26 de maio de 2014

Baixa temporária

Depois de quase um mês de treinos impecáveis, a sentir-me sempre bem na grande maioria das corridas, após o treino de sexta-feira à tarde, já refastelada no sofá e com o banho tomado, comecei a sentir-me estranha... Começou com uma ligeira moleza, o que associei a falta de sono, já que na noite anterior tinha dormido poucas horas, e fui para a cama cedinho.
E eis que no sábado de manhã acordo com sintomas de grande ressaca, mas sem o proveito prévio. - Toma lá febre e mau-estar geral, bom fim-de-semana! - foi a mensagem de bons dias do meu corpo.

Depois do almoço de Sábado tive algum ânimo para ir aviar uma receita de Mimos da Mamã, com dosagem à discrição, após os quais notei francas melhorias, mas, por precaução, resolvi cancelar o meu TLD (Treino Longo de Domingo). Custou-me um bocadinho, já que é o meu treino favorito e pelo qual anseio a semana toda, mas resolvi agir de forma sensata. E reforço aqui esta última frase, apenas para salvaguardar que também tenho momentos de bom-senso, antes de avançar para o parágrafo seguinte.

Acontece que no Domingo ao final da tarde já me sentia melhor e pensei: "Bom, já que falhaste o treino de trilhos, que tal um ligeiro treino à beira-rio, apenas para desentorpecer as pernas?"

Resposta da zona do cérebro racional e equilibrada:
- "Olha que ainda ontem estavas com febre, se calhar não é boa ideia saíres para correr, até porque está sol mas com um vento gelado, tu vê lá bem..."

Resposta da zona do cérebro emocional e sem discernimento:
- "Sei que em teoria é uma ideia idiota, mas vamos arriscar na prática. Boa?!"

Acho que vocês já estão a adivinhar como isto correu, mas vou dizer na mesma: Bastaram 1750 metros, 1200 dos quais já muito arrependida, para constatar que, de facto, a ideia era bastante idiota... (Quem diria??!:))

Assim sendo, encontrei-me no Domingo, por volta das 18h30, 1750 metros afastada de casa, e a ter de fazer essa distância de regresso, irritada e com frio. Foram 1750 metros muito longos e desagradáveis.


Para tentar terminar o fim-de-semana com alguma nota positiva, cheguei a casa, fui fazer pipocas, e aconcheguei-me para ver mais um episódio em atraso de uma das minhas séries favoritas.

E por falar em GOT, deixo-vos com um esquema de exercícios que comprova que ver televisão não é incompatível com praticar exercício físico:

http://popwatch.ew.com/2014/04/23/game-of-thrones-workout-plan-kingslayer-abs/

(Quem seguir a série entenderá a quantidade de exercícios de pernas que este esquema exige por episódio. Sobretudo se começarem pela primeira temporada!)


Hoje estou melhorzinha, mas desta vez calei a voz da zona emocional e sem discernimento com fita-cola. Não vou sair para correr. :(


Isto de estarmos doentes não tem graça nenhuma e impede-me de partilhar com melhor disposição as aventuras que quero viver a seguir. Quando me sentir melhor, faço uma actualização dos sonhos.


Boa semana!


18 de maio de 2014

Memórias de Verão

Na semana passada, durante um treino, pela primeira vez este ano, cheirou-me a Verão. E digo "cheirou-me a Verão", não porque já estivesse calor, que estava, mas porque me cheirou, literalmente, a Verão.

Já referi por aqui como a música é exímia em despertar-me memórias, na medida em que determinada banda sonora fica associada a determinada fase ou momento da minha vida, mas nesta experiência dos sentidos, o olfacto não lhe fica atrás.

Neste treino em específico, final da tarde, corria eu pelos jardins do costume quando vi que estavam os aspersores de rega ligados. E, em finais de tarde quentes, os aspersores de rega ligados exercem uma atracção irresistível sobre a pessoa que corre. Como devem compreender, claro que corri em direcção aos mesmos, só para poder experienciar aqueles gloriosos segundos de frescura em que as gotas de água e vapor atingem a pele quente.
Foi então que senti aquele aroma, uma mistura de palha húmida e terra seca, daquela que levanta uma nuvem de pó com as passadas. E de repente tinha outra vez 13 anos, e estava a caminho da ribeira para mais uma tarde de mergulhos gelados com os amigos, na minha Serra.

Engraçado como funciona a nossa memória. Naquele dia, há tantos anos, sem eu ter a mínima ideia, e a repetir um caminho que fiz centenas de vezes ao longo dos Verões da minha vida, o meu cérebro resolveu registar aquele momento banal. Não se tratou de nenhum dia especial e todo ele se perdeu na imensidão de horas iguais, excepto aqueles segundos. Aqueles segundos ficaram numa qualquer sub-câmara da minha mente, à qual nunca tenho acesso, e que só se abre repentinamente quando sinto este cheiro familiar a palha húmida e terra seca.

E isso serviu para dar outro valor a um treino normal de mais um final de tarde.


O que me traz a outra doce memória, dos Verões em que acordávamos antes do sol, e fazíamos a pé, por opção, os 12km que nos separavam do Vale da Serra, onde a restante família já estava à espera, para dias de campismo, piqueniques, e conversas à volta da fogueira. Estes 12km tinham a particularidade de serem sempre a subir. Por vezes por estrada de terra batida, por vezes atalhando por trilhos de vegetação cerrada. Ainda hoje sinto o sol através do olhos semicerrados, os ramos e silvas a rasparem os braços magrinhos, o pó que se colava às pernas, os sons da natureza que associava sempre a algum réptil indesejado, e as cavalitas do meu pai, quando ficava cansada. A vista ficava mais bonita a cada passo dado.

Esta memória ficou de tal forma enraizada em mim, que acho que é por isso que ainda hoje, nestas minhas corridas pela natureza, quero sempre ir mais alto, subir ao topo, ver o mundo lá de cima. Mesmo que custe a lá chegar.


Hoje em dia já ninguém me leva às cavalitas quando fico cansada, mas continuo na mesma a sentir-me feliz como uma criança quando tenho oportunidade de ver as cores do dia e da paisagem, sentada num balcão de rochas na Serra.


Longo de sábado: cerca de 28km a correr, e caminhar, já com bastante calor. 5 minutos no "topo do mundo". Valeu cada metro.


Boa semana!

11 de maio de 2014

Poder correr e correr com vontade


Porque ando preguiçosa com a escrita mas não com os treinos, aqui vai:

Contagens do mês de Abril

- Distância: 200.85 km
   . em estrada:103.85
   . em trilhos: 97
- Horas a correr:27h25
- Ganho de elevação total: 3443 m
- Corrida mais longa (aka grande estreia em trails longos): a espectacular Trilhos do Almourol.
- Corrida com mais ganho de elevação: idem.
- Corrida que arrecada os óscares de "Mais Bonita", "Memorável" e "Treino Fantástico do Mês": Uma visita ao Guincho.

- Quilómetros a pedalar: 57 (3 actividades)

Distância total: 778.85 km (Janeiro a Abril)


Este sábado foi também dia da Corrida Terry Fox, a corrida com o subtítulo mais bonito de todas: "A Maratona da Esperança". Já falei desta prova aqui antes, e, para quem não conhece a história do Terry Fox, vale a pena, mas infelizmente este ano não fiz a habitual publicidade que merece. Toda a gente tem uma causa que lhe toca mais fundo no coração e esta é a minha.

Na verdade, não se trata de nenhuma prova, no sentido em que não é competitiva. Uma pessoa chega, inscreve-se fazendo um donativo para a Investigação em Oncologia, tem direito a uma t-shirt alusiva à Terry Fox Foundation, e depois dá as voltas que quiser ao circuito por eles definido. Este ano, depois de no ano passado ter sofrido alterações devido à coincidência do dia e local com o Triatlo de Lisboa, voltou a ser a habitual "circunferência" de quilómetro e meio, que parte do Pavilhão de Portugal, passa pelo Oceanário e regressa pela ponte de madeira.

 
Também este ano, não sei se devido ao facto de ter havido outras provas e treinos pelos quais optar na zona de Lisboa, achei que teve menos participantes. Para o ano têm todos de estar presentes, combinado?


Ou isso ou as pessoas fugiram todas com medo deste amigo que se escapou ali da exposição Planeta Dinossauro, a decorrer mesmo ao lado...

:)

De resto, os treinos têm corrido bem. Maio está a ser, até agora, o mês em que mais me tem apetecido correr. Correr para treinar, correr para celebrar, correr para acalmar, correr para descansar (por contraditório que pareça) e correr por correr, só porque sim... É tão boa a sensação de querer correr e poder fazê-lo... E é uma coisa que damos sempre por adquirido, sem pensar que realmente somos uns sortudos.

Houve também, até ao momento, um passeio de bicicleta, para dar descanso a uns músculos e cansar outros. Segui a ciclovia ribeirinha até à zona de Santa Apolónia e estava a sentir-me fortíssima, a pedalar a uma velocidade acima do normal para mim e sem me sentir cansada, até que chegou a hora de voltar para trás... Depois apercebi-me de que tinha estado a pedalar até ali com o vento a meu favor. Escusado será dizer que no regresso já não me senti tão forte!


Alguns dos campos de treino dos últimos dias:

Quinta das Conchas.
O meu parque (ultimamente cheio de "neve de Primavera"...)
Monsanto.

Conseguem ver que local está em GRANDE falta nesta lista? Começa por "S", dou-vos três tentativas... ;)
E é só isso que falta para o mês de Maio ficar perfeito a nível de corridas.


Boa semana!

4 de maio de 2014

Trail Nabantino

No papel escrevinhado à pressa na noite anterior, diz para sair da A13 e passar uma rotunda, entrar noutra rotunda e sair na primeira saída. Algo nesta simples equação correu mal, porque não estou onde devia estar. Quer dizer, estou em Tomar, mas onde?
8horas da manhã de um domingo não é uma altura em que se vejam muitos transeuntes pela rua aos quais perguntar o caminho. Finalmente um rapaz, com ar e voz rouca de quem ainda não foi à cama, lá dá umas indicações surpreendentemente esclarecedoras, e ao fim de dois minutos estamos a passar a cancela do Regimento de Infantaria nº 15, partida e meta deste II Trail Nabantino.

Zona da Partida e Meta (foto pós-prova.)

Não foi uma prova com muitos participantes, talvez cerca de 200, e desses 200 talvez só uns 10% fossem mulheres (recordem-se deste pormenor para mais tarde). A Organização foi simples, mas esteve praticamente irrepreensível. Logo no briefing inicial avisaram-nos de que algumas das fitas sinalizadoras tinham sido retiradas, mas que tinham colocado alguém nas zonas que pudessem causar maior confusão. Foi das provas em que vi mais pessoal, sobretudo ciclistas, a colaborar ao longo do percurso, não houve por onde enganar e sentimo-nos sempre apoiados.

Foi também no briefing inicial que soubemos logo que este seria um trail rolante, sem necessidade de "molhar os pés" e outras aventuras, e isso notou-se logo nos primeiros quilómetros. Grandes estradões de terra, ainda por cima a começar a descer, o que puxou logo à velocidade dos atletas. Não é o que mais me agrade, mas uma pessoa entra na onda do pelotão e adere ao ritmo que pode. Mesmo assim, primeiros quilómetros na casa dos 5min. é rápido para o meu habitual.


Finalmente, por volta dos 3 ou 4km entra-se numa zona de carreiros, ainda por cima à sombra, o que me deixou mais contente.


Nesta fase, não via já ninguém nem para a frente nem para trás, tal a dispersão das diferentes velocidades que o início fácil provocou.


Correu-se grande parte do percurso junto ao rio (Nabão?), mas 4km de prova passados e ainda sem dificuldade maior que justificasse ter de caminhar e aproveitar para tirar umas fotos com mais cuidado à bonita paisagem, onde já se viu isto? :)

Finalmente, a primeira subida "à trail"...


É engraçado, porque eu odeio quase todos os momentos que passo a subir e refilo para dentro, ou para fora, depende da companhia, mas mesmo assim é das poucas vezes em que consigo recuperar alguns lugares na classificação, já que a velocidade não é o meu forte. Nas rectas, e sobretudo descidas, é sempre a vê-los passar! Não é que as subidas sejam o meu forte, mas ao menos sempre são o fraco de outras pessoas. :)

Foi também nesta subida que vi uma rapariga, cá das minhas, a agarrar num ramo caído e a utilizá-lo como bastão para ajudar a subir. Fiquei contente por saber que não sou a única a recorrer a cajados quando necessário (bastões xpto em carbono para quê?? Ihih...)  e trouxe-me logo memórias agridoces daquela prova que vocês sabem...

Mas por aqui havia muita água...

Ao km5, o primeiro abastecimento, com vista para esta casa peculiar.


Vim um pouco às cegas para esta prova, sem me ter informado sobre o gráfico nem sobre o número e localização dos abastecimentos... Neste caso resultou bem, mas confesso que sou do tipo de atleta que prefere saber ao que vai, e ter o oásis do abastecimento como meta e alívio psicológico, para aquelas alturas em que estamos na fase má.


Desta vez não tive fase má, tive fruta, marmelada e bolinhos em quatro abastecimentos no total, e ainda companhia que me incentivou a não parar de correr, inclusive nas partes piores...


Claro que na foto de cima o incentivo não foi suficiente para me fazer correr aquela subida toda, nem sequer metade, mas ficou a intenção e o power-walk (que basicamente foi caminhada, o "power" é só para enganar).


Ponte romana.
Vigias.

Nos últimos quilómetros começamos a passar pelas pessoas da caminhada, o que dá sempre um ânimo extra. Mesmo que já tenham passado mais de 100 corredores antes de nós e estejamos com ar meio morto, vamos sempre ser aplaudidos e incentivados como se fôssemos grandes atletas. Houve até uma senhora muito querida que, ao afastar-se para me deixar passar, exclama: "Ai menina, que corajosa!" Digam lá que uma pessoa não se sente logo um herói, neste caso heroína, num filme particular de acção e aventura?! (Confessem lá, não posso ser a única...). Só para ouvir estas palavras tão simpáticas já valeu a pena ter feito aquela prova.

Ao fundo já se avista o quartel, no qual iremos tornar a entrar, desta vez pelo portão das traseiras, para uma espécie de sprint até à meta, onde se é recebido com música e um bolinho entregue em mãos, como se fosse um troféu! Prefiro esta versão, embora o "troféu" não tenha durado muito, se é que me entendem... Durou uns 10 segundos, para ser exacta. Tivemos também ainda direito a um íman simbólico de finisher, que se encontra neste momento a enfeitar a porta do frigorífico cá de casa.

2h53 minutos, 25km, quase 100% a correr. E, desta vez, também quase 100% sem momentos negros. Foi um trail rápido e tranquilo, e cheguei a casa sem necessidade de pôr os Trabuco de molho.


E agora o final caricato: descobri depois que fiquei em 3º do meu escalão!!! Lembram-se de eu ter dito que eram poucas as mulheres a participar? (Não, também não eram só 3 no meu escalão, não sejam más-línguas....) Pois é, fiquei no pódio! :) Claro que isto apenas significa que as dezenas de mulheres que habitualmente ficam à minha frente não foram a esta prova, mas este trail vai ficar na mesma para sempre no meu coração por me ter proporcionado o primeiro, quiçá o último, pódio da minha vida! Obrigada, Trail Nabantino.


Para o ano conto voltar, fica apenas a sugestão de criarem uma prova de distância mais longa. 30km já não era mau... Caso me estejam a ler, pensem nisso com carinho, sim? Há ali muita paisagem bonita que merece ser vista e (per)corrida.