30 de outubro de 2013

Corrida TSF Runners

 
Ou: o meu "Momentos de Glória", na Av. Infante Dom Henrique.

A Corrida TSF Runners não fazia parte dos meus planos iniciais. Aliás, na minha ideia, provas de 10km, até ao final do ano, já só contava fazer uma de S. Silvestre, a tal que não posso falhar, aquela que foi a minha prova de estreia. No entanto,  tive a felicidade de ganhar um dorsal. Além disso, a prova ia contar com a presença do Carlos Sá, cujo talento, toda a gente sabe, irradia através do ar. Se respirarmos bem fundo, somos contagiados, e o 0,001% que me calha em sorte no meio de tantos atletas, foi o que serviu para ter uma prova tão feliz em Arga e novamente este sábado, nesta corrida.

Começou logo bem, com um aquecimento forçado até à linha de partida, praticamente em contra-relógio, com medo de falhar as 17h e depois, em vez de cruzar a linha em festa no meio de milhares de atletas, teria de fazê-lo de forma atarantada e esbaforida, numa belina para tentar apanhar a cauda do pelotão. Embora fosse engraçado, pelo menos posteriormente, em forma de relato, ainda bem que não chegou a acontecer. Chegámos ao local de partida a faltar 4 minutos para a hora, e infiltrámo-nos por onde deu, até ficarmos mais ou menos a meio da multidão.

Ia acompanhada por alguém para quem esta seria apenas a sua segunda prova de 10km, e a primeira desde há uns anos. Portanto, ficou combinado que eu iria assumir o papel de "lebre" (-> ahahahahah, irão perceber porquê já de seguida).

Ouve-se o tiro (apito?) de partida e, apesar de haver muita gente, rapidamente se entra num ritmo aceitável, pela louvável ausência de pessoas a caminhar nas filas da frente. Depressa me apercebo que o meu papel de "lebre" está comprometido. Eu sou a âncora, sem sombra de dúvidas.
 
Estão a ver aquele tipo de pessoas que faz um treino ou outro muito esporadicamente, diz que não corre há semanas e que se sente cansada porque foi para a borga na noite anterior e, mesmo assim, chega ali, cruza a Partida e ala-que-se-faz-tarde-e-tu-admira-aí-a-sola-dos-meus-ténis? Toda a gente tem pelo menos uma pessoa assim no grupo de amigos, que é motivo de admiração invejada e irritação em igual medida (anda aqui uma pessoa farta de treinar e depois vem-me este carapau de corrida.... Pffff...)

Foi este tipo de pessoa que me acompanhou. E eu agora agradeço.

Quanto ao percurso, nada de especial a destacar. É percorrer a Av. Infante Dom Henrique, cortar antes da rotunda e voltar para trás. Este trajecto, apesar de ser palco de várias provas na cidade, é monótono e sem grandes atractivos, salvando-se a subida e descida do viaduto, que corta a recta e permite ver o rio que, ao nível da estrada, os contentores bloqueiam.

Estas provas de ida-e-volta são ambíguas. Acho que depende de como estamos nesse dia. Pode ser duro psicologicamente, por vermos a distância que nos falta voltar quando ainda nem sequer chegámos à curva, ou pode ajudar a distrair, enquanto nos mantemos ocupados a ver quem regressa. Como neste dia tinha aquele 0,001% de talento extra, para além de companhia que me dava luta (cof... orgulho de não querer dar parte fraca... cof), a prova foi como um sopro. Quando dei por mim já estavamos a fazer a inversão de marcha, com cerca de 2 centenas de metros acima dos 5km, pré-aviso do bónus de metros que a prova tinha e que constava no regulamento, que não li. Mas nem liguei. Pelo contrário, agarrei numa garrafa de água no abastecimento, dei uns goles e pensei: com distância a mais ou a menos, é hoje que bato o recorde, vamos a isso.

Atenção: é raro ter estas certezas em prova, aliás, penso que foi mesmo a primeira vez, por isso sou a primeira a agradecer aos deuses da corrida.

A partir daí, tentei baixar o tempo a cada quilómetro. A cerca de 3 km do final (ou melhor, dos 10km certos), estava com média de 5:33/km. E nunca me tinha sentido tão bem numa prova de estrada. Pensei que, com sorte, conseguiria uns redondos 55min aos 10km.

2 km para o final. 5:32 de média, será que consigo?

Foi então que vivi a minha cena "Momentos de Glória", ou "Chariots of Fire", no original (se nunca viram este filme, a sério: vejam. Entretanto, fica aqui a parte a que me refiro, para melhor visualizarem o que se segue).

- Aquele momento numa corrida em que se apercebem que estão a correr mais rápido do que o habitual e que se sentem "invencíveis" (hipérbole endoidecida de endorfinas).

1,5km para o final. O ruído ambiente emudece e os primeiros acordes de Vangelis começam a ouvir-se.

5:31 de média, vou conseguir.

O filme desenrola-se em câmara lenta. Vejo os corpos dos atletas que me rodeam num ritmo certo e ritmado. A veia saliente da têmpora do homem pouco à minha frente. As gotas de suor na testa. O franzir da cara em esforço. A ondulação do rabo de cavalo da rapariga. As passadas da companhia que não me larga. Os risos. As conversas mudas.
Pum-pum... pum-pum... pum-pum... O meu batimento cardíaco. Inspira, expira. Inspira, expira. O ar que percorre o diafragma. Os pormenores que ganham vida.
Todo o movimento de deslocação, os braços que são impulsionados, os pés que tocam o chão, mas nem o sinto. Estou a planar!

O relógio apita os 10km, estou na casa dos 55 minutos, a média está nos 5:30. Consegui!

Já tinha aqui a minha vitória, mas a prova ainda não estava terminada. Como se voltasse à superfície da água depois de ter dado um mergulho, o som exterior regressa. Agitação. Movimento. Oiço gritos, palmas, incentivos, música... Better not stop, better not stop moving. Better not stop... Distingo a voz do speaker que anuncia a Meta. Um último esforço e corro a uma velocidade que nunca pensei depois de 10km. Estou cansada, mas não estou morta. Não estou morta.

Que sensação fantástica!

Terminei a prova com 57:21, tempo garmin, precedida em duas passadas pela verdadeira "lebre", que nunca me deixou para trás (e apenas por isso é que a nossa amizade sobreviveu).

Com este resultado consegui ficar no top 20 do meu escalão. Top 20 é QUASE pódio, não é? :)



E a felicidade de conseguir manter um ritmo que nunca pensei atingir na distância. Engraçado surgir agora, num momento que não o persigo. Se calhar estas coisas surgem quando tiramos a pressão, não sei. A vida por vezes tem um sentido de humor irónico.

Só uma vez consegui baixar dos 55min: na Maratona de Lisboa por Estafetas, o ano passado. Mas foram circunstâncias especiais - primeiro, porque o facto de termos alguém à espera do nosso testemunho, uma equipa a depender da nossa prestação, dá-nos outra responsabilidade e, segundo e mais importante, grande parte do meu trajecto (11km) foi feito a descer! Depois disso, sempre achei difícil repeti-lo ou melhorá-lo. Para dizer a verdade, sou daquelas pessoas que não gosta de fazer uma prova toda em esforço, coisa que geralmente acontece se quisermos bater marcas. Se calhar sou preguiçosa, se calhar não sou ambiciosa, se calhar não tenho confiança suficiente.

Falando da prova em si, penso que para evento de estreia esteve muito bem. Um abastecimento na curva de regresso, animação (não fiquei para ouvir as bandas, mas a música foi uma constante), uma aula de alongamentos final, medalha e outros recuerdos e a partida e corrida das duas distâncias (5km e 10km) a decorrer em respeito mútuo (ou pelo menos não me apercebi de nada). A minha queixa vai mesmo para a falta de originalidade do percurso, mas suponho que muitas pessoas apreciem a quase ausência de desnível.

Posto isto, reformo-me dos 10km até finais de Dezembro. Gostei muito deste inesperado Momentos de Glória, mas agora estou mais virada para longas metragens.
Não nego que saiba bem bater RP's velocidade, mas o dia em que conseguir repeti-lo, mas em distância... Saber que sou capaz. Nesse dia... Nesse dia, meus amigos, vair ser como ouvir Vangelis*, no topo do mundo, cantado por anjos.

*Ou outra música mais a meu gosto, ainda a decidir.

 

27 de outubro de 2013

Devagar se vai ao longe (e quem espera desespera?)

Este foi um fim-de-semana com dupla jornada de quilómetros.
 
Começou com a Corrida TSF Runners no sábado ao final da tarde, onde, "desafiada" (apenas na minha mente), acabei por correr na loucura, o que foi, em simultâneo, bom e mau, mas mais pormenores posteriormente, na respectiva crónica. Depois hoje, que foi dia de nova investida a Monsanto, onde foram explorados novos trilhos e confirmado que o factor-surpresa não se irá esgotar, pelo menos não tão em breve.
 
No entanto, mal comecei a dar corda aos pés naquele pulmão enlameado, mas com cores surpreendentes das folhas e a frescura da relva ainda coberta pelo orvalho matinal, que é a mata de Monsanto, vi logo que a coisa não ia correr bem, e digo isto no sentido mais literal possível.
O desgaste dos ténis de que já vos falei tem-se notado nas minhas articulações, e na doideira da prova do dia anterior já tinha sentido o joelho a queixar-se. Com as primeiras passadas nas minhas pantufas-trabuco de hoje, o joelho não se queixou, mas sentia na mesma que algo não estava bem. Logo por azar, hoje tinha a companhia do amigo Vitor, que quis aderir a estes treinos monsantianos, e sentia-me mal por ter de abortar a ideia inicial ou, pelo menos, alterá-la um bocado. Apesar de ter muita, muita vontade de correr (e sentir energia para), ao fim do primeiro quilómetro, munida do bom-senso que não tive no dia anterior, disse ao Vitor que hoje se calhar era melhor ficar-me por uma caminhada.
 
Acabámos por fazer cerca de 10 km em marcha. Mas, atenção, não pensem que foi daqueles passeios bonitinhos e relaxados, com paragens para ver a fauna e flora ao detalhe, encher os pulmões de ar fresco e cheiro a eucalipto (embora eu tenha obrigado a uma ligeira quebra no ritmo, para admirar uns cogumelos que estavam à beira do trilho, coisa pela qual tenho fascínio, não me perguntem porquê), foi uma marcha vigorosa! Tanto que, em determinadas subidas, custava manter o fôlego a conversar*, e a nossa respiração cortava o ar frio como uma máquina a vapor a todo o gás.
 
Estava uma daquelas manhãs ideais para a prática desportiva. Sol, mas fresco, sem enregelar, e havia alguma gente a percorrer os trilhos, sobretudo ciclistas. É incrível como, por momentos, chegamos a esquecer-nos que estamos no meio da metrópole.
Testámos diferentes tipo de piso - mais lama, menos lama, mais pedra, menos calhau, mais areia, menos asfalto - e testámos também a direcção (ok, perdemo-nos...) algumas vezes, mas nada de grave. A ideia era continuar sempre a subir até se chegar até ao Anfiteatro Keil do Amaral e foi lá que chegámos, eventualmente. Aí, arrisquei um ligeiro jogging, e foi assim que concluímos a distância restante, cerca de 8,5km, de regresso ao local de partida, entre corrida ligeirinha e power-walking.
 
O "Correr" aqui é optimista!
 
 
No meio disto tudo, acabaram por ser 3 horas de treino. Tudo bem que mais de 2 horas foram a caminhar, mas sendo esta uma parte integrante de todas as provas de trilhos, contemos este treino como "prática da técnica de power-walking". Sim, "prática de técnica". Vou acreditar que fiquei melhor caminheira hoje... :)
 
Mais um longuinho para a viagem e agora, nos próximos dias, sopas e descanso aos joelhos, porque é melhor prevenir que remediar, já diz a sabedoria popular. Para não comprometer o objectivo a longo prazo, há que fazer cedências e compromissos. É uma coisa que vou ter de aprender a gerir, a ansiedade de estar "parada".

Bom, acho que nos entretantos me vou dedicar àquelas coisas que todos os corredores adoram fazer e nunca falham, como: alongamentos, reforço muscular, cross-training... Confirma-se que gostam todos disto, não confirma? (Sejam solidários...)

 
 Boa semana!


* No meio da conversa, posso ter sido convencida a aderir a mais uma prova de trail este ano, que não fazia parte dos meus planos. Não que tenha sido particularmente difícil... ;)
 

23 de outubro de 2013

Longuinho de base ou Monsanto, de novo juntos

Antes de mais, para quem possa ter falhado a visualização destes 16 minutos e 42 segundos de doce recordação Arguiana, que passaram este domingo na RTP 2, aqui fica:
 
 
(Embora eu ache difícil haver alguém na comunidade corredora, em particular apaixonada por trails, que não tenha visto, mas nunca se sabe).
 
Ao assistir a esta reportagem recordei-me daquilo que tinha deixado por dizer: a questão da verificação do "material obrigatório", que falhou em grande escala, apesar dos frequentes avisos e ameaças de desclassificação, que não se concretizaram. Acho que é dos grandes pontos a ser revisto para o ano, e dos que gerou mais polémica, o que até compreendo.

Ponto positivo: o Carlos Sá foi, sem dúvida, um organizador preocupado. Eu própria assisti à chegada de um atleta que se queixou da falta de sinalização numa zona, ao que o Sá reage prontamente ligando de imediato para outro membro da organização (suponho), pedindo-lhe que se deslocasse ao local para ver o que se passava. (E não, eu não estava a observar o Carlos Sá como uma fã maluquinha, calhei apenas a estar ali no momento...;) )

Ponto negativo: a quantidade de invólucros e tubinhos de gel que vi pelo chão... A sério? Ultrapassa-me como é que estas coisas continuam a acontecer. Acho que muitos atletas se fiam no facto de depois a organização passar vistoria ao local, só que esquecem-se que essa deveria ser uma responsabilidade sua e, numa Serra, um invólucro de gel abandonado pode ser empurrado para arbustos, ficar encoberto por alguma rocha ou voar encosta abaixo, escapando à limpeza de voluntários e ficando a poluir um local que os atletas deveriam ser os primeiros a querer manter impecável. Cheguei a apanhar um tubinho que estava a cerca de 200 metros de um abastecimento, descartando-o depois no local. Custava muito ao respectivo dono levá-lo até lá? Estas coisas revoltam-me...
 
E com isto encerro o capítulo Serra d'Arga 2013 (mas não prometo nada!)


Como estamos de treinos?
Ora bem, ainda não estou a seguir nenhum plano específico. Estou na fase-base, se assim quisermos. Acostumar as pernas a um aumento gradual de quilómetros, para além de algum trabalho complementar, como o de força (bah...) -> apesar de este último ainda não estar a acontecer como deveria, confesso. Vai ser a minha maior luta.
Sei que as corridas em trilho exigem um trabalho muscular superior, há um maior número de músculos envolvidos (coisa de que me recordo sempre nos pós-provas e treinos, já que tenho sempre dores novas) e só o aumento por si só de quilómetros não é suficiente. Aliás, há bastantes teorias quanto a isso, e confesso que tenho sido uma croma a ler tudo o que é artigos sobre o assunto e não tenho vergonha de o admitir. Além disso, adoro ler, e podendo juntar a isso o fascinante mundo do ultra trail, melhor ainda. Já faz parte da "viagem".

Mas falando de coisas práticas. Decidi que os treinos longuinhos, longos e, mais para a frente, longõooooes, de fim-de-semana deverão ser feitos, sempre que possível, em trilhos, já que durante a semana, sobretudo agora que os dias começarão a encurtar, não tenho essa disponibilidade. Sim, porque correr em trilhos à noite está completamente fora de questão (a não ser que se junte um grupo de pessoas, luzes de mineiros e se chame prova de trail nocturna, nesse caso já é razoável).

E comecei já com um longuinho em Monsanto, como não poderia deixar de ser.



Apesar de dizer 18,44km, foram perto de 21km. Como a busca de satélites estava demorada resolvi começar a correr até surgir uma brecha por entre as nuvens que iluminasse o gps (o que acabou por acontecer cerca de 1km depois) e depois, já mais para a frente, esqueci-me de retomar a contagem após uma paragem para abastecimento (daí aquela linha recta que corta a paisagem e que seria muito improvável de acontecer naquele terreno) e só me apercebi mais tarde.

Portanto, foi oficialmente o meu primeiro treino longuinho de base, uma Meia Maratona com tempo ainda para testar umas máquinas de manutenção e uma ou outra manobra mais radical, que poriam logo em causa o meu ultra ano, caso corressem mal, mas sobrevivi para contar. Sem mazelas, mas várias dores "novas" (lá está...) no dia seguinte.

Manter estes treinos divertidos será sempre a minha premissa, enquanto conseguir. Só tenho medo que Monsanto acabe por tornar-se demasiado pequeno pela repetição forçada de treinos in situ ou, pior (glup) aborrecido. Espero que não chegue a isso, embora conte também fazer um ou outro treino na Serra de Sintra, pelo desafio e porque, pronto, é a linda Serra de Sintra.
Mais locais propícios a treinos longos de trilhos, na zona de Lisboa e arredores? Não me escondam nada.

De resto, têm-se mantido os habituais treinos semanais (o estado dos meus ténis de estrada é outro assunto...) e, se o tempo colaborar, volto a repetir o meu treino das lombas. O espírito é insistir até se tornar fácil. E orgulho-me de dizer que, da última vez que o fiz, já não tive vontade de ligar para a minha mãe a chorar. Evolução?! :)


Bom resto de semana!
 

17 de outubro de 2013

Semana 0 em diante

Como tinha dito, a semana depois da Meia Maratona foi uma semana de corrida 0. Foram 7 dias sem calçar os ténis. Nestes quase dois anos de relação, acho que nunca tínhamos estado tanto tempo separadas, nem mesmo quando, às vezes, nos chateavamos. Mas era uma pausa necessária.

Um coisa curiosa? Quando paramos de correr é que aparecem as dores todas. Podem até ser dores psicológicas, mas estão lá. Elas foram dores no calcanhar, elas foram dores nas costas, dores no músculo piriforme esquerdo (isto apenas para não escrever "pontadas na nádega esquerda", vocês sabem), dores de joelho, dores de ombro... uma alegria. Realmente, estar parado faz mal à saude.

Então, aproveitei para fazer algumas caminhadas (amor antigo) e andar de bicicleta.

Num desses passeios de bicicleta fui conhecer a recém-inaugurada ciclovia que liga o Parque das Nações a Santa Apolónia. Quem esteve presente na Maratona ou na Meia, há duas semanas, de certeza que deve ter reparado nela.
Para quem, como eu, não se sente segura a andar de bicicleta no meio do trânsito, este é um passo mais próximo das pedaladas até ao Cais do Sodré. Só achei que ali, onde termina, na zona debaixo do viaduto de Santa Apolónia (onde estava o abastecimento da fruta, lembram-se?) a coisa estava um pouco confusa. A ciclovia muda de sentido devido ao trânsito e estreita muito, tornando-a até, na minha opinião, um pouco perigosa.

Ali.
Mas isso sou eu, que não sou confiante a pedalar e até a presença de uma formiga mais avantajada no meio do caminho se torna um grande obstáculo. Ciclistas mais experientes que lá passem, depois digam-me de vossa justiça.

Mais importante ainda, adivinhem a minha indumentária nesse passeio? E esta é uma questão muito relevante porque:

Six-pack Arga style!

Fui exibir os abdominais recém-adquiridos no GTSA! E quem participou nesta prova não me diga que ainda não estreou a jersey porque não acredito. (Ok, tem estado calor... Mas fora isso, eu sei que estão mortinhos por exibir este six-pack também).

Embora goste mais da parte de trás:




Estou esperançada de um dia, durante um treino, me cruzar com alguém com a jersey vestida e podermos trocar um sorriso acenado de cumplicidade, do género "sim, estivemos lá e foi lindo".

(Aiii... Arga 2014, ainda falta muito?)


Adiante. Depois do anúncio da Aventultra, seria de esperar que tivesse começado a correr esta semana como se não houvesse amanhã, mas não. Quero que seja um aumento gradual, com base no esforço, antes de começar a seguir um plano específico.
Resolvi, inclusive, começar a dar mais atenção às zonas cardíacas durante o treino, só que agora não encontro a faixa cardíaca do Garmin em lado nenhum. Usei-a no GTSA e sei que está cá em casa, porque, quando cheguei, a atirei para um canto, chateada porque me tinha feito uma assadura muito feia numa zona que não devia. Acho que entretanto a faixa se deve ter barricado em protesto, porque não há meio de aparecer.

Assim sendo, tive de recorrer à faixa antiga do Sigma, o que significa que esta semana andei a treinar assim:
 
Dois relógios, porque um não é suficiente.

Aproveito e ganho força muscular no braço esquerdo. (Tenho mesmo de encontrar o monitor cardíaco do Mr.G., que isto não é vida para ninguém...) :)


Estão a ser estes os primeiros passos de muitos. Até agora, tudo bem.



14 de outubro de 2013

Aventultra

Claro que não seria eu se, depois do pré anúncio do ano Ultra, não dedicasse umas quantas, muitas vá, palavras ao assunto. É do coração, aqui vai.


Não sei exactamente quando se deu o "clique", aquela altura em que os quilómetros, em vez de me assustarem, começaram a fascinar-me. Aquela altura em que achamos que, mesmo medíocres (e não utilizo esta palavra no sentido pejorativo, apenas como constatação de que não é preciso grandes resultados para sonharmos grande também), conseguimos concretizar feitos que apenas admiravamos de longe, nos outros. Mas é um facto que o clique deu-se.

Quando comecei a treinar para a minha primeira prova de 10km, corria há cerca de mês e meio, de forma inconsistente (treinos de 4 ou 5km), quando resolvi participar numa prova local de 6km. Era em Novembro, a minha estreia na dezena estava marcada para finais de Dezembro, e achava que estava na hora de testar a forma "em campo". Acho que já falei disso aqui, mas essa prova acabou por ser horrível. É verdade que o percurso não era dos mais fáceis para uma estreia, mas quase chorei de frustração a meio, quando tive de andar, e cheguei a considerar dar uma volta de fininho e sair de cena a um quilómetro da meta, por estar tão desiludida comigo própria.

Claro que, depois disto, o meu pensamento foi: "Raios me partam se não faço a prova de 10km, e sem parar!". Pesquisei planos de treino, dediquei-me, persisti mesmo quando não queria e acabei por ter uma espectacular experiência numa noite de São Silvestre, que iria consagrar o meu amor definitivo por este desporto.

A partir daí, a luta estava em baixar a barreira mental da 1 hora. Passadas umas quantas tentativas consegui fazê-lo, mas a ideia de correr muitos mais quilómetros ainda me ultrapassava. Terminar os 10km já era difícil o suficiente. Comecei a aventurar um quilómetro aqui, um quilómetro ali em treinos, mas uma Meia Maratona era coisa que não estava no meu horizonte próximo. Curiosamente, foi após uma outra má experiência em prova, desta feita de 15km, que disse: "Raios me partam se não hei-de fazer uma Meia Maratona, e sem parar!"... Pelos vistos, utilizava a raiva como impulsionador! De qualquer forma, resultou. Cerca de 9 meses depois dos primeiros 10km, dava à luz a primeira Meia Maratona (peço desculpa pela analogia parideira, mas o número de meses estava a pedi-las). Mais uma vez, outra espectacular estreia, mesmo com nervos e sustos de última hora.

Depois, depois vieram os trails. E rapidamente os trails de 12km, 15km, começaram a parecer pouco. Aliás, neste momento, trails de 20 e tais quilómetros parecem-me pouco. Não é que tenha deixado de ter respeito pela distância, que tenho, e muito. Simplesmente deu-se uma coisa maravilhosa: deixei de ser impulsionada pela raiva, e passei a ser impulsionada pela vontade. Eu sou MESMO muito feliz a correr ali. Eu quero MESMO dedicar mais tempo a isto. Nem as experiências menos boas (cof cof... Almonda cof cof...), me tiraram a confiança e determinação. Nos momentos em que não estava a amaldiçoar as minhas decisões, e até mesmo nesses, eu estava, no fundo, satisfeita por estar ali.


Posto isto, coisas mais concretas (e prementes):

- Já andei a pesquisar planos de treinos específicos para ultratrails. Ao contrário de planos de treinos para a Maratona, que se encontram net fora aos pontapés, treinos para ultras são mais escassos, têm de ser adaptados, mas encontram-se (mais sobre este tema depois). PS: Vou precisar da vossa ajuda/experiência!

- Cada um tem a sua velocidade de progressão (duh). Isso varia muito da genética, da disponibilidade, da dedicação... Nestas coisas, e conhecendo-me bem, tendo sempre para o lado da precaução e prefiro levar o meu tempo. Assim sendo, apesar das tentações :), provas grandes já nos meses mais próximos estão excluídas. Além disso, gosto da "viagem" e quero aproveitá-la ao máximo.

- Da mesma forma, estará exluída uma estreia nos meses de Junho a Agosto, por razões óbvias. Não há necessidade de juntar a dificuldade "calor" a todas as outras. (Cof cof... Almonda cof cof...).

- Tenho ideias, mas ainda não está definitivamente decidida a prova. Claro que conto voltar a participar no Grande Trail Serra d'Arga, desta vez nos 45km, mas não quero esperar por Setembro (e por tão grande D+!) para me iniciar numa ultra distância. O GTSA é uma prova que vale por si só e espero fazê-la já com bagagem (ainda que pequenina) ultra.

- Sejamos práticos: mais que disponibilidade temporal, tem de haver alguma disponibilidade financeira. Este tipo de provas que, na sua maioria, exige deslocações e por vezes estadia, fica cara. Neste momento, a instabilidade laboral que se estava a balançar para os meus lados parece estar a compor-se e apenas por isso é que resolvi tomar esta decisão. Terei de sacrificar o número de provas pela qualidade (que, neste caso, se mede em quilómetros, entre outras coisas), mas tudo bem.


Agora, voltando ao reino menos prático, mas tão bom, dos sonhos. Esta minha decisão tem uma razão de ser, uma razão de fundo. A longo prazo, como vários outros atletas, gostaria um dia de cortar a meta do UTMB (Ultra Trail do Monte Branco, para as amigas que prezo e me apoiam, mas não estão por dentro deste "mundo"). É o expoente máximo para mim e, apesar desse dia ainda estar distante, consigo visualizá-lo. Eu sou daquelas pessoas positivas que acha que quando uma pessoa tem um sonho e consegue visualizar os passos a dar, consegue atingi-lo. E eu sei como lá chegar e sei que um dia vou estar em Chamonix. O primeiro passo foi dado na sexta-feira, quando decidi que 2014 seria o ano da minha primeira ultra. Terei de dar muitos outros, não sei durante quantos anos, mas eu chego lá. Entretanto, é assegurado que esta "viagem" terá vistas lindas.



Para que não restem dúvidas da minha totozice, é assim que me sinto quando penso no que aí vem:


E, numa nota à parte: sim, mal posso esperar pela estreia do The Hobbit 2, em Dezembro.



Estou mesmo entusiasmada, nota-se? :)

11 de outubro de 2013

O pré anúncio

Primeiro, a vontade. Depois, as dúvidas...


Não és capaz. Não és forte. Não tens tempo. Olha para ti. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não és capaz. Não és forte. Não tens tempo. Olha para ti. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não és capaz. Não és forte. Não tens tempo. Olha para ti. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não és capaz. Não és forte. Não tens tempo. Olha para ti. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não és capaz. Não és forte. Não tens tempo. Olha para ti. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não és capaz. Não és forte. Não tens tempo. Olha para ti. Não. Não. Não. Não. Não. Não.

Dúvidas. Receios. Indecisões. Inseguranças. 



Dúvidas. Receios. Indecisões. Inseguranças. 

 

Dúvidas. Receios. Indecisões. Inseguranças.  

  
  
Dúvidas. Receios. Indecisões. Inseguranças.

 
                    

(silêncio)


O momento em que o Scott Jurek fala para mim (a partir do minuto 5.55):




"It's the adventure, I think, that's the most important part of the Ultra.
So, be ready for the adventure."


Não é preciso mais.



Acompanham-me? Juntos somos mais fortes.


9 de outubro de 2013

Meia Maratona Rock'n'Roll Lisboa

Domingo de manhã: cheira a dia de corrida! Por todo o lado, há pessoas a acordar. Tomam um pequeno-almoço previamente testado, que lhes dê a energia necessária sem transtornar o estômago. Esfregam vaselina na pele, em zonas mais susceptíveis de roçar. Vestem o equipamento já separado de véspera, com o dorsal preso a quatro alfinetes. Colocam o relógio. Conferem se não se esqueceram de nada. Dão um beijo nos companheiros ainda meio a dormir. "Depois fica à minha espera junto à placa do km 15", dizem. Conferem novamente se têm tudo. Boné (hoje vai fazer calor...), géis, telemóvel, mp3, alguns trocos. Saem de casa. Dirigem-se para Cascais ou para a Gare do Oriente.
Tanta gente, tantos sonhos, tanta dedicação de meses posta à prova. A energia sente-se, toda a gente está entusiasmada.

Toda a gente?
...

Eu estou estranhamente apática. Afinal, esta foi, há um ano, a minha primeira Meia Maratona. Tento justificar-me: Se calhar porque foi uma prova para a qual não me preparei; se calhar porque não estou confiante; se calhar porque os objectivos mudaram. Mas, a verdade, é que esperava aquele típico nervoso miudinho que antecede as provas e não estava a senti-lo. No entanto, tinha um encontro com a Ponte Vasco da Gama, e tinha de honrá-lo (além disso, era preciso estar muito mal para faltar a uma corrida, claro está).

Nesta prova, tive a companhia do meu amigo A., o que ajudou a passar o tempo na "prisão" do tabuleiro da ponte,

Como podem ver, um atleta, farto da espera, tenta derrubar as grades ;)

e que acabou por ser a minha lebre, naquela que provavelmente terá sido a sua Meia Maratona mais lenta de sempre.

Maré-baixa.

Se não estava entusiasmada de manhã, fiquei-o ao atravessar a linha de partida. Apesar de sentir as pernas um bocadinho presas, não comentei nada. Achava que conseguiria manter-me confortavelmente nos 6min. e pouco por quilómetro e isso seria o que bastava para fazer uma prova num tempo razoável (para mim) e sem perder a boa-disposição, que é o que se quer.

Os primeiros quilómetros foram passados com internos pedidos fofinhos para que as pernas não me deixassem ficar mal (eu sei que ainda estão cansadas, mas depois disto vão ter uma semana inteirinha de descanso. Colaborem comigo agora, por favor...) e, ao fim de três ou quatro quilómetros, o milagre deu-se e entrei facilmente no ritmo.

No km5 vejo o meu Pai que me veio dar uma forcinha, o que ajuda sempre. O ano passado tive o orgulho da sua companhia durante praticamente metade da prova mas, infelizmente, este ano anda com um problema no joelho e não me pode acompanhar.

Um dos pormenores que faz a diferença nesta prova é a presença de bandas a animar os atletas ao longo do percurso. Perto do km7, a vocalista cantava, numa versão livre de Gnarls Barkley, "I think you're crazy, you are ALL crazy. Probably." Eu diria antes: Definitely. E que loucura fantástica.

Perto do km10, começam os atletas da frente a regressar, o que serve de distracção, já que vamos sempre a ver se aparece alguém conhecido. Os Conhecidos, como a Dulce Félix, que fez uma grande prova após a perda recente do Pai (nem consigo imaginar o conflito de emoções que deve ser) e depois os "conhecidos", os "nossos", dos quais só vi, muito de passagem, o Bluesboy a grande velocidade (provavelmente já de olho no WC mais próximo :) ).

Esta foi a primeira Meia que fiz que posso dizer que esteve impecável a nível de abastecimento. E, a esse nível, a melhoria foi notória em relação ao ano passado. Os abastecimentos líquidos eram frequentes, e não esgotou a fruta, nem isotónicos, nem géis, que são coisas que nunca cheguei a ver em provas anteriores, só as embalagens e cascas no chão. Optei por não tomar nada disso, mas é bom saber que, em princípio, houve para todos. O único problema que tive foi que às vezes não era suficientemente rápida na luta pelas garrafas de água e entretanto perdia a vez! Os voluntários estavam concentrados numa extensão muito pequena. No entanto, como disse atrás, os abastecimentos eram frequentes e, por isso, acabou por não ser um problema.

Foi já só nos últimos 3km que tive uma pequena quebra. Começando cá de trás, basta manter um ritmo certinho que acabamos por passar a prova a ultrapassar pessoas (e não a ser ultrapassados, que seria o que sucederia caso começasse nas primeiras filas) e isso dá força psicológica, quando a física começa a faltar. Mas, não sei porquê, cheguei ao km18 e achei que estava a perder muita velocidade - o que não era verdade, os últimos quilómetros acabaram por ser os meus mais rápidos de toda a prova, mas na altura não parecia. Continuava a passar pessoas, mas parecia que ia muito devagarinho. O A. continuava a puxar por mim, mas eu, nesta fase, já punha em causa a nossa amizade (NÃO FALES COMIGO!). No km19 vejo o meu Pai, que quase nem me via passar (só para verem a velocidade louca a que ia... Ihih!) e depois segue-se a pequena subida junto à rotunda da CUF, que, com quase 20km nas pernas, já custa um bocadinho.

No final, um último esforço e acabo por cortar a Meta com 2h10 de prova e fiquei muito contente. (Obrigada A., amigos na mesma!)


Comi um geladinho, bebi a primeira Coca-Cola de há ANOS (não sou grande apreciadora) e ainda deu para curtir um bocadinho o concerto dos Xutos que, mais uma vez, fizeram a desfeita de não tocar a minha música.

Muito desapontada com vocês X&P, muito desapontada...

Ainda deu para ir almoçar a casa dos meus pais, que moram relativamente perto. Ali, sentadinha e descansada, só pensava nos amigos que, àquela hora, ainda estavam a correr a Maratona...

Perto das 14h saí. Já fazia 4 horas de Maratona, e sabia que, a partir dali, começariam a chegar. E esta é sempre a parte preferida das Maratonas que nunca corri: aplaudir. Adoro, pareço a maluquinha das palmas. É inspirador e tocante (posso até, em determinado momento, ter ficado emocionada...) ver o esforço e determinação das pessoas que, inclusive, me chegam a agradecer a mim, de estar a aplaudir, quando eles é que me estão a dar tanto.

Com isto, surgem inesperadamente o Vitor e o Jorge, cheios de força. Para terem uma ideia, quis acompanhá-los no último quilómetro da sua Maratona (estreia para o Vitor) e tive que puxar pelas pernas para os acompanhar, a eles, que já vinham com 41km em cima. Fantástico!

Soube pouco depois que o João, infelizmente, teve de abandonar a prova (mas já tem "vingança" com data marcada, é mesmo assim, determinação de corredor!) e voltei à marca dos 41km para ver chegar a Isa e poder também partilhar este momento com ela.
Não quero (ainda) correr uma Maratona de estrada*, mas não me importava de acompanhar 42 amigos no seu último quilómetro da distância! É mesmo um momento especial e fico contente por ter estado presente. Acho até que eles me deram mais força e motivação a mim do que eu a eles, mas ficou a intenção.

T-shirt e medalha Meia Maratona.

Agora, segue-se uma semana de pausa mais ou menos auto-imposta. Uma semana sabática, se assim quisermos. Não vou correr, mas tenho feito caminhadas e talvez vá dar umas voltas de bicicleta. Sentia necessidade de tirar uns dias para voltar com mais força e vontade.

*Apesar de ter adorado as vossas conquistas, tenho agora a certeza que as minhas pernas me puxam para outros caminhos. 2014 não será o ano da Maratona, mas será um ano de muitos quilómetros. Se tudo correr bem, muitos quilómetros assustadores e desafiantes. Mas isso é história para outro dia!

Parabéns, loucos que correm!

5 de outubro de 2013

Let's Rock'n'Roll!

Há quase um ano foi assim:



Os Grandes, os Sonhos (07-12-2012) 


Em Dezembro do ano passado, os amigos que iam correr uma Maratona nem enchiam os dedos de uma mão. Quase um ano depois, são pelo menos meia-dúzia. Estou muito orgulhosa de todos. São resilientes, lutadores, com uma desejada dose de loucura.
Apesar de a Maratona não ser um sonho meu, admiro as pessoas que escolhem objectivos ambiciosos e se dedicam à sua conquista. Mais depressa ou passo-a-passo, ao seu ritmo. Todos sabemos que a viagem até ao destino é grande parte da diversão.



Quanto a mim, apesar de ter recuperado rapidamente das dores musculares da amada Arga, sinto o cansaço de alguém que foi acumulando energia orientada para um objectivo específico, atingiu o pico, e agora está a ter uma descarga. Sei que irei fazer a Meia Maratona, mas o meu corpo ainda não sabe.

No treino de ontem, de apenas 6km, as minhas pernas, mal começaram a correr, viraram-se para mim e perguntaram: "A sério??!"

Mas amanhã lá estarei, por mim, para repetir os passos dados há um ano na minha primeira Meia e olhar as coisas com olhos diferentes, e porque quero estar presente num dia tão importante para os amigos das corridas. "Amigos das corridas", é assim que muitas  vezes me refiro a vocês quando falo com alguém "de fora". Alguém a quem todo o sentido deste epíteto pode passar despercebido. Somos amigos, unidos pelas corridas que gostamos de correr. Amigos que gostam de correr unidos pela corrida. Amigos que correm. Amigos. Quero estar amanhã à vossa espera.


Por isso os desejos são tão actuais como na altura:

"A todos os que correm atrás dos sonhos, força.
A todos os que conheço e cujo sonho se realiza já este domingo, uma boa prova. São grandes como o sonho que seguem
."

Até amanhã!

3 de outubro de 2013

Grande Trail Serra d'Arga

Ela enfrenta os elementos de uma manhã cinzenta e chuvosa a caminho da Serra d'Arga. Ao volante, tem ainda o conforto de um abrigo climatizado que sabe que terá de abandonar não tarda muito.
Há poucos carros àquela hora na estrada. Apesar da sua prova só começar às 10h, quis chegar cedo e assistir à partida daquela corrida que desejava sua.
Ao fundo, consegue adivinhar já os contornos da Serra encoberta. Está quase. Com uma atenção que parece mentira numa cara que traz ainda consigo os sinais do sono, segue as placas. A Freguesia de Dem dá-lhe as boas-vindas. Chegou.

Assim começa o romance sobre o que foi a minha prova. Vou dar-lhes a hipótese de um atalho: 3h06 de uma aventura por montes e vales encharcados que terminou a saber a pouco. Basicamente, foi esta a história toda. No entanto, para os resistentes, os ultras das palavras que me quiserem acompanhar, fica o longo e tortuoso caminho que distingue cada participação individual numa prova de muitos.

Antes de mais, um apontamento curioso: na minha cabeça, Dem, o nome da freguesia onde a história tem lugar, pronunciava-se da mesma forma que a palavra inglesa "damn". Mais tarde, ao ouvir o discurso de Carlos Sá, apercebi-me de que a palavra se lê acentuada como a conjugação do verbo Ter - tem. Mas vou manter a minha convicção anterior. Para mim, aquela vai ser sempre a Freguesia de Damn!, interjeição adequada à memorável prova que alberga e às condições em que a realizei.

Como em todos os locais onde se vai realizar uma corrida, as t-shirts, neste caso os impermeáveis, garridos, indicam a aproximação do ponto de encontro. Estaciono onde posso num mar de pessoas e carros que enchem uma vila que se adivinha, no resto do ano, pacata. Dirijo-me para o edifício da Junta onde vou levantar o dorsal contra entrega de um termo de responsabilidade (não isento de alguma polémica nos dias anteriores) onde assino, caso acidente ou morte, ser senhora consciente e capaz do meu destino. No fundo, é sempre assim, mas vê-lo por escrito dá-lhe um peso que no dia-a-dia esquecemos. Saio e enfrento a chuva que me bate na cara com uma consciência mais profunda disto de estar viva.

Corro e chego mesmo a tempo de, ao contar das oito badaladas do sino da igreja, assistir à partida dos atletas da Ultra.


Enquanto aplaudo, vejo-os seguir e reconheço em alguns o semblante entre o nervosismo e a excitação pelo desconhecido. Sobem e perco-os de vista. Lá em cima, a Serra aguarda-os.

Como a chuva não dá tréguas, volto para o carro e tento dormir um bocadinho. Sinto a moínha de quem pouco dormiu devido à ansiedade, mas nem pensar que consigo fechar os olhos. Aproveito e tiro fotos ao equipamento.

Close-up do six-pack da jersey oficial do GTSA.
(Os melhores abdominais que alguma vez irei ter).


Com o aproximar da hora e sem melhorias no meu estado de sono, resolvo ir beber um café e enfrentar as costumeiras filas para a casa de banho. O café é a três passos da partida, e muita gente abriga-se ali enquanto aguarda a chamada para o controlo zero que, devido às condições atmosféricas, acabará por não acontecer.

Vista do café.
A aguardar.

A caminho da partida

Nesta altura o Carlos Sá fala um pouco connosco e alerta para as condições difíceis, sobretudo no topo da primeira subida, onde estava previsto o primeiro abastecimento mas que, devido ao vento forte, não foi possível estruturar. Nesta altura distraio-me a fazer um pequeno vídeo do ambiente na partida e perco uma informação importante que vai fazer com que a minha chegada à meta seja um bocado anti-climática: o corte de uma parte do percurso junto ao rio, devido à subida das águas.

Aqui está o vídeo:


E uma foto do Sá a falar com os atletas:


Com o bater das 10h, dá-se início à nossa aventura. Gostei deste pormenor de partirmos com as badaladas.

Aí vamos nós.


 A subir, claro.

Lembram-se?

Apesar de nunca aqui ter estado, a rua que subimos tem a familiaridade das terras pequenas. Casas com a chaminé a fumegar, cães a ladrar nos quintais, pessoas a coberto da chuva nos beirais das portas a olhar para os loucos que correm de livre vontade a sorrir para a tempestade, a caminho do topo.

Procuro um impermeável rosa, que era a indicação que tinha da minha companhia para estes 21km, mas não encontro. No entanto, vou bem. Para dizer a verdade, apesar de estarmos sempre a subir, perto dos 2km pensava "ok, isto até não está a ser assim tão mau...".


Mas, com o acumular dos metros, a dificuldade aumenta. A inclinação torna-se mais acentuada, a chuva começa a bater com tal intensidade que parece granizo, há água por todo o lado e as rochas escorregam. O instinto que leva a preservar os pés secos durante o máximo de tempo possível já se foi. Começo a sentir as dores da subida nos rins, mas nos músculos nada. Toco nas pernas, estão geladas, nem as sinto, está explicado!

Neste momento só vejo as pernas e pés que vão à minha frente. Reconheço atletas pelos ténis ("hum, não passaram já por mim há cerca de 300 metros, salomon vermelhos?") Noto se pisam firmes ou escorregam. Não adianta olhar para cima que não vejo nada e ainda estou a recuperar da brutalidade de uma rajada de vento mais forte, que me assustou. Valeu-me o material obrigatório a fazer peso na mochila! Para compensar a visibilidade limitada, outros sentidos começam a emergir.
Splash, os pés nas poças...
Ploff, os pés na lama...
Crac, os pés partem ramos...
A respiração, minha e dos outros...
"Falta muito", gritam em tom de brincadeira.
Há quem fale, já, do repasto que irá fazer ao almoço.
Há quem faça comentários sobre o temporal, intercalados com "vírgulas do norte", se é que me entendem...
Há quem desabafe abertamente que, se tivesse juízo, teria era ficado em casa a fazer amor com a mulher.
A audição assume um papel tão importante e, ao mesmo tempo, tão recreativo, que nas provas de trails dispenso sempre os auriculares.
Hoje, o barulho que se sobrepõe a todos os outros: o vento.

Devido ao mau tempo, saquei poucas vezes do meu telemóvel durante a prova. Para além de não o querer afogar, toda a atenção era pouca. Mas, para terem uma ideia das condições no topo dos 3km, e a razão do abastecimento ter sido abortado, este pequeno vídeo, de 30 segundos, já muito partilhado por essa net a fora, é bem exemplificativo.

Na altura ainda não sabia, mas esta fora a pior parte. Pelo menos, em termos de vento, daí para a frente a coisa será mais pacífica.

Estamos neste momento a percorrer um dos cumes da Serra. Por entre a névoa distingue-se a cor predominantemente amarelada e cinza, com frescos rebentos a pontuar de verde aqui e ali. "Foi um incêndio recente", conta-me um rapaz por quem passei.
Com raios de sol a fazer tentativas vãs de furar aquele nevoeiro, a paisagem adquire tons de uma melancolia surreal. Do nada, vem-me à memória o filme do Senhor dos Anéis, e a terra envolta em bruma e pântanos que Frodo e os companheiros tiveram de atravessar para chegar a Mordor. Rio-me para mim das coisas tolas que me vêm à cabeça, mas não consigo deixar de encontrar parecenças entre os dois cenários, embora não haja aqui nenhuma aura de maldição a assombrar a experiência. Pelo contrário, é tudo bastante sereno. Sinto a calma depois da tempestade.


Sou interrompida das minhas digressões cinéfilas por um senhor que já conheço de outras corridas. Seguimos durante um bocado a falar de provas anteriores e futuras. Agora estamos a descer. Ele, ágil como uma cabra dos montes a saltar de pedra em pedra. Eu, ágil como uma cabra dos montes embriagada. Achei que era melhor deixá-lo seguir. Ainda havia muitos quilómetros pela frente, e não tinha vindo de tão longe para me esbardalhar tão cedo no percurso.

Muitas pessoas aproveitam para recuperar velocidade. Vinha eu com medo das subidas e afinal é nas descidas que toda a gente me ultrapassa. Isto do "deixar-nos ir" tem mais ciência do que parece. Tenho de tratar disso.

Mais um par de pernas que oiço a aproximar-se, mais um atleta a ultrapassar-me. "Oláaaa", viro-me, e era, nem mais nem menos, do que o meu "adversário" de outros trails. Já terão ouvido falar dele nos meus relatos de Mafra e Almonda, um senhor que corre mais ou menos ao meu ritmo e que por isso elegi como meu adversário imaginário. Engraçado, acabamos sempre por falar um bocado, mas nunca cheguei a perguntar-lhe o nome. Também não foi aqui na Arga que o soube, mas de certeza que nos cruzaremos mais vezes.
Não conhecia ninguém na prova dos 21km e, no espaço de 5 minutos, encontro duas caras familiares. Aqui, tão longe de casa. É a pequena aldeia do trail.

No km 7, o primeiro abastecimento.


Aproveito para comer um bocadinho de banana (levei em conta as vossas recomendações anti-cãibra) e beber água. No meio daquela chuva toda não dá muita sede, mas achei melhor hidratar.

Vemos um grupo de rapazes chegar vindo da direcção contrária e perguntar o caminho dos 21km. Tinham-se perdido ao seguir indicações erradas. Com medo da falta de sinalização (não me admirava que alguma tivesse voado com aquele vento), "colei-me" a um casal e seguimos juntos durante uns tempos, atentos às curvas do percurso. Não houve confusões e estava tudo em ordem.

A poucos metros de iniciarmos a segunda subida, a caminho do Mosteiro, uma pequena manada, livre, de cavalos passa por nós. Não fui suficientemente rápida a sacar o telemóvel, mas eram estes:

Foto da página do GTSA.

Reconheci-os por causa do cavalo que se vê na foto, e que foi atacado uns dias antes por lobos. Sim, Arga também tem lobos, mas fui na confiança de que teriam mais medo de nós do que nós deles. E, a verdade, é que não se avistou nenhum.

Esta segunda escalada foi muito bonita. Mais verde, mais árvores, pequenos riachos. Eu continuava sem dores nenhumas (bendita anestesia do frio!) e sentia-me uma criança vingada, dos tempos em que queria andar solta pela chuva e a minha Mãe me obrigava a vestir o casaco (kispo) e a usar chapéu. Odiava guarda-chuvas. Hoje em dia, não só ando a correr à chuva e a pisar poças deliberadamente, como pago para isso. A minha Mãe deve estar orgulhosa.

(Desfocada, é pena.) Aqueles dois atletas aproveitaram para um descanso zen.

Por esta razão, achei rápida a ascensão até ao Mosteiro, onde estava o segundo abastecimento, desta feita apenas de líquidos.

Noto que algumas pessoas passam pelos abastecimentos sem parar, o que faz sentido, se forem munidos com a sua própria hidratação e combustível, o que até era o meu caso. Mas eu tenho esta ideia estranha de que se não parar em todos os abastecimentos a experiência de trail não fica completa. Podem até ser apenas alguns segundos, cumprimentar os voluntários, engolir a água e partir, mas tenho sempre de "picar o ponto". Provavelmente, se estivesse a competir não o faria, mas sendo assim acho sempre que posso dispensar alguns minutos. (Digam-me que não sou a única com esta mania).

De seguida atravessamos uma zona de bosque mais cerrado, o chão coberto de agulhas secas de pinheiro parece esponja onde os nossos pés pisam e afundam. A subida, para não variar, é íngreme e aos ziguezagues. Invejo os bastões que leva o atleta da frente e quase que me arrependo de ter acabado por não levar os meus. Nas descidas torno a achar que fiz a escolha certa.

Quando é possível correr outra vez, numa daquelas raras rectas em estradão, passo por um rapaz a correr com companhia canídea por uma trela. O cão tem a sua própria t-shirt reflectora e tudo! Segundo o dono, ela (era uma cadela) estava a aguentar-se muito bem, ele é que não. Seguem mais lentos e acabo por deixá-los para trás, ficando na memória a cadela encharcada, de língua de fora, mas com um ar feliz da vida.

Este é outro dos aspectos que aprecio nos trails, a possibilidade de se conversar com as pessoas. Regra geral, se passo por alguém e vamos ali os dois sozinhos, meto conversa. Quer dizer, estamos sozinhos, no meio de um bosque, temos de fazer conversa, certo? Nem que seja um comentário banal. É uma regra de etiqueta dos trails (que acabei de inventar), que têm essa vantagem em relação às provas de estrada: a recuperação de fôlego de tempos a tempos, seja em abastecimentos ou em caminhadas forçadas/obrigatórias.

E, por falar nisso, chegamos ao terceiro e último abastecimento do Trail Longo, cerca do km14. Como novamente metade de uma banana e duas tostinhas com mel que me aconchegaram o estômago para os quilómetros finais. Sabia que ainda teria 2 quilómetros a descer antes de iniciar a última subida até à meta, por isso era aproveitar.

Aquela subida final, sempre ladeando o caudal do rio, foi a mais desafiante, mas também uma das zonas mais bonitas do percurso.



Entre ir com atenção ao local onde colocava os pés, para não escorregar, ou onde colocar as mãos, para me apoiar (tive uma mão amiga que me deu uns puxões, embora eu temesse a qualquer momento ser a causadora da nossa queda e possível morte), ainda tive tempo de parar a olhar extasiada para as cascatas formadas pelo rio. Não me contive e disse para o senhor que vinha atrás de mim: "Espectáculo, não é?" Ele assentiu, rindo-se, e perguntou se era a primeira vez que fazia este trail...

Sim, era a primeira, mas não vai ser a última.




Um homem à beira do caminho incentiva os amigos, dizendo que já só faltava um quilómetro e era relativamente plano. O meu relógio apontava 17km e (como não prestei atenção ao briefing inicial, lembram-se?) pensava que ele estava a brincar, como aquelas coisas que se diz, às vezes ao fim de apenas uns metros da partida: "já falta pouco".
E foi por isso que continuei no meu passo controlado e lento, perdida em pensamentos, quando, ao virar de uma curva, me surge a Meta à frente! Como?? Mas passaram 18km! Acho que não há fotos minhas da chegada mas, se houvesse, iriam mostrar o meu ar incrédulo estampado no rosto.

Só quando uma rapariga me estende o colete de finisher é que me cai a ficha. Estava feito. Tinha terminado a minha experiência na Arga, aquela pela qual ansiei durante tanto tempo e que temi um bocadinho. Embora cansada, não estava derrotada, e queria mais.

3horas no temporal de Arga souberam a muito pouco.

E é assim que, milhões de caracteres depois, chegamos à conclusão que vos dei no atalho.

Poderia agora falar-vos dos amigos que encontrei e fiz no final. Poderia contar-vos sobre a viagem de camioneta de regresso a Dem (a nossa meta ficava noutra terra) e como estava a ver que vomitava de tão maldisposta que fiquei em 10 minutos de percurso. Poderia contar-vos a aventura daqueles chuveiros que teimavam em só dar água quente à vez. Poderia dizer-vos como foi bom ficar para ver chegar pessoas dos 45km, fatigadas mas felizes, recebidas com um aperto de mão pelo Carlos Sá. Poderia... mas são muitos sentimentos para palavras que já ocupam demasiado espaço.
Fica para um dia, quando nos cruzarmos por aí numa qualquer prova de trail, e eu meter conversa porque somos os únicos ali, sozinhos, a correr no meio do bosque. :)


(Farei apenas umas últimas considerações práticas, no próximo post, para encerrar o capítulo Arga (ohhhhh...). É que este fim-de-semana tenho uma Meia Maratona e ainda tenho de convencer as minhas pernas disso...)