31 de agosto de 2014

Longos

Como, devido a diferentes factores, os treinos longos andavam um bocadinho descurados ultimamente, nos dois últimos fins-de-semana de Agosto aproveitei para voltar a fazer treinos mais produtivos.

No sábado passado parti em direcção a Sintra e foi quase até à última curva uma indecisão entre a zona da Serra e a zona das Praias... Mas, como no fim-de-semana anterior tinha estado na Estrela e como sou adepta de crioterapia no final dos treinos estivais, optou-se pela praia. E praia significa arribas. E arribas = empeno jeitoso.

O quê, o treino ainda está a começar?? Ficava já aqui...

Nota: Pessoas em estado de ansiedade porque vão regressar ao trabalho amanhã devem abster-se de visualizar as fotos que se seguem. Prossigam por vossa conta e risco.


Partimos da Praia Grande e repetimos, em sentido inverso, os quilómetros finais do UTML, em direcção ao Cabo da Roca.



Chegando ao Cabo da Roca, depois de uma breve paragem para abastecimento, fizemos o caminho de regresso, tentando reproduzir trajectos de provas e treinos anteriores, para não repetir percurso, mas nem sempre com sucesso (Tradução: "Mas onde é que se enfiou aquele trilho que passava por aqui??"). Por isso, de volta às arribas.

Praia Grande.

Como se chegou ao ponto de partida com menos de 20km feitos, continuou-se rumo à Praia das Maçãs, onde pude recriar os passos finais da meta ultra feliz de dia 19 de Julho mas, desta vez, num areal muito mais concorrido...

Foto desfocada, da emoção. :)

Depois, e porque ainda não conhecia, continuou-se até às Azenhas do Mar, antes do retorno.

Bonito postal, não é?

Por esta altura já estava bastante calor, por isso demos o treino por terminado com 25km e um mergulho no mar agitado da Praia Grande.
Foi um treino bastante técnico, com muito trabalho muscular e onde se treinaram diferentes tipos de piso, inclusive areia (mas desta muito pouco, felizmente!).

E ontem, a um mês do desafio de Arga, achei que estava na altura de fazer o último grande treino. Desta vez fiquei perto de casa e fui para Monsanto. A ideia era fazer cerca de 30km, "à séria", ou seja, sem paragens para "piqueniques" e para fotos. Por isso não há fotos (mas houve piqueniques. Prioridades!).


Explorei algumas zonas de Monsanto que ainda não conhecia e consegui fazer pouco mais de 30km. Mais ou menos no mesmo tempo que me levou a fazer os 25km pelas praias de Sintra, mas também com menos desnível.
Apesar de divertido, não foi um treino fácil. Muito calor e alguma dificuldade em responder aos pedidos de "vamos rolar" nas subidas. Rebolar nas descidas teria sido mais fácil...

Bom, mas já sabemos que toda a gente tem destes treinos mais desmoralizantes. Ninguém gosta, mas fazem parte. Agora é esperar que no próximo fim-de-semana, em que vou a Tomar inaugurar a época 2014/2015 do trail, as pernas colaborem. A mente, essa, já está entusiasmada com os próximos meses!

Uma boa semana!

24 de agosto de 2014

Treino n'A Serra

Acordar cedo, para aproveitar o ar fresco matinal que torna suportável o calor seco da serra. Convencer alguém para nos acompanhar, porque "que melhor maneira de começar o dia do que com uma corrida saudável?". Sair de casa e ter a montanha logo ali, como o melhor pano de fundo da natureza. Começar o treino a subir... 


E subir...


E subir...


E a montanha que parece que foge.

Na realidade, sei que são cerca de 17km ou 18km até à Torre. Sempre a subir. Quando digo sempre, não é nenhuma hipérbole, é a realidade. Seria um ganho de acumulado acima dos 1000 metros. Sei que é um desafio a que um dia que me irei propor, mas ainda não foi desta. Desculpo-me com os dias de descanso e a companhia. Afinal, a companhia foi convencida para este treino com a conversa de que seria saudável... Se calhar não ia achar muito saudável quando nos estivéssemos a arrastar, lenta e miseravelmente, rumo ao topo desta Estrela, com a outra lá em cima a brindar-nos com o seu calor inclemente.
O topo desta minha Serra tem poucas sombras. Paisagem árida, típica de muitas regiões montanhosas, que torna o seu ambiente tão particular. Já ouviram o silêncio de uma montanha? Às vezes fala tão alto que cala a voz que trazemos dentro e durante uns momentos já não somos eu, somos nós. Eu + a Montanha = Amor Eterno, escreveria apaixonada, no muro da escola, se ainda fosse adolescente.

Rochas.


- Porque queres subi-las?
- Porque estão lá - respondo, fazendo eco de uma outra resposta que ficou famosa. "Because it's there", queremos vivê-lo. Ir sempre mais além, ver de mais alto. Se não há caminho, inventa-se.

Há um trilho por aqui algures, EU SEI... :)

E pelo meio descobrem-se pequenos recantos e segredos.


Quase no topo...


Sento-me e olho a paisagem abaixo

e acima.
O verdadeiro topo.
Desço da rocha, o que exige sempre uma técnica mais apurada, vulgo "sentar-se e deixar-se escorregar" (se quiserem reproduzir esta técnica estão por vossa conta e risco. São muitos anos de prática!:))


E está na hora de regressar. Vejo lá em baixo o estradão, mas como chegar novamente até ele sem repetir o caminho anterior?


No meio de vegetação, arbustos, arranhões de silvas, rezas para não encontrar nenhuma cobra, milhões de insectos e criaturas que ouvi a escapulirem-se por entre as ervas mas não consegui ver ("por favor cobras não, por favor cobras não...") lá conseguimos voltar outra vez ao caminho civilizado. Foram cerca de 20 minutos para percorrer 200 metros, por trilhos nunca dantes desbravados, nem por rebanhos de cabras, tenho a certeza. E tenho também a certeza que perdi uma companhia de corridas para sempre. "Grshhhsftt.... corrida saudável, disse ela... Ghrrrsfsfgnuncamaismeapanhamnoutrafgrrr".

Acedi a regressar em "piso de gente", fazendo o trajecto de volta sempre pela estrada.


Afinal, uma estrada onde passa uma média de um carro por hora, e no meio deste enquadramento, não é assim tão aborrecida de correr.


10km enoooormes! E já muitas saudades.

Por isso, este fim-de-semana fui procurar o colo da minha outra Serra, a adoptiva:

Esta foto é mais praia que Serra, mas vocês sabem a qual me refiro. :)


Já dizia o Marco Paulo: eu tenho dois amores...


Boa semana!

19 de agosto de 2014

Kms de Julho e treinos de Agosto

Contagens do mês de Julho

- Distância: 178.48 km
   . em estrada: 92.17
   . em trilhos: 86.31
- Horas a correr: 24:43
- Ganho de elevação total: 3838 metros

- Quilómetros a pedalar: 37 (2 actividades)

Distância total: 1366.39 km (Janeiro a Julho)

Apesar de ter sido o mês mais curto em quilómetros desde o início do ano, Julho foi o mês da minha primeira Ultra. Aquela de que falei aqui e aqui, caso tenham estado distraídos! Englobou, portanto, o dia em que corri mais quilómetros seguidos, 53km para ser exacta. Foi um dia perfeito. Depois, seguiu-se o declínio pós clímax.
Ao início associei ao cansaço normal de uma empreitada destas. Parei alguns dias e regressei aos treinos calmamente. No entanto, depois de dois, três, quatro treinos a correr de forma medíocre, comecei a ficar preocupada. Penso que o cansaço agora já nem é tanto físico, mas mental. Visualizei e preparei-me tanto para aquele dia que, agora que já passou, deixou-me um bocadinho com a sensação de vazio. Nem o desafio Arga, que é enorme, me anda a motivar nos treinos. Confesso que começo até a ficar um bocadinho preocupada porque o tempo limite daquela prova não é brincadeira nenhuma e iria custar-me ter de ficar pelo caminho.
Além disso, tive uma mudança profissional recente que me condicionou em termos de horários e locais de treino e ainda estou em fase de adaptação. Não é que não me apeteça correr, que apetece. Há dias em que até é imperativo que o dia termine dessa forma, em bom... Mas a rotina dos percursos, condicionados pelo anoitecer, às vezes é a parte mais desafiante do treino.

Felizmente, aproveitei o fim-de-semana prolongado para ir fazer uma visita há muito devida ao meu Gigante Adormecido:

É lindo ao pôr-do-sol, não é?
E o treino de namoro com a montanha foi o melhor destas últimas semanas, apesar de curtinho. Na próxima crónica partilho mais fotos do reencontro.


Cerca de 10km pela Serra, com o objectivo primordial de ultrapassar os 1000 metros de altitude superado. Com alguns enganos "semi-propositados" e pausas para absorver a paisagem.

Boa semana!

13 de agosto de 2014

Trail Nocturno da Lagoa de Óbidos - 26km

"O cerco do exército português à fortaleza de Óbidos, dominada pelos mouros, durava   cerca de dois meses. Um dia, D. Afonso Henriques e Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, decidiram que o ataque seria realizado na madrugada do dia seguinte. Dormia  o Lidador, quando foi acordado por uma voz de mulher que lhe pedia para ser conduzida à tenda do rei de Portugal, pois tinha algo de importante a comunicar-lhe. A jovem vivia no castelo dos mouros mas não sabia se era moura porque nunca tinha conhecido os seus pais. Junto do rei, a jovem revelou o seu sonho que se repetia  três noites. No sonho, aparecia-lhe um homem novo e de olhar doce que a incumbia de transmitir uma mensagem para o rei de Portugal: o rei deveria reunir os soldados e liderá-los num ataque surpresa na parte fronteiriça do castelo, enquanto o Lidador se deveria dirigir com dez homens às traseiras onde a jovem donzela abriria uma porta para os deixar passar. O homem de olhar doce prometia Óbidos aos cristãos e a salvação à jovem donzela. Apesar da hesitação do Lidador, D. Afonso Henriques decidiu cumprir o que a jovem lhe contou. Na manhã seguinte, Óbidos foi conquistada conforme o sonho da misteriosa jovem que nunca mais foi vista. A porta que franqueou a entrada dos cristãos ficou para sempre conhecida como a Porta da Traição."

Lenda da Porta da Traição
Origem: Infopedia


Acho que começará a ser uma tradição dar as boas-vindas ao mês de Agosto com uma passagem pelo Castelo de Óbidos. Durante a tarde assiste-se ao desfile medieval proporcionado pela feira a decorrer no interior das muralhas e depois termina-se a noite/começa-se o dia com uma corrida nocturna. Duas das minhas coisas favoritas concentradas num tempo e espaço tão limitados é de aproveitar. Vamos todos colaborar e não esgotem as inscrições TNLO 2015 antes de eu me inscrever, está bem? É que a correria para as inscrições nesta prova é mais renhida do que a competição no trail em si. E, quem participa uma vez, percebe o porquê.





Mas este ano reservei novamente o meu lugar e lá estava, sábado dia 2, para fazer parte do pelotão de pirilampos que invade esta pequena vila ao anoitecer.



Com sabem, devido àquela “pequena” prova em que participei duas semanas antes, acovardei-me, precavi-me e optei por participar na versão curta do TNLO, os 26km. Mas isso não significa que não tenha assistido e ficado entusiasmada com a partida do UTNLO como se fosse a minha. A partida simbólica no Campo da Bola e a descida pelas ruas até chegar à saída das muralhas, onde é feita a partida real, é um toque característico, apesar de este ano esta parte do percurso estar especialmente perigosa devido aos chuviscos que foram caindo ao longo da tarde e tornaram a calçada escorregadia.

Partida UTNLO

Aí vão eles!
Depois de assistir à partida dos atletas da Ultra, dirigi-me então novamente para o Campo da Bola, onde me encontrei com os amigos e colegas de equipa, nomeadamente a Isa e o Vitor, que também iriam participar nesta prova. A ideia era manter-me com eles até ao final, porque tinha o pânico secreto de poder perder-me e ficar sozinha, à noite, com um frontal fraquinho e alimentado a pilhas dos chineses, no meio do mato. Mas já vamos ver como isso correu. :)


Tudo atento ao briefing.
Assim, às 22h (este ano a partida foi adiada 15 minutos), damos início à nossa corrida. Uma prova de que estou a ficar mais rápida: o ano anterior, quando cheguei à partida oficial, já tinham dado o arranque. Este ano cheguei lá e ainda ficámos à espera que fosse dada a partida (ou isso ou este ano esperaram mais tempo pelos atletas, mas vamos pela primeira hipótese, a de que estou a ficar mais rápida.)

Houve algumas alterações de percurso, nomeadamente os primeiros quilómetros, que, se não me engano, fez com que percorrêssemos mais asfalto pelas ruelas da vila. Acaba por ser engraçado, porque apanhamos pessoas a dar o seu passeio digestivo, quem sabe momentos antes de se irem deitar, e nós ali nos passos iniciais de uma epopeia nocturna.

Primeiras tentativas de fotos. Conseguem ver quem é?


Olhem novamente com mais atenção. Agora já conseguem?

Claríssimo, certo?! ;)

Tive de desistir das fotos. Acompanhem-me no restante relato às escuras.

Por volta dos dois ou três quilómetros começam as primeiras filas, originadas pelos habituais obstáculos: subidas e/ou descidas íngremes ou algum buraco a meio do caminho. Mas não é preciso tanto. No escuro, as pedras e raízes causadoras de 90% das quedas em trail tornam-se ainda mais desafiantes e exigem um nível de concentração ainda maior. Orientar foco para a frente para ver os ramos, orientar foco para baixo para ver o chão e, ao mesmo tempo, não perder de vista os quadradinhos reflectores que indicam o caminho.
Nesta altura o pelotão ainda ia muito compacto e eu ia olhando para trás para me certificar de que a Isa e o Vitor ainda estavam ali. Mas sabem o que é tentar reconhecer uma cara no meio de dezenas de focos a apontar para os vossos olhos? Pois… Decidi continuar a avançar, na ideia de que quando o pessoal começasse a alastrar ia ser mais fácil encontrá-los. A posteriori é bastante claro que esta decisão não augurava nada de bom, mas… Já vamos ver como isso correu (II). :)

Sigo então, sempre a tentar manter-me junto a alguém cujo frontal se assemelhasse a uns médios, para ver bem o caminho, e durante um tempo segui atrás de um casal que ia ao meu ritmo. É mais fácil guiarmo-nos podendo ver onde as pessoas da frente metem os pés e assim, se a pessoa da frente tropeçar ou cair, já sabemos que não queremos ir por ali! Ihih. Além disso, o rapaz era um excelente co-piloto. Sempre a dar indicações em voz alta, como: “Buraco”, “Pedra”, “Ramo”, “Cabeça”. Sucinto, mas esclarecedor. E assim aproveitei estes comandos alheios até chegarmos a um novo engarrafamento, o maior de toda a prova, numa subida por trilhos estreitos. A fila era tão compacta que eu só pensava que se algum dos que ia acima caísse para trás íamos todos por ali a baixo efeito dominó. Apesar de algumas ameaças não houve nenhum incidente e, uns 13 minutos depois, estava a subida feita.

Pouco depois do engarrafamento acabei por perder o casal de vista, por isso, a bem da minha integridade física, tive de juntar-me a um novo grupo de pirilampos, e segui os próximos quilómetros atrás de um grupo bastante animado, que ao final de 2km já eram os meus novos melhores amigos. Inclusive, mencionaram uma prova na terra deles que calha em dia de Arga e não vou poder ir, mas que pode interessar a alguém por isso aí fica o link.

Não me lembro se foi por volta dos 12km que encontrei o, na altura ainda aspirante a, Ultra Pedro. Reparei que tinha alcançado alguns atletas dos 50km e comecei a falar com eles sem os reconhecer. Já tentaram ver a cara das pessoas, no meio do escuro, quando eles têm um frontal na testa? É isso que acontece, não reconhecem as pessoas. Só olhando ligeiramente de lado, para fugir do foco. Informação útil, tomem nota! ;)
Aproveitei para desejar-lhe boa sorte e dizer-lhe que queria ler a história da conquista nos dias seguintes.

Na altura já seguia sozinha, tendo deixado os anteriores companheiros no abastecimento. Daqui para a frente serei sempre só eu e o meu pirilampo, com a ocasional companhia durante alguns metros, de tempos a tempos.

Lembro-me de na zona da Lagoa achar que já estava a correr muito. Muito, no sentido de as rectas nunca mais terminarem e não justificar andar, apesar da areia que dificultava um bocado a passada. Não me lembro se esta parte do percurso era igual à do ano passado. O ano passado parece-me que nem dei pela Lagoa e desta vez lá estava ela, iluminada pelo céu nocturno. O ano passado também não me lembro desta parte ter demorado tanto tempo e desta vez nunca mais terminava. Olhava para a frente e via um pirilampo aqui e ali, a deslocarem-se a diferentes ritmos. Alguns paravam ou reduziam a velocidade e eu fazia por apanhá-los, numa forma de ajudar o tempo a passar.
Finalmente vejo ao fundo o enorme foco de luz que sei tratar-se do último abastecimento (para os 26km). Este é capaz de ser um dos meus abastecimentos preferidos na história dos trails. Está bem servido, com boa variedade de alimentos, bem iluminado, e fica numa zona de merendas, com umas mesas para quem quiser sentar-se a descansar. Sei também que a ilusão de ser “já ali” não passa disso, uma ilusão. Nós não conseguimos ver, mas o caminho segue em curva e contracurva, e o abastecimento ergue-se acima de uma pequena encosta, como um oásis inalcançável de luz no meio da escuridão. Pelo menos é nisso que penso, enquanto, naquele momento, corro sozinha ao seu encontro.


Passando o abastecimento, mais de 17km estão feitos e sei que, a não ser que algo de muito mau aconteça, vou conseguir bater a marca das 4horas. -> Ahahah! Somos tão inocentes às vezes... Já devia saber que não se pode fazer contas numa prova de trail, quem manda é a natureza. Neste caso, a natureza impiedosa da escuridão.

Por acaso o meu frontal fraquinho alimentado a pilhas dos chineses até se estava a aguentar bem. Tinha era de alternar entre apontar o foco mais para baixo, em zonas de piso mais irregular, para poder ver melhor onde punha os pés e entre apontar o foco para a frente, para poder reflectir nos pequenos quadradinhos sinalizadores que indicavam o percurso. Lembro-me exactamente quando dei por falta desses quadradinhos, ia já com cerca de 23km de prova.


Páro e olho para os lados. Dois pirilampos que seguiam pouco atrás vendo a minha hesitação, dizem: - “Segue, é por aqui”. E eu, que não estava a ver nenhum quadradinho, confiei. CONFIEI. Atentem bem em como não se pode confiar em ninguém (ihih). "Se calhar têm frontais mais potentes e estão a ver alguma sinalização da qual eu não dei conta” – pensei, dando o benefício da dúvida. No entanto, alguns metros à frente, continuando a não ver os reflectores, questiono: “Têm a certeza que o caminho é por aqui?” A resposta já vem mais longínqua e menos confiante: “Pois… Agora já não sei bem.” E pronto, começou a diversão.



Só através do mapa da minha prova é que depois consegui reconstituir este belo momento, que teria sido uma boa altura para manter a calma e a capacidade de raciocínio, mas que só veio comprovar que caso algum dia me apanhe perdida no meio da selva à noite (nunca se sabe, pode acontecer…) vou entrar em pânico e dar por mim já completamente SOZINHA, num trilho qualquer, sem ver ninguém para trás nem para a frente, hesitante entre ficar ali parada a ver se chega alguém (parada no meio do escuro a ouvir os “ruídos” da noite… hmmm…) ou continuar a correr com risco de me afastar ainda mais do percurso. Nenhuma das opções me parecia muito boa, mas entretanto também já não tinha a certeza de estar a regressar no mesmo caminho que tinha feito anteriormente. Sei que a certa altura comecei a ver novamente quadradinhos reflectores, mas dos azuis (Ultra) e num sentido oposto ao qual seria de esperar. Decidi-me a segui-los, pensando que, mal por mal, mesmo indo na direcção contrária, acabaria por encontrar alguém. E foi isso que acabou por acontecer. Vi meia dúzia de focos de luz a correrem na minha direcção, que descobri serem atletas dos 26km que também andavam perdidos. Pelo menos já não estava sozinha. Um deles liga para a Organização e foi engraçado as tentativas para explicar onde estávamos. “Olhe, vejo umas árvores”… “E umas luzes ao fundo, de umas casas, à direita”. Realmente não era uma tarefa fácil ajudarem-nos com indicações remotas do percurso a seguir, com dados de localização tão específicos como estes!
Depois de algumas tentativas e erros, tendo por base os quadradinhos azuis, acabámos por encontrar outro grupo de “perdidos” (já devíamos ser cerca de 15!), mas que felizmente estavam perdidos há menos tempo e tornou-se mais fácil fazer a reconstituição do trajecto até ao local certo: uma infame curva à direita, relativamente bem assinalada, poucos metros antes do local onde dei pela primeira vez pela falta das marcações… Grrrr...
Ao menos fiquei a saber que o meu sentido de orientação é bom, desconfiem é dos atletas que ultrapassam uns metros antes. :)

Daí para a frente o meu ânimo alterou por completo, era como se a prova já estivesse acabada para mim e agora só queria cortar a meta. Não gosto nada de fazer provas assim. Gosto de poder viver o momento, aproveitar o quilómetro em que estou (ou queixar-me dele), mas agora já estava farta. Ia com 26km, ainda não conseguia ver as muralhas e já estava sem paciência para os obstáculos do caminho, queria correr e terminar depressa. Mas ainda estava reservada a surpresa da conquista do Castelo.

Para evitar a passagem no túnel de água do ano passado, desta vez tivemos de simular uma invasão nocturna e sorrateira aos mouros sitiados, escalando o terreno em volta das muralhas. E que ágeis e fortes tinham de ser aqueles soldados medievais, para subirem carregados de armaduras e espadas. A minha mochila é uma pluma por comparação e eu já mal levanto os pés. Tropeço e escorrego na lama, alastrada pelas centenas de pés dos soldados que chegaram antes. "Mas nunca mais chegamos??" E agora ainda as escadas (será que na altura de D. Afonso Henriques já estaria assim esculpida na terra uma escadaria tão conveniente?:)), que temos de subir numa última prova de valentia, antes de começarmos a ouvir os incentivos e aplausos que nos vão abrir a Porta da Traição.
Como o meu dorsal era dos 50km (alterei só o chip), oiço ainda mais aplausos. Não só as pessoas acham que sou a primeira mulher da Ultra, como seria uma atleta fantástica, a terminar os 50km em 4h e pouco. Abano as mãos: “Não, não! Fiz só os 26km.” “Fiz só os 26km!”- repito eu. Ainda bem que a luz do frontal e o escuro da noite ocultam a minha cara que deve estar a ficar cada vez mais vermelha, e não era do cansaço.

Na altura fiquei contente por ter tomado a opção de alterar a inscrição para os 26km. O cansaço de 15 dias antes ainda preso ao corpo, a situação de me ter perdido à grande pela primeira vez, ainda por cima numa prova nocturna, o desgaste mental que senti nos últimos dois ou três quilómetros… Tudo me indicava que tinha sido a escolha correcta. Mas claro que no dia seguinte já pensava diferente.
Que surpresas estariam reservadas nos quilómetros seguintes? Uma pessoa fica viciada neste carrossel de emoções que são as provas longas de trail, em que num momento estamos no topo do mundo e no outro maldizemos tudo e todos e no outro somos felizes e no outro miseráveis. Ahhhh…


Fica para o ano. (Guardem uma inscrição para mim!)

4 de agosto de 2014

Perdida pelas matas de Óbidos

Este ano marquei novamente presença no TNLO, umas das provas que mais gostei de fazer o ano passado. Como a crónica do acontecimento ainda pode levar alguns dias (semana complicada) ficam com uma foto de "qualidade":

(Ao início ainda tentei tirar umas fotos com o telemóvel, nos momentos mais parados, mas ficavam todas assim, e desisti)

A história que se destaca da minha participação foi o facto de me ter perdido à grande e à francesa, a cerca de 3km do final. Sabem o que são 2km de engano, cansados, à noite, no meio do mato, juntando uma imaginação muito fértil...? São cerca de 15 minutos em que parece que somos protagonistas numa qualquer sequela de filme de terror dos anos 80, em que corremos e corremos, mas o assassino, em ritmo de descontra, está sempre lá, atrás de uma árvore, à nossa espera. (Imaginação fértil, como eu disse... :)) Felizmente foram só alguns minutos sozinha, até começar a ver alguns pirilampos ao fundo (atletas que também iam enganados) e se que juntaram a mim na busca do trilho certo.

Banda sonora da noite.

Bom, mais uma história para contar aos netinhos. Mas vocês não vão ter de esperar tanto tempo (espero!)

Assim, foram 28km, alguns minutos acima das 4horas. O engano levou-me a entrar por parte do percurso da Ultra, por isso, no fundo, acho que era o meu subconsciente a indicar-me o verdadeiro caminho. ;)


Boa semana.


1 de agosto de 2014

O pós UTML

Ora então tínhamos ficado no momento em que cruzei a Meta e estava feliz da vida. Na altura pensei que a aventura tinha ficado por ali, no momento em que concluí os 53km, porque ninguém nos diz que a Ultra continua connosco, entranhada em nós, para o bem e para o mal, nos dias que se seguem. Mas, antes disso, recuemos duas semanas, menos um dia e um par de horas: momento em que passo o pórtico.

Um rapaz põe-me a medalha de finisher ao peito (gosto tanto quando fazem isso em vez de simplesmente as entregarem em mão), entro na tenda da Organização ao som de música brasileira e encontro os colegas Rui e Sílvio, que também já tinham concluído a sua prova (Parabéns!). Como qualquer coisa porque estava ali comida e parecia mal passar por ela sem lhe dar atenção e em seguida quis ir aproveitar a melhor parte de terminar uma prova na praia: crioterapia.



A ideia era só pôr as pernas de molho, mas quem consegue resistir? A água estava óptima e ainda dei vários mergulhos. Sabia tão bem estar ali a boiar, leve, depois de passar tantas horas a sentir o peso do corpo a embater no solo, como se a gravidade que nos prende à terra fosse ficando cada vez mais forte até ao ponto de já ser difícil levantar uma perna de cada vez. Vocês também conhecem essa sensação, não conhecem? Além disso, banhos gelados ajudam à recuperação e eu achei que iria necessitar de toda a ajuda possível, por isso deixei-me ficar um bocado ao sabor das ondas.

Quando, horas mais tarde, andava à procura de um local para jantar e repor as calorias, já começava a sentir dificuldade em entrar e sair do carro, bem como em caminhar de forma "natural", mas penso que disfarcei bem. :)
No entanto, no dia seguinte, quando acordei, o primeiro pensamento que me ocorreu foi o de que o armário da roupa deveria ter caído durante a noite e aterrado em cima de mim. Abri um olho a medo e pareceu-me tudo normal. "Deve ter caído e ressaltado, voltando a ficar encostado à parede" - pensei, uma coisa altamente realista de acontecer, pois só isso justifica o facto de parecer que acordei no corpo de um centenário. Morto. Depois lembrei-me da conquista do dia anterior e descobri que aquele era o peso do amor da Ultra, agarrada a mim como uma lapa, no rescaldo da paixão. Com muito jeitinho tentei levantar-me, para não a acordar, mas a intensidade do namoro ainda deixou as suas marcas durante alguns dias. Logo nessa tarde, só para mexer os músculos, decidi ir almoçar aos meus pais e fazer o percurso a pé. São apenas cerca de 2km para cada lado, devo ter demorado o dobro do tempo habitual a fazê-los, mas acho que mereci pontos pelo esforço. :)

E por mencionar almoço, deixem-me falar-vos da fome que tenho sentido todos os dias desde a prova. É como se o meu corpo pensasse "deixa cá ver quando esta maluca vai tornar a perder 3000 calorias num só dia" e estivesse em constante modo de sobrevivência, a prevenir-se contra um armagedão calórico. Calma, corpo! Em princípio, nova loucura só para o mês que vem, e eu queria descer as encostas de Arga, e não rebolá-las. Vamos ser meiguinhos um para o outro, sim?

Finalmente, em termos de treinos, tem sido um regresso calminho e suave. Fiquei três dias sem correr, depois fiz apenas um treino muito curto (5km). No fim-de-semana seguinte não fiz longuinho e o único treino em trilhos que fiz, aproveitando uns dias de férias, foi esta quarta-feira na Serra Encantada. Sim, mal podia esperar por voltar ao local do crime.


Um bocadinho da história da foto acima. Foi um treino de 17km muito custoso. Apesar de já me sentir bem, é notório que o corpo ainda está preguiçoso, e com razão. Ainda assim, existe esta fotografia, em que pareço uma atleta tu-cá-tu-lá com o bosque, a subir obstáculos de lado, com toda a naturalidade e leveza... Pois. Poderia deixar-vos com esta imagem, em gabarolice de atleta "ultra recuperada", mas tenho de confessar-vos a verdade. Segundos antes desta fotografia ser tirada eu estava sentada naquele primeiro tronco que vocês vêem, porque 100 metros a subir é DEMASIADO e tinha de descansar. Como, no entanto, tenho uma réstia de orgulho social em mim (sentada com os bofes de fora sozinha tudo bem, evidências fotográficas do sucedido é que não!), dei um pulo quando vi a câmara apontada na minha direcção.
- Não me tires fotos sentada! Ao menos deixa-me levantar e fingir que estou a corr-...
E um segundo depois foi captado o momento.


Este sábado vou a Óbidos, para estar presente no TNLO. Como achei que duas Ultras no espaço de 15 dias seria demasiado para quem está a começar e ainda quer cá andar muito tempo, vou fazer apenas os 25km. A minha prioridade agora é a Serra d'Arga e penso que é mais prudente assim. Fico triste de não ter o meu momento "corrida noite adentro e ver o nascer do sol",  mas vai sempre haver UTNLO 2015.
Força para os amigos que vão participar na versão 50km, e até já àqueles que vão estar no Trail Curto.


Bom fim-de-semana!