29 de abril de 2014

De volta ao Ribatejo

Este domingo o treino foi por aqui...

Acho que pelo pórtico da partida dá para ver que estava no Ribatejo... :)

II Trail Nabantino. 25km ali para os lados de Tomar.
Este foi um trail que apelidei de "Expresso", por ser acessível e quase 100% corrível. Não houve grande desnível (cerca de 500m), não escalámos rochas, não atravessámos rios nem entrámos em grutas ou túneis (ohhhhh...) mas, por outro lado, foi muito rápido. O ideal para velocistas dos trilhos, o que, obviamente, não é o meu caso. Mesmo assim, terminei abaixo das 3horas, o que para esta distância em provas de trail é muito bom.

No entanto, foi também o meu "treino longo" mais curto (em horas) dos últimos fins-de-semana. Terminei a corrida antes do meio-dia e nem sabia o que havia de fazer a tanto tempo livre! Ihihih... Até ponderei correr mais um bocadinho ao final da tarde, mas passou-me depressa a ideia.

Será a crónica que se segue, desta vez com poucas fotos, já que não houve muitas oportunidades para pausas - outra "desvantagem" dos trails rolantes.

De resto, os treinos andam a decorrer com normalidade. Tenho tido preguiça para as repetições de rampas, mas como nos meus longos de fim-de-semana tenho incluído muitas subidas acaba (espero...) por compensar. Depois desta prova, cheguei também à conclusão da importância de treinar as descidas que, de entre tudo, ainda acho que é o meu ponto mais fraco. Não sei como há atletas que passam por mim a voar em descidas como se não tivessem amor à vida, mas é um facto que existem, e eu quero ser como eles. :)

Cada vez mais apaixonada por isto. Infelizmente, tive de alterar alguns objectivos mais imediatos que tinha (mais sobre este tema depois), mas arranjei logo outros igualmente interessantes. Não se pode baixar os braços ou, neste caso, parar as pernas.

Bons treinos!


27 de abril de 2014

Treinos por Trilhos de Sintra #5 - Uma visita ao Guincho

Naquele dia acordei com vontade de ver o mar. Vê-lo ali, ao perto, pés na areia, ouvir as ondas e deixar o vento de água e sal despentear-me. Mas tinha um encontro marcado com Sintra e não se deixa uma serra bonita à espera.

No entanto, tinha um plano.

O encontro foi no local habitual, junto à barragem. Direcção: Peninha.


O percurso escolhido foi um pouco diferente do habitual. Descobriram-se novos trilhos um pouco mais abaixo, sempre com vista de balcão para o mar. O mar que queria visitar naquele dia.


- "Olha ali a famosa 'parede' da Corrida Entre Serra e Mar. Não queres ir até lá conhecer um bocado do percurso?"

  

 - "Vamos."

E o plano estava em andamento.

O tempo estava do meu lado, foi abrindo e ajudou a compor uma paisagem com cores fabulosas.


- "Já que estamos aqui, e que tal irmos até à zona das falésias?" (Continuação do plano.)


Também diga-se que não é muito difícil convencer alguém com argumentos destes...


Parece-me um bom local para o primeiro abastecimento.

Eu sei que parece que estou perigosamente sentada à beira do precipício, mas não. :)

Facilmente um dos sítios mais bonitos onde fiz uma pausa para repor energias. 9km estavam feitos, mas ainda não tinha chegado ao meu destino.

- "Já que estamos aqui, bem que podíamos ir percorrer aqueles carreiros que ladeiam as escarpas..."

Pegou.



Ainda se treinou um bocadinho os tornozelos, numa baía de "areia grossa".


Um último esforço:

- "Já que estamos aqui, mais um ou dois quilómetros e vamos até à praia..."

Quase lá...
VITÓRIA!!!!

E o que eu realmente queria fazer desde que abri os olhos nessa manhã:

Correr para o mar.

16km e banho de gelo feito. Todos os treinos deveriam incluir esta dose fresca de felicidade.

Agora, a pior (melhor?) parte, aquela que eu sabia que iria chegar, mas ia ignorando na busca do meu destino. O regresso. Até lá acima...

Até ali àquele piquinho.

Foi só ligeiramente a subir.


 
E descer uma encosta para tornar a subir outra.


Com a falésia ali à distância de uma queda. Atenção redobrada nesta altura.


 Quase lá...

 
Muita vontade de subir ao topo desta rocha, mas achei que já era escalada a mais.

Se me perguntarem, para além de ter sido um dos treinos mais bonitos que fiz, foi também um dos mais completos. Diferentes tipos de pisos e, inclusive, subir carreiros íngremes e estreitos, habitualmente utilizados pelos (loucos) praticantes de downhill. Misturar o sol a pique, a dificuldade em respirar devido ao cansaço e ao não querer muito abrir a boca por causa das colónias de mosquitos, ao medo constante de nos depararmos com alguém de bicicleta a descer em alta velocidade, dá um grande treino cardiovascular, é o que vos digo.

A praia já lá longe...

Passando a Peninha, houve ainda pernas (já um bocado empenadas, mas sim), para subir à Pedra Amarela antes de descer à barragem.

Acabaram por ser 28km que souberam a 40km, mas no bom sentido. Faz sentido? :) Muito duro, muito acumulado positivo e muito bom! Com tempo para uma visita ao mar, de caminho.

Como comentei na altura, foi um treino que soube a prova. E divertido como um passeio.

Sintra, até já!

21 de abril de 2014

Treinos da semana e o relato de 8km

Sossegai quem pensava que, à semelhança do Homem-Aranha, também eu teria sido mordida por uma aranha geneticamente modificada mas que, em vez de me dar a habilidade de subir paredes e lançar teias, me tivesse dado uma resistência de corrida e capacidade de recuperação acima da média. Na passada quinta-feira tive novamente um treino horrível e desmoralizante, como qualquer outro corredor mortal... A nuvem de endorfinas em que andava a flutuar desde Almourol esfumou-se, e a normalidade foi reposta. Mas foi bom enquanto durou.

Como na sexta-feira, ainda despeitada, não quis nada com a corrida, aproveitei para um passeio de bicicleta ribeirinho. Cerca de 20km, mesmo a tempo de acumular um negativo de calorias a compensar na Páscoa.

Depois, no sábado foi hora de voltar à minha serra de Sintra. Explorou-se uma zona diferente e tenho a dizer-vos que, pela primeira vez, descobri uma paisagem feia e onde não gostei nada de correr...



... Ahah, estava a brincar! Linda como sempre.
Mais sobre este longo na sua devida crónica. (Aviso: crónica com imagens capazes de causar vontade incontrolável de deslocação ao, e exploração do, local).

E, finalmente, ontem. Ontem não estava programado nenhum treino, já que foi um dia dedicado ao convívio com a família. No entanto, parece que houve um jogo qualquer que levou o meu irmão a abandonar o convívio familiar para se deslocar a esse estádio qualquer e eu também acabei por regressar a casa mais cedo.
Depois pensei que era uma ocasião muito boa para uma corridinha descontraída para desmoer o folar - domingo de Páscoa, estava de chuva, e as ruas estavam praticamente desertas.

Calcei os ténis e levei o mp3 para ouvir o relato. Sim, ouvir o relato. Sobretudo, porque o amor fraternal me obrigava a essa luta interior: 99% de vontade que as coisas corressem mal para poder passar horas, quiçá, bem aproveitadinho, dias, a gozar com o azar clubístico do meu irmão; e 1% em que, vá, até ficava feliz por ele ficar feliz (mas não lhe digam nada...).

Assim lá fui eu, a correr ao som de um relato.

... 15 minutos de jogo e Benfica tem exibição ao nível do seu favoritismo...

Epá, é que não se vê ninguém na rua, impressionante.

... meia hora de jogo e a equipa da casa começa a perder o domínio inicial....

E agora começou a chover, ora bolas, devia ter trazido o boné.

... Jorge Jesus não se encontra na tribuna, ao lado do presidente. Onde andará Jorge Jesus? - pergunta o relatador.

- Onde andará toda a gente? - pergunto eu.

... final da primeira parte. Zero a zero no marcador. Adeptos benfiquistas ansiosos para fazer a festa...

Passa o primeiro grupo de corredores por mim. Três homens e uma mulher, também todos eles encharcados. Trocamos um aceno e um sorriso compreensivo.
Chuva a ficar cada vez mais forte. Decido voltar para trás. Vou neste momento com 3,8km de treino.

... Goooooolo! Lima! Está feito o primeiro do Benfica. Já cheira a taça do campeonato.

Grrrrr... (Mas contente pelo irmão)

... Gooooolo! Não foi frango, foi aviário! Lima, Lima, Lima! Está feito o segundo do Benf ...

Desligo o mp3.

Passo duas ou três vezes em frente ao prédio porque tenho de concluir com 8km certos, como é óbvio. Ainda bem que está toda a gente dentro de casa e ninguém assiste.

Tomo um duche quentinho e desligo o telemóvel. Feliz pelo meu irmão, mas não é necessário partilhar das suas festividades (aquela percentagem 99% -1% dá para os dois lados e acho que ele também não se ia coibir de a utilizar, e de forma muito ruidosa).

Fiz a minha parte e joguei os meus oito quilómetros. Ganhou o amor fraternal e a corrida. :)


Totais: cerca de 50km corridos (alguns dos quais caminhados e escalados) e 20km a pedal.

Boa semana!

16 de abril de 2014

A (in)sustentável leveza da recuperação

A semana seguinte à maratona dos Trilhos do Almourol, essa prova fantástica (vamos ver durante quanto tempo vou conseguir gabar-me desta prova sem irritar... Avisem-me!), decorreu com tranquilidade.

Na segunda-feira acordei sem dores, o que muito me surpreendeu, e, depois do trabalho, aproveitei para ir dar uma caminhada, apenas para pôr as pernas a mexer um bocadinho. Devo ter percorrido cerca de 3km.
Na terça-feira, quando abri os olhos, temi acordar com a sensação de ter levado com o armário em cima e não conseguir levantar-me, mas não. Doíam-me ligeiramente os ombros e as coxas, mas suportável, e sem me provocar nenhum andar novo ao subir e descer escadas.
No entanto, foi só já na quinta-feira que resolvi correr um bocadinho. 6km que foram de uma leveza extraordinária! Como se as pernas adivinhassem que eram "só" 6km, à beira-rio, sem desníveis loucos, e batessem as palmas de contentes. Foi uma corrida que soube muito bem e daquelas em que temos a sensação de que podemos correr para sempre, mas não quis abusar.
E, para terminar a semana de recuperação activa, fiz um longuinho à beira-rio, aproveitando o sol do final de tarde de domingo.

Esta semana já irei correr um pouco mais de quilómetros e, quiçá, fazer uma visita à minha Sintra encantada. Não posso deixá-la, e a mim, com saudades.


A prova fantástica que tive nos trilhos de Almourol (já estou a abusar?) veio limpar um pouco a má reputação com que as provas de trilhos em terras ribatejanas, mais concretamente essas com designação de origem árabe, tinham ficado aos meus olhos, desde o desaire do Almonda*.

(* Um aparte para quem for um leitor recente : o Trail do Almonda foi a minha prova mais difícil até ao momento. Caso alguma vez tenham tido uma prova que vos correu mesmo, mesmo mal, podem ir ler esta minha crónica e sentirem-se melhor. Por pior que alguma prova alguma vez vos tenha corrido/venha a correr, podem sempre dizer: "ao menos não foi preciso arranjar um cajado, como aquela outra rapariga". Não precisam de agradecer.)

Mas, como estava a dizer, os Trilhos do Almourol vieram equilibrar a balança. Acho que muito se deve ao facto de, primeiro, não estarem literalmente 42º à sombra e, segundo, ser uma prova repleta de água. Prefiro, sem dúvida, correr em trilhos verdes e frescos, de preferência com vários cursos de água durante o trajecto. Desta vez até tivemos direito a passar por praias fluviais, e com que vontade fiquei de interromper a marcha e dar um mergulho! Psicologicamente acho que me ajuda bastante saber que, em caso de desespero (e mesmo sem desespero, só porque sim) posso refrescar o corpo e as ideias na água fresquinha. É por isso que irei voltar a esta prova e outras, mas muito provavelmente não ao Almonda. Ainda em deliberação.


E agora, para não ser tudo em bom, as recordações físicas com que fiquei de Almourol:
- Arranhões vários nas pernas, um deles maiorzinho, provocado por uma silva que se apaixonou pela minha perna direita e não a queria largar do seu abraço.
- Unha negra no segundo dedo do pé esquerdo. Nos dias que se seguiram à prova cheguei a temer tratar-se de um caso de divórcio, mas acho que ainda há salvação e podemos continuar juntas.
- Um hematoma na coxa da perna esquerda que não me perguntem como aconteceu.
- Umas joelheiras semi-permanentes. Passo a explicar: Bronze desde a marca dos calções até à marca das meias de compressão. Parece que tenho umas joelheiras acastanhadas postas. No duche a seguir à prova ainda pensei que seria sujidade e pó... Era bronzeado. Mesmo a tempo de inaugurar a época balnear em grande!

Marcas de guerra. É parvo dizer que tenho um bocadinho de orgulho? (Ok, das "joelheiras" não tanto...)


11 de abril de 2014

Trilhos do Almourol

Subtítulo: A história de uma estreia em trails de grande distância, que se tivesse sido melhor estragava.


Enquanto observava paisagens como esta, através da janela da camioneta que nos transportava nesse momento até Martinchel, localidade onde iria ter início a prova da Maratona, pensava para comigo porque é que raio me haveria de ter dado para isto das corridas. Podia ter-me dedicado à pintura, sempre relaxava um bocado... Ou podia ter aprendido a fazer tricô, e aproveitar as horas vagas para fazer uns cachecóis e gorros para oferecer no Natal... Mas não. Eram 9h da manhã, a corrida começava às 10h, mas eu já estava a pé desde as 5h30, com uma viagem de mais de 100km de carro feita e com (na altura ainda não sabia, mas mais de) 42km para fazer a correr, de regresso ao Pavilhão Municipal do Entroncamento, de onde a camioneta tinha partido. E, deixem-me que vos diga, percorrer de transporte os quilómetros que depois sabem que terão de retornar a pé, é logo um teste mental a ser superado ainda antes de terem aquecido as pernas.

Olho em volta. Curiosamente, na camioneta em que sigo sou a única rapariga. Todos os outros ocupantes são homens de barba rija e, aos meus olhos, todos muito mais atletas e preparados para estas aventuras do que eu (porque estas coisas percebem-se olhando apenas para o ar da pessoa, claro...). Sinto aquele nervoso miudinho,  a insegurança do desconhecido, mas também, e acima de tudo, entusiasmo.


A linha da partida será a entrada do Parque de Campismo de Castelo do Bode. Ou, talvez seja mais correcto dizer, a saída. O controlo 0 foi feito assim que os atletas entraram no parque, onde ficavam a aguardar até à hora indicada. Enquanto aguardava, deu para ficar com a ideia de que se tratava de um local bonito e pacífico, às portas da barragem, ideal para um fim-de-semana mais calmo. Um fim-de-semana em que não tenham de voltar para o Entroncamento a literalmente correr, portanto.


Deixem-me já despachar esta parte: este trail foi muito bonito. Aliás, acho que entrou para o top 3 dos trilhos mais bonitos em que corri, e olhem que a concorrência é feroz. No entanto, como irão entender já de seguida, quem foi na ideia de tratar-se de um trail rolante, foi ao engano. Verdade que não foi dos que teve mais subidas complicadas, ou dos mais técnicos, mas parece que alteraram o percurso relativamente a edições anteriores e pelo menos os primeiros 15km não permitiram grandes embalos. Foi um sobre e desce constante em single-tracks à beira do rio, que exigia cuidados e provocou algum engarrafamento. Mas já estou a adiantar-me.

10horas: o speaker faz a contagem decrescente e os cerca de 300 atletas cruzam os portões do parque ao som do "2... 1... Vão!".


Os primeiros quilómetros


O percurso começa sempre a descer. Eu começo sempre a travar. Acho que nunca fiz nenhuma prova em que fosse seguida tão de perto pelo carro-vassoura. Tenho medo de me deixar entusiasmar e pagar com juros de empeno mais tarde. Mesmo assim, os primeiros três quilómetros, distância que levou até chegarmos junto ao caudal do rio, são feitos a uma velocidade "louca" para trilhos e, sobretudo, para trilhos em que vou correr pela primeira vez mais de 30km. Não deveria estar a fazer quilómetros na casa dos 5minutos, mesmo sendo a descer. Também não deveria estar sempre a olhar para o relógio, mas não consegui controlar (lá mais para a frente da prova esta mania passa-me).

O que vale é que, para compensar, o km4 vai demorar mais que os três primeiros todos juntos. Ai estavas preocupada por estares a começar demasiado rápido? Toma lá um travão de 26min/km!


E outro de 16min/km.


Estes engarrafamentos são habituais em provas de trail, sobretudo mais cá para a cauda do pelotão, ou a "liga dos últimos", como eu a chamo, na qual me incluo e designo com carinho. Geralmente são provocados pela passagem em algum local mais perigoso, neste caso tratava-se da primeira subida com auxílio de corda, das várias que encontraremos ao longo do percurso. Estas pausas só são chatas porque, neste caso, ainda mal tendo aquecido, fomos obrigados a parar. De resto, é sempre tempo útil para tirar fotografias e pôr a conversa em dia. Se há prova em que o tempo de introspecção em natureza é pontuado harmoniosamente por momentos de companheirismo, é uma prova de trilhos.


Ainda não disse, mas nesta minha estreia contei com a companhia do meu amigo Artur. O Artur é uma pessoa que poderia perfeitamente ter despachado esta prova na casa das 5 horas, logo, estão a ver a paciência que foi exigida da sua parte e a pressão (auto-imposta) que existia da minha. Não quero ser spoiler, mas demorei um bocadiiiinho mais do que 5horas a fazer a prova...


O carrossel

As fotos seguintes resumem bem o que foi esta primeira parte da prova. Ora estávamos a descer para o rio, ora estávamos a subir do rio.




 


Gostei especialmente destes troços de escalada assistida por corda. Ao bom espírito da tropa, nenhum homem era deixado para trás. Quem acabava de subir ficava para estender a mão ao seguinte, enquanto cá em baixo alguém ficava a estabilizar a corda.



É certo que é um método em que as pessoas acabam por perder muito tempo, mas é uma entreajuda espectacular. (Caso se estejam a questionar: não, não fiquei a segurar a corda para ninguém, mal seria da integridade física dessa pessoa! Mas dei apoio moral... :))


Basicamente, posso dizer que até cerca do km20 tudo correu bem. A paisagem era bonita, os carreiros eram caricatos, mas começava a perguntar-me até quando iria aguentar esta versão "rolante". Entretanto, ia aproveitando o momento.



Passámos por vários trilhos, todos devidamente identificados.
Por enquanto ainda dava para evitar molhar os pés...
Paisagem com toques de sudeste asiático, em Almourol.

Até que, à passagem do terceiro abastecimento....


Os quilómetros negros



Depois do abastecimento acima, caí a pique. Eu não sou daquele tipo de corredores que começam a ficar sem energia, aos poucos, que se dão conta de "epá, estou a ficar cansadito..." Não. Eu estou muito bem no topo do mundo e depois, de repente, quando me apercebo, já caí dentro de um poço negro e profundo de cansaço e lástima. Foi o que aconteceu.

Pouco depois do abastecimento tive de parar para apertar os atacadores e, quando levantei a cabeça, tive uma ligeira quebra de tensão. Fiquei a ver estrelinhas durante um bocado, e não sei se terá sido isso a despoletar o que se seguiu.

Sei que o facto de o sol estar a pique (já passava da uma da tarde) e de se seguir uma recta interminável junto aos carris, também não ajudou.


Não era que me sentisse farta, longe disso, nem que duvidasse que seria capaz de terminar a prova, mas comecei a achar que se não saísse rapidamente deste buraco, ainda com metade da prova por fazer, ia ser uma experiência muito sofrível.

Um cenário lindo que nem apreciei com a atenção devida.

Foram tentados vários métodos de socorro. Tentaram distrair-me com karaokes improvisados, com conversas sobre temas de meu interesse, críticas a filmes, referências à série Game of Thrones em geral e à personagem Jon Snow em particular... Mas mesmo assim não resultou. Quando estou a lutar contra os meus demónios internos agradeço toda a distracção possível, mas o máximo que vão ouvir da minha parte são resmungos e grunhidos indistintos.


Nesta parte só abria praticamente a boca para dizer: "SUBIDA"! SUBIDA era o meu código para "vamos parar de correr que estou cansada". Como o próprio nome indica, só deveria ser utilizado efectivamente em subidas de dificuldade média/alta, que sentisse necessidade de fazer a andar. No entanto, usei e abusei deste código, inclusive para "subidas" com d+ de 20 centímetros e não tenho vergonha de o admitir. Recordo-vos que estava no fundo do poço, tenho desculpa. :)


O abastecimento do km28 chegou na hora certa. Permitiu fazer uma pequena pausa à sombra e repetir o menu: 1 bocado de banana + 1 (ou 2 ou 3) gomos de laraja + batatas fritas de pacote. A verdade é que nunca tenho muita fome durante as provas e quase que tenho de me obrigar a ingerir qualquer coisa. Estes alimentos, nesta exacta sequência, eram o que entrava.
Neste local em particular houve vários atletas a desistir. Muitos não estavam à espera da alteração do percurso relativamente a anos anteriores e tinham gasto demasiado energia antes de tempo (nas suas palavras). Acho que o facto de eu achar que, por comparação, não me sentia assim tão mal (desistir nunca me passou pela cabeça) deu-me alguma moral, porque daí para a frente as coisas vão ser sempre a melhorar.

A ressureição

O ponto de viragem deu-se exactamente ao km30. Não me perguntem porquê mas, mesmo tendo começado esta prova determinada a concluí-la e com a ideia de que só desistiria se tivesse algum problema grave, o km30 foi o momento em que tive a certeza de que ia conseguir terminar. Foi a 12km do final que ganhei uma confiança inabalável, vinda não sei de onde, e soube que os 42km de Almourol seriam meus. É estranho, já que nunca tinha feito mais do que a distância de 30km e dali para a frente seria terreno desconhecido... Mas a mente tinha alcançado a meta e agora era só o corpo ir atrás. Dali para a frente, como que para compensar-me dos quilómetros de purgatório, vou experienciar uma resistência fantástica. Sentia-me bem e constantemente surpreendida por isso.

Tanto nas partes mais técnicas...


Como nas partes mais rolantes...


Vemos atletas que eram só formiguinhas distantes a ficarem cada vez mais perto, e a prova deixa de ser tão solitária. Estava toda contente por conseguir recuperar lugares na classificação, nem que fosse da posição 373º para o 354º, não interessava! Sentia-me inebriada por esta experiência nova de confiança imparável, e no meu campeonato pessoal já era vencedora.

Estes últimos quilómetros vão também distinguir-se pelos vários cursos de água que vamos ter de atravessar, nomeadamente em alguns túneis como este:


E outros como este:

Sim, o caminho é por ali! Adentro!

Eu sei o que o túnel acima faz lembrar... Mas a sério que não foi assim tão mau. No entanto, o senhor que disse que a água ali nos dava pelos joelhos devia ter as pernas muito altas, porque molhei as pernas bem acima dos joelhos, e fiquemo-nos por aí. :)

Eu gosto bastante destas aventuras aquáticas, apesar delas também significarem muita lama, o que atrasou a progressão nos quilómetros finais. Até ao km37 formámos um pequeno grupo de ritmo consistente com outras duas raparigas e um homem, mas houve ali uma altura em que comecei a sentir que algo não estava bem com a minha unha do pé esquerdo (update daqui a uns dias) e, além disso, as descidas já começavam a custar-me mais do que as subidas, porque sentia as plantas dos pés a queimar contra o terreno pedregoso. Então o que é que eu fiz, abrandei? Claro que não! Se estava com dores, tinha de terminar a prova mais depressa, pois está claro!

A raiva como impulsionadora final

Já não me lembro, mas acho que de repente, do nada, desabafei qualquer coisa em voz alta como: "estou farta, fartaaaaa destas descidas em pedra, raios parta mais aos pés!" (ou algo eloquente do género) e larguei a correr acelerada por ali abaixo. De certeza que as pessoas que assistiram a isto devem ter pensado que tinha ficado maluquinha - "olha, agora é que esta pensa que vai ganhar a prova..." - mas nesta fase estava mais do que decidida a terminar. Sentia-me bem a nível de respiração e pernas, mas os pés já começavam a incomodar-me.

Mais uma fotografia de uma paisagem feia, feia... :)

No último abastecimento, quando o gps já contava mais de 40km, foi-nos indicado que ainda faltariam cerca de 4 km para o final. Realmente, a indicação era de que o último abastecimento seria aos 38km, mas o meu gps já contava mais de 40km, o do Artur também e, pelos vistos, o de várias pessoas que se queixaram também.

Quando ao toque dos 42km estava ainda rodeada de árvores num single-track, sem avistar sinais de civilização, a raiva continuou a motivar-me. Os pés queixavam-se, a mochila já estava a criar um raspão na zona do pescoço, mas nem que tivesse de fazer 44 ou 45km, tinha de concluir esta Maratona! Sentia-me picada pelas passagens de lama, que testavam o meu equílibrio. Sentia-me desafiada pelas últimas subidas, como se quisessem verificar se ainda havia força disponível nas minhas coxas. Sentia-me gozada pela organização, que nos fez atravessar no último quilómetro o Parque do Bonito, realmente de fazer jus ao nome, quando já não queria saber e só via a meta à frente.

A redenção

Depois, senti-me apoiada naqueles últimos 600 metros, quando vi o Pavilhão Municipal (aaaleluia!) e sabia que, estivesse ele 2km mais à frente, não teria parado de correr na mesma. Levou 8h, poderia ter levado mais. Foram 44km, mas podiam ter sido 48km. Naquele dia, ninguém me tirava a Maratona.

Quando entrei no pavilhão, fui recebida com aplausos como se fosse a primeira. Inclusive, tive um senhor sorridente e simpático a colocar-me a medalha ao peito, qual medalhada olímpica. A organização esteve impecável ao longo de toda a prova (até com o bónus de 2km grátis que ofereceu aos atletas ihih), mas este miminho final fez a diferença em relação a muitas. Aqui, tenho a certeza de que até ao último atleta houve gente a apoiar.



E foi assim, a história dos meus primeiros 42km (+2) em trilhos. Não foi perfeito, mas foi fantástico. Tenho a noção de que fui uma sortuda por ter tido esta primeira experiência tão positiva em grandes distâncias. Isso até me deixa com sentimentos dúbios em relação à próxima (porque CLARO que vai haver próxima!)... Qual é a probabilidade de fazer uma outra provas destas e terminar cansada, óbvio, mas praticamente sem dores, de respiração normalizada, e ainda a sentir-me com energia de reserva? Muito baixas!

Por agora, vou apenas aproveitar a nuvem de endorfinas na qual me encontro a flutuar desde domingo passado. Sim, ainda dura! Agora consigo perceber o porquê do pessoal ficar viciado nisto das longas distâncias.

Obrigada pelo apoio de quem esteve lá e de quem mandou uma energia extra. Se pudesse, partilhava as endorfinas com vocês. Espero que um bocadinho desta felicidade também aí chegue.

Almourol 2015, vemo-nos por lá?


6 de abril de 2014

42km (+ bónus) de Almourol - FEITOS!

Já é tarde, mas ficam apenas umas palavras para dizer que está feito, sobrevivi e, apesar de haver ali uma fase em que entrei nos tais "submundos da mente", consegui recuperar e, atentem, acabar com energia! Muito obrigada pelo vosso "empurrãozinho"!
Foi duro, não vou negar, mas também não foi tão mau como o pintei (ainda bem que tenho uma imaginação com tendência para o dramatismo). :)

Estou muito contente! Contente como só um maluquinho que acorda às 5h30 da manhã para passar várias horas a  correr ao sol, lama e água pode entender. E ainda achar que esta é a ideia de um dia bem passado.



I'm not like them
But I can pretend
The sun is gone,
But I have a light
The day is done,
I'm having fun
I think I'm dumb
Or maybe just happy.