28 de fevereiro de 2014

Os (quase) 30km de Sintra

Como vos tinha dito da última vez, tinha na ideia fazer um treino mais longo. Não tanto em distância, mas em número de horas, porém 30km pareceu-me um bom número de referência (e coisa para demorar uma manhã inteira, como se quer).
Assim sendo, que local melhor que Sintra, aqui nas redondezas de Lisboa, claro, para o fazer? E então, às 09h de domingo, lá estava eu junto à já por aqui muito referida Barragem do Rio da Mula, para dar início à escalada. Digo escalada, porque desta vez resolveu-se atacar as subidas logo de início, tendo como pressuposto que assim as pernas ainda "estão frescas" e esquecendo, ou preferindo ignorar, que assim também vão ficar estoiradas mais depressa! Mas bom, foi a táctica utilizada, vulgo "go big up or go home", e eu queria tudo menos voltar para casa.

Nunca tinha visto a barragem tão cheia.

Assim, repetiu-se o track de cerca de 10km que passa pela Pedra Amarela e depois foi andar à descoberta na zona.

Uma coisa boa das chuvadas dos últimos tempos é que Sintra está cheia de água: ribeiros, poços, pequenas cascatas, que a tornam ainda mais bonita. Sobretudo num dos meus single-tracks/carreiros preferidos, o Trilho das Pontes.



Nesta zona até me esqueço que correr cansa e o meu coração ganha asas. No ritmo/km depois não se nota nada, mas, se me perguntassem na altura, iria jurar que os meus pés nem tocavam o chão, tal a leveza que levava. Pelo menos até me baixar para passar por baixo de uma árvore meio tombada, calcular mal a distância e, ao levantar-me, dar uma tal cabeçada que até vi estrelas! Juro-vos que por momentos até temi desmaiar para ali e, nos segundos que levei até me recompor, enquanto, por via das dúvidas, me chegava para o lado mais fofinho do trilho, para amaciar a queda, olhei em volta e vi com outro entendimento como tudo aquilo, aquele momento, aquele local, a oportunidade de estar ali, era fantástico. Como escreveu Murakami no seu Auto Retrato do Escritor enquanto Corredor de Fundo: "Nada no mundo real é tão bonito como as ilusões de uma pessoa prestes a perder a consciência". E é verdade.

Depois da epifania, nada melhor do que uma subida jeitosa para desromantizar* a situação (*o corrector ortográfico diz que não existe "desromantizar", está visto que ou nunca sofreu nenhum desgosto ou nunca apanhou nenhuma "parede" pela frente...). Seguindo o espírito de aventura do "olha ali um trilho encoberto e manhoso, onde será que vai dar?", descobriu-se um atalho com uma inclinação razoável, que acabou por resultar no quilómetro mais lento de todo o treino. Foi o belo km11.



Este carreiro em especial estava muito cerrado e notava-se que não devia ser utilizado há algum tempo, apesar de aqui e ali ainda se verem fitas penduradas em ramos, fruto de alguma prova passada de trail ou btt, na zona. Porque é que depois da prova não retiraram as fitas é que me faz confusão...

Com cerca de 15km de percurso estava na hora de ir para a Quinta do Pisão, onde a ideia era realizar a restante metade do treino, explorando caminhos que não tinham sido percorridos na última visita.
Alguns locais são fascinantes e levantam muitas questões e respectivas teorias, na minha cabeça, cada uma mais mirabolante que a outra. Se calhar depois a explicação é desapontantemente banal, mas é engraçado especular.

Exemplo de umas ruínas dentro da Quinta:

Quem sabe o que é isto??

E sabiam que a Quinta do Pisão alberga também um Centro de Apoio Social/Instituição Mental? Pois, eu também não sabia, mas foi engraçado estar a correr por caminhos verdejantes, no meio da natureza, e depois de repente ir parar àquele local, ali, no meio do nada. Ora aí está um lugar (para) onde nunca tinha corrido...

Igreja antiga, junto ao Centro.

Apesar de a Quinta do Pisão não ser tão exigente ao nível da elevação como a encosta do lado da barragem, isso não significa que não haja por lá alguns desafios. Este treino foi um bom teste às variadas condições de terreno que se podem encontrar em provas, nomeadamente os trilhos de pedra, as descidas escorregadias com água, e, como não poderia deixar de ser, lama. Muita lama.

Totais (contáveis) do treino:
Para variar, numa das minhas paragens esqueci-me de reiniciar logo o cronómetro, perdendo algumas centenas de metros, mas o treino ficou pouco aquém dos almejados 30km.
- Aprox. 29km.
- +/- 4h30 de corrida (incluindo as duas paragens para "abastecimento").
- E o melhor, os cerca de 900 de D+.

E, melhor ainda, uma manhã inteira numa serra encantada (esta parte já não é "contável", mas é importante), num dia em que, apesar das ameaças, a chuva até deu umas tréguas.


 "Eis que em vários labirintos de montes e vales surge o glorioso Eden de Sintra. Ai de mim, que pena ou que pincel logrará jamais dizer a metade sequer das belezas destas vistas (...)?"
 Lord Byron


Já que perguntam, claro que vou voltar para acertar aqueles 30km! E talvez mais um bocadinho... ;)


Bom fim de semana!

24 de fevereiro de 2014

O treino do arco-íris

Sexta-feira, mais um treino de rampas. E não é por acaso ter sido na sexta... foi mesmo a adiar até às últimas! Tenho gostado de tornar a incluir algum desnível nas minhas corridas, mas tudo o que é treino de repetições me aborrece (talvez por isso já nem me lembre da última vez que fiz treino de séries...). No entanto, é um mal necessário. Além disso, o facto de me ter inscrito em provas desafiantes também me dá o respeito (miúfa...) necessário para me sujeitar a estas coisas (torturas...).

E assim, no final de uma bonita tarde de sol, enchi-me de boa vontade e escolhi uma zona com uma subida moderada com cerca de 600 metros, disposta a fazer repetições da mesma como gente grande. Ou seja: pelo menos meia dúzia de repetições, segundo a super-mulher que é o meu alterego, e pelo menos uma, segundo o abismo negro de preguicite que às vezes me invade.

Depois de um aquecimento, assim se fizeram as rampas:
- A subir (relativamente) depressa: "Ufff... Olha que ideias que tu tens, ufff, nem pensar que vais aguentar mais repetições, UFFF, acabas esta e já vais com muita sorte!"
- A descer, em recuperação: "Weeeeee!!! Afinal não é assim tão mau, aguentas TRINTA repetições se for preciso!"
Repetir cinco vezes disto. Done!

Foi quando já estava a dar uma corridinha de regresso à calma que me apercebi desta maravilha no céu...


Foi inesperado, porque nesse dia nem tinha chovido (pelo menos que desse conta) e o melhor, e porque há momentos reais que parecem cenas de filmes, estava eu a fotografar o arco-íris quando recebi uma chamada esperada, muito importante e feliz. Foi como tornar a inspirar fundo e sentir o ar fresco encher os pulmões depois de chegar ao topo de uma rampa.

E agora era descobrir o tal pote de ouro... ;)


O que não é ouro mas deixou-me também muito contente foi o meu treino longo deste fim-de-semana. Estas escapadinhas por trilhos familiares ou desconhecidos já se tornaram, sem dúvida, o treino pelo que mais anseio toda a semana. Tanto que às vezes até me custa chamar-lhe "treino", quando é uma coisa que faria com gosto mesmo não estando a treinar para coisa nenhuma. No entanto, apesar do lado lúdico que sempre lhe encontro, não pensem que não foi dureza! Este foi o meu maior treino até hoje, em quilómetros e talvez também em ganho de elevação. E terminei sem vontade de me atirar para o chão de cansaço e terem de me arrastar até ao carro por me recusar a dar mais um passo, por isso foi uma vitória! Mas essa é história para o próximo post.

Boa semana!

19 de fevereiro de 2014

A caminho da Ultra: a "Maratona"

O aumento do número de quilómetros era uma coisa inevitável. Desde que me comecei a sentir, relativamente, confortável nas provas de trail na casa dos 20km, e que descobri que gostava muito das horas que passava a fazê-las (não gostava o tempo todo, mas no fim gostava sempre), sabia que estava feita ao bife! Daí para a frente, seria sempre a aumentar.

Por isso é que, pela primeira vez, decidi aventurar-me além dos 30km e inscrever-me para os 42km dos Trilhos do Almourol. Não como um objectivo em si, mas como um passo grande a caminho de sonhos maiores. Claro que o facto de não ser uma prova-meta não lhe tira o peso da responsabilidade de tantos quilómetros... No entanto, e porque alguns de vocês o referiram, não penso nos Trilhos de Almourol como uma Maratona. Para mim, é uma prova de cerca de 42km, um bocadinho mais ou um bocadinho menos. E, quando a terminar (reparem que utilizei "quando" e não "se", estou a exercer o poder do pensamento positivo!), também não vou pensar em mim como maratonista. Para mim, e esta é apenas a minha opinião, a verdadeira prova de Maratona é em estrada, com a distância medida e certificada ao metro e com o desafio próprio de palmilhar 42 195 metros no asfalto (os meus joelhos já estão a chorar só de pensar nisso).

42km em trilhos são certamente 42km duros-comó-caráças-de-deixar-todos-os-músculos-do-corpo-a-queimar, mas não são "A" Maratona. (Repito que esta é apenas a minha opinião.) E tudo bem, porque já sabemos que não sou, ou não estou ainda, apaixonada pela ideia de ser maratonista, só pelos muitos duros-comó-caráças-de-deixar-todos-os-músculos-do-corpo-a-queimar quilómetros na Natureza.

Tão apaixonada que achei que seria boa ideia ir celebrar mais um ano de vida a castigar o corpo e a deslumbrar a vista por terras de Almourol. Esta prova calha na semana do meu aniversário e, em vez de tirar um fim de semana de relaxamento e/ou rambóia, achei por bem substituir o álcool por bebidas energéticas e dedicar-me a explorar novos limites físicos e de força mental. Posteriormente confirmar-vos-ei se foi, realmente, uma boa ideia.

Ao menos é um passeio bonito...

Foto da última visita a Almourol (há 2 ou 3 anos)

Este domingo o treino longo foi feito às portas de casa, num misto de alcatrão e trilhos, mas com o alcatrão a ganhar numa percentagem clara de 80% contra 20% (por aí...). Foram 20km, desta vez certinhos, mas com pouco ganho de elevação, cerca de 230 metros. Não morar nas traseiras de uma serra começa a tornar-se muito inconveniente... :)
Foi também um treino com uma novidade: sol do início ao fim! E notou-se, pela afluência de corredores/ciclistas que andavam pelas ruas. Já me tinha era esquecido de que era possível correr sem os aspersores do céu ligados, foi estranho chegar ao fim encharcada apenas pelo meu próprio suor.


O que me lembra que entre o final deste mês e inícios de Março quero fazer um treino de cerca de 30km, já como primeira abordagem à dicotomia sofrimento/felicidade que me espera. - "Dicotomia sofrimento/felicidade" é apenas uma alternativa mais simpática à palavra "masoquismo", eu sei, e vocês, que também correm, também sabem. Mas, como estava a dizer, este treino de 30km será o treino de maior distância e, muito provavelmente, tempo, que já fiz até hoje. Tenho de escolher bem a minha paisagem...

14 de fevereiro de 2014

Um mês a menos, um mês mais perto

Depois de um mês de Janeiro em que apenas quis começar a aumentar os quilómetros de forma gradual, esta foi a contagem para os primeiros 31 dias do ano:

Distância: 182km
Horas a correr: 22h05
Ganho de elevação total:  1990 m
Treino mais longo: 22,5km @ Quinta do Pisão, Sintra
Treino com mais ganho de elevação: 496 m @ Quinta do Pisão, Sintra
Treino(s) mais feliz(es)*: O longuinho nas minhas ruas e, adivinhem, Sintra. (Estou a notar aqui um padrão!)
Outras actividades:
- Bicicleta: 30km divididos por dois passeios.
 
(*Como veem, há que analisar todas as vertentes.)

Em termos de velocidade, a média andou nos 8,5km. Mui-to devagarinho e sempre com cuidados para não acordar a lesão. Também por isso não quis abusar nos terrenos mais irregulares e desnivelados, daí o ganho de elevação fraquinho para o número de quilómetros percorridos. Tinha de ser uma coisa de cada vez.

Assim, este mês resolvi começar a introduzir novamente algumas das saudosas lombas num dos treinos a meio da semana. Até agora, e muito sucintamente: o primeiro treino correu bem e senti-me forte, o segundo foi uma bela miséria e senti-me uma condenada.
Por um lado até é bom haver estas oscilações, para manter os níveis de gabarolice controlados. Julgavas-te o Jornet das montanhas urbanas de vinte metros, pois reduz-te à tua insignificância, reles corredorazeca! - Obrigada, deuses das rampas, por me porem no meu devido lugar.

O mês de Janeiro passou num sopro... Medo! Já sabem como é, uma pessoa põe-se nas coisas e depois com o tiquetaque decrescente das semanas começa a questionar as suas capacidades físicas e sanidade mental. Por isso, e apesar de não gostar muito de partilhar assim estes relatórios de tempos e quilómetros, acho que o vou fazer, pelo menos mensalmente, como auto-análise. Prometo adicionar sempre um toque mais quentinho à frieza dos números.


Por falar em toque quentinho (ahah) e para não deixar passar a data em branco (Dia de S. Valentim, para os mais distraídos ou descrentes), despeço-me com 50 histórias fofinhas de amor e corrida. Juntos na alegria e na moleza, na saúde e na tartarugueza, até ao fim de todos os quilómetros.


Bom fim de semana!

10 de fevereiro de 2014

O meu enredo favorito

São nove horas da manhã de domingo, a Stephanie vai dando já alguns ares da sua fúria, com fortes rajadas de vento e chuva fria, mas eu não estou na caminha, estou a chapinhar nos trilhos de Monsanto.
Na véspera, ainda tentei encontrar algum site meteorológico que me desse as condições perfeitas para correr (que, no meu caso, poderia até incluir ligeiros aguaceiros), mas não tive sorte. Assim, ali estou eu, 3km de treino e os ténis já encharcados, e recordo-me como na noite anterior estive em desespero a dar-lhes como o calor do secador, porque ainda não tinham secado completamente desde a prova de Bucelas.

Não quis adiar porque há muito que não ia a Monsanto, não quis adiar porque tinha companhia, não quis adiar porque nestas condições a comunhão com os elementos é maior. É uma coisa que causa desconforto, mas depois liberta-nos. Não consigo explicar melhor, mas tenho a certeza que muitos de vocês conseguem compreender.



Não digo que, por vezes, não me tenha queixado da inconveniência dos ímpetos irados da Stephanie, mas depois, já lá em cima junto às antenas, onde o vento soprava com mais força e a chuva magoava, houve ali um momento déjà vu da Serra d'Arga... Ahhh, doces recordações! Muda logo o estado de espírito de uma pessoa. A água a escorregar pela cara e a pingar dos cabelos, o misto de chuva e suor que cola a roupa ao corpo, a lama que desliza das pernas e enche os ténis e as escorregadelas que não travam um passo decidido, fazem parte de uma personagem de um filme de acção e aventura, que escolho viver nos fins-de-semana de uma vida banal como qualquer outra. Esta personagem, não sendo eu, faz parte de mim, e fico muito orgulhosa disso. Afinal, a aventura fantástica sempre foi um dos meus géneros cinematográficos preferidos. Há treinos que são "só" treinos, e depois há os outros.

Com tudo isto, e falando em coisas práticas, tal como em Arga, reforcei a opinião de que a chuva fria a bater-me nas pernas dá-me uma frescura que raramente tenho em corrida. Foram 21.7km (não me deixaram correr os 300 metros que faltavam...) feitos quase na totalidade a correr, o que, para treino em Monsanto, é muito bom. Fosse sempre assim!


Por isso, antes que a heroína dos filmes de corrida-aventura-fantástica adormeça para dar lugar à personagem muito menos afoita de mais um drama semanal, anuncio que me inscrevi para a minha primeira Maratona! Em trilhos, claro.
Sei que é uma distância com muito significado para a  maioria, e não nego que o peso do número me causa grande respeito, mas é mais que isso, é a afirmação de mais um passo nesta aventura dos quilómetros, em que eles são medidos por muito mais do que o bip do ritmo/km. Esta partida à conquista ilusória dos trilhos, que me têm a mim cativa, é um enredo aberto que me fascina e atemoriza (falarei mais disso depois), mas gosto da personagem principal e quero que passe a fazer parte de mim mais vezes.

4 de fevereiro de 2014

Trail de Bucelas

Estaco à beira da encosta, a observar o cenário desolador. Caso restassem dúvidas quanto à placa a informar de "Perigo", as mesmas são desfeitas pelo aviso do rapaz da organização - "Atenção aos próximos 100 metros, o terreno está muito perigoso". Ok. A mim parece-me um imenso escorrega de lama, daquela lama acinzentada, muito líquida. Olho para os meus ténis já com 2kgs extra de terra e erva agarrados à sola.  Duvido. Considero sentar-me e descer de sku. Considero descalçar-me. Considero benzer-me. Não faço nada disso. Confio. Aqui vou eu(uuuuu...)!

A zona da Partida, vista do Controle 0.

No Trail de Bucelas descobri que lama não é apenas lama. Ou melhor, há diferentes tipos de lama. Lama barrosa, cujos pedaços pegajosos se colam à sola para depois serem chutados em grandes bocados pelo movimento da própria passada. Lama escura, pastosa, que esconde as pedras e oculta irregularidades, pela qual convém passar depressa, sob risco de deixarmos lá um ténis de recordação. Lama cinza, escorregadia, divertida, manhosa (esta confesso que não aprendi a melhor forma de a correr). Lama que cheira muito mal e não queremos saber o que contém... E as poças, que não são nem água nem lama, as minhas preferidas, que são mesmo para pisar e salpicar tudo à volta.

O primeiro quilómetro.

- "Não pises as poças!", oiço a voz da minha Mãe, recuada tantos anos na minha memória. A prova leva pouco mais de um quilómetro e recordo este ralhete habitual nos dias de chuva da minha infância, ao deparar-me com os primeiros obstáculos. Na aproximação de uma zona de vinhas, os corredores começam a formar uma fila indiana, a ziguezaguear por entre as poças, evitando pisá-las, e eu sou uma deles. Rio-me para mim da inutilidade deste adiar o inevitável, mas mesmo assim ainda não consigo tomar a iniciativa de dar o passo que me vai encharcar o calçado e ensopar as meias. Instinto de preservação de desconforto e bolhas ou a voz da minha Mãe que ainda ecoa dentro de mim tantos anos depois?...
- "Ok Mãe, eu não piso as poças... (ainda)".

A primeira subida, ainda com o pelotão muito compacto.

Comecei devagarinho. Sobretudo porque não tive tempo de fazer um aquecimento, e não queria acordar a besta (=lesão da ITB) finalmente adormecida, mas também porque este era o meu treino, não podia ceder ao impulso de acompanhar o ritmo marcado pelos passos do pelotão e desgraçar-me antes de tempo. Sim, que uma pessoa desgraça-se sempre. Depois recupera. Depois desgraça-se outra vez. É a beleza deste tipo de provas e terreno.

Já referi que havia muita lama? É que havia mesmo muita lama. Consegui, com sorte e, deixem-me acreditar, alguma maestria, evitar cair durante os primeiros... hmmm... 5kms, mais coisa menos coisa. Safei-me razoavelmente bem nas subidas, milagrosamente nas descidas, e depois fui dar um real espalho numa recta lamacenta, mas sem dificuldades de maior. Regra nº 1 nos trilhos: Nunca baixar a guarda!
Os corredores que me rodeavam foram simpáticos e atenciosos, não se riram (alto) e asseguraram-se de que estava bem antes de seguirem. Aparte os danos na moral (a queda não foi estilosa, foi mesmo um bate-cu vergonhoso), não tinha nada magoado. Limpei as mãos na relva húmida e segui com as recentes marcas de guerra exibidas em especial pelo lado direito do corpo. Mais para a frente do percurso, serão cada vez mais raros os atletas que não exibem marcas semelhantes, mas estou certa que fui uma das pioneiras. Há que ter orgulho em ser das primeiras em alguma coisa.

À passagem de um túnel.

Bom, nesta fase, a questão do "não querer molhar os pés" já estava mais do que superada e a diversão tinha começado. Já não evitava as poças (desculpa, Mãe!) e até fazia por pisá-las, já que ajudava a limpar os quilos de lama e relva a que os meus Trabuco se agarravam com uma paixão fervorosa. Foi este um dos pontos da nossa discórdia, o facto de se tornarem autênticos skis quando mais precisava da sua tracção, mas já foram perdoados. É que, apesar das muitas ameaças, aquela queda ao km5 foi a única em toda a prova.

Já perto do primeiro abastecimento, cerca do km8, encontro a colega de equipa Carla, que será a minha companhia dali para a frente, tendo ambas evitado, em algum determinado ponto do percurso, a queda uma da outra. Isto é que é o verdadeiro apoio entre corredores!

Mais um túnel.

Nos intervalos da, ou em simultâneo com a lama, tivemos também direito a bonitas paisagens, cujas respectivas subidas vos mostro em seguida, sempre fotografadas do ponto de vista de quem já chegou ao cimo, para efeitos de descanso melhor enquadramento.

Subida longa e morosa.

Curta mas intensa.

Um bocadinho mais comprida mas igualmente intensa.

Eu até costumo ter boa memória quilométrica, mas neste trail em específico, que teve tanta volta, não consigo precisar quando dei por mim à beira da rampa anunciada como "muito perigosa", pela qual comecei esta crónica. Penso que já terá sido depois da separação para os 25km. Sei que desta rampa me lembro eu muito bem:
- Plof
- Splash
- Splash
- Ai meu Deus...
- Plof
- Fshhhhh (qual é a onomatopeia para "escorregar"?)
- Splash
- Foi por pouco!
- Aiiiii
- Catrapum (não foi o meu, foi o de outro atleta)
- Fshhhh
- Até que enfim.
Terra firme.
- Até foi giro.

A determinada altura, um outro corredor que seguia junto a nós pergunta quantos quilómetros faltam. Respondi que faltavam 6km (já??) e, como íamos com pouco mais de 3 horas de prova, questionámo-nos se iríamos conseguir terminar antes das 4horas. (Se 1 hora chegará para fazer 6km é uma pergunta válida no mundo do trail, como vocês sabem.) Não que isso interesse, mas é daquelas coisas inexplicáveis: 3h59 será sempre melhor que 4h00, mesmo que sejamos os últimos ou que os primeiros classificados já tenham terminado há horas e estejam a almoçar de banhinho tomado. Da mesma forma de 4h59 parece sempre melhor que 5h00, e por aí fora. É o minuto vaidoso.

A caminho do último abastecimento, lá no topo pois claro.

Tendo já passado por rampas de 100 metros que levaram bons minutos a descer e feito quilómetros de descidas perigosas a uma velocidade tão cuidadosa e diminuta que nos fazia preferir as subidas (só para verem!), achámos melhor não criar expectativas. Assim, seguimos os três, eu, a Carla, e o rapaz que perguntava os kms, quase sempre juntos até ao final.

A cerca de 2km da Meta eu começava era a ficar preocupada porque nunca mais via o meu rio! Eu sabia que na edição anterior tinha havido uma passagem por uma ribeira e era uma das coisas que mais ansiava neste trail. Acho que perguntámos a todos os voluntários que encontrámos pelo caminho quando é que finalmente podíamos ir lavar os pés à ribeira... Como no Alentejo, a resposta era sempre "é já ali!".

Aqui está ele.

Mesmo antes de regressar à vila, lá fizemos a curta mas muito refrescante travessia do rio. Soube muito bem a água gelada nas pernas, acho que todos os trails deviam incluir uma passagem destas. E veio mesmo a calhar, numa altura em que já começava a acusar algum cansaço. Foi o ânimo que precisava para correr as últimas centenas de metros até à Meta, que cruzei ao lado da Carla. O rapaz que perguntava os kms chegou pouco depois. Todos com o "objectivo" sub-4horas conseguido, mas, principalmente, muito bem passado.


Cheguei à conclusão que nestas provas me podem meter em tudo: água, túneis com água mal-cheirosa, chuva, terreno pedregoso, terreno relvado, terreno rochoso, lama... Encaro como divertimento, um bocadinho masoquista por vezes, é certo, mas divertimento. O meu limite, mental sobretudo, continua mesmo a ser só o calor.
Claro que ainda não testei tudo, por isso, a bem da ciência, vou continuar em experimentação! :)


Obrigada ao apoio dos amigos e conhecidos antes e ao longo da prova, e também pela companhia. Ainda que às vezes por pouco tempo, ajuda sempre. E se conseguiram terminar sem cair: prova mais que superada!

Trail (Mud) de Bucelas, até para o ano!

2 de fevereiro de 2014

Bucelas: primeiras considerações

Em jeito de lista, para ser mais rápido.

- Primeiro e o mais importante (eheh...) - este ano não tivemos direito a uma garrafinha de vinho, acho mal. :) Por outro lado, tivemos direito a t-shirt. Como o meu armário está cheio de t-shirts de corrida e a minha despensa vazia de bebidas com qualidade, preferia a garrafa Bucellas, mas compreendo esta escolha.

- A organização continua de parabéns, especialmente este ano, em que as condições de terreno estavam complicadas. Avisos constantes e reforço de apoio ao longo do percurso e zonas de perigo.

- O percurso foi diferente do ano passado. Também achei que, comparativamente ao ano passado, era mais puxadote, inclusive na distância do mini-trail.

- Muito por causa das condições do terreno, a prova foi mais difícil do que estava à espera, mas gostei. Para quem queria ir fazer um treino, foi um Senhor Treino! Hoje sinto-me relativamente bem, amanhã as minha pernas vêm aqui para fazer o ponto da situação...

- Muita gente e prova esgotada, o que não é de admirar. Aqui tão perto e por um preço acessível, conseguimos ter um gostinho bom de aventura.

- Por enquanto, para finalizar, só uma crítica, e acho que todos os que participaram na prova vão concordar comigo...

Epá, houve pouca lama!...
(ahahah)

Aqui ainda se preocupavam em desviar-se... ;)

Pena não ter foto das piores partes, onde sacar do telemóvel e continuar em movimento era desporto radical.

Já depois do banho de rio...


Depois volto com a história da minha aventura no Trail de Bucelas. Spoiler: houve quedas e a relação com os meus Trabuco ficou um pouco abalada...


Boa semana!