29 de setembro de 2013

Serra d'Arga, até onde a vista alcança

Serra d'Arga. Comecei a sonhá-la há mais de um ano, ainda antes da minha primeira prova de trail. Vi-lhe os montes, as rochas, a água. Imaginei-lhe as encostas, as curvas, os trilhos. Temi as subidas, as escarpas, as descidas técnicas. Do mesmo modo, aceitei-as como parte do desafio. Queria, como muitos outros antes e depois de mim, chegar ao topo, e parar para contemplar as vistas das pequenas, grandes, banais, vitórias da nossa vida.

Serra d'Arga. Agora, que já lá estive, não posso dizer que a vi, mas vivi-a.

Como já devem saber, as condições climatéricas foram agrestes. Fortes rajadas de vento, muita chuva, muita água. E um intenso nevoeiro.

Sempre tive um fascínio por nevoeiro, que não sei explicar. Desde que me lembro de ler, as minhas histórias preferidas sempre andaram à volta de cenários históricos ou fantásticos que tinham em comum esse ambiente envolto em brumas e mistério. Mas, de uma forma mais prática e menos poética, na Serra d'Arga, descobri também que o nevoeiro obriga-nos a estar presentes no momento.

Não podendo alcançar com a vista o que nos espera ao fundo, temos de nos concentrar no imediato. Observar onde o colega da frente coloca os pés, se a pedra era de confiança ou instável, para reproduzir esse mesmo passo ou procurar uma alternativa. Procurar com a vista e o tacto a zona da rocha que nos parece menos escorregadia e confiar no nosso instinto. Evitar, pelo menos nos primeiros quilómetros, a lama, os pequenos riachos e poças formados pela chuva.
Não vemos a paisagem abrangente, mas vemos pequenas cascatas (e depois grandes!) que ladeiam o percurso, a hera húmida nos troncos das árvores em cujos ramos procuramos um apoio, as gotas que pingam das folhas e plantas. É como uma lente macro no nosso foco.

E a verdade é que assim, pelo menos para mim, o tempo passou muito mais depressa. Estando concentrada nos passinhos de bebé numa distância longa e percurso difícil, a meta chegou sem dar por isso e fiquei, mantendo a terminologia infantil, "aguada" pelos menos cerca de 3km de percurso, que teve de ser cortado devido ao mau tempo.

Não quero com isto dizer que não me custou. Vocês sabem que sou sincera com as minhas dificuldades e limitações. As subidas não eram para brincadeiras e as descidas exigiam alguma perícia técnica que ainda não tenho. Tudo isto agravado pela chuva intensa. Assustei-me com o vento no topo da Serra, tive frio, e não houve um centímetro de pele em mim que não tenha chegado encharcado ao final.
No entanto, há muito que não desfrutava tanto de uma prova. Posso até dizer que, de uma maneira estranha, diverti-me. Nunca tive nenhum momento de (auto) dúvida e acho que devo isso ao "nevoeiro". A lente macro que me obrigou a viver os metros em que estava, sem pensar nos que faltavam.

Claro que agora, um dia depois, os 45km (que acabaram por ser 42km) já me pareciam perfeitamente concretizáveis. É a beleza de uma memória filtrada dos 21km (18km e pouco) e adocicada pelos momentos em que dava por mim a pensar, feliz:

- "Estou na Serra d'Arga".


Para o ano, quer viVER o Grande Trail.

Serra d'Arga ou a demanda de D. Sebastião?

Crónica com os momentos difíceis, caricatos, encontros e desencontros, poucas fotos, fotos desfocadas e vídeos falhados, no próximo post.

Boa semana!


PS: Sim, estou toda empenada hoje. :)

26 de setembro de 2013

Partida, lARGAda, fugida

Parece que o calor já não vai ser uma preocupação, já que todas as previsões apontam para chuva. Segundo a página do GTSA:

Sabemos que são apenas previsões, mas caso se mantenham, preparem-se para muita chuva.
Atenção ao material obrigatório, a Serra D'Arga com mau tempo é um "Inferno".


Muito mais descansada agora... :)


Mas falando do material obrigatório, felizmente tinha tudo e não tive de gastar dinheiro. Não é material de "topo", mas é o suficiente. Aqui está ele:



1. Mochila de água (c/1L mínimo)
2. Apito (vem dentro da alça da própria mochila)
3. Manta de sobrevivência (por incrível que pareça, tinha uma em casa, num estojo de primeiros-socorros comprado há alguns anos)
4. Impermeável
5. Luz frontal
E, não incluído na foto:
6. Telemóvel

Por sugestão de quem já fez a prova o ano passado, irei levar também os meus bastões de caminhada. É capaz de ser uma ajuda, caso o terreno esteja muito escorregadio. Como nunca "corri" com aquilo, não sei se me vou ambientar, mas prefiro levar e decidir na altura. A minha mochila tem os adaptadores.

E é isto. E também: estou nervosa!

Tento não pensar muito nisso, e vocês sabem que opto por uma escrita mais descontraída, mas é óbvio que não sou completamente desprovida de bom-senso.

Como também alguém já comentou: há que saber estar atento aos sinais. Mais que ouvir a mente, sobretudo a minha, que é uma queixinhas de primeira ("Estás cansada, não queres parar? Olha lá aquela subida, estás doida? Senta-te aí e descansa. Estás com fome. De certeza que não queres parar? Epá, para quê este sofrimento, deixa-te disso. Está calor. Está frio. Está de chuva. Não vais conseguir. Dói. Custa."), há que ouvir o corpo. Ele sim, sabe quando estamos no limite. Porque há diferença entre aquilo que nos custa e aquilo que põe em causa a integridade física. Entre uma dor passageira e uma lesão. Entre cansaço e reacções anormais do organismo.

Por isso optei, com cabeça tronco e membros, pelos 21km, e não com o coração, pelos 45km. Apesar de saber que será difícil não ficar com um bocadinho de inveja quando, ao bater as oito badaladas na igreja, os atletas da Ultra partirem e eu ficar para trás.
Ainda não fui, mas sei que voltarei a Arga, com a certeza de quem tem sonhos. Voltarei com mais calma e tempo (desta vez será tudo um bocadinho às pressas) e também, espero eu, melhor preparada.
Desta vez, fico pelos 21km. Sei que mesmo estes 21km não serão isentos de dificuldades, não sou ingénua, mas ao menos conheço a distância. Não conheço o desnível positivo, nem aquela Serra, mas espero ter a força de quem sabe que o desafio vale a pena.

Como diz a música:

E vou nas calmas
Devagarinho
Que o gozo disto é ir andando
É ir andando
Com um sorriso* 
Quem tenha pressa que vá andando.

Se me perguntas eu respondo
Eu nem vou pelo destino
Vou apenas pelo gozo
Que me dá este caminho.


* Na medida do possível.


Muito obrigada pelas vossas mensagens de apoio (e preocupação pela minha sanidade mental). Levo as vossas boas energias comigo e depois trago um bocadinho de Arga para partilhar com vocês.

Até domingo!


23 de setembro de 2013

Caso clínico e confissão


Recentemente, fui acometida de uma doença designada por "Apelo das Rampas" (apelum rampitis, lat.) Esta doença do foro psíquico, manifesta-se primeiramente por uma vontade inexplicável de correr subidas. Mais concretamente, daquelas curtas e duras (subidas longas e pouco inclinadas, ou raiusquinuncamaisacaba, lat.,  é outra variante da doença que, felizmente, não incubei).
Sintomas desenvolvem-se mais ou menos da seguinte forma: uma febre ligeira, matinal, que se desvanece após o primeiro café. Depois, damos por nós a subir em marcha atlética a rua do bairro, de regresso ao lar após um dia de trabalho, mesmo com calçado impróprio. Dias depois, escolhemos um trajecto maior, só porque passa pela linha do comboio, que tem aquela rampa mesmo jeitosa. Passamos a incluir a rampa jeitosa nos nossos treinos habituais. Com o avançar da doença, começamos a analisar febrilmente o gráfico de altimetria de percursos perto de casa, em busca do Santo Graal das rampas. O grau de severidade da doença é directamente proporcional ao grau de inclinação almejado. E eu, meus amigos, sou um caso grave.

E agora vocês, inocentemente, podem dizer: "Mas isso é bom, não é? Faz-te uma corredora mais forte, e bem que precisas para Arga".

Mas aí é que está. É que não vos contei, mas esta doença também dá delírios.

Só isso justifica eu escolher uma rampa daquelas que dói só de olhar, para fazer repetições, daquelas que à terceira subida já estamos a chorar e a querer ligar à nossa Mãe, mas que depois no gráfico traduz-se nisto:

O gráfico é MENTIROSO!

Como é que aquelas oito repetições do Monte Kilimanjaro (kms 2-4 aprox.), que me custaram tanto, depois no gráfico de elevação parece que não passam de umas lombas de estrada, e das mais desgastadas, que nem fazem abanar a suspensão?

Não percebo.

E agora vamos comparar:

Praticamente a mesma coisa, né?...

O gráfico acima é a altimetria daquilo que me espera em menos de uma semana. Na verdade, não farei todo o percurso, apenas até metade (marca dos 21km), mas acho que dá para terem uma ideia...

Ao que parece, no GTSA o conceito de "recta" é inexistente. No GTSA ou estamos a penar a subir ou a penar a descer, não há descanso. O que significa que estou f... eita ao bife! (Na verdade, estou pior, mas vamos manter algum nível de decência neste blogue).

Depois de tentar mascarar o meu terror com brincadeira, agora segue-se a parte séria em que vos confesso os meus medos, sejam compreensivos.

Eu não me sinto preparada para esta exigência física. Sei que o objectivo será "apenas" o de terminar mas, mesmo assim, parece-me que mesmo esse não será livre de uma grande luta física e, sobretudo, mental. Desta vez não terei companhia, alguém para me distrair da inimiga que posso ser de mim mesma. Sei que assim que cruzar a linha daquela partida, apenas algo sério (knok knok) me poderá impedir de chegar à meta, leve as horas que levar, e é a única força que sei que tenho, e à qual me agarro. Mas tenho medo de, apesar de estar na "minha praia", a montanha, as dificuldades sejam tais que me comecem a afectar psicologicamente e me impeçam de ver o bom daquilo, o bom de estar ali, o bom de poder andar, correr, respirar e viver aquele momento. De saber que, como sempre, dias, ou mesmo horas depois, o que fica é a memória de uma grande experiência, que ultrapassa o desconforto físico. Sei tudo isto, mas ali, quando o corpo se queixa e a mente vai na conversa, é difícil de lembrar.

A acrescentar a isto, o pavor da temperatura. Sei bem o que sofri no Almonda e, sinceramente, acho que o calor em excesso é onde coloco a linha do meu limite. Podem-me doer as pernas, as costas, tudo, e ter de parar para recuperar. Mas sob um sol quente... sob um sol quente não há descanso.

Outros receios, sem nenhuma ordem específica:

- Cãibras (nunca tive e não sei o que fazer se as tiver).
- Ter uma quebra de energia tão grande como a que tive no deserto almondiano e não conseguir recuperar.
- Ser uma maçarica num meio predominante de grandes atletas.
- Sentir a pressão dos atletas-vassoura.
- Ser obrigada a desistir.

Alguns são justificados, outros apenas parvos, mas, mais uma vez, sejam compreensivos.

Posto isto, é óbvio que a minha vontade de participar é superior aos medos, senão não iria. E agora que já pus cá para fora o que me preocupa, posso concentrar-me naquela parte que me diz para ter calma,  divertir-me, que gosto mesmo disto. Essa parte é muito mais porreira, ao longo desta semana vou tentar dar-lhe mais ouvidos.

De qualquer forma, na Arga, vou deixar o número de telemóvel da minha Mãe em tecla de marcação rápida, só para o caso...


PS: Ainda estou com uns problemas de logística devido à viagem e, sobretudo, alojamento. Alguém por aí que tenha ido na edição anterior e possa dar umas dicas?

18 de setembro de 2013

Corrida do Tejo

Esta era uma prova que não constava do meu calendário, apesar de (e se calhar por isso) ser uma das mais concorridas provas de estrada na zona de Lisboa. No entanto, quando menos contamos, é quando às vezes as coisas correm (verbo adequado) melhor, e foi o caso.

Depois desta introdução enganadora, posso adiantar desde já que ainda não foi desta que bati o meu recorde dos 10km, mas foi a segunda prova seguida em que me senti sempre bem e terminei com aquela sensação de que poderia ter dado mais, se quisesse. Não sei o que se passa para estar nesta maré favorável, mas não me estou a queixar!

Correu bem porque estava um belo dia de sol e não muito calor (ainda).
Correu bem porque apesar de não ser uma prova muito propícia a recordes,

prova:
Foto de Mafalda Lima.

o início não foi tão caótico como o que previa (parti mais ou menos a meio e demorei cerca de 3 minutos a cruzar a partida).
Correu bem porque quase nem dava pela subida a seguir ao km2, coisa que não poderia dizer há uns meses.
Correu bem porque entrei num ritmo e não o quebrei.
   Nem quando começou a gincana dos milhares de garrafas de água no chão, ao primeiro abastecimento.
   Nem quando, indo distraída, dei pelo segundo abastecimento tarde demais e, mesmo depois de cruzar a via toda, já não fui a tempo de apanhar nenhuma garrafa.
   Nem quando cruzei novamente a via para passar debaixo dos chuveiros e depois quase nem senti a água (antecipação-desilusão)!
Correu bem porque passámos pela praia, onde veraneantes tomavam banhos de sol e, alguns, observavam-nos com curiosidade. Não sei o que pensavam (embora possa imaginar), mas sei que não trocava de lugar com eles, e isso é bom.

Foto de Mafalda Lima.

Correu bem porque, por todo o lado, via pessoas sorridentes, e isso não acontece em todas as provas.
Correu bem porque tivemos apoio por parte de uma claque com cartazes sugestivos como o que se segue: "Nós apoiamos, vocês correm" (só para o caso de haver dúvidas), e isso fez-me rir.

Foto de Mafalda Lima.

Correu bem porque tivemos direito a toque filarmónico que nos acertava o passo a dois quilómetros da meta.
Correu bem porque, mesmo depois de ter decidido não ir atrás de nenhum recorde nesta prova, depois de 9km, olho para o relógio e vejo que, contra as expectativas, talvez ainda o batesse, e corri corri...
   Mas já não deu.
Correu bem porque, apesar disso, terminei a prova com vontade de voltar tudo para trás, de regresso à casa de partida, e foi isso que fizemos.

Foto de Mafalda Lima.

O mergulho teve de ficar para outro dia.


Correu bem porque, nestas andanças, fazemos amigos. E esta prova foi uma reunião de amigos. Amigos que estão a começar. Amigos mais experientes. Amigos que conquistam os primeiros 10km e amigos que se preparam para Maratonas. Amigos tão ou mais loucos do que nós para quem é perfeitamente normal, e até prazeroso, abdicar do regresso no comboio e voltar a correr, apesar do calor que já se fazia sentir. Porque não?

Ida

 Volta


Ritmos um bocadinho diferentes.


Foi um regresso calminho, onde confirmei que o Tejo é igualmente bonito visto na direcção de Lisboa, e com o benefício de ainda termos a estrada cortada durante a maior parte do percurso.

A minha Corrida do Tejo acabou por ter mais de 20km e, sinceramente, prefiro assim.

11 de setembro de 2013

Corrida da Festa do Avante

Nunca fui à Festa do Avante. Nem com cartazes tentadores, nem na rebeldia da juventude, nem quando os meus amigos foram e se juntaram à dezena numa tenda familiar de dois quartos. É daquelas coisas: é aqui perto e uma pessoa pensa sempre que tem tempo. Dei prioridade a outras festividades noutros locais do país e descurei a vizinhança. Típico.
No entanto, apesar de ainda não ter sido este ano que vinguei esta minha falha, pelo menos fui participar na Festa da Corrida, que é sempre animação garantida. Se não durante o decorrer da prova, pelo menos quando cruzamos a meta ficamos felizes de certeza.

Nesta prova fui feliz o tempo todo, com breves momentos de pânico nas últimas centenas de metros, mas estou a adiantar-me.

Domingo. 8h15.
- Estou à porta da casa dos meus pais. Levava estudado o percurso até ao local onde se realiza a Festa do Avante, coisa que gosto sempre de fazer quando não conheço bem a zona e GPS é coisa que não habita no meu carro. Conto os meus planos ao meu pai e ele responde-me: "Não é nada por aí, isso vais dar uma grande volta. Eu é que sei, porque já participei na Corrida da Festa do Avante há 364 anos e lembro-me bem do caminho. Vamos por onde eu digo."

Domingo. 9h10 (-> quase uma hora depois, para os mais distraídos).
- Estamos, FINALMENTE, a estacionar junto ao local da prova, depois de andarmos perdidos sabe-se lá por onde porque parece que afinal em 364 anos as estradas e caminhos mudam um bocado. Não é a nossa memória que se confunde, são as estradas! Mais uma vez: homens e direcções.... :)

Bom, tendo em conta que a prova iniciava às 09h30, foi uma corridinha para um xixi e para ir levantar os dorsais, só para nos apercebermos que tínhamos deixado os alfinetes no carro. Não faz mal, agora também não há tempo para andar a pedir nenhum, corremos com os dorsais na mão.

Mesmo a tempo de o relógio apanhar satélites, a partida é dada.

O meu objectivo para esta prova era apenas o de manter o ritmo/km sempre abaixo dos 6 minutos. Tendo uma distância de 11km, ainda não era a prova em que iria bater o RP dos 10km, pelo menos "oficialmente", para além do pormenor já aqui referido de não andar propriamente a desenvolver a minha velocidade nos últimos tempos...
E estava a ver que este ia ser um objectivo furado logo no primeiro quilómetro, porque comecei muito cá para trás e a concentração de atletas era tanta que estava a ser complicada a progressão. Com cerca de 600 metros de prova lá encontrei uma aberta e consegui recuperar. Mesmo a tempo. 5.57min/km. Ufa!

Até cerca do km5 andei pelos 5 e muitos. Era um ritmo confortável para mim e, com o meu pai sem treinar ultimamente e com a dor recorrente no joelho, também não dava para mais. Mas estava satisfeita comigo mesma, por sentir que poderia acelerar, se quisesse. Na verdade, sentia-me mesmo bem!

É então que aos 5km o meu pai me diz que terá de abrandar. Fiquei preocupada que fosse do joelho, mas era apenas a falta de treino a acusar-se. Inconscientemente, acelerei um bocado, na esperança de chegarmos mais depressa ao abastecimento e ele se recompor um bocadinho, mas mesmo depois de beber água, mandou-me seguir. Ainda hesitei, mas pensando que esta minha maré de bem-estar fosse de pouca dura e ele talvez me apanhasse mais tarde, continuei. Decidi não olhar mais para o relógio e correr conforme me sentisse. E, como já tinha dito, naquele dia tinha o anjinho da corrida comigo e sentia-me bem.

Não fazia ideia da minha velocidade, mas fui sempre passando pessoas. Houve dois rapazes que deram mais luta. Estavam a correr juntos, lado a lado, mas cada um na sua ponta da estrada. Eu consegui alcançá-los e ia ultrapassá-los pelo meio quando senti que começam a acelerar. Deixei-me ficar para trás, que eu só queria ganhar-me a mim. :) Passado um bocado estou a alcançá-los outra vez e quando vou a ultrapassar aceleram novamente. Mau! Pensei: "Agora também não passo, mas hão-de levar comigo aqui atrás a fazer pressão!" (Uhhh, sou má!;) ). Lancei-lhes um laço mental à cintura e é assim que nos próximos quilómetros, até perto do km 10, iremos ali, qual três da corrida airada, eles à frente, eu dois a cinco metros mais atrás.

Com a aproximação do km10 olhei para o relógio e achei que, caramba, estava tão perto, havia de passar nessa marca abaixo dos 57 minutos. Os meus dois companheiros da corrida airada não deviam ter o mesmo objectivo, porque me deixaram finalmente seguir. À minha frente, um senhor pede palmas a meia-dúzia de pessoas que estavam a assistir à beira da estrada. Ouve palmas, mas também ouve uma mulher responder "para a próxima tragam trocos para as palminhas". ??! Esta confesso que ainda não tinha ouvido!

Mas bom, estava mais concentrada no meu objectivo do que na inflação do preço do apoio, e a verdade é que lá consegui. Foi rés vés Campo de Ourique, mas consegui! O meu segundo melhor tempo "não-oficial" dos 10km. Depois, certamente levada em asas pelo anjinho da corrida que me acompanhou nesse dia, ainda não me sentia cansada! Resolvi continuar a puxar pelo ritmo.

É agora que se segue o breve momento de pânico.

Avistei uma pequena subida seguida de uma curva, onde se concentrava muita gente de ambos os lados. Pensei que a meta já não deveria estar longe e então, armada em velocista, larguei num "sprint" subida acima, passando algumas pessoas, sendo depois recompensada com uma bela descida para alargar a passada até cruzar, pensava eu, a meta. Vou ali tipo atleta dos 300 metros quando, após a descida: CADÊ A META? Pois é, parece que ainda faltavam uns bons 600 metros e eu ali a queimar os últimos cartuchos...

...Grande ups!

Por momentos temi rebentar e ter de andar tão perto do fim por causa da minha estupidez. Tive de ter uma conversa motivadora-agressiva comigo própria, do género: "Rapariga, tu não me pares! Isto é tudo psicológico, se aguentaste mais de 10 quilómetros maravilhosos agora consegues mais 600 metros. Mantém os olhos na meta e põe um pé à frente do outro. Mantém o ritmo, não pares!!". Como me senti motivada-intimidada pela minha própria conversa, continuei, mas não foi fácil.

É a única mancha numa corrida, de outra forma, perfeita. Sempre ritmo bom, controlado, a achar que podia dar mais, para depois alucinar com a meta e quase quebrar devido a sprint precoce. De qualquer forma, aguentei-me (à bronca) e concluí sem abrandar (muito).

1:02:44, no meu Garmin.


Desta vez, com as pressas, nem tirei foto nenhuma. Grande falha de bloguer.

O meu pai chegou pouco depois de mim, o que significa que conseguiu recuperar, felizmente.

Sendo este um evento gratuito, de agradecer o papel da organização, que não falhou com o abastecimento nem com o apoio e policiamento ao longo do percurso. Apenas houve algum engarrafamento após a meta, na fila para as t-shirts, mas essa não é uma situação ímpar e, para além de ser um espaço amplo, também não estava calor.

Uma t-shirt e um diploma de participação depois (que nos permite entrar posteriormente no recinto), saí com a certeza de querer voltar a esta Festa da Corrida, onde me senti sempre tão bem. Agora que já sei onde é a meta... ;)

8 de setembro de 2013

Quilómetros contados

Está a ser um início de ano atribulado (sim leram bem, eu escrevi início de ano, mas é porque devido à minha área de formação sempre me regulei mais pelo ano lectivo do que pelo ano civil, não é porque ande toda trocada). 
Por essa razão, os treinos semanais têm sido tardios e curtos (por volta de 8km), mas as coisas hão-de compor-se

 A novidade de fim-de-semana: fui ao Avante. Não à Festa em si, mas à festa da corrida. 

Na sexta-feira, depois de um dos tais treinos curtos mas no qual tentei incluir algumas rampinhas, fui jantar a casa dos meus pais e o meu Pai perguntou-me se não queria ir à Corrida do Avante, porque uns amigos dele tinham ficado com uns dorsais a mais. O meu primeiro pensamento foi: "Ora bolas, se soubesse não tinha abusado nas subidas hoje" e o que disse foi: "Ok, vamos". E foi assim.
Apesar desta corrida não estar nos planos, acabou por correr benzinho (o "zinho" deve-se a factores externos). Depois alongo-me nos pormenores quando fizer a crónica.


Agora para uma conversa séria. Acho que a relação com os meus ténis de estrada está com os quilómetros contados. A verdade é que já vinha a acusar algum desgaste, mas uma pessoa faz sempre por relativizar. "Ah, é porque agora prefiro outro tipo de terreno e por isso é normal sentir este desconforto quando os calço." Ou: "Na semana passada estive muitas horas em pé, se calhar por isso é que hoje sinto as pernas mais doridas." Ou "Os buracos que abriram na costura de lado até ajudam a arejar." Ou: "Talvez isto vá lá com umas palmilhas novas." Negação. Tudo negação.
Eles já não me oferecem a estabilidade e conforto que preciso. Já não somos 'Um' quando os calço. Somos dois parceiros cansados, distantes e a criar rancores. O pior é que, como as coisas estão, terei de arrastar esta relação mais uns meses, antes de avançar para a próxima (uma leviana de ténis, é o que eu sou). Não é justo para nenhum de nós, mas infelizmente a crise já chegou ao mercado emocional do equipamento de desporto.

Meus queridos ténis, se me estiverem a ler: sei que estou a exigir demasiado. Sei que estão do meu lado desde que decidi correr a minha primeira Meia Maratona. Estão extenuados e eu também, é normal. Foram muitos quilómetros felizes juntos. Em memória desses momentos, peço-vos que resistam até à Meia Maratona Rock'n'Roll Lisboa. Um ano desde a nossa primeira Meia juntos e mais de um milhar de quilómetros depois. Vamos terminar em grande, vamos honrar o amor que nos uniu um dia. Por favor? Obrigada.


Como vai a vossa relação com os vossos ténis (ou sapatilhas, para os leitores do Norte)? São polígamos e usam uns diferentes consoante o tipo de treino ou são fieis a algum modelo?
E, já agora, quando decidem dizer basta? Ao fim de X quilómetros? Quando a sola está desgastada? Quando se vê o dedo grande do pé?

Boa semana!

2 de setembro de 2013

Como andam (correm) as coisas

- Então como andam a correr os teus treinos? - pergunta que não fizeram, mas é informação que eu sinto necessidade de partilhar com vocês na mesma.

A bem dizer não ando a seguir nenhum plano de treinos específico e, confesso, até tenho alguma saudade dessa disciplina, de saber que no dia X tenho N quilómetros para correr. Assim sendo, ando a correr ao sabor da maré, o que, não deixando de ser bom, às vezes é mau. Explicando melhor: apesar de gostar desta liberdade de correr o que me apetece e o corpo deixa, há dias em que um objectivo específico dá aquela motivação que falta, tanto para sair de casa como para dar aquele extra durante o treino (ou 110%, como dizem alguns).

Posto isto, assim têm sido os últimas dias/semanas:

Ora bem, tínhamos ficado na parte em que eu gabava os treinos no campo. Foi pouco mais de uma semana, o que não dá para ganhar nenhuma endurance (olha para ela a usar palavras técnicas) de montanha, mas não deixei de ficar feliz com o meu desempenho. Nessa semana de férias, o foco foram...

- as rampas. Como não tinha companhia para o tipo de corridas que gostaria de fazer, que era passar horas a perder-me em trilhos na montanha, sem destino (a sério, não percebo como é que não havia uma fila de pessoas a empurrarem-se para me acompanhar, com este plano tão elaborado...) decidi que havia de aproveitar o que de melhor* (*subjectivo) têm as montanhas: as subidas.
Para ir do centro da vila até à nossa casa, temos de subir uma Senhora Rampa. Essa Senhora Rampa foi apresentada ao meu Mr. G. e concluiu-se que tinha um ganho de elevação de cerca de 70 metros, para 0,5km de distância, o que, dito assim, pode não parecer muito mas, acreditem em mim, é. Para terem uma ideia, a  maioria das pessoas leva o carro para ir beber o café à vila, só para não ter de subir essa rampa a pé...
Assim, decidi que, já que era obrigada a subir essa encosta nas minhas deslocações diárias, pelo menos podia aproveitar para o fazer em power-walk, tentando melhorar o meu tempo até ao último dia de estadia.
Não sei quem se divertiu mais, se eu, às 9h da manhã, aconchegadinha com a meia-de-leite no bucho, a subir aquele monstro, se os vizinhos que me apanharam repetidas vezes essa semana, com um vestido de verão mas ténis calçados (-> nova moda), compenetrada a acelerar ladeira acima. Às vezes não ficavam satisfeitos com o meu "B'dia" de fugida e queriam conversa e eu tinha de interromper o "treino", não há respeito. :)
De qualquer forma, nos primeiros dias ainda levei o Garmin, para ver a evolução, mas depois desisti. No entanto, não houve manhã em que não tenha começado o dia com 70 metros de elevação, seguidos de mais uns tantos em passeio, ou corrida, ao final do dia.
Conclusão: semana das rampas - prova superada.

Depois, já de volta e sem imaginação para os treinos a meio da semana (que regra geral andam por volta dos 8km cada), resolvi, depois de meses (sempre?) voltar a fazer...

- treino de velocidade. Foi só um e, apesar de ter aguentado as repetições todas, a velocidade não foi impressionante. Sei que não é de estranhar, depois de meses (sempre?) sem me dedicar a este tipo de treinos. Sei que, mesmo que me dedique, nunca serei uma corredora rápida e aceito bem isso. Na verdade, podendo escolher, vou sempre preferir fazer mais quilómetros do que menos tempo. Mas, tendo em conta que irei participar numa corrida de 10km que não estava nos planos, resolvi testar as pernas para ver se ainda seria capaz de me manter no clube dos sub-60 (min). Não sendo vip, é um clube respeitável e quero garantir a minha permanência no mesmo.

Agora, vamos ao que interessa:

- Treinos longos e longuinhos. O meu primeiro treino "longo" pós férias foi uma looooonga e tortuosa marcha fúnebre. Era para ter corrido 2 horas, corri 1h30 e queria parar desde os 30 minutos. Se já não soubesse como estas coisas da corrida são (dias iupi -vs- dias bleh) teria ficado bastante em baixo com a minha prestação. Mas há corridas assim, e temos de aceitá-las. Só faz dar mais valor às outras corridas, aquelas em que voamos... Certo?...

- Treino em Monsanto. E agora, estão a ver esse outro tipo de corrida? Aquelas em que tudo corre bem, o ritmo flui, a respiração não se altera, as pernas e braços trabalham em harmonia e sorrimos para o mundo e o mundo sorri-nos de volta? Estão a ver? Sim? Ainda bem. Esta também não foi uma dessas corridas, mas foram 16km nos trilhos de Monsanto, e isso já é bastante bom.

Esta foto não é deste treino, mas é em Monsanto, e o post já estava a precisar de uma imagem para cortar o texto.



Foi o treino longo deste domingo.

- Bicicleta. E, depois dos 16km em Monsanto, seguiu-se um passeio de bicicleta da parte da tarde (19km). Não andei durante as férias e agora regressei com um dia de "duatlo", like a boss!:) (No dia seguinte, ou seja, hoje, tive dores nas pernas, braços, costas e pescoço, like a boss também...)


E é esta a versão Resumos Publicações Europa-América dos meus treinos dos últimos dias. Agora que se inicia o mês de Setembro, espero que as coisas, que têm andado um bocadinho fora do normal para mim, voltem à rotina. Os objectivos futuros serão tema para um próximo post.

A vossa rotina de exercícios, como anda?

Boa semana!