. Não se esqueçam da luz nos frontais, liguem os relógios e gps, ponham esta música, e vamos a isso.

Percorrermos ruas, bairros e jardins, numa mistura de empedrado, alcatrão, terra e alguma gravilha. Aqui, a luz fornecida pelos candeeiros de rua ainda ajudava à visibilidade. Os focos deixavam perceber o pó que se levantava a cada passada e que em algumas partes se torna incómodo. Eu e os companheiros vamos trocando experiências de provas e distâncias, mas não há muita discussão, é ponto comum a paixão pelo trail. Foram uns primeiros quilómetros pacíficos, com o ocasional mini-congestionamento frente a algum obstáculo, antes de entrarmos nos verdadeiros trilhos.

Por volta do km5 sou alcançada por um amigo que estranhei ver ali, tão "para trás". Talvez a obscuridade tenha facilitado a decisão, mas, contrariando o seu andamento habitual, acabou por nos fazer companhia a restante prova, juntamente com os 'médios' que trazia à cabeça e que tão úteis foram em determinados pontos do percurso. Obrigada!

Os frontais no caminho escuro imitam as estrelas numa via láctea de atletas que nos precedem e sucedem. É um efeito bonito. Mais à frente, um aglomerado mais concentrado de pirilampos revela o primeiro grande obstáculo do caminho: uma descida íngreme e muito técnica, por volta do km7. Vejo o Vitor e o Marcelo um pouco mais abaixo. Comigo estão a Andreia e o meu amigo, à minha frente está um homem com a bandeira de Espanha presa à mochila.
Nos 26.30min. que levaremos para concluir o km7, muito por culpa do engarrafamento provocado por esta descida, terei tempo de saber que o casal à minha frente vem de Badajoz e que não tem jeito nenhum não gosta muito deste tipo de inclinação. O piso é seco, incerto, e temos de nos agarrar à vegetação que nos rodeia para evitarmos escorregar. A progressão é lenta. O espanhol à minha frente, solta "c*ños" e "j*der que esto es duro!" Desce com excesso de zelo e cuidado, que contrariam a sua verbalização. Eu acho imensa graça e (toma lá que é bem-feita) tenho a queda mais parva de sempre ao escorregar para trás quando nem sequer estava em andamento. Não me magoei. O espanhol desiste e adopta o sistema de [cit.] "rascar el c*lo"  e faz o resto da descida como se fosse um escorrega, empurrando com as mãos e de rabo quase no chão. É um sistema lento mas eficiente, pelo menos não cai.

Com tudo isto deixei de ver os colegas da frente. Atrás de nós vai uma multidão.

Quando finalmente chegamos ao final da interminável descida e ultrapassamos os companheiros espanhóis, eis que me deparo, juntamente com o meu modesto frontal, na liderança da enorme fila que se tinha formado. A responsabilidade!!
Ainda me aguentei bem durante alguns minutos, era um carreiro definido, não havia muito por onde enganar, mas a vegetação começa novamente a cerrar, há troncos pelo chão, canaviais, e antes que aconteça alguma desgraça (e também porque não estava a aguentar a pressão, pronto, confesso), peço ao meu colega para ir ele à frente a iluminar o caminho. O que é que sucede? Passado uns minutos seguimos o caminho errado... Isto só veio comprovar que o que se diz de "os homens serem melhores com direcções", é mito...

É verdade que as marcações não falhavam, de poucos em poucos metros lá estavam elas, mas eram quadrados reflectores tão pequenos que tínhamos de ir com atenção redobrada para não deixar escapar nenhum. Esta foi a primeira vez que nos enganámos, pouco antes de chegar ao primeiro abastecimento. Não foi mais do que algumas dezenas de metros, mas serviu para perdermos uns bons lugares na classificação. Estou convencida até agora que foi por causa disso que nenhum de nós chegou ao pódio... ;)

Depois de uma boa subida (eu achei que o facto de estar escuro e não se conseguir ver o tamanho das subidas era bom psicologicamente, mas houve quem não tenha concordado), chegámos então ao primeiro abastecimento, apenas líquido, no km8.

O Vitor estava lá à nossa espera, o Marcelo sentia-se bem e continuou. Não sei se conseguiu fazer o caminho todos sem enganos, mas vai acabar por terminar a prova com meia-hora de avanço sobre nós. Parabéns!

Nesta altura já tinha tomado o meu primeiro gel (os géis serão a única coisa que irei "comer" em toda a prova, excepto um pequeno pedaço de melancia, no abastecimento seguinte) e sentia-me com energia. Seguem-se cerca de 6km praticamente planos, em estradão largo, cujos pequenos troços em areia é que me irão lembrar que estamos a correr lado a lado com a lagoa, já que ela estava lá, mas não se via. Nesta altura, em que a necessidade de ir com atenção é menor, irei perdida nos meus pensamentos. O céu está bonito e muito estrelado, só se ouvem as nossas passadas e respiração a quebrar o silêncio da noite e a ocasional cantiga de uma cigarra. Os meus colegas também vão em silêncio. Não combinámos, nem sei o que estaria a passar-se na cabeça de cada um, mas é nesta zona mais fácil, e em que facilmente poderíamos ir na galhofa, que vamos calados. É esta a parte que melhor me lembro em toda a prova, os quatro a correr, lado a lado mas cada um consigo, e outros pequenos pontos de luz que se vão escondendo, ao fundo.

Pelo menos até sermos interrompidos pelo barulho de passadas largas a aproximarem-se. Eram, adivinhem, os amigos espanhóis. Das rectas já gostavam eles! Iam com uma boa velocidade.

Avistamos a luz de fortes holofotes ao fundo. Será já o segundo abastecimento? Não pode ser! Mas era mesmo, mais cedo do que contávamos, um oásis de luz na escuridão circundante, que se alcançava depois de subir uma escadaria em terra e troncos. Este abastecimento, por já ser em comum com o da prova de 50km (km14 para nós, cerca do km38 para eles) estava muito bem servido, líquidos e sólidos, até dava pena estar numa prova e não podermos perder ali mais tempo.

No entanto, a fase seguinte também foi muito engraçada, com vários obstáculos, troncos, ramos e tipo de terreno ao qual estar atento. É nestas coisas que o correr fica em segundo plano, para dar lugar ao aventureiro dentro de cada um de nós, ou, pelo menos, à nossa faceta mais improvisadora e desembaraçada.
Não me recordo bem quando tivemos de cruzar o primeiro curso de água, mas é capaz de ser aquilo que mais vai contra o nosso primeiro instinto. Colocar os pés em águas turvas numa zona em que mal se vê um palmo à frente? Hmmm... Mas fazemo-lo, só custa a primeira vez. Depois, a juntar às cigarras, à nossa respiração e ao som das nossas passadas, vai passar a juntar-se também o chlop-chlop dos ténis. Ao fim de uns quilómetros amaina, pelo menos até à próxima poça.

Nestes quilómetros finais, já de madrugada, em que o cansaço começa a afectar a concentração, enganamo-nos mais uma ou duas vezes, mas tudo coisa de poucos metros, excepto uma situação em que ainda andámos ali um bocadinho às aranhas. Por causa disso, vamos passar algumas vezes pelas mesmas pessoas e, numa das últimas decidas (tinha de ser) ultrapassámos novamente os amigos espanhóis, desta feita, definitivamente.

Cerca do km23, quando já se avistam as muralhas do castelo ao cimo e vamos lançados pelo caminho a fora a confiar na segurança do destino, ouvimos alguém chamar-nos e, ao início, não me apercebo de onde. A voz parecia que vinha de um buraco no chão, no meio do canavial que ladeava o percurso. O caminho não pode ser por ali... pode? (A inocência). Desço e vejo um homem com as pernas submersas até ao joelho em águas turvas, à entrada de um túnel. Estende-me a mão e eu penso "olha que simpático, a oferecer-se prontamente para me ajudar a descer", mas o que ele queria é que eu o puxasse para cima! Dizia que tinha claustrofobia e que não ia enfiar-se naquele buraco escuro. Eu disse: "não há problema, nós estamos aqui, vamos consigo", como se tivesse alguma ideia do que fazer caso o senhor tivesse uma crise claustrofóbica a meio do túnel... Não sei como, mas o meu fraco argumento lá o convenceu e entrámos todos seguidos túnel adentro, com água pelos joelhos.

O famoso...

Esta parte foi a mais polémica de todo o trail e aquela que é mais falada por toda a gente. Um túnel de cerca de 50 metros, com água que cheirava ligeiramente, como dizer isto de forma suave, a esgoto (peço desculpa, foi o termo que me ocorreu sob pressão). Pessoalmente não me fez muita confusão, aparte o cheiro, claro. Tinha confiança que a organização não nos iria pôr a correr em águas que fossem prejudiciais, foi rápido, diferente, e ajudámos um homem a superar o medo de locais apertados. Quase que diria que foi uma experiência engraçada, não fossem condicionantes óbvias.

Saímos do túnel, desta vez o senhor estende-me a mão para me ajudar a sair, e não para que eu o ajudasse novamente a entrar, e seguimos. O terreno é relvado e com buracos, o cuidado que se deveria ter a percorrê-lo é contrariado pela pressa de quem vê a meta ali tão perto. Em grande estilo, já ia lançada para a entrada principal das muralhas, quando me apercebo que o percurso ainda vai dar outra volta. Mau! Mas não eram 25km? Parece que iríamos entrar pela porta dos fundos, e para isso tivemos de seguir o percurso cénico, que incluía um grande lance de escadas escavadas na terra, coisa que as minhas pernas muito gostaram ao fim de 26km.

Passam por nós dois atletas lançados, oiço alguém dizer-lhes: "Quinto e sexto!" Eram corredores dos 50km. Sigo-os como posso pelo carreiro estreito, entramos na muralha por uma pequena passagem e eis que estamos na meta, acabados de passar aquela que, soube depois, se chama a "Porta da Traição".  Houve muitos aplausos. Suspeito que mais por causa dos atletas da Ultra à nossa frente, mas quero acreditar que um bocadinho por nós também.

Muita gente, entre atletas, voluntários e familiares. Ninguém diria que já passava da 1hora da manhã. Uns estão sentados nas muralhas, outros em degraus, comem sopa, fazem alongamentos, conversam. Afinal, para quem tinha ido fazer os 50km, a noite ainda era uma criança.

Um senhor retira-me o chip do dorsal, uma rapariga dá-nos as canecas representativas do evento. Confirma-se, eram mesmo 26km (e mais um bocadinho), não fomos nós que nos enganámos assim tanto no percurso.

Sinto-me bem, nem parecia que tinha corrido tanto. Vou buscar uma sopinha e sento-me onde posso com os colegas. Noto um corte novo na perna, já "desinfectado" pelas sucessivas passagens em água... :)

Despeço-me da Andreia que ainda irá ficar à espera do marido. Conheci-a hoje, mas quero acreditar que partilhar a luz de frontais, e atravessar água suja juntas, une as pessoas. Espero tornar a vê-la, assim como ao Marcelo. Os outros companheiros da praxe, nem é preciso dizer, já sabem que, enquanto houver trilhos para correr, não se livram de mim.

A noite arrefece e temos de ir embora. Fico com pena, para o ano ainda falta tanto...


Vista "dos fundos".

Acho que não há dúvidas, mas caso haja: gostei muito da prova. Se as dúvidas forem em relação a vocês: não tenham, venham para o ano. Mesmo com surpresas menos convencionais (que, compreendo, não seja do agrado de todos), é uma prova que vale a pena.

A verdade é que uma das coisas que me atrai nos trails é mesmo a oportunidade de conhecer e passar por experiências, ultrapassar limites que não tentaria de outra forma. Em que outra situação teria oportunidade de atravessar um túnel com água turva até às coxas? E a questão que se insurge: tendo essa oportunidade, quereria fazê-lo? Mas é essa a beleza deste tipo de provas, nem paramos para pensar, o obstáculo está ali e tem de ser ultrapassado, nem sequer se coloca a opção de fuga.

Poderia perfeitamente passar uma noite de sábado entre família e amigos, um jantar, cinema, conversas. São coisas boas da vida e sempre a prioridade. Mas seria uma noite que se perderia na memória de tantas outras noites iguais. Esta noite, decididamente, não esqueço tão cedo. Saí marcada, suja e, temos de ser sinceros, malcheirosa, mas é daquelas experiências que vejo a surgir em conversa daqui a uns anos: "lembras-te daquela noite quando...?" Tem a força daquelas memórias que perduram, para o bem ou para o mal. O resto levou a água do banho e da máquina (à terceira lavagem).

Corremos para criar memórias, memórias das boas.




4 de agosto de 2013

TNLO - primeiras impressões

 Recuerdos


- Afinal não eram 25, eram 26km. Ainda melhor.
- Foi um trail acessível, bastante 'corrível', com algumas subidas e descidas mais jeitosas pelo meio. Não gostei da areia em algumas partes e achei uma surpresa sádica terminar a prova a subir dezenas de escadas.
- Numa descida mais longa e inclinada, pude assistir em primeira mão a uma técnica inovadora e que decerto fará furor, de atacar as descidas, por parte de um casal de espanhóis.
- A par disso, alarguei também o meu léxico de vernáculo hispânico.
- Escorreguei e tropecei várias vezes.
- Molhei os pés, ou melhor, metade das pernas, por três vezes durante a prova. A última delas, já quase a chegar à meta, na travessia de um túnel de águas paradas e de cheiro, como hei-de dizer, duvidoso.
- Venceram-se claustrofobias.
- O meu frontal continua fraquinho, mas adorei correr à noite. Tem sabor de aventura.
- As pessoas do trail são espectaculares e não se importam de parar e te estender uma mão, ombro, costas, o que for preciso, para te ajudar numa descida mais complicada ou quando enterramos a perna até acima do joelho, em lodo.
- A maior parte também te chamará quando, mais uma vez, te perderes e enganares na rota. E, acreditem, num trail à noite, vão enganar-se algumas vezes no percurso. Adivinhem quantas?
 - Dentro das limitações, foi uma prova que me correu muito bem e recuperei um bocadinho o ego perdido no Almonda.
- Óbidos é uma Vila bonita. À noite, em plena Feira Medieval e com tanta gente a assistir e aplaudir, inclusive de madrugada quando terminei, torna-se um ambiente mágico. Terminar nas muralhas de um castelo que se ergue acima de uma imensidão de paisagem, também ajuda.
- Nem tudo foi perfeito, mas para o ano estou lá outra vez.
- E, por último mas não menos importante, para além dos suspeitos do costume, obrigada a quem respondeu ao meu apelo aqui no blogue e acabou por me fazer companhia durante uma parte, ou a totalidade, do percurso, impedindo-me de entrar em pânico nas zonas mais escuras e isoladas e tornando toda esta experiência mais divertida.


Este trail foi o terminar piedoso que deixou finalmente as estrelas brilhar num dia que, de resto, tinha sido péssimo. Por causa disso, o relato extenso do acontecimento poderá tardar um bocadinho mais do que o normal a sair, mas sai! Aguardem, que vai valer a pena (farei os possíveis).

Boa semana.