27 de junho de 2014

Trilhos Loucos da Reixida

- Acho que na rotunda é para sair na primeira saída e seguir pela Rua Assim e Assado.
- Não, é continuar em frente e depois virar na segunda à esquerda, para a Rua Coiso e Tal.
- Tenho a certeza que já passámos pela Rua Coiso e Tal há mais de 2km...
- Isso foi a Avenida Isto e Aquilo, depois da rotunda da Estátua Abstrata mas Altamente Significativa, lembras-te?
- A Estátua Abstrata mas Altamente Significativa??! Mas isso já foi antes de entrar em Fátima.
- Aiii!!! Deixa cá ver o gps!

Conversas a caminho de uma prova, quando o "gps" são meia dúzia de frases rabiscadas na noite anterior, retiradas das indicações de percurso do google maps. Surpreendentemente, nunca me perdi (muito) nem nunca cheguei atrasada a nenhuma prova. Falem mal da orientação feminina nas estradas, falem!

E é assim que às 8h30 da manhã de Domingo se chega à bela localidade de Reixida, com tempo mais do que suficiente para levantar os dorsais, fazer xixi e beber um café.

Nas ruas estreitas do bairro, os cerca de 300 atletas que estão inscritos para o Trail de 20km parecem muitos mais. Estão a ver as ruas de Alfama em noite de Santo António? Era mais ou menos assim, mas sem o cheiro a sardinha assada e copos de cerveja a €1,50. Acho que nem a música pimba faltou, no início da prova!

A caminho do controlo zero.

Alguns minutos depois das 9h30, a partida.

E começa a diversão.
As primeiras centenas de metros são feitas sempre a subir. Depressa entramos numa zona de carreiros  muito peculiar, cheia de curvas, o que nos faz percorrer uns dois ou três quilómetros para chegar a um local que seria a 400 metros se fôssemos sempre a direito. Mas, nesse caso, qual seria a piada, certo? Todos sabemos que pela autoestrada é mais rápido, mas se quisermos um percurso cénico temos de perder tempo nas estradas secundárias da vida.


Devido ao tempo que se perde (ganha) a correr pelos carreiros, sempre que aparece um estradão de terra mais amplo sou incentivada a não parar e a "rolar" nas subidas, pois "só vamos com 4km de prova"...
- Grshsjshh... eu digo-te o rolar... grshpffgrrr... - respondo eu baixinho. Ou se calhar alto, já não me lembro. :)
Perante o desconhecido, prefiro poupar-me. Pode ser uma ilusão, porque uma pessoa cansa-se na mesma, mas gosto sempre de ficar com aquela sensação de que não dei tudo, e terminar em força, do que pôr-me ali a correr à doida, dar o estoiro e depois ficar a penar o resto da prova. Claro que isso também pode acontecer mesmo indo devagarinho, lá está... Nos trilhos é muito difícil fazer essa gestão do esforço, porque nunca sabemos o que vamos encontrar pela frente. Também sentem isso?

De qualquer forma, ainda bem que não comecei logo a "correr à doida", porque antes dos 5km aparece a placa:

Highway to Hell?

E começamos a subir e subir... Mui-to len-ta-men-te...

Não tirei muitas fotos (não queria parar com medo de depois o motor já não arrancar!) por isso aqui ficam apenas algumas, tiradas quando já via a luz ao fundo do túnel.

Visão para a frente. Quase lá...
Visão para trás.

Finalmente! (Visão de quem chegou e olha para trás.)

Claro que vocês vão olhar para estas fotos e pensar: "O quê, essa subidazinha? Isso mete lá medo a alguém!", porque toda a gente sabe que nas fotos nunca se tem noção da verdadeira dimensão do monstro. Por isso, quem tiver curiosidade, pode ter aqui uma visão "aérea" da coisa.

De qualquer forma, foi um desafio engraçado. Até comentei como gostava de ter um local assim perto de casa, para poder ir lá fazer um treino de subidas uma vez por semana (estava ensandecida do esforço, dêem um desconto!)

Durante a subida começou a chuviscar e o corpo arrefeceu um bocadinho, por isso foi aproveitar a descida que se seguiu para acelerar um pouco.



Até que pousei um pé em falso devido a uma pedra e torci de tal forma o tornozelo que pensei logo: "Já te fo...ste!!!" Nunca tinha torcido o pé assim, e fiquei mesmo assustada. Não quis logo parar, porque estava num trilho apertado e tinha algumas pessoas atrás, mas fui ali a passinho curto e a medo. Passado um bocado deixou de doer, achei que quando o pé arrefecesse é que iam ser elas, mas felizmente não passou de um susto. Ufa!!!

Dali para a frente passei a ser muito mais cuidadosa, mas por vezes ir a travar demasiado nas descidas também não é bom, e acabei por, digamos, me "sentar" de forma involuntária e repentina. Não estava mesmo com sorte! Ainda por cima, oiço uma voz atrás de mim: "Oh, logo agora que desliguei a câmara!"... Ihihih... Ufa (2)!!! Bate-cu com ligeira humilhação frente a estranhos tudo bem,  mas ao menos não vai parar ao youtube... :)

Tal como o Trail de Bucelas, esta prova também termina com a passagem num rio.


No entanto, em vez de apenas o atravessarmos, acompanhamos a corrente durante algumas centenas de metros. Gostei muito.


Não estava calor, mas as pernas agradecem sempre o miminho refrescante. (Já os meus Trabuco começam a não achar piada a tanta aventura, acho que está na hora de lhes dar o merecido descanso. Mas isto é como o Governo, sempre a adiar a idade da reforma...)


As fotos tiradas ao longo do rio infelizmente ficaram quase todas desfocadas, mas deixo apenas estas para verem a profundidade que chegou a atingir.


 A mulher que ia à minha frente tinha praticamente a minha altura.


Passada a crioterapia, a meta a 500 metros!

Foram 20km, terminados em cerca de 2h54. É uma prova com um percurso atractivo e original, sobretudo para quem gosta de serpentear por entre caminhos de cabras. Não é fácil, em especial algumas descidas com muita pedra, nas quais há que seguir com atenção. E, claro, é uma prova para quem não tem medo de molhar os pés a cintura! Tragam as bóias! Este ano já houve quem levasse, fato de banho à anos 20 incluído. :) São os Trilhos Loucos!

Por último, uma palavra sobre a Organização, que esteve muito bem. Dos abastecimentos, se não me engano três no total, apenas um foi sólido - bananas e marmelada - fraco, mas penso que era o suficiente. Como para mim o mais importante é sentir o apoio e preocupação com os atletas, com os dois controlos durante a corrida, para além do inicial, e com imensos voluntários ao longo do percurso (brincámos que quase seriam dispensáveis as fitas sinalizadoras) e fotógrafos para documentar a aventura, acho que não houve nada a apontar.
Os chuveiros é que podiam ser mais perto... Ficavam a 3km! Mas houve quem dispensasse uma mangueira para quem quisesse tratar do banho logo ali. :)

A repetir. Soube a pouco!

22 de junho de 2014

Os loucos dos trilhos

 
Show me, show me, show me how  you do that trick.
The one that makes me scream - she said.


The one that makes me laugh - she said.


Show me how you do it, and I promise you, I promise that I'll run away with you.



Um céu um bocadinho cinzento, mas, ainda assim, a merecer destaque.


- "Weeeee!!!" - diz ela, que só está feliz a correr por curvas e contracurvas no meio de carreiros ladeados de árvores e vegetação, que correspondem a cerca de 90% do percurso desta prova.

- "Masoquéquéisto?" - diz ela, quando avista a placa após o km4, que, muito animadoramente, informa que 'O Inferno Começa Aqui', e levanta a cabeça para ver a parede de escalada que a espera.

- "Tão bonita a vista aqui em cima..." - pensa ela depois, sem ar para o proferir em voz alta.

- "Todas as provas deviam terminar com a passagem num rio." - diz ela, que se pudesse dava mergulhos em todos treinos e corridas nos dias mais quentes.

- "Isto até nem custou muito!" - diz ela, segundos depois de terminar a prova, claramente já esquecida daquela subida(zona) ao km5.

- "Gosto taaanto disto!" - repete ela, vezes e vezes sem conta.


Trilhos Loucos da Reixida, 20km, mais uma manhã de Domingo a construir memórias. Crónica em seguida.


Boa semana!

20 de junho de 2014

Próximas aventuras

Apesar do treino longo deste fim-de-semana ter começado um pouco mais cedo, para tentar fugir ao calor, o mesmo acabou por consistir num jogo de "Vamos Tentar Descobrir o Percurso com o Maior Número de Sombras Possível".  Com esse jogo fez-se a descoberta de uma nova zona de Monsanto onde nunca tinha corrido, que passa por um picadeiro e depois por aqui:


E agora vocês olham para a foto acima e pensam: "Então mas ainda não conhecias esse espaço tão conhecido?? Já me fartei de passar por aí nos meus treinos/passeios familiares/a caminho do trabalho!". Pois que é verdade, não conhecia, o que só mostra que mesmo depois de meses de treinos por ali, é possível ser surpreendida pelo parque de Monsanto. Por um lado vou ficar triste de não participar na Lisboa Eco Marathon, para poder ter acesso a mais trilhos por mim ainda desconhecidos naquela mata.


Longo de Domingo: 22km, 450 metros D+ (aprox.)


Por outro lado, tenho outros desafios com que me manter entusiasmada e aterrorizada numa proporção, respectivamente, de 70-30, com tendência a equilibrar a percentagem com a aproximação das datas... Mas vamos ver!

O maior desafio para este ano já referi anteriormente e será o Grande Trail Serra d'Arga. Este trail foi sem dúvida "O" meu trail de 2013 e espero que seja o deste ano também. Para fazer jus à beleza da Serra, este ano acharam que os 45 kms habituais da Ultra não eram suficientes e então tomem lá mais 8km de corrida cénica. 53km. Cinquenta e três quilómetros. CINQUENTA E TRÊS QUILÓMETROS! Até me custa a acreditar a leveza de espírito com que me inscrevi, sobretudo tendo em conta o acréscimo de acumulado que isso vai significar. Mas é como se não tivesse opção, compreendem? Na minha cabeça (coração?) nem sequer se colocava outra hipótese que não a de voltar para viver o máximo da experiência. Espero conseguir conclui-la. Se a conseguir concluir, espero tornar a ter a sorte que tive o ano passado, em que sofri muito pouco (a chuva gelada que caiu durante quase toda a prova anestesiou-me os músculos das pernas!:) ) e que termine o trail ainda a amar a montanha. Provavelmente exasperada e ligeiramente furiosa, como depois de um arrufo amoroso, mas, ainda assim, apaixonada.

No entanto, antes de Arga, já estou inscrita para o Trail Nocturno da Lagoa de Óbidos. Esta prova entrou também no pódio das minhas provas de 2013, perdendo apenas para o trail já acima referido e para o Raide à Tapada de Mafra. É uma experiência única correr uma prova destas à noite, embora não seja fácil. Exige mais concentração e psicologicamente também se torna cansativo.
Agora a parte engraçada: eu sempre tive aquela visão romântica de que seria lindo ver o nascer do sol durante uma corrida. Começar a correr ainda escuro como breu, e depois observar as cores e fases distintas do amanhecer, antes de ser dia completo. Sentir a temperatura mudar, respirar o ar fresco do orvalho, ouvir os sons da vida ao meu redor que acorda, em que as passadas e respiração acompanhadas pela banda sonora dos grilos dão lugar à sinfonia dos pássaros... Não é bonito? É por isso que me inscrevi nos 50km, que é coisa para me levar umas horas valentes a fazer. Claro que nesta minha visão idílica não há lugar para o cansaço extremo em que uma pessoa provavelmente estará, em que já não quer saber das cores da madrugada nem do som de passarada nenhuma e quer é a Meta e uma sopa quentinha (ainda haverá sopa quentinha quando chegar?).
Na verdade, apesar de estar inscrita nos 50km, até porque a diferença de preço entre as provas das duas distâncias não era grande, ainda não sei se participarei nesta versão Ultra, que está pendente de algumas situações. Quando houver novidades comunico. De qualquer forma, 26km ou 50km, Óbidos, me aguarde!

Entretanto, já este Domingo, tenho os Trilhos Loucos da Reixida. Apesar de serem "apenas" cerca de 20km, tenho alguma expectativa em relação a esta prova, da qual já tinha ouvido falar o ano passado e parece ter desafios bem próprios... Não é à toa que é apelidada de "trilhos loucos"!

Por enquanto é isto. Já disse que estou entusiasmada/aterrorizada? (Ainda 70-30, mas está a começar o calor...)


Bom fim-de-semana!

11 de junho de 2014

"Ego" de corredor, a quanto obrigas... E kms do mês

O treino de domingo passado foi mais levezinho, "apenas" 18,5km, mas custou-me bastante. O percurso foi a minha voltinha habitual em Monsanto, por aí nada de novo, mas, não sei se por falta de aquecimento decente, sentia os gémeos muito presos e os primeiros 3/4km foram um martírio. Corria uns 500 metros e tinha de andar outros tantos, até a dor passar. Repeti isto sei lá quantas vezes, até finalmente conseguir entrar no ritmo. Só pensava: "...e olha se isto me acontece numa prova!"


De resto, nada mais há a destacar neste treino, que foi bastante medíocre, com a excepção dos momentos auto-recreativos em que competi com o meu ego, reflectido na persona dos ciclistas que passavam por mim.

Quem corre em Monsanto sabe a quantidade de ciclistas que por lá anda e a partilha cívica que tem de ser feita dos trilhos. Havendo um confronto directo, a descer, quem corre não tem hipóteses, e tem de abrir alas rapidamente para não haver atropelos, mas a subir consegue-se dar alguma luta. E foi isso que aconteceu.
Houve ali uma descida em que passou um pequeno grupo de bicicletas em grande velocidade, a apitar desalmadamente para eu sair da frente no meu passo vagaroso... "Sai da frente, ó tartaruga!!"- gritaram. (Na verdade não apitaram nem disseram tal coisa, foram até simpáticos a avisar para eu me desviar, mas para efeitos da narrativa vamos fingir que foram bastante rudes. :)) Adiante, eu desviei-me, eles passaram, mas uns metros mais à frente começava uma daquelas subidas puxadotas e eu começo a recuperar terreno. Penso para mim: "Agora tens de fazer isto tudo a correr, sem parar, só para ultrapassares toda a gente e não dares parte de fraca!" (Vejam bem para o que me dá o orgulho...) Acontece que a subida nunca mais acabava, eu sentia as pernas completamente a arder, queria mesmo, mesmo, mesmo muito parar, mas nem pensar em fazê-lo ali à vista de quem me tinha ultrapassado antes tão sem cerimónia. Para além disso, claro que tinha de continuar a subida com ar de quem estava completamente à vontade... "O quê, isto?? Isto não custa nada, faço subidas destas umas dez vezes todos os dias antes do pequeno-almoço."
O bom foi que consegui subir tudo sem parar e ultrapassar as bicicletas. Claro que mal apanhei uma curva que me tapou da vista dos ciclistas, parei e quase que chorava com a quantidade de ar que tive de inspirar ali naqueles segundos, antes que me alcançassem. O mau foi que logo a seguir havia outra descida, seguida de nova subida inclinada.... e ainda outra a seguir. E tive de repetir a proeza. Nem vale a pena dizer que o meu ego valeu-me um empenozito jeitoso na segunda-feira.




Para não variar, com algum atraso, mas aqui seguem...

Contagens do mês de Maio

- Distância: 195.06 km
   . em estrada: 126.66
   . em trilhos: 68.40
- Horas a correr:23h18
- Ganho de elevação total: 2923 m

- Quilómetros a pedalar: 18.30 (1 actividade)

Distância total: 973.91 km (Janeiro a Maio)

Se bem se lembram, o mês de Maio começou muito bem e estava cheia de energia e vontade para correr. No entanto, fiquei doente já quase para o final, o que me obrigou a parar durante alguns dias, treino longo incluído, e fiquei aquém do objectivo de 200km (por nenhuma razão em especial, apenas porque é um número redondinho, corresponde a uma média de 50km/semana, que é o que espero correr num dia, ainda este ano!)

E por falar nisso, um dos grandes desafios de 2014 já está marcado!!!

Embora, se me lerem há tempo suficiente, este anúncio não seja surpresa nenhuma. :)


Serra d'Arga, o sítio onde fui tão feliz o ano passado! E onde quero voltar outra vez para dobrar a "diversão"! Concentro-me na dificuldade da prova (com maior distância e D+ este ano), e outros objectivos prévios, numa próxima crónica. De momento fiquemo-nos pela "diversão" que vai ser. Sim, a diversão... (Permitam-me os breves instantes de ledo engano...) :)


Mais alguém?

7 de junho de 2014

Treinos por Trilhos de Sintra #6 - As arribas

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
in "Mar Português", Fernando Pessoa


Parada a olhar o mar, ela pensa naqueles que, há cerca de 600 anos, olhavam este mesmo mar, quem sabe neste exacto local, e questionavam o que haveria para lá da linha do horizonte. Foi uma época áurea, de navegadores intrépidos, que arriscavam rumo ao desconhecido.
Ela, apesar do fascínio da montanha, tem em si os genes lusitanos que a atraem para este abismo azul, e que a fazem, de vez em quando, descer da serra para procurar aquela inquietação relaxante, o temor e a calma em iguais doses, que só o oceano provoca.

Bem menos intrépida que os seus antecessores, não embarca por mares nunca dantes navegados, mas gosta de dedicar o seu domingo a correr à descoberta de caminhos nunca antes calcorreados.

Por entre esta floresta de abetos e silvas existe um trilho, juro-vos!
Aqui está ele, um pouco mais definido.

Caminhos que levam aos lugares de sempre...

Peninha.
Ou a outros, já conhecidos, mas aos quais há muito se devia uma visita. Foi desta.

Cabo da Roca.

Na descida para a Azóia, o passo solto de corrida (solto, porque é a descer, bem entendido!) faz-se lado a lado com dezenas de motorizadas que peregrinam ao local, numa partilha de asfalto inevitável. O que se perde em paz sonora, ganha-se em impacto visual, à medida que os passos nos aproximam das falésias.

O Fim da Europa.

Chegada ali, onde termina a terra e começa o mar, fiz então uma pausa para absorver a imensidão do que via, para compreender aqueles para quem o fim da terra foi apenas o início de um caminho muito maior. E também para recuperar para o que ainda me esperava. A terra termina aqui, mas o  treino, com pouco mais de 12km, ainda nem vai a meio. Contorno o azul, iço as velas da corrida e aproveito o vento sempre presente no local.

Flyyyy!
Dali para a frente, será um sobe e desce constante, numa ondulação de arribas mais ou menos inclinadas, mais ou menos "corríveis", mais ou menos perigosas, mas sempre lindas.



Às vezes, o que parece ser um trilho definido termina abruptamente. São becos sem saída, miradouros, ou caminhos pouco percorridos que a vegetação reclama para si. Por vezes conseguimos reencontrá-lo uns metros à frente, outras temos de improvisar uma nova volta, recuar, virar à esquerda quando o que queremos é ir pela direita. Nos trilhos, nem sempre a distância em linha recta é a mais rápida e acontece frequentemente nem sequer ser a mais viável.


Eu vejo onde quero ir, mas como lá chegar? (A eterna questão.)

Mas é bom ir à deriva quando se descobrem outros portos, tão ou mais bonitos do que o que tínhamos programado.


E, com quase 20km percorridos, todos merecem uma praia onde ancorar.


A água fria atrai os músculos cansados como o canto de uma sereia. Nem luto, procuro activamente a origem do som e cedo ao mergulho, naquela que é a melhor parte destes treinos estivais.



Mas porque nem tudo são mares calmos, a cada treino pode enfrentar-se uma tormenta. Neste caso, depois da pausa fresca, seguiu-se uma longa e lenta subida, de inclinação moderada, sem sombras e com o sol a pique. O meu Adamastor particular. É nesta altura que as velas da corrida são amainadas e a embarcação segue devagar, como que arrastando atrás de si uma âncora esquecida.

"Ó Mar salgado, quanto do teu sal" foi suor que aqui deixei...

Solidária, a natureza vem em meu resgate. Passa uma lebre (das verdadeiras, de quatro patas, não daquelas que nos marcam o ritmo nas provas), que cruza o trilho em saltos elegantes e velozes, em seguida um faisão, num encontro de primeiro grau em que nem sei qual de nós se assustou mais, e começo novamente a focar-me na beleza.

 

Até a aproximação do final do treino e das primeiras casas permite a beleza de correr em ruas com o nome de Amor (mesmo que a dita rua fosse sempre a subir, raiosparta!) e, em seguida, com o nome de Paz (finalmente no topo!). Era daqueles bairros típicos, encurralados entre mar e serra, horríveis de se viver, como devem imaginar... ;)

Quando se termina o treino de domingo, ficam na memória paisagens como as de cima. E gráficos como o de baixo!

O mar estava revolto! :)

30,5km, cerca de 1400 metros de acumulado positivo. Foi a minha maior distância em treino até ao momento. Experiências fantásticas à parte, também sabe sempre bem terminar e ver estes números. São os dias em que o corpo acompanha os voos da alma.


Bom fim-de-semana!

5 de junho de 2014

Corrida Solidária Bosch 2014 - Dorsais




Eu sou da opinião de que o simples acto de correr ajuda-nos a contribuir para um mundo melhor. Por nós, que o fazemos por gosto e, dessa forma, somos mais felizes, e pelos outros, que nos rodeiam, e agradecem essa troca de felicidade no trato. Podendo aliar essa vertente a uma causa imediata e palpável, melhor ainda. Por essa razão, venho falar-vos da Corrida Solidária Bosch:

"Uma corrida solidária, em que o valor angariado entre inscrições e patrocínios é doado a instituições de solidariedade social. O valor angariado através do apoio de parceiros e das inscrições é totalmente revertido a favor de cinco instituições: uma de âmbito nacional - Ajuda de Berço – e quatro instituições locais - Centro de Emergência Infantil da Cáritas de Aveiro, Centro de Acção Social do Concelho de Ílhavo, Associação Humanitária Mão Amiga de Albergaria-a-Velha e ainda o fundo de apoio a alunos da Universidade de Aveiro com necessidades especiais."

No próximo dia 29 de junho, às 09h, vai ter então lugar a terceira edição da Corrida Solidária Bosch Portugal, que vai ligar as cidades de Ílhavo e Aveiro em duas vertentes: a caminhada de 5km e a corrida, que tem um percurso de 10km.

E eu tenho o prazer de, através da Organização do evento, poder contribuir com, pelo menos, mais duas presenças. Tenho dois dorsais para os dois atletas mais rápidos a cortar a Meta, que, neste caso, será apenas enviarem-me um email, com "Corrida Solidária Bosch" no assunto, indicando o nome e número de BI/CC.


Para mais informações sobre o regulamento: http://corridabosch.fullsport.pt/


Boa sorte!

2 de junho de 2014

E o que fica é a certeza de querer continuar

Uma vez vi um episódio do Dr. House, em que uma paciente sofria de uma patologia da qual agora não me recordo o nome, mas que fazia com que se lembrasse de tudo o que acontecera na sua vida. A memória dela era como um disco rígido em que ficavam registados todos os acontecimentos e todas as conversas, sem nenhum critério ou filtro. O que à primeira vista poderia parecer uma bênção, na verdade estava a dar-lhe cabo da vida, porque era incapaz de manter uma relação afectiva de qualquer espécie. Toda e qualquer discussão ou desavença que tivesse tido com alguém, todas as palavras proferidas, eram vividas como se tivessem acabado de acontecer, provocando-lhe a dor e desilusão constantes, tornando-a incapaz de superar o sucedido. Não sei porque razão as suas memórias negativas se sobrepunham a todas as outras, mas, no caso desta mulher, "o tempo cura tudo" era um conceito desconhecido. Para esta mulher, o "tempo" das coisas era sempre recente.

Não consigo explicar melhor, nem sei se tal patologia existe ou foi apenas exacerbada para efeitos televisivos, mas dou graças à minha memória selectiva, porque, de outra forma, nunca correria na vida.

Salvo raríssimas excepções, há sempre um momento durante a corrida (só um, se tivermos sorte) em que estamos a odiar aquilo com todas as forças. Podem ser só uns breves segundos, podem ser alguns minutos ou, a minha solidariedade se também já passaram por isso, arrastar-se durante longos e penosos quilómetros. Aquele momento, vocês sabem, do: "Mas para que é que me meto nisto?"

Às vezes grita e ecoa dentro da nossa mente.

- "Mas para que é que me meto nisto?"

Páro e olho em volta.

- "MAS PARA QUE É QUE ME METO NISTO??!"

Páro e olho em volta.

O que vale é que, ao contrario da paciente do Dr. House, esse momento passa. Passa sempre. Por vezes no minuto seguinte, por vezes apenas alguns quilómetros depois, por vezes só mesmo no momento em que cruzamos uma meta, real ou fictícia, e terminamos de correr.

No fim do dia, é disto que me vou lembrar.

A verdade é que, mais tarde ou mais cedo, a filtragem da memória se encarrega de apaziguar as dores morais e tudo torna a parecer possível. E o: "Xiça, nunca mais na vida!", rapidamente passa a: "Mal posso esperar pela próxima!". Geralmente, uma próxima ainda mais dura e desafiante. Claro.

Memória selectiva, obrigada por seres benevolente com os meus sonhos.


Nota: Fotos do belíssimo treino longo de Domingo, que merece posterior destaque. Os momentos de auto-dúvida foram breves, mas intensos, sobretudo para as minhas coxas e glúteos. Óbvio que quando me sentei no carro, de regresso, já só pensava em voltar.


Boa semana!