30 de março de 2014

O Monstro Verde

Antes de mais, adianto desde já que este título não se trata de nenhuma provocação clubística, embora, perante algumas respostas depreciativas relativamente à, inquestionavelmente bonita, vista do treino anterior, merecessem! :)
A questão é a seguinte: o aumento de quilómetros corresponde a um aumento de apetite. A um grande aumento de apetite. Depois, claro que nem sempre há tempo, vontade ou disponibilidade, para refeições em condições. E nem me façam falar d'A Gula...

Assim, de vez em quando bebo os meus batidos verdes, só para dar oportunidade ao meu organismo de se regozijar com uma lufada fresca de vitaminas e nutrientes e, desta forma, não se revoltar contra a fraca qualidade de algumas coisas que é obrigado a digerir.

A ideia dos "Green Monsters" é juntarem ao vosso habitual batido de frutas, uma verdura. No meu caso, é quase sempre espinafres (se era bom para o Popeye, é bom para mim). Ao início também estava um bocadinho céptica, mas acreditem que, não fosse pela cor, ninguém diria que estes batidos levavam mais do que fruta. Prometo que é só a isso que sabe.


Geralmente misturo espinafres com a fruta que tiver em casa na altura. No caso da foto:

- uma mão cheia de espinafres
- 1 banana
- 1 maçã
- sumo de uma laranja
- sementes de sésamo q.b.
- sementes de papoila q.b. (não se preocupem, o nível de opiáceos é mínimo e não vai acusar num controlo de prova... :) )
- bagas goji

Opcional:

- Utilizar um copo de pé alto e fingir que se está a beber um cocktail requintado.
- Fazer um brinde à saúde: Tchim-tchim!

Experimentem  e depois digam-me o que acharam.



Hoje foi, oficialmente, o último treino maiorzinho antes da doidice do desafio Almourol a que me propus.  Foi em Monsanto. Choveu bastante.



Não me senti lá muito forte e fui uma companhia do mais piegas que pode haver. Queria ter terminado este treino cheia de confiança e a transpirar energia e terminei encharcada de chuva e frustração. Mas não me vou deixar abater.
Espero que seja como dizem no Teatro, que quando o ensaio geral não corre muito bem depois o dia de estreia é um sucesso... Vamos acreditar que sim!

 Faltam 6 dias...

24 de março de 2014

Treino 2 em 1

Os quilómetros que tanto me custam a completar de segunda a sexta depois parece que querem todos ser corridos ao fim-de-semana. E eu faço-lhes a vontade.

O longuinho deste fim-de-semana teve a particularidade de ter sido feito em duas partes. Enquanto a companhia de treinos em Sintra recupera de outros empenos, tenho de improvisar os meus trilhos por outros lados, que Almourol está já aí ao virar da esquina, não sei se já tinha dito... (13 dias, mas quem está a contar?)

Assim sendo, desta vez resolvi fazer um "aquecimento" no Estádio Universitário de Lisboa, onde, apesar de até ser relativamente perto de minha casa, nunca tinha corrido.

E, já que estava por lá, aproveitei para fotografar uma das vistas mais bonitas do local:


Fica um zoom, para poderem apreciar em maior pormenor...

:)

7km depois, troquei de calçado para os meus fiéis (e a ficarem velhinhos...) Trabuco e fui completar os quilómetros que faltavam, em Monsanto.

Este mês tenho mesmo feito um esforço para que todos os treinos de fim-de-semana sejam feitos em trilhos. Nem sempre é o mais cómodo, já que exige sempre deslocação, mas é necessário, uma vez que, se tudo correr bem, será o tipo de terreno de 90% das minhas provas este ano. O que vale é que gosto muito deles (dos trilhos), porque estes encontros andam a causar um enorme desgosto ao meu orçamento para combustível.

Assim sendo, lá estava eu novamente, numa bonita, mas fria,  manhã de sol, às portas da minha mansão verde. Entro de mansinho, respiro fundo, tentando reter em mim a frescura  da vegetação que o orvalho da madrugada limpou, e fecho a porta, anulando os ruídos da cidade que deixei lá fora.

Começo a correr.

Acho que já estão fartos de ver por aqui fotos de Monsanto, por isso, desta vez, não vos vou causar transtorno com mais imagens de paisagens "horríveis"... Ok, já que insistem, só uma:

Vista de um miradouro no topo do Anfiteatro Keil do Amaral.
"Lisboa, és só tu e eu..."

Contrariamente ao treino anterior, em que optei por caminhar nas subidas, neste decidi correr sempre, por mais lentinha que fosse, a ver se aguentava. Claro que em termos de verdadeiras paredes (ou "elevadores", como diriam lá para o Norte...:) ), Monsanto não se equipara a Sintra. Lá, seria impossível ter ideias peregrinas como esta. Mesmo assim ainda lutei um bocadinho.
Munida com um saquinho de gomas na mão, dizia para mim própria: - "chega ao fim desta rampa sem parar e podes comer uma". Claro que o saquinho não durou muito (ei, algumas subidas mereciam recompensa a dobrar!), por isso tive de recorrer à conversa motivadora: - "Chega ao fim  desta rampa sem parar e és rainha das subidas". Ou ainda: - "Se não parares, és a maior, uma verdadeira Anna Frost das montanhas de Monsanto". E outros mimos do género.
Como podem ver, sou uma pessoa que se entretém com facilidade.

Mas resultou, até certo ponto (houve alguns epítetos que não consegui conquistar, não se pode ter tudo...) e acabei por ainda percorrer cerca de 20km. Curiosamente, foram 20km mais lentos do que aqueles que fiz quando optei por caminhar nas subidas, o que só vem dar razão ao que disse sobre também ser importante desenvolver os músculos da caminhada. Foi um teste!

Assim sendo,  o longuinho deste fim-de-semana consistiu em:

- 7km (EUL) + 20km* (Monsanto)

Gostei desta novidade de fazer uma pequena pausa (10 minutos de condução) entre o "aquecimento" e os restantes quilómetros, permitiu-me correr mais sem notar o peso da distância.


E vocês, aproveitaram bem estes dois dias? Boa semana!


* Esta distância foi por estimativa de tempo, já que fiquei novamente sem bateria no gps por volta dos 16,5km. Quer-me parecer que o G. começa a ficar sem pedalada para mim... (Ou isso ou está a ficar com a bateria viciada... Mas para minha autoestima, e da minha carteira, prefiro acreditar na minha versão!)

20 de março de 2014

Treinos primaveris

Antes de entrar no tema, aproveito para confessar-me: apesar do que escrevi na última vez, de que tentava inspirar-me no vosso exemplo quando me dava a ronha, esta última semana tem sido a semana mais preguiçosa de sempre. Ou, pelo menos, deste ano.
Os treinos até têm saído, mas muito a saca-rolhas. Como alguém sugeriu, poderá ter influência a mudança de estação. É verdade que sou muito mais menina de correr à chuva e frio do que ao calor. Talvez seja o meu organismo a reagir a memórias recalcadas de sofrimento ao sol, a antecipar aqueles treinos em que, de tanto calor, o suor evapora logo e deixa-nos na pele uma pista de sal (bonita imagem), mas, a verdade, é que tem sido um combate. Eu bem tento argumentar, comigo própria, e pensar em todas aquelas coisas que vos disse, mas a contra-argumentação, de mim própria, é feroz. "Cala-te e volta a dormir" é difícil de rebater.

Confissão feita, continuo na luta. Adiante.


Aproveitando os dias de sol e temperatura ainda amena, eu e metade de Lisboa saímos à rua na tarde de Sábado. Eu para ir dar um passeio de bicicleta ribeirinho, e os restantes para servirem de obstáculo nesse mesmo passeio. :)


Fui até à zona do Terreiro do Paço e acabei com uma volta de cerca de 26km.

Já de regresso, reparei que trazia comigo uma passageira clandestina...


Olá Sra. Joaninha!

Eu bem que me estava a sentir mais pesada e cansada nos últimos quilómetros sem razão aparente... Enigma resolvido! :) (E passageira clandestina gentilmente despejada numa paragem de relva verde e fresquinha.)

Depois, no domingo, novo dia de sol e novo dia em que eu e metade da população de Lisboa saímos à rua (e muito bem) mas, desta vez, em posição invertida. Eu como transeunte-atleta, e os restantes como ciclistas na zona de Monsanto.

Não querendo exagerar, mas devo ter-me cruzado com aproximadamente 1432 ciclistas (mais coisa menos coisa) durante o tempo que durou o meu treino. Monsanto, este domingo, parecia o paraíso das bicicletas. Sempre que me enfiava por algum carreiro mais estreito tinha de ir atenta, não me fosse aparecer alguma bina disparada pela frente. Ainda cheguei a ter alguns encontros quase imediatos. Um deles quando vinha eu a descer um single-track toda contente, qual Heidi a saltitar nas montanhas, e do meu lado esquerdo, no cruzamento com a estrada, vinha o Lance Armstrong em recuperação das glórias perdidas e ia havendo ali um acidente, não fossem os reflexos rápidos de ambos e o grito de alerta outro corredor que ia a passar... Medo!
Os restantes encontros imediatos, dois, para ser exacta, foram também com ciclistas, mas estes numa versão mais ambientalista, que decidiram contribuir para a preservação do verde de Monsanto, regando uma árvore à beira do percurso, se é que me entendem...

De resto, foi um treino pacífico e uma grande diferença em relação ao último por lá realizado, tanto em termos do estado de espírito, como na quantidade de pessoas que se via a caminhar ou simplesmente a aproveitar o sol. Fartei-me de trocar cumprimentos e sorrisos.

Quem corre por lá, sabe que as pessoas têm o hábito de cumprimentar-se sempre que passam umas pelas outras (o que não acontece onde habitualmente corro), mas com os ciclistas torna-se muito complicado. Em grandes grupos de t-shirts coloridas, óculos de sol e capacetes, nunca sei aqueles por quem já passei e às tantas já dei os bons dias às mesmas pessoas umas duas ou três vezes. O que até nem faz mal, antes em excesso do que em falta... Mas desta vez foi engraçado, porque quando ia a passar por mais um grupo de ciclistas, a tentar distingui-los, um deles adianta-se e diz-me: "Já passámos por si três vezes!" (-> Ler com tom claramente impressionado com os meus dotes de corrida e resistência... Ihih). E pronto, só sorri e já não disse bom dia.

Coisas que acontecem quando andamos horas perdidos por aqueles trilhos.


Para terminar, um cenário já a adoptar as cores da estação:


(Já vos disse que adoro correr nestes carreirinhos assim estreitos? Passo os treinos a tentar desviar-me para single-tracks sempre que posso! :) )


Longo de domingo:
Distância - 24km
Ganho de elevação - 499 metros (bem que podia ter subido a um muro para arredondar isto...)


Boa Primavera!

17 de março de 2014

A vossa inspiração


O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.


(Tenho para mim que quando Fernando Pessoa, na sua persona de Álvaro de Campos, escreveu estas linhas, deveria estar a aumentar a quilometragem dos treinos.)


Eu estou a adorar esta fase e nunca me senti tão motivada para correr como agora. Encontrar o nosso caminho não tem preço. No entanto, há dias/semanas muito complicadas.
Os longos de fim-de-semana são mais ou menos pacíficos. Às vezes custa acordar cedo, mas sabemos que temos (quase sempre) o dia inteiro pela frente e podemos passar horas a perdermo-nos literal e figurativamente nos quilómetros. Já durante a semana não tem sido assim tão simples.
O resto da vida não pára só porque nós estamos a treinar para grandes (para nós) provas. Dava jeito um botão de pausa ou, quando muito, um de câmara lenta, do género: "acalma aí esse prazo de entrega, enquanto eu vou ali fazer 15km e já venho". Um que mantivesse os amigos e as minis fresquinhas na esplanada, enquanto eu termino um curtinho* (*tinha escrito 'rapidinho', mas tive medo de ser mal interpretada... :) ), tomo um duche rápido e vou lá ter.
Mas não, a vida continua, e a corrida, que agora é maior, tem de ser feita nos mesmos intervalos de antigamente.

Por isso, quando o diabinho refilão dá sinal ao toque do alarme durante a semana, lembro-me de todas aquelas pessoas com vidas mais complicadas, e horários de filhos a quem dar prioridade, e pergunto-me: - Será que estás mesmo cansada? Ou é só ronha? - E geralmente é só ronha e levanto-me. Até agora só houve um dia em que a resposta foi: - "é mesmo cansaço" - e nesse dia não treinei. Virei-me para o lado e caí novamente nos braços de Morfeu que foi uma maravilha.

Porque muitas dessas pessoas são vocês que eu leio, agradeço-vos. Pessoas comuns, com trabalho mais ou menos exigente, reuniões e família, e mesmo assim acordam mais cedo, para não roubar tempo ao que é prioritário, e vão correr. Ou encurtam a hora de almoço e vão fazer uns quilómetros na passadeira do ginásio. Ou esperam que tudo adormeça para terminar o dia a percorrer as estradas e os pensamentos. Pessoas que estão a treinar para grandes provas, em distância ou em desafio, para os primeiros 10km ou apenas para manter a sanidade física e mental. Vocês são uma inspiração! (Mesmo que não rimasse, era verdade.) :)


E esta última semana, por acaso, foi uma semana boa. Baldei-me ao treino das ramp(inh)as, mas apenas porque não tive disponibilidade da parte da manhã e agora saio do trabalho já de noite e o meu carrossel fica numa zona em que tenho medo de correr sozinha, mas fiz na mesma a distância pretendida.
Quando comecei esta viagem tinha em mente um determinado número de quilómetros a atingir semanalmente, mas depressa tive de passar a ser mais realista. Não corro tudo o que quero (e ultimamente tenho sido preguiçosa com os treinos de reforço muscular... Shiuuu, não digam nada à minha iliotibial...), mas tenho feito o melhor que posso. Só espero que seja suficiente.

E Almourol que está já aí a virar da esquina... Aiiii!!!

14 de março de 2014

Treinos por Trilhos de Sintra #4 - Anta de Adrenunes



A Anta de Adrenunes está classificada como monumento nacional pelo Instituto Português do Património Arquitectónico. Situada na zona do Cabo da Roca, algumas fontes indicam tratar-se de um dólmen, que teria servido de necrópole colectiva durante a época megalítica, tendo em conta a sua disposição e orientação relativamente ao pôr-do-sol e lua. Outras fontes indicam que não foram encontrados sinais de escavações e sub-câmaras e que a estrutura não é mais do que o resultado casual de fracturas e fendimentos da própria rocha, aproveitada posteriomente pelo Homem.
Eu não sei qual das teorias é mais fascinante, se a Natureza aleatoriamente criar uma obra assim, num local tão apropriado, se o facto de, há milhares de anos, os nossos antepassados terem o cuidado de criar uma última morada que é estrategicamente iluminada pelos raios do sol a pôr-se...

Imaginem o sol, ao fundo, a despedir-se com tons de vermelho antes de anoitecer.

Embora ache uma homenagem póstuma bonita, é muito melhor estar viva para conhecer locais como este. Sentir as dores musculares, o suor, os mosquitos que zumbem e incomodam, os arranhões das silvas, o pó que se infiltra e arranha a garganta... Pequenas coisas que nos incomodam, mas que também são a lembrança constante de que sentimos e estamos vivos. É um treino do corpo em que os cinco sentidos trabalham sem descanso para a mente que quer absorver tudo, porque no fundo nunca se esquece que tem prazo de validade.

Apesar da Adrenunes ser uma estrutura que se pode avistar da Peninha, não é fácil dar com a sua localização, fruto da vegetação cerrada e pouca definição dos carreiros que levam ao local. E ainda bem. Ajuda a manter a magia que há em recantos secretos. Eu, por exemplo, no primeiro treino em que fui mais ou menos propositadamente para conhecer este local, não dei com ele. Desta vez, quando pensava que já ia enganada e já tinha desistido de o encontrar, ali estava. Por isso, hoje não vos deixo mapas nem mais dicas, pois há coisas que devem ser descobertas e não procuradas. :)

Outros locais de passagem:


(Um desconhecido apanhado num momento de contemplação.)



Neste treino houve várias partes que foram feitas em caminhada, também porque o desnível não é propriamente meiguinho,  e assim ao menos sempre se trabalham músculos diferentes (isto é aquilo que digo a mim própria para não desmotivar, alinhem!).

Depois, fiquei sem bateria após o km19 e, durante uns segundos, - quem tem gps sabe bem que isto acontece - passa-nos sempre pela cabeça que "se não sei quantos quilómetros/tempo/ritmo faço, nem vale a pena correr"... Como se já antes de todas estas novas tecnologias não se corresse, como se os quilómetros não ficassem na memória das pernas, como se correr fosse só matemática.

E por falar em matemática....

Dados do treino (por aproximação):
Distância - 22km
Tempo - 3h20
Ganho de elevação - 800 metros


Assim se passou mais uma manhã de treino, entre visitas a locais já conhecidos, como a Pedra Amarela e a Peninha, e a descoberta de locais novos, que me despertam a vontade de querer sempre saber mais. E tanto que há por descobrir ainda... Posso não gostar de matemática, mas sempre gostei de história, e Sintra é fértil nisso. Na história com "H" maiúsculo e na outra, a de encantar.

Bom fim de semana!

9 de março de 2014

As coisas simples

Acordar cedo a um domingo e ficar contente com isso porque é dia de treino longo.
Fazer café, com tempo, na cafeteira, porque apesar de ter máquina expresso gosto do s-s-s-ssssom que faz quando o café fica pronto e do cheirinho que invade a casa.
Sentar-me no sofá a comer as papas de aveia e a ler o jornal do dia anterior.
Sair de casa, ténis nos pés, e sentir o ar fresco da manhã na cara. Apertar o casaco até ao pescoço e dar uma corrida até ao carro.
Conduzir e ouvir na rádio aquela música que faz parte das músicas da minha vida. Aumentar o som e cantar em voz alta, porque é isso que se faz no carro, quando ouvimos aquela música que faz parte das músicas da nossa vida.
Avistar a Serra ao fundo e ficar entusiasmada, porque sei que dali a poucos (optimista!) minutos, vou estar a correr lá em cima, no meio do verde e com o mar ao fundo. Nessa altura, outros carros vão estar a passar onde passo agora, se calhar com pessoas a cantarem as músicas das vidas deles, alguns a admirar a Serra com moderada atenção, outros a olhá-la apenas de relance, porque é cenário de todos os dias e olham sem a ver.
Chegar ao local de estacionamento e haver poucos carros. Benesse.
Começar apenas a caminhar e ficar cansada ao fim de cinco minutos, porque é sempre a subir, mas já sei que vale a pena e continuo, porque a vista é linda.
Aperceber-me de que a Serra começa a permitir-me alguma familiaridade, a deixar-me reconhecer certos recantos, aquela rocha, a árvore da seta vermelha, o carreiro do tronco caído, a casa em ruínas na floresta, mas ainda assim obriga-me a perder-me, porque é essa a magia.
Descobrir o local que se procurava quando já se havia desistido de o encontrar, porque a Serra é que dita as regras e não nós.
Regressar a descer, correr e sentir o vento e abrir os braços, porque só de ouvir o vento passar já vale a pena ter nascido, lá diz o poema que gosto tanto e o qual me forço a recordar tantas vezes, sempre que depois apanho o vento de frente, numa subida.
Conduzir de volta a casa com o cansaço bom no corpo, a cara quente e vermelha, o cabelo despenteado. Não espero por outra música da minha vida na rádio, ponho um cd com uma mão cheia delas e canto a viagem toda de volta.
Entrar e descalçar-me mal passo a porta. Os ténis, mais uma vez sujos de terra, chutados para um canto. Depois há-de haver uma altura para me irritar com a nova lavagem em baldes de água que ficam cheios de lama, mas hoje não.
Tomar um duche. Duche que sabe ao melhor duche do mundo, porque corri.
Fazer o almoço. Almoço que me parece o melhor do mundo, porque tenho muita fome. Porque corri.
Sentar-me no sofá de pernas estendidas a ver episódios atrasados de Game of Thrones.
Começar a sentir sono.
Achar que o melhor é ir deitar-me meia-horinha.
Deitar-me na cama feita de lavado. Há poucas coisas na vida melhores do que deitarmo-nos numa cama feita de lavado.
Adormecer em 30 segundos.
Acordar após 20 minutos (pareceram 20 segundos) com um telefonema de uma amiga para beber café. Mas ir a um café perto, porque... as pernas.
Passar o resto da tarde entre bisbilhotices, adiantar trabalho para a semana e comer.
Comer outra vez. Muitos quilómetros = muita larica. Temos de falar sobre isto.
Terminar a noite a escrever este texto.

Há dias espectaculares e depois há dias espectacularmente simples.


4 de março de 2014

Em Fevereiro, chega-te ao lameiro...

... lá diz o ditado, e quem sou eu para contrariar a sabedoria popular?
Por isso, foi logo a começar com o "lameiro" do Trail de Bucelas e a terminar com o "lameiro" do longo de Monsanto este fim-de-semana (que, na prática, já entra nas contas de Março, mas pronto).

Contagens do mês de Fevereiro:
- Distância: 195,7 km
   . em estrada: 120,3km
   . em trilhos: 75,4km
- Horas a correr: 25:07
- Ganho de elevação total:  3056 m
- Treino mais longo: 29km de Sintra.
- Treino com mais ganho de elevação: quase um empate entre o Trail de Bucelas e os 29km de Sintra.
- Treino mais feliz: Treino com a Stephanie, em Monsanto (uma maluquinha que gosta de correr com tempestades, fazer o quê?...)
- Treino "mas porque é que eu me sujeito a isto": as rampas.
- Quilómetros a pedalar: 54 (3 actividades)
E, só por curiosidade:
- Calorias perdidas: 11,199!!! -> Tenho aqui um défice a colmatar com chocolate, lá tem de ser! (Eu sei, os sacrifícios que se fazem por amor à corrida...)

Distância total a caminho da Ultra: 377,7km (jan+fev)


Apesar de ser um mês curto, não foi mau.  Foram menos treinos (16, contra os 19 de Janeiro), mas dos que tinha "planeados" apenas não realizei um. Aquele telefonema no dia do arco-íris veio alterar-me os horários e tem sido difícil adaptar-me, por isso fico contente por, ainda que às vezes irritada por deixar os lençóis, ter persistido nesta viagem dos quilómetros.
Agora que fiz a contagem até fico triste de ter falhado o treino, mas apenas porque seria o primeiro mês desde SEMPRE que iria ultrapassar os 200km... Mas pronto, fica para o próximo. ;) No entanto, penso que o que se perdeu em quantidade acabou por se ganhar em "qualidade", já que consegui fazer treinos mais específicos, como rampas, e técnicos, com os três longos realizados em trilhos.

O melhor de tudo ainda tem sido conseguir manter-me sem sinais de (re)lesão... Para isso, muito tem contribuído o que não incluo ali em cima nas contagens, mas faz parte do treino: alongamentos, alongamentos, alongamentos. Mesmo naqueles dias em que não apetece nada e/ou já estou a ficar atrasada, pelo menos uns 10 minutos tento fazer, nem que para isso tenha de encurtar a parte da corrida (ohhhhhh).

O meu longo deste fim-de-semana, e porque não pode ser sempre em Sintra (duplo ohhhhh), foi, como já referido, em Monsanto. O pulmão de Lisboa também fica muito bonito verdinho das chuvas, mas apanhei vários troços dos estradões assim:


e ainda:


Não estava de fácil circulação e ainda patinei algumas vezes. Vacilei mas não caí, de ressalvar....

Como desta vez não tive companhia mantive-me apenas pela zona conhecida, sem grandes explorações (que é uma das partes mais divertidas para mim). No entanto, ao passar num dos meus atalhos habituais deparei-me com isto:

?!

Completamente bloqueado por troncos e ramos caídos. Este Inverno não tem mesmo dado tréguas!

Este domingo não tinha nenhum número de quilómetros definido. Queria fazer pelo menos 20, mas como dispunha de pouco tempo e tinha compromissos para o almoço, a ideia era apenas correr até ao meio-dia e fazer o que fosse possível. Não sei se foi por ter descansado pouco, não ter companhia para me distrair ou não levar auriculares (nunca levo música em trilhos), mas por volta do km15 comecei a arrastar-me e entrei num abismo de auto-comiseração, dúvidas e alguma ira. Estão a ver aqueles momentos negros nos treinos em que pomos em causa as nossas capacidades e evolução? Foi isso tudo, e ainda refilar sozinha (o sofrimento resmungado em voz alta alivia, é científico).
O que vale é que levei um pacote de gomas - gomas são a minha comida feliz - e lá por volta do km18, e com o pacote já vazio, a coisa recompôs-se, permitindo-me concluir o treino pouco depois do meio-dia com 22km feitos.

Verdade seja dita que com paisagens destas também não se pode resmungar durante muito tempo....


E assim foi o primeiro longo do mês. Não foi dos meus treinos mais fáceis, mas ultrapassar estes momentos também é importante. Agora é lembrar-me de levar um quilo de gomas para os 42km de Almourol e estou safa! :)