29 de julho de 2014

Ultra Trail Monte da Lua - Parte II

(continuação da Parte I)

- Olá, sê bem-vinda, velha amiga - respondi-lhe. - Como é que estamos hoje? Vamos trabalhar em equipa ou vai ser uma guerra até ao fim? - E fiquei em suspenso à espera da resposta.


Quando me inscrevi para este que seria o meu primeiro Ultra Trail, tentei sossegar-me com o jogo do "Qual é a pior coisa que pode acontecer?". Tu gostas da zona, conheces grande parte do percurso e por isso tens noção daquilo em que te estás a meter. Finge que é um treino e vai correr tudo bem. Só que, por mais que uma pessoa tente enganar-se, uma prova não é um treino. Numa prova, mesmo que o objectivo principal seja terminar, vamos sempre querer fazê-lo no mínimo tempo possível para nós, quanto mais não seja porque existe um tempo limite.  Numa prova não dizemos: "Olha que sítio tão bonito, vamos parar aqui e comer qualquer coisa", ou "Não gosto deste caminho, vamos antes atalhar por ali à aventura", ou ainda "Já está a acabar? Então e se ainda dermos uma volta por ali?". Em prova, estou neste momento a apanhar o sol da uma da tarde nas ventas, a correr num estradão de terra batida, ligeiramente a subir, e sem sombras.

Viro-me para o meu amigo:
- Artur, não gosto nada disto! (Sendo que o "isto" é estar a correr num estradão de terra batida, sem sombras, às 13h, bem entendido.)
- Gostas pois, tu adoras isto.
E foi assim, com uma resposta irónica de reforço positivo, que a minha perspectiva da situação mudou. Não podia fazer nada para evitar estas fases mais difíceis, nem podia fazer nada para evitar a dor que começava a instalar-se, mas podia aceitá-las e, até, apreciá-las um bocadinho na sua importância. Afinal, só tornavam mais significativa esta experiência memorável. Aceitação e aprendizagem... A minha antiga professora de yoga ficaria orgulhosa!

Assim seguimos os dois, mais a Dor, uns passos atrás e caladinha, para esta segunda etapa da prova.


Passando a Barragem do Rio da Mula, estou no meu campo de treinos habitual. Começamos a subir o Trilho das Pontes, um dos meus favoritos, sobretudo quando o desço, :) e embora saiba a escalada que me aguarda até ao Monge, tento não pensar muito nisso. Um quilómetro de cada vez.


As nuvens tornaram a tapar o sol, mas o nível de humidade é elevado. Os meus braços começam a ser a última morada de vários mosquitos incautos e a minha reserva de água começa a esgotar-se, mas sei que falta pouco para o próximo abastecimento (aos 35km).


Esta parte envolveu muita caminhada, mas conseguimos ultrapassar alguns atletas. Um deles, que também já devia conhecer o percurso, desabafa que "o pior ainda está para vir". O Artur diz: "Não é o pior, é o melhor!" (Se resultou uma vez, podia ser que resultasse a segunda... Ihih!) Não sei se o homem ficou convencido, ou se ponderou espetar-nos um soco, mas ao menos tentámos.


Saindo do Trilho das Pontes, a surpresa de ter de subir a escadaria que geralmente descemos na prova do Monge. O que vale é que tem uma espécie de corrimão instável que ajuda no apoio.  Estás a adorar isto. Estás a adorar isto, repito para mim. Recebo nesta altura o primeiro telefonema para saber se "ainda estou viva". Como consigo achar piada à provocação, isso significa que o meu humor ainda está intacto e é bom sinal. No entanto, desligo depressa, para poupar o fôlego.

Finalmente começamos a descida até à fonte das Pedras Irmãs, onde está o segundo abastecimento sólido. Estamos mesmo a chegar quando o céu larga num pranto gelado. Gotas grossas que nos deixam ensopados em segundos. Em poucos minutos a mesa com a comida ficou encharcada, amolecendo as batatas fritas e transformando a marmelada numa geleia líquida. Os voluntários bem tentaram proteger as coisas, mas, sinceramente, acho que nem eu nem os restantes atletas estávamos com esquisitices. Vamos com 35km nas pernas, dêem-nos os aperitivos salgados amolecidos e o tomate com sal desfeito em água, marcha tudo!

Enchi o meu depósito de água na fonte e, assim como veio, a chuva foi-se. Prontos para a próxima etapa, em direcção ao Cabo da Roca.

Nevoeiro <3

Ao menos era a descer... Mas será que isso significava que era melhor?

Nesta fase a Dor já estava outra vez ao meu lado, a fazer pirraça. Tudo dói, tudo dói. Mas o pior são os jogos mentais: "Olha essa pontada no joelho, será a iliotibial novamente a manifestar-se?", "Olha aquela dor no pé, será normal?", "E essa anca direita, que tal?". Há um ponto em que começo a ficar preocupada, em que vou atenta a qualquer sinal fora do comum, porque sei que só o medo de uma lesão me pode impedir de concluir esta prova. Felizmente são tudo pontadas temporárias e consigo continuar.

- "Pareces uma velhinha de 90 anos a correr. E de andarilhos!", goza a Dor.
E se calhar parecia. E as pernas parecia que nem as sentia de tão massacradas. Mas, sabem uma coisa fantástica? Naquele momento apercebi-me de que, mesmo com o dorido dos músculos a cada passo que dava, eu conseguia continuar! Tudo dói, tudo dói, mas conseguia continuar! E essa descoberta foi muito libertadora.

A surpresa da passagem na Anta Adrenunes.

As pernas estão cansadas como nunca estiveram, mas consigo correr. É mesmo verdade que é a mente que nos leva além do desgaste físico. Parece magia. :) Não estivesse eu numa Serra Encantada...

Centenas de anos de história nestas árvores...

Ia muito devagarinho, mas continuava a passar pelas árvores, arbustos e rochas como se eles estivessem parados. :)

Entretando, o Grande Azul começa a avistar-se ao longe...


Quem não conhecia o percurso da prova, pode ter pensado ingenuamente que a aproximação da Azóia, com 40km de prova, significava que a Meta estava próxima e que o pior tinha ficado para trás. Errado. Muito errado...


Lembram-se da frase do homem que tinha ultrapassado na zona do Trilho das Pontes? Quando ele diz que "o pior ainda está para vir", como um presságio negro de dor e sofrimento, era decerto a esta zona que ele se referia. Para mais, nesta altura o sol resolve anunciar-se em todo o seu esplendor zombeteiro: "Ahah estou aqui! Toma lá calor!". Mas eu já sabia que conseguia continuar, e continuei. Perigosamente a descer e depois dolorosamente a subir, as arribas.


Depois da primeira (de três) arribas conquistadas, é bom olhar para baixo e pensar: "Ainda bem que não sou aqueles atletas que ainda vêm lá em baixo!!! (Temos de ver sempre as coisas pelo lado positivo...  :) )

Ufa!


Por outro lado, há sempre quem esteja em melhor situação que nós. Ou seja, quem já tinha chegado ao topo e conquistado o Cabo da Roca. Para esses tentei não olhar muito, e concentrei-me na paisagem...



Eventualmente lá chegou também a minha vez de conquistar a Roca, com cerca de 43km feitos.
Vinha a celebrar a minha vitória mental, fazendo um esforço por correr porque estavamos a passar por turistas com máquinas fotográficas e há que manter alguma dignidade, quando chego ao último abastecimento de líquidos e um dos rapazes recebe-nos com, vejam bem, esta bela frase:
- Só agora??!!
...
(Estas pessoas, só a mandar abaixo, pá! Primeiro a senhora na meta do Trail Serra e Mar, agora isto!  Pfff...)
Eu ri-me, porque sei que ele estava a brincar. Mas depois também lhe disse que ainda iam ter de estar ali pelo menos mais duas horas à torreira do sol, porque ainda vinha muita gente para trás (Toma! Ihih). Aproveitei para encher o depósito com mais um bocadinho de água que me chegasse até ao final, e seguimos.

Praia da Ursa. Mais uma arriba de tirar o fôlego e mais uma paisagem de tirar o fôlego.



 Passámos um grupo de agentes da PSP a fazer rapel numa das escarpas. Que gandas malucos! - pensamos nós. Olha aqueles doidos a correrem 50km - devem pensar eles.

Recebo o segundo telefonema do dia a perguntar se "já terminei". Respondo que não, que não sou nenhuma Rosa Mota dos trilhos, mas que vou muito bem! (Humor: check!) Tínhamos perdido algum tempo devido às arribas, mas agora estávamos a conseguir recuperar alguns minutos.
Depois da praia da Adraga, uma subida em areia (grshhhsssfff!!!) quase arruinou o meu humor... Quase. Mas sabia que estava tão perto que não valia a pena estragar a experiência.

No entanto, 47km depois de uma resistência heróica, perdi a companhia do meu Garmin. Não ia ficar com um registo completo desta minha aventura, o que era pena, mas algo com que já estava a contar. Para a próxima, tenho bom remédio: ou passo a correr mais depressa ou tenho de arranjar um novo companheiro de pulso. Hmmmm... acho que vou ter de começar a poupar até ao Natal!


50km. Qualquer descida de inclinação ligeira me faz estremecer os músculos dos glúteos aos gémeos.  Já nem sinto os pés. Começo a preferir rectas e, na loucura, até as subidas. Foi preciso chegar aos 50km, mas até os estradões de terra batida, sem sombras, ligeiramente a subir, passei a amar. Tudo menos descer, poramordedeus.

Chegamos à Praia Grande. Finto transeuntes e veraneantes. Vejo pessoas nas esplanadas, comento qualquer coisa com o Artur e falo, falo, falo, de coisas que já nem me lembro. Estou com o delírio da distância e da aproximação da meta. Só parei para tirar esta foto para vos mostrar, e que comprova o sadismo da Organização, que nos faz passar por locais destes às 16h da tarde, suados e cansados.


Quase lá.


Quase lá. (Areia, raios, mas já nem sinto.)


EU. VOU. CONSEGUIR.

Praia das Maçãs, que bom rever-te.

Antes de chegar ao areal dou saltinhos (na medida do possível) num festejo antecipado. Ponho o pé na água porque já nem vale a pena o esforço de tentar evitar molhar os ténis e sigo as bandeirinhas amarelas que me indicam a direcção da Meta. Como se eu não soubesse. Como se eu já não a tivesse visto, desde o início do ano, desde o momento que decidi que ia correr uma Ultra.

A areia não permite o sprint final, mas continuo a correr. Continuaria a correr mesmo que a Meta estivesse mais longe, porque o meu desejo de a cortar já estava para além da dor. Dor essa que me acompanhou desde os 30km e que agora estava ali, a ver-me terminar. Quase que podia apostar que lhe vi um sorriso na cara, quando, ao passar o pórtico, me acenou em despedida.

CONSEGUI!

53km, 8h55 minutos depois, parei de correr.

Muito melhor do que podia ter pedido e com o banco de memórias de vida muito mais rico. Afinal, é para isso que corremos, não é?


E porque correr uma Ultra é como ganhar um Óscar:

- Obrigada a vocês, que me acompanharam nesta Ultra, desde que em 2011 decidi que havia de correr 30 minutos seguidos sem parar.
- Obrigada aos atletas com que me cruzo nos trails (sim, mesmo aqueles que me ultrapassam) e que têm sempre um incentivo e palavras de força a dar.
- Obrigada aos amigos que a corrida me trouxe e que acreditam em mim. Mesmo quando eu, por auto-dúvida, hesito em partilhar os objectivos, eles sabem e não duvidam. Essa energia positiva alheia é fundamental.
- Obrigada em especial ao A., pela companhia e paciência nesta descoberta das grandes distâncias, sacrificando uma classificação pessoal muito melhor, e por me inspirar, por imitação e irritação, a ser uma corredora mais forte.
- Obrigada à Dor. Por aparecer, ficar lá, mas deixar-me correr. Estão a ver aqueles slogans ligeiramente lamechas (como estas dedicatórias?) que dizem: "a dor é nossa amiga"? Agora percebo um bocadinho. Quanto mais não seja, permitiu-me uma perspectiva diferente e talvez uma nova forma de encarar estas provas. "Old habits die hard", não sei como será daqui para a frente, mas pelo menos deixou-me com vontade de repetir, e isso já é bom, certo?

Até à próxima!

25 de julho de 2014

Ultra Trail Monte da Lua - Parte I

Pouco depois dos 30 quilómetros sinto o toque no ombro que já esperava.
- Olá, estou aqui - sussurra-me a Dor ao ouvido.
- Olá, sê bem-vinda, velha amiga - respondi-lhe. - Como é que estamos hoje? Vamos trabalhar em equipa ou vai ser uma guerra até ao fim? - E fiquei em suspenso à espera da resposta.

- - -

O início.


Esperem! Ainda antes disso...


Na noite anterior ao UTML já experienciava os sintomas que antecedem os acontecimentos importantes da nossa vida - tremores, suores frios e aquelas borboletas no estômago que nos fazem oscilar entre a vontade de gritar a toda a gente como estamos entusiasmados e o nem abrir a boca para não vomitar. À lista composta por entrevistas de trabalho aliciantes, véspera de viagens de avião a locais de sonho, primeiros encontros, aqueles segundos antes do primeiro beijo, ia agora acrescentar mais um evento passível de criar o chamado nervoso miudinho bom: a minha primeira Ultra. E, pelo menos, fome não haveria de ter! Como eu sei que me dá a fraqueza nas horas mais inconvenientes e sabendo de antemão por parte da Organização que os dois abastecimentos sólidos da prova poderiam estar menos providos, foi combinada uma estratégia de nutrição, que pessoas menos precavidas podem considerar desnecessária porque, e cito, "não vamos para um piquenique" (pfff...), mas que acabou por resultar muito bem. E antes sobrar do que faltar, é o que digo sempre. Afinal, seria não só um recorde de distância como também de tempo em prova.
Considerações sobre abastecimentos à parte, apesar da ansiedade não tive nenhuma dificuldade em adormecer e, às 6h00 de Sábado, acordei fresquinha para um dia em cheio.

Agora sim, o início.


Depois de várias semanas a acender velinhas a S. Pedro e pedindo umas abébias a divindades concorrentes, só como reforço (Obrigada Rá, Apolo...) foi-me concedido que o Verão tirasse folga durante umas horas (peço desculpa aos veraneantes) e cheguei à Praia das Maçãs com um dia perfeito. Pelo menos para quem tinha 50km pela frente.


Às 8h já estava no areal. Cheiro o mar e a expectativa, vejo algumas caras conhecidas (algumas que, como eu, se iam iniciar nesta distância), não ouço nada do que foi dito no briefing inicial (mea culpa), tacteio os bolsos da mochila para confirmar que tenho tudo comigo, verbalizo os receios ao companheiro de corrida, engulo em seco, sinto o sabor da aventura. Os sentidos estão a funcionar em pleno, óptimo.


8h15. Partida! É agora. Os primeiros passos de milhares que serão dados ao longo deste dia. São lentos, encurtados pela areia e pela precaução. Com 100 metros de prova já tinha posto um pé na água ao saltar umas pedras antes de iniciar a subida pelas arribas que nos afastam da praia, mas não há-de ser nada. Continuo a rolar devagarinho, afinal ainda estamos no início, nada de entusiasmos desnecessários, quando, após um desvio da estrada asfaltada...

Expressões de: "Então, mas isto não anda?!"

O primeiro (e último, há que ser justa...) grande engarrafamento da prova, com cerca de 3km percorridos. A passagem junto a uma gasta ponte de madeira, que tinha de ser contornada, foi o suficiente para provocar uma fila de alguns minutos. Logo ao início, com o aquecimento ainda mal feito, custa um bocadinho, mas o facto de ainda termos 47km pela frente ajuda a relativizar. Tem lá calma que vais ter muito tempo para aquecer... E continuamos, trilhos adentro.


Oiço ao longe as badaladas de uma igreja a anunciar a passagem da hora. Eu olho pela primeira vez para o relógio e sigo com a minha estratégia de ritmo de corrida lenta (rectas e descidas) ou caminhada acelerada (subidas).


Percorremos ruelas de bairros tranquilos, passamos por casas de traça antiga, com grossos portões em madeira, pequenas capelas, becos empedrados encimados por arcos em pedra, e eu quase que consigo ouvir os cascos dos cavalos de gentis cavaleiros ou as carroças de condes e damas, e demais nobreza e burguesia, que percorriam estes caminhos há não tanto tempo assim.

 

Ah, Sintra... Nunca deixa de me fazer sonhar.


Passando floresta, quintas e parques, continuamos até chegar ao primeiro abastecimento por volta do km17. A fome ainda não era muita, mas a rampa que convenientemente se avistava logo a seguir recordava a importância de ter reservas de energia. Bem posicionado, Organização! Como uma banana e engulo uns aperitivos salgados. Não tive necessidade de perder muito tempo nesta primeira paragem, sentia-me bem e sigo. Agora, o caminho será maioritariamente a subir, pois claro, até uma das zonas mais emblemáticas da prova. A Quinta da Regaleira.


Quem nunca visitou, aconselho vivamente a fazê-lo. Quem já visitou, poder ter a possibilidade de o fazer a correr, literalmente, é um outro nível.


Misturamo-nos, sem nunca nos confundirmos, com turistas que assistem com alguma curiosidade à nossa passagem. Alguns ignoram-nos, outros deixam incentivos mais ou menos tímidos, na sua língua original ou universal. "Good job!" e "Lookin' good!", pode até ser mentira, mas sabe sempre bem ouvir. :)

Se, alguns quilómetros antes, por causa de um bairro mais característico, já tinha viajado no tempo, imaginem a emoção que foi para mim descer o Poço Iniciático.


Já me estava a imaginar, e aos restantes colegas, num ritual de iniciação e purificação atlética. "Quando sair do túnel, vou deixar o cansaço e dores musculares deste corpo caloiro para trás, e emergir cheia de força da montanha, qual espírito de Kilian Jornet encarnado em mim". Será que resultou? Continuem a ler.


Cu-cu!
 Foi a imagem possível no túnel:


Mesmo assim tivemos de recorrer à ajuda das novas tecnologias - luz do telemóvel - para iluminar as partes mais escuras, que com a vista ainda contraída do sol se tornavam difíceis de percorrer. Em compensação, quando tornamos a ver a luz do dia...




A paisagem não podia ser melhor. É um local fascinante esta quinta e gostei muito desta visita corrida.

Saindo da Regaleira iamos já com 3 horas de prova e pouco mais de 20km. Lembro-me de pensar como estava a adorar a experiência até agora, e estar admirada de ainda me sentir tão bem. Devagarinho mas certinho. Pelos vistos a passagem no Poço Iniciático estava a dar resultados! E entretanto segue-se uma enorme escalada até à zona do Castelo dos Mouros. Primeiro passando pela Vila...


(Se repararem acima, podem ver como fomos vergonhosamente ultrapassados por uma mulher a empurrar um carrinho de bebé. Ihih!)

... E depois entrando já em área florestal, onde tivemos de subir uma escadaria interminável (mais de 200 ou 300 metros nestas condições já merece o título de "interminável") cujas fotos nunca lhe poderão fazer justiça. Quem lá esteve, decerto se recordará com carinho (tradução: #@$%&##!!) desta parte.


Quase lá!


Não entramos no Castelo, mas passamos lá perto. Subir até lá acima não foi brincadeira, mas quando finalmente começamos a descer e pensamos que vamos recuperar o tempo, o piso em rocha veio a revelar-se bastante escorregadio e a exigir alguma atenção. Por essa razão, devemos ter feito a descida quase toda a andar, no meio de um grupo de meia dúzia de atletas que ali se juntou. Nesta fase, já com praticamente metade do caminho feito, ainda seguia tudo com espírito alegre.

Pessoalmente, começava a sentir algum desgaste em algumas subidas, mas quando isso acontecia dizia para mim mesma: "Rapariga, isto não é cansaço, isto é fome!" e comia qualquer coisa. Bastava uma trinca numa barrinha, ou um gole na bebida isotónica, nada de exageros para não ficar mal-disposta, mas juro-vos que funcionou! Desta forma fui enganando a mente e passei a marca dos 25km bastante animada.

Depois da Regaleira, a passagem pela propriedade privada que se segue foi a minha parte favorita, já que me permitiu conhecer uma zona de Sintra que de outra forma nunca conheceria e onde, obviamente, nunca teria oportunidade de correr. A paisagem em si não era nada feia...


E pudemos ter um vislumbre do que seria viver burguesmente no campo, ao entrar e percorrer algumas divisões de um casarão devoluto, infelizmente ao abandono e já com algum grau de degradação.






Não deixou de ser uma experiência engraçada. Menos engraçado foi depois termos apanhado com um tractor que andava dentro da propriedade e nos seguiu durante um bom tempo. Não ia tão depressa que nos ultrapassasse, mas também não ia tão devagar que ficasse para trás e assim lá ia o condutor, sorridente na sua posição de tractor-vassoura. Eu, que nesta fase, depois de tantos líquidos ingeridos, já vinha a ponderar enfiar-me por uns arbustos mais escondidos para ir fazer xixi, vi-me ali com esta escolta inesperada, e saí da propriedade sem ter parado de correr, verdade, e também já sem vontade nenhuma. Nem tornei a ter vontade o resto da prova, foi remédio santo. Pelos vistos, ser perseguido por um veículo motorizado de grande porte inibe a bexiga!

Nem de propósito, mais à frente, depois do km28, o segundo abastecimento, desta feita só de líquidos, nas margens da Lagoa Azul.


Um grande grupo de pessoas fazia um piquenique lá perto. Eu aproveitei a pausa e comi uma sandes. Parei um pouco a olhar a água e divaguei. Sentia-me simultaneamente fascinada e agradecida, por ainda estar forte física e, sobretudo, psicologicamente, e começava a achar que a minha oração no Poço Iniciático tinha dado resultado.


A prova estava a ser incrível, sentia-me em casa nesta familiaridade que a Serra de Sintra já me permite, no entanto com surpresas suficientes para nunca ser entediante, e apesar de não ser um percurso fácil e obviamente já sentir algum desconforto muscular, estava mesmo feliz. "Se calhar ela hoje não vem!", pensei eu inocentemente.

Mas à saída do segundo abastecimento as subidas continuam....

Sim, é para subir.

... e o facto de já passar da uma da tarde faz com que os (graças a Deus poucos) momentos de abertas no tempo aqueçam rapidamente o corpo. O suor que me alaga as costas devido à mochila começa, pela primeira vez, a tornar-se perceptivel e irritantemente incómodo. Sinal de alerta.
Seguem-se os estradões de terra batida sem sombra. OH NÃO. Os temíveis estradões de terra batida sem sombra...


Pouco depois dos 30 quilómetros sinto o toque no ombro que já esperava.
- Olá, estou aqui - sussurra-me a Dor ao ouvido.
(...)

(Continua...)