28 de novembro de 2013

O Dom da Paciência

 
Quando Deus distribuiu a virtude da Paciência eu não devia estar presente. Provavelmente estaria a saltar de nuvem em nuvem, em busca do topo para ver as vistas do céu e, quando cheguei à distribuição, já só apanhei aquela Paciência do fundo do cesto, como as frutas pisadas que sobram depois de um dia de promoção na secção de Frutas e Legumes do supermercado.

Sempre pensei que fosse daquelas coisas que haveria de mudar com a idade, como o dia em que acordei e, afinal, já gostava de comer cogumelos, depois de ter passado toda a minha vida a pô-los à borda do prato, ou com a vivência, como o dia em que dei por mim a defender fervorosamente uma opinião contrária àquela que fervorosamente tinha defendido até então, em temas polémicos. Talvez se trate de uma faceta do próprio carácter e, portanto, seja difícil de alterar, mas uma pessoa vai aprendendo alguns truques. Aprende a controlar a impulsividade, aprende a tentar lidar de forma mais sábia com os interregnos e contratempos mesmo que, para o fazer, precise de respirar fundo cem vezes, mil vezes.

Tudo isto porque, devido à dor no joelho, fui obrigada a abrandar, e isso não me agrada. E não me agrada é eufemismo.  Revolta-me, irrita-me, dá-me volta ao estômago. Não porque correr seja a coisa mais importante do mundo. Correr vem atrás de várias coisas na lista de prioridades da vida, mesmo o atleta mais empenhado o dirá. Mas é daquelas coisas que uma pessoa gosta e habitua-se a ter ali, ao pé de semear.  Corria quando estava chateada, corria quando estava triste, corria porque estava feliz. Treinava ou, simplesmente, corria só porque sim. Era tão simples como calçar os ténis. Era uma coisa garantida. Agora, dou por mim a olhar para quem passa a correr e a pensar "não sabem a sorte que têm". E não sabem, nem eu sabia. Foi preciso passar um ou dois treinos numa prece mental "por favor não doas, por favor não doas" e chegar ao fim contente, apenas porque corri sem dores, para dar valor.

Claro que ainda não estou completamente recuperada. Em vez de pesquisar planos de treino, agora repito esquemas de alongamentos, deixo provas em stand-by e troco contactos de especialistas, só para o caso. Faço-o, porque sei que é a atitude mais inteligente a tomar, mas isso não significa que o faça com gosto ou até que o cumpra com o rigor que deveria. Não ir correr este domingo como já estava marcado, custa-me.

Há coisas piores, dirão vocês. O importante é recuperares. Eu sei bem, são coisas que já eu própria disse a várias outras pessoas. A questão é que todos os conselhos de calma e esperança, que tão sensatamente transmito aos outros, são perdidos em mim.

Quando nos calha a nós, é mais palpável a noção do tempo que passa sem correr. É mais urgente a vontade de recuperar a liberdade que é ter a resposta certa do nosso corpo.
 
 
 
 
Sei que o importante é ser/estar saudável, sei que o importante é a ultra de quilómetros que espero percorrer até ser velhinha. Sei disso tudo, e não deixo de estar grata. Mas agora dêem-me só um momento para ir ali para um canto resmungar um bocadinho e respirar fundo cem vezes, mil vezes. Isto passa.
 

20 de novembro de 2013

Trail do Zêzere

O ponteiro grande do relógio avança e completa a nona volta do dia. Cronometrado, o sino que coroa o edifício da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere toca nove vezes. Rotações mecânicas repetidas ad infinitum ao sabor do tempo e que poderiam passar despercebidas de tão certas. Mas hoje não é um dia normal, hoje, um aglomerado de atletas enche a praça e presencia estes segundos em expectativa. Hoje é dia de corrida.
 
Eu olho para o meu relógio, como se necessitasse de mais uma confirmação, ansiosa. Um grupo de corredores, no qual me incluo, rodeia uma senhora pequenina, de caderno na mão, engolindo-a na pressa de passar o controlo zero.
 
 
Estamos atrasados. O tempo não espera, mas a organização sim. São 9h09 quando estamos finalmente todos alinhados para dar início à corrida.
 
Ao microfone, alguém anuncia pormenores sobre o percurso, alertando não se tratar de um trail bom para estreantes, devido à dureza das suas características. Ouvem-se gargalhadas, algumas nervosas. "Ai agora é que avisam?!". Se havia por ali estreantes, nenhum se retirou. Mas ao menos não podem dizer que não foram avisados...
 
Confesso que quando me inscrevi neste trail não estava à espera do que fui encontrar. Pelo que tenho lido por aí, quase ninguém estava. Pensava que seria um passeio tranquilo, nas margens do rio Zêzere... :) É certo que li no site da prova, uns dias antes, tratar-se de um trail de "dificuldade elevada" mas, num momento de fanfarronice, considerei que isso seria subjectivo. Quer dizer, tinha sobrevivido ao Almonda, tinha feito Arga com muito mais facilidade do que estava à espera, quão mais difícil este trail poderia ser? Certo? Tão errado...
Além disso, como sabia que ia um bocado destreinada, nem quis analisar febrilmente o gráfico de altimetria, como habitualmente faço, indo um pouco às cegas, para "não me assustar". Agora, a posteriori, até acho que foi uma benção, embora me tenha valido algumas mortes. É isso: morri e ressuscitei várias vezes durante este trail, é a melhor forma de resumir a minha prestação nesta prova que teve tanto de dura como de espectacular.
 
Normalmente lembro-me das provas que faço quase ao quilómetro. Esta é excepção. Sei que teve subidas assombrosas e descidas brutais e sei que começámos sempre a descer, talvez durante os três primeiros quilómetros. Recordo-o porque, como tenho tido queixas do joelho nas últimas semanas, ia com medo de estar já a massacrá-lo com descidas quase verticais, tendo ainda mal aquecido.
 
 
Refilei um bocado, mas não foi ainda aqui que "morri".
 
Claro que tudo o que desce tem de subir. Primeiro lentamente...
 

Atentem nas formiguinhas coloridas ao fundo.
 
Depois de forma abrupta. Não tenho fotos da primeira subida dolorosa, mas vão ter de acreditar nas minhas palavras. Nesta parte comecei logo a sentir uma morte anunciada (o que por volta dos 6 ou 7km é sempre animador....), mas ainda mantinha uma postura de corrida mais ou menos digna, tentando manter o centro de gravidade alinhado e ombros elevados. -> Lembrem-se disto, que eu já retorno ao assunto daqui a uns quilómetros.
 
No topo da primeira encosta conquistada avista-se o rio. Inocentemente, pensei que as piores subidas já estavam para trás, respirei fundo e apreciei o momento.
 

Estar ali, naquele dia, ter a sorte de poder participar em coisas destas, conhecer novas paisagens ou revê-las de diferentes perspectivas...

 

O joelho começou a dar sinal nesta descida, mas a moral estava recuperada. Além disso, o primeiro abastecimento, após o km9, aguardava-nos.
 

 
E que belo local para recuperar forças, mesmo junto ao rio, perto de uma praia fluvial. Havia fruta, marmelada e líquidos disponíveis. A organização cumpriu o anunciado e não havia copos, tendo cada um de recorrer ao recipiente que houvesse trazido. Achei bem, já que é uma forma de evitar mais desperdícios. Achei bem, mas claro que não tinha trazido nenhum copo, apenas a mochila, o que não dá jeito estar sempre a reabastecer, nem me lembrei desse pormenor... Valeu a companhia, e o copo, do amigo A.
Aqui, aproveitei para tomar um gel, na esperança de renovar as energias. Já me tinha apercebido que este ia ser um daqueles dias em que temos de procurar bem no fundinho de nós por forças extra, aquelas forças que vêm não se sabe bem de onde, e que às vezes é preciso convencer a sair.
 
E bem que tive de implorar por elas, quando, saindo do abastecimento, voltamos novamente em força às subidas.
 
 
 
Aqui perdi completamente o decoro e lá se foi a boa forma, postura, técnica de corrida ou o que lhe queiram chamar. Era cabeça baixa, costas dobradas, rabo para cima (peço desculpa aos vizinhos de trás), mãos agarradas às coxas, num esforço tremendo para continuar a subir. Sentia os músculos todos a queimar e só me concentrava na próxima curva, na esperança de ver uma recta. Quando cheguei, FINALMENTE, ao cimo, estava cheia de "dores nas cruzes", como disse na brincadeira, mas ao menos cheguei, caraças! E assim se foi mais uma vida.
 
É então que começamos a aproximar-nos de mais uma zona de perigo.

 
Em termos de sinalização, há que dar os parabéns. Foi das provas mais bem sinalizadas em que participei, se não mesmo a melhor. Marcação de todos os quilómetros, zonas de perigo, aproximação de zonas de abastecimento e até de zonas de controlo. Impecável mesmo. Não houve nunca qualquer dúvida em relação ao caminho a seguir.
 
Neste local em específico, começamos a descer num single-track inclinado e cheio de pedras para, uns metros à frente, nos depararmos com isto:
 
 
 
A "parede" da prova. A escarpa que tivemos de escalar, literalmente. Sabem quando em algumas subidas se diz "mandem uma corda"? Era assim, mas com uma corda a sério.
 
Em baixo, ao fundo, um grupo de bombeiros observava, atento. Até tinham uma maca a postos, para qualquer eventualidade. Nervosos, fizemos umas piadas com isso, numa tentativa de aligeirar o ambiente. Era uma visão assombrosa que, curiosamente, me deu novo ânimo. Isto sim, é aventura!
 
Cascata, infelizmente com pouca água, vista de cima.
(A metade da subida).
 
Sei que se trata de gosto pessoal, mas prefiro este tipo de trails que nos apresenta outros desafios para além do "correr". São testados outros limites. Por isso, ressuscitei novamente neste local, mas com juizinho.
 

Está quase...
 
I'm the king queen of the world!
 
 
Uma das minhas partes preferidas da prova ficou para trás e o segundo abastecimento não tardava, para recuperar forças e diminuir o ritmo cardíaco que atingiu os limites máximos devido ao esforço e, sobretudo, adrenalina.
 

Local que não é mau de todo para descansar...
 
O segundo abastecimento ficava num miradouro e houve quem tenha aproveitado para se sentar um bocadinho. Eu achei melhor não, porque depois ia ser o cargo dos trabalhos para convencer as pernas a levantarem-se. Bebi apenas um copo de água, e aqui vamos nós novamente.
 
 
Vamos descer durante um bocado, o que me atrasa o passo, com medo de forçar o joelho. Confesso que me começava a sentir um bocadinho frustrada. As subidas estavam a ser um tormento, mas depois também não podia recuperar nas descidas, sendo que as rectas eram quase inexistentes. Há quem passe por nós com uma belina de fazer inveja! (Quando for grande quero descer assim.) Tive de aceitar que não estava nos melhores dias e que teria apenas de fazer o melhor que pudesse, aproveitando a surpresa agradável que estava a ser este trail. Julgava eu que vinha para um "passeio"... Ehehe!
 
E por falar em surpresas...

                                          Nova "zona de perigo".
Um carreiro de cerca de 50 cm de largura, preso entre rocha e precipício. Na foto não dá para ver (e depois também não quis estar a brincar com o telemóvel), mas havia uma corda presa ao rochedo, a servir de corrimão. Dezenas de metros onde não se corre, mas sente-se o coração a bater no peito. Sempre sob o olhar atento de voluntários (mais uma nota positiva).
 
Aqui, por força da velocidade limitada, vai formar-se um pequeno grupo de pessoas, com as quais seguiremos em conversa durante os quilómetros seguintes. Fala-se de vertigens e outras fobias. Há, inclusive, ali uma altura em que não se vê mais ninguém, nem para trás nem para a frente. Somos só nós, à descoberta deste Zêzere tão inesperado.
 
 
 
Em boa hora aparece a tabuleta acima, que eu já começava a sentir-me novamente de rastos. Claro que eram 500 metros sempre a subir, mas ao menos sabemos que vamos ter comidinha (e uns minutinhos de descanso) a premiar o esforço.

Está quase...


Chegámos!
 
Foi uma cruz para aqui chegar...


Mas o topo é nosso!

 
A partir daqui faltam apenas 4km para a meta, mas foi muito complicado para mim. Era joelhos a queixarem-se nas descidas e rabo a queimar nas subidas. Mesmo subidas daquelas perfeitamente "corríveis" já eram um sacrifício. Fazia ouvidos de mercador aos incentivos do A. para "rolar mais um bocadinho". Sim, sim, já te apanho...
 
Até mesmo no meio de uns dos meus cenários favoritos para correr, vejam-me só isto...
 
Tão lindo, e eu sem pernas...
´
Só o facto de começarmos a cruzar-nos com os atletas da caminhada é que pareceu inflamar o meu orgulho. Tive de ter aquelas conversas mentais auto-motivadoras. Já estiveste em situações de prova muito piores!! (Bendito Almonda que agora é sempre a minha bitola de sofrimento...) Vais terminar a correr ou vais terminar a correr??!
 
- Vou terminar a correr. (Boa menina...)
 
Foi complicado, não vou mentir. Já quase a chegar à vila passo por um rapaz que também ia em dificuldades e tento passar-lhe alguma força. "Vamos juntos, que é mais fácil". Infelizmente, ele teve de parar para caminhar e eu queria terminar a correr.
 
Vejo o pavilhão municipal ao fundo, onde levantámos os dorsais e onde será a meta. As pessoas por quem passamos já gritam: "Está feito!" Mas eu sei a verdade, feita estou eu.
 
Devagarinho, devagarinho.... Entramos e damos meia volta ao pavilhão, ao estilo 200 metros em pista, mas câmara lenta, e cortamos a meta. Xiça, custou tantooo!
 
Foi uma surpresa. Uma surpresa dura, mas uma surpresa boa.

A organização, para um primeiro evento, esteve impecável. Falhou posteriormente, a nível das classificações, já que não houve registo de tempos no K23, mas como eu guardo sempre o meu registo pessoal no garmin, não me afectou muito, embora seja chato para quem goste de saber o tempo que fez e não possua esses aparelhos. (*Actualizado: esta situação das classificações foi posteriormente solucionada com recurso a fotos e vídeos da chegada, o que deve ter dado muito trabalho e só abonou a favor da organização). No entanto, muito difícil alguém perder-se (e já se sabe que nestas provas é o prato do dia), devido à excelente sinalização e apoio humano constante ao longo do percurso.

Pessoalmente, gostaria de ter ido mais bem preparada (mas sem ilusões, ia ser difícil na mesma), mas às vezes há que ter estas mortes para aprender a viver. Para o ano, como já sei ao que vou, volto ainda com mais vontade.

Zêzere, obrigada pelo empeno! É assim que sabemos que vale a pena. Quando, 3 dias depois, ainda tenho memórias tão vívidas tuas, sobretudo, não sei porquê, quando me sento ou desço escadas...




17 de novembro de 2013

Ai querias escalar?...

 
A dia 12 deste mês, escrevi por aqui o seguinte:

Sem dúvida, é isto que quero continuar a fazer daqui para a frente: buscar novos cumes, sempre a procurar horizontes maiores. Até despertei a vontade adormecida de experimentar escalada um dia destes.


Como é que se costuma dizer, "be careful what you wish for..."?


Toma lá!

Escalada por rochas e escarpas com direito à ajuda de uma corda e tudo.
 
O Trail do Zêzere não foi para meninas. Foi um trail muito duro, o que, aliado aos meus poucos treinos nas últimas semanas, fez mossa.
É daquelas coisas que não sabemos se é uma tortura linda ou uma linda tortura. Daquelas corridas em que ficamos (muito) felizes por participar, mas ainda mais felizes quando terminam.
 
Quase 24km com um acumulado positivo a roçar os 1000 metros. Ouch! Ouch das pernas, ouch dos joelhos, ouch dos pés, ouch das costas... e ouch do coração se para o ano não volto lá!
 
Resumo da prova em seguida.
 
Boa semana!
 
 


12 de novembro de 2013

Sabemos que grande parte do nosso tempo ao ar livre é passado a treinar quando...


... estamos já bem entrados no Outono e as nossas pernas apresentam ainda diferentes colorações.
 


Claro que esta situação foi agravada pelo facto de quase não ter ido à praia este ano, pelo menos para me bronzear uniformemente, claro está. É verdade que já estive bem pior, mas, neste momento, as minhas pernas quase poderiam ser um daqueles catálogos de cor de pele para escolha da base mais adequada, estação Outono-Inverno, nas lojas de cosméticos (as senhoras sabem do que eu estou a falar).
 
Dizem que as madeixas californianas estão na moda, mas eu acho que o bronze de atleta está mais. Pelo menos é isso que digo em minha defesa, e sei que de certeza há por aí muita perna nos mesmos modos, ocultada pelos trajes do tempo mais fresco...
 
 
Agora falando de treinos, ao ar livre ou não. Nas últimas semanas os quilómetros têm sido poucos, devido a motivos que aprofundarei noutra oportunidade. Poderia ter aproveitado para fazer outro tipo de exercícios, e até tenho, mas não é bem a mesma coisa... Conforta-me saber que, pelo menos, tornam-me mais forte e talvez, com jeitinho e muita força de vontade, se tornem rotina.
 
Este fim-de-semana tive de ir fazer um teste às pernas, para ver como me sentia para a prova do próximo fim-de-semana, e não correu mal. Fartei-me de fazer desvios ao "mapa", para subir montes e percorrer carreiros em direcção a formações rochosas, só para poder subi-las, chegar lá acima, sentir o vento e abrir os braços. Não sei porque é que o ser humano tem esta atracção por locais altos, por escalar topos, sejam eles os Himalaias ou uma encosta de 100 metros na serra de Sintra, ou simplesmente subir até ao Anfiteatro Keil do Amaral na mata de Monsanto, mas esse apelo existe. Há sempre o objectivo de um cume. Se calhar porque queremos sempre a vista desafogada de um horizonte maior. É libertador.
 
Sei que corri, depressa, devagarinho, andei um bocado, e diverti-me. Cerca de 13km com aproximadamente 400m de acumulado positivo, só para divulgar os dados mais técnicos da coisa.
Sem dúvida, é isto que quero continuar a fazer daqui para a frente: buscar novos cumes, sempre a procurar horizontes maiores. Até despertei a vontade adormecida de experimentar escalada um dia destes. O que vai ser giro, não tivesse eu um bocado de vertigens... (Não é impeditivo, só mais desafiante!)
 
Para já, este domingo, o topo do Zêzere.
 


6 de novembro de 2013

Treino por trilhos de Sintra - Pedra Amarela

Numa busca de novos campos de treino, chateei até vencer pela exaustão pedi que me levassem a conhecer mais trilhos na zona de Sintra, muito percorridos pelo bttista da família. Assim sendo, domingo de manhã, mochila equipada à costas - bolsa com 1 litro de água, guardanapos de papel, barrinhas, manta térmica que não cheguei a retirar desde Arga (não pesa nada e nunca se sabe, por isso agora fica ali), telemóvel - partimos em direcção à Barragem da Mula, em Sintra.

Tínhamos acesso a um track no gps que, se tudo corresse bem, nos levaria a passar na Pedra Amarela, um dos meus requisitos, por ficar sempre cheia de inveja quando via as fotos dos amigos nesse local.

Deixem que vos diga que, correr seguindo o mapa do gps, foi toda uma experiência de orientação. Suspeito que o autor do track (retirado do gpsies) tenha andado um pouco perdido ao início, o que explicaria as constantes mudanças de direcção sem sentido, mas a partir do km1 estabilizou, e a partir daí foi só seguir a seta.
 
Local de partida.
 
Uma das vantagens de ter gps é evitar perdermo-nos, quando não conhecemos bem a zona (o que pode acontecer na mesma, ou não). Outra é que, se escolhermos bem o track, vai incluir carreiros pelo meio da vegetação e alguma escalada, onde, de outra forma, teríamos algum receio de arriscar sem conhecer a saída.

Afinal, qual é a piada de correr só pelos estradões de terra, certo? O que dá gozo é andar à descoberta por trilhos fora da vista do transeunte comum e, por vezes, ter a sorte de encontrar pequenos tesourinhos ocultos.


 
A qualidade fotográfica não é muita, mas juro-vos que passava aqui uma pequena ribeirinha, e o caminho partilhava o mesmo curso da água (como não tinha chovidos nos últimos dias, dava para correr sem pôr os pés de molho).
 
Portanto, começamos a subir a zona da Barragem, desviamos para uma zona com um parque de escalada, seguimos o estradão durante uns 300 metros e viramos à esquerda para um caminho alternativo. Daqui em diante, alternamos entre os chamados "single-tracks" e caminhos mais largos por entre o bosque. 
 
Mais ou menos a meio do trajecto, passamos por um daqueles bairros "horríveis". Cheios de trânsito, ruído, paisagens feias... Ou o contrário de tudo isso.

Como podem constatar, vizinhança horrível... ;)

 
Inquilinos cheios de sorte, com vista do primeiro balcão para o mar e de costas coladinhas à Serra. O cheiro de serra misturado com maresia enche-nos sempre os pulmões até à alma... Pelo menos a mim, sim. E aquele silêncio ruidoso da Natureza? Agora já sei porque é que há tanta gente que se sujeita ao trânsito da IC19 em direcção a Lisboa durante a semana, é para voltarem para casa para isto.



O "bairro" que percorremos em seguida dá pelo nome de Floresta Encantada. E, desta vez, não sou eu a inventar os meus habituais epítetos, há mesmo uma área florestal com este nome, não é fantástico?

É o meu tipo de paisagem favorita: floresta densa, verde, troncos cobertos de hera e musgo e, nesta altura do ano, montes de folhas secas para pisar. É um dos prazeres da corrida no Outono, correr com o crac crac das folhas a marcar o ritmo e, por vezes, saltar para cima daqueles montes de folhas arrumadinhos a um canto (não digam que nunca o fizeram). Para além de, claro, haver muitas espécies micológicas para observar.

Desta vez tive de parar para fotografar um cogumelo.
(E uma gota de água ao canto da lente...)
 
Sempre a subir pela floresta, cruzamos uma estrada e começamos a aproximar-nos do destino.

Pedra Amarela, aí está ela.
 
No cimo da Pedra Amarela, também conhecido por Cabeço da Raposa, encontra-se um marco geodésico decorado artisticamente, onde temos de tirar a foto da praxe para, logo em seguida, descansarmos um pouco a admirar a vista.

 Praticamente 360º de perfeição cénica.

Lisboa ao fundinho.

O pico que se vê ao fundo, à esquerda, é a Peninha.
(Outra zona a explorar em breve)
 
Palácio da Pena, na outra encosta.
 
Foi também engraçado descodificar, por entre a paisagem, o palco de algumas provas de trail em que já participei, caso da Corrida do Monge, por exemplo, e da Corrida do Guincho (a famosa subida!).
 
Depois de contentarmos a vista e o estômago (pausa também para abastecimento), inicia-se uma grande descida de cerca de 3km até ao local da partida. Se este trajecto for feito ao contrário têm aqui uma bela montanha para escalar, ficam avisados! Embora ache que este sentido em que o fiz seja melhor, por deixar este marco quase para o final e assim poderem aproveitar para uma pausa maior, que ao início quebraria o ritmo.


Obstáculos.

Os meus joelhos, que ultimamente me andam a falhar como as notas de 100, queixaram-se um bocado nesta descida final, razão pela qual, desta vez, optei por um treino mais curto.



De volta à casa de partida.

 
 
Encontros imediatos deste passeio:
 
Cães: 2 (um preso num quintal, outro acompanhado pelos donos).
Vida selvagem: 0 (mas eles "andem" ali...)
Pessoas a correr: 4
Pessoas de bicicleta: dezenas.
 
 

 Aqui fica o mapa do percurso:



O track original tem cerca de 11km, mas fizemos uns atalhos ao início, concluindo o percurso um pouco abaixo dos 10km, com um acumulado positivo na casa dos 350 metros. Considerável, mas acessível. Diria também, muito por alto, que fizemos 80% em estradões de terra, 12% em trilhos mais técnicos e 8% em asfalto/empedrado. Ou seja, penso que seja um bom percurso de estreia, para quem queira fazer um teste. Da beleza do local acho que não preciso de acrescentar mais nada...

Concluindo, uma experiência a repetir, com mais tempo e quilómetros! Gostaria também de encontrar tracks com um bocadinho mais de "carreiros de cabras" e uma ou outra dificuldade para ultrapassar, já que eu gosto mesmo é de me armar em exploradora de recantos inóspitos, qual Dr. Livingstone dos trilhos (ihih). Alguém tem alguma sugestão?

E pronto, aqui fica a minha partilha. Quem ainda não o fez, vá explorar a área e agradeça-me depois. Mas guardem segredo, para não estragar o silêncio. ;)
 

4 de novembro de 2013

Um bom domingo

 
Uma manhã a explorar novos trilhos e topos. Aprox. 10km.

 
 
(Depois falo mais sobre este passeio. Acho que estou apaixonada! - Monsanto, perdoa-me.)
 
 
Chegar a casa mesmo a tempo de "cortar a Meta" da Maratona do Porto, de olho nos amigos presentes. (Parabéns a todos!) Aprox. 5km.
 
Por volta das 13h00, comer-se um belo bacalhau no forno com batatinhas a murro (babaaaa...), com a família.
 
A seguir, para desmoer o almoço, "correr" a Maratona de Nova Iorque. 42,195 km. Com Frank Sinatra a tocar em fundo, para dar aquele ambiente.
 
Castanhas assadas (diz que são ricas em magnésio). Ficar abastecida de magnésio para as próximas 100 provas.
 
Preguiçar.
 
Achar que não preguiçámos o suficiente e encomendar uma pizza para o jantar. Afinal, quando "corremos" quase duas Maratonas depois de uma manhã de trilhos, é merecida.
 
Ler.
 
Adormecer cansada e inspirada.
 
 
Um domingo simples. Aprox. 57,195 km. Entre reais e fictícios. Com as pernas e/ou com a alma.
 
 
Quantos quilómetros teve o vosso domingo?
 
 
Boa semana!