30 de outubro de 2014

Sintra nocturno

Local: Vila de Sintra
Dia: Sexta-feira
Hora: 19h30

Sexta-feira após as 18h é sempre um dos momentos mais felizes da semana. Vocês sabem que sim, mesmo quando se tem a sorte de se trabalhar no que se gosta. E é ainda mais feliz quando, na mala do carro, se leva o equipamento e os ténis para se seguir em direcção a Sintra. Há quem relaxe a beber umas minis na esplanada, outros relaxam a cansar o corpo em correrias pela Serra. Mais perfeito ainda é quando se juntam as duas coisas numa equação:

(corrida {+-1h} + minis* {Nºpessoas x2}) [por esta ordem] = Perfeição.

* Elemento variável, sujeito aos gostos de cada um.


Noite de fazer inveja ao Verão. Carro estacionado na zona de S. Pedro, decidimos subir em direcção ao Castelo. Apesar de não termos levado frontal, pensámos que seguindo a estrada a iluminação decerto estaria assegurada.

Palácio da Pena.
Não estava.
O caminho era muito escuro, apenas com a iluminação na zona do Palácio ao longe e os faróis de algum carro que passava. Ainda bem que alguém (eu) resolveu vestir-se como um semáforo, de forma a ficar bem visível.

Quando chegámos à zona do Castelo dos Mouros, alguém (não eu) disse que talvez a descida por entre a Serra que liga o Castelo à Vila tivesse iluminação.

Civilização, ao fundo.
Não tinha.
Ou melhor, tinha, mas apenas na zona da entrada. Foi uma aventura engraçada, com o seu quê de assustador desafiante, descer por ali só com a parca iluminação da lanterna do telemóvel.

Mais ou menos a meio do percurso começámos a ver a luz de alguns frontais. Eram elementos da organização do Meo Urban Trail que estavam a fazer as marcações para a prova da noite seguinte! Ainda falámos um bocadinho, perguntaram-nos se íamos participar na corrida e eu disse que infelizmente não podia, por isso é que estava ali agora a fazer o meu nocturno. :) Depois eles seguiram mais rápido e nós lá continuámos lentamente, uma vez que a visibilidade era pouca.
Mas eis que, uns minutos mais tarde, vejo uma luz de um frontal a voltar para trás. Um dos elementos ficou com pena de nós ali perdidos no escuro (ihih) e voltou para me oferecer um frontal da prova... A sério, ganhei a noite! Um gesto muito, muito simpático.

Daí para a frente tornou-se mais fácil e em pouco tempo estávamos de regresso a um meio mais fértil nessa bonita invenção que é a electricidade.

Palácio da Vila.
As esplanadas estavam cheias de pessoas que aproveitavam a noite amena para jantar ou apenas beber um copo. Um rapaz à guitarra e outro na bateria davam música ambiente a uma das ruas. Mas a rua que eu andava à procura era esta:


Porque, que melhor sítio para fazer uma paragem para abastecimento na Vila do que este:


Teria sido um bom sítio... Se as carteiras não tivessem ficado no carro. Falha GRAVE! E lá fiquei eu com desejos insatisfeitos de Travesseiros de Sintra (hmmm travesseiros...) durante o resto do treino.

Já de regresso ao carro ainda subi uma escadaria para "acertar os quilómetros".

Às portas de Santa Eufémia.

E deu-se o treino por terminado com 11,1km (falhei na contagem dos degraus...)



Uma corrida muito agradável para terminar a semana/começar o fim-de-semana.

O fim-de-semana que incluiu muitas paisagens, agora já bem iluminadas por um bonito sol, como estas:





22km, em ritmo de passeio, para recuperar do empeno da Lousã.


Se não "falarmos" antes, uma boa Maratona do Porto a todos (carago)!


27 de outubro de 2014

Trail Serra da Lousã

’Bora?”, é o título do email, seguido do link para o site da prova. É assim que começa a maioria das aventuras. Misery loves company, já diz o ditado anglófono. E eu acrescento que não só os momentos maus são mais suportáveis, mas também os momentos bons são muito melhores quando partilhados.
Neste caso o convite surgiu da minha parte. Ainda não tinha feito o GTSA, portanto não tinha ideia de como seria a recuperação entre estas duas provas, só sabia que a oportunidade de correr pelas Aldeias do Xisto me agradava bastante.



(Vocês compreendem...)


Deixei a decisão nas mãos do destino. Se a resposta fosse negativa, também não iria, se fosse positiva era sinal que a ideia era excelente e por que não correr mais 42km duros pouco tempo depois (para os meus padrões) dos duríssimos 53km de Arga? Mas confesso que era apenas uma escapatória enganadora, porque no fundo já sabia que a resposta seria o sim.

Não foi das manhãs de prova mais pacíficas. Atraso na hora de sair de casa, gasto de combustível mal estimado e gasolina a entrar na reserva sem bombas nas proximidades fez com que a chegada a Castanheira de Pera fosse feita já num estado de nervos provocado pelo medo de chegar tarde e o não querer acelerar muito para não ficar apeada à beira da estrada. Depois, a enorme fila para levantamento dos dorsais já na Praça da Notabilidade, seguida de outra enorme espera para os WCs, apenas deixou tempo para uma corrida até ao carro para deixar os sacos e chegar à zona da Partida já depois da hora (a partida acabou por ser adiada 20 minutos) com o coração a bater mais rápido sem ainda ter sequer começado. Não é o ideal que uma pessoa tem em mente antes de uma prova destas, mas são coisas que acontecem.




O tiro de partida foi dado às 9h50, o que significa que os atletas do UTAX já estavam em prova há 9 horas e cinquenta minutos. A noite tinha sido de chuva, agora caiam apenas chuviscos esporádicos e não estava frio. Estará frio lá mais para a frente, acima dos 900 metros de altitude, mas agora não. Comecei a correr com o corta-vento vestido e com cerca de 500 metros de prova já estava arrependida, o que vale é que o início, que não deu azo a grande espaçamento do pelotão, foi lento e em passo de caminhada.



Reparei que alguma coisa não estava bem quando, mal tivemos oportunidade de começar a correr, notei a respiração muito alterada, como se já fosse em esforço, apesar de irmos apenas com cerca de 1,5km de prova. Abrandei o passo e tentei abstrair-me, aproveitando a bonita área florestal que estávamos a atravessar.


Não ajudou. Comecei, inclusive, a sentir ligeiras tonturas. Desisti de correr e voltei a andar. "Será fraqueza?", pensei? Fiz cálculos mentais às horas que tinham passado desde o pequeno-almoço. Nada diferente em relação a outras provas, tanto em termos de horário como de alimentos, e até tinha comido uma barrinha antes da partida. Por via das dúvidas, dou mais uma trinca. Sigo os próximos quatro, cinco quilómetros, sem dizer uma palavra, a sentir-me numa espécie de twilight zone e a pensar se vou conseguir terminar a prova neste estado. Sentia a cabeça pesada, como se tivesse passado a noite em branco. Só quando olhei para o lado, para um recanto de musgo entre umas árvores e pensei que aquele seria um local perfeito para me enroscar um bocadinho a dormir, é que me apercebi que o que tinha mais era sono. Isso mesmo, sono. É verdade que a noite anterior e a noite antes dessa tinham sido mal dormidas, mas já tinha acontecido antes e nunca me tinha sentido assim. Talvez o cansaço dos últimos dias, aliado ao facto de não ter tido tempo de beber o habitual café antes da partida, tenham influenciado. Ainda bem que não me inscrevi para o UTAX nem fiz a prova de noite, então. ;)



Decidi que teria de aguentar até ao primeiro abastecimento, aos 14km, beber lá alguma bebida com cafeína e ver como me sentiria a partir daí.

Entretanto, a subida continua e com ela o nevoeiro adensa-se.



Com a aproximação dos 1000 metros de altitude, caem os primeiros pingos e sopra um vento forte. Sinto-me gelada, mas acho que o frio ajudou a despertar. Começo a sentir-me melhor e arrisco uma corrida. Esta era a paisagem no topo:

Arga 2013, és tu?

Aproximavamo-nos da zona das eólicas, que não se viam mas denunciavam a presença de forma bem audível. O som provocado pelo vento nestas ventoinhas fantasmas a coberto do nevoeiro era de meter respeito.


Não se vêem, mas estão por ali.

E aqui.

Depois de atingido o primeiro topo dos 1000 metros a descida para o Talasnal foi feita por trilhos lindíssimos.


Não tenho fotos que lhe façam justiça, mas as árvores centenárias, o musgo, as pequenas cascatas e ribeiros que tivemos de atravessar, nada faltava na composição deste bonito cenário de corrida.



Um atleta que vinha no trilho em direcção contrária:

:)

Havia também alguma lama. Uma parte do trajecto assemelhou-se bastante a um escorrega aquático, mas em versão argilosa. Foi necessária muita concentração, alguma ajuda e desenrascanço para não descarrilar por ali abaixo. A Natureza é, sem dúvida, o melhor parque de diversões e nós pagámos o ingresso.





Chegando aos 14km e na primeira aldeia de xisto, vai estar o primeiro abastecimento e respectivo PAC.




Apesar de desfocada, decidi incluir a fotografia acima porque tem uma história. Ora, ia eu toda lançada a caminho do abastecimento, numa busca sedenta de cafeína, e está este pequeno grupo de pessoas a aplaudir como se os atletas estivessem a chegar à meta. Eu agradeço e ia seguir quando, de repente, vira-se um dos bombeiro e pergunta:
- A menina já passou o chip? [Nota: o chip estava numa pulseira que tínhamos de passar por uma máquina para ser validado.]
Faço uma travagem brusca.
- Hmmm... Não.
- Então volte lá acima e passe na máquina, que nós guardamos as palmas.
Na minha pressa tinha passado pelo controlo e nem tinha reparado mas, tal como prometido, 30 segundos mais tarde torno a passar por aquele grupo que tornou a apoiar-me como se fosse a primeira vez que me estivessem a ver, ou até mais. :)

Foi este o espírito ao longo de toda a prova, um espectáculo.

O primeiro abastecimento era no interior de uma das casas típicas.

Entrada para o abastecimento.

Interior do abastecimento.

Estava um bocado abafado lá dentro por isso foi uma passagem rápida, mas vinguei-me na Coca-Cola (com algum sacrifício, mas deu resultado) e comi alguma fruta e tostinhas.

Daqui para a frente, e até as minhas pernas se revoltarem lá para o km22, foi uma parte da prova muito agradável.






Vai haver uma zona em que faremos alguns quilómetros sempre junto a um curso de água, que me recordou as levadas da Madeira. Um bocadinho perigoso (nem quero pensar em quem teve de correr por ali à noite), mas uma experiência espectacular, sobretudo porque nesta altura o pelotão já tinha espaçado e permitia seguir com mais calma e apreciar o percurso.




Quando nos estamos a aproximar da Cerdeira, outra aldeira de xisto e local do segundo abastecimento que nos brinda com uma #%$&& de uma enorme escadaria (nesta fase as minhas pernas já iam desgostosas), há alguém que nos diz:
- O abastecimento é já ali a 200 metros. Aproveitem para repor energias, que vão precisar. É um conselho de amigo.

(MEDO...)

Já sabemos que quando alguém nos diz isto durante um trail é sempre um óptimo sinal!!! :)


A subida que se segue irá levar-nos até aos 1200 metros de altitude. Engraçado que quando o rapaz nos diz aquilo e ia eu com o pé levantado à beira de mais um degrau, pensei "Ó meu Deus, como é que eu vou aguentar?", passados 2 minutos de repasto e descanso no abastecimento já pensava "Estou pronta, venha ela!" e 100 metros depois de reiniciar a subida já pensava outra vez "Ó meu Deus, como é que eu vou aguentar?". O meu humor é de uma rotatividade constante nestas coisas.

Não vou mentir, a subida que se seguiu não foi nada fácil. As minhas pernas estavam mortas. O que vale é que passámos de um dia de sol cá em baixo para vento forte e um nevoeiro cerradíssimo no topo, que não deixava ver o que ainda faltava. Prefiro assim. E, apesar de estar desgastadíssima, estava a adorar cada metro daquele percurso.

Esta foto não é minha, mas vejam só o que encontrei por lá aos montões:

Não é lindo? :)

A descida até ao último abastecimento, no Coentral, vai ser ainda mais dolorosa para os meus músculos. Muita inclinação mas, sobretudo, muita pedra. Tanta, tanta gente que me passou naquela descida! Como é que há pessoas que correm neste tipo de descidas sem qualquer amor aos dentes é que continua a ser um enigma para mim! :)
Também aqui começamos a correr junto a atletas do UTAX, alguns já visivelmente desgastados, outros ainda com força para passar quem vinha com "apenas" trinta e poucos quilómetros nas pernas.

Depois do último PAC, com cerca de 32km de prova e com a promessa de uns quilómetros finais um pouco mais rolantes, consegui manter o ritmo de corrida e recuperar algumas posições na classificação. Era uma luta entre ficar na casa dos 250's ou 260's, muito importante!!! :) Foi feita por algum alcatrão, com atalhos por trilhos com desnível bem mais amigável, a terminar com uma última passagem num rio, que limpou a lama dos ténis e refrescou os músculos para um último esforço. Antes da curva para a meta, quando vinha numa disputa renhidíssima com outra atleta pela posição 253 ou 254 (muito mais emocionante do que a luta pelos primeiros lugares, é o que vos digo!), pensei que se a meta ainda tardasse (já passava dos 43km) iria ter de caminhar e ceder a glória de um 253 pela banalidade de um 254... Mas eis que, como um oásis no deserto, o pórtico vermelho se destaca a cerca de 200 metros, eu reúno forças finais e consigo reclamar o meu pódio: 253ª (de 313) e não 254ª. Vencedora! :)

Foram 8h18 para fazer os cerca de 44km do Trail da Lousã. Não foi fácil, mas foi dos trails que mais gostei de fazer. Adorei cada minuto.

Não sei se houve queixas por parte dos atletas do UTAX, cuja prova tinha um nível de exigência muito maior mas, tirando o atraso no levantamento dos dorsais que implicou retardar a partida, não tenho nada a apontar. Percurso lindíssimo, abastecimentos q.b. e um grande apoio por parte de todos.

Não sei onde 2015 me vai levar, mas espero que torne a passar por aqui.

20 de outubro de 2014

Extremamente cansada e feliz na Lousã

Começa a ser difícil, e até injusto, nomear alguma prova de trilhos como a "mais bonita". Cada zona tem o seu encanto e cada percurso as suas particularidades especiais. Mas digamos que, até agora, o Trail Serra da Lousã foi aquele que mais se aproximou do meu ideal de Paraíso Outonal de Corrida. O bosque, os cogumelos (!!!), as aldeias de xisto, os riachos, as cascatas... Tinha um bocadinho de lama e pedra a mais em alguns sítios, mas o que é uma prova sem alguns desafios? Até o tempo colaborou com aquela névoa que gosto tanto. 


A minha mente esteve encantada o tempo todo, o corpo é que se revoltou um bocado. Era uma prova dura, com muito acumulado, sobretudo para quem ainda sentia a memória de Arga nas células. Ou seja, desta vez não houve qualquer luta mental, o desafio foi mesmo apenas físico, contra um organismo que fraquejou nos primeiros quilómetros e umas pernas que batalharam nos restantes. Mas está feito, e adorei!

Este é um trail daqueles que deve ser feito pelo menos uma vez. Infelizmente o meu telemóvel deixou de colaborar e por isso não tenho muitas fotos do percurso, e acho que nenhuma a partir do km25. Mas, acreditem em mim, mesmo que não seja em prova é uma zona que merece uma visita. Levem calçado adequado e aventurem-se pelos percursos pedestres que ligam os lugares de xisto. Passámos por muitos grupos de caminhada. Se forem nesta altura e levarem um saco para o vosso passeio, ainda voltam para casa com quilos de castanhas para o jantar... Por alguma razão a vila se haveria de chamar Castanheira de Pêra. ;)

Crónica destes 42km e mais alguns, em seguida.

Boa semana!

17 de outubro de 2014

Os míscaros

- Estás a ver aquele ali? Com o pé amarelo? Aquele podes apanhar, é dos bons.

Eu olho e parece igual a todos os outros cogumelos que já enchem o saco.
Estes cogumelos, ou melhor, os míscaros, são uma iguaria muito apreciada na minha terra. É preciso saber distingui-los e o olho de lince neste ritual de separar os bons dos maus por entre a miscelânea de espécies silvestres parece-me quase mágico.

- Aqueles ali é que não convém tocar. Estás a ver o pezinho de lado assim e assim e aquele pormenor aqueloutro e tal? [Aparte: não prestei atenção. Em retrospectiva devia tê-lo feito, não sei se algum dia a minha vida vai depender disso].

- Ahhhh…, digo eu. Mas não vejo qualquer diferença para os anteriores.

- Basta um único cogumelo venenoso no tacho no meio dos outros todos para poder morrer toda a gente que comer esse prato, sabias?

Fascina-me e aterroriza-me em doses iguais esta roleta russa que as pessoas jogam com a vida na apanha dos míscaros. “Basta um cogumelo venenoso…”

Voltamos para casa com o saco cheio, as minhas tias e eu. A humidade pinga das agulhas dos pinheiros e a nossa respiração é expelida em golfadas de vapor. Ao longe vêem-se as casas em xisto, com chaminés a fumegar. Da forma que estão dispersas no meio da paisagem, aparentemente sem nenhuma lógica ordenada, dir-se-ia que também ali cresceram do dia para a noite como os cogumelos. Gosto desta simetria imperfeita. Cheira a fogão a lenha, é Outono e está frio na Serra. Mais logo vai haver arroz de míscaros ao jantar, feito não num fogão a lenha, mas a gás. - Está mesmo bom!, vai dizer a família mais tarde. Eu não sei, não comi. Até hoje recuso-me a comer cogumelos silvestres, mas continuo a gostar muito de os ver, de participar como espectadora no ritual da “ida aos míscaros” e de depois passar toda a noite com o coração nas mãos, atenta ao mínimo sinal de síncope por parte de quem os comeu. (Esta última parte já não gosto tanto).

O que tem esta história a ver com corrida? Aparentemente nada.

Mas havia um cogumelo gigante no percurso da Serra d’Arga. Tão grande que acredito que terão sido poucos os atletas que não tenham dado por ele. Dava para alimentar uma família de quatro (se não fosse dos venenosos).

E, além disso, até hoje não posso ver paisagens como estas...




Fotos retiradas da página oficial da prova.


… que não me apeteça logo andar por lá a correr.


Por isso é que amanhã vou estar na Serra da Lousã, porque, em maior ou menor escala, toda a gente tem a sua roleta russa. Aquilo com a sua dose de risco, mas que dá emoção à vida. Esta é a minha.

13 de outubro de 2014

O Pós Arga e Kms de Setembro

Tal como previa, o empeno de Arga foi (está a ser?) uma autêntica lapa. Quando terminei a prova estava toda maçada, mas ainda consegui conduzir sem problemas até Caminha, subir e descer escadas, e fazer um pequeno passeio nocturno. No dia seguinte, como tinha uma longa viagem pela frente, tive receio das condições em que ia acordar. E eis que de manhã, quando me levanto… nada! Quer dizer, sentia-me dorida e cansada, mas naquele sentido de quando fazemos um treino mais longo ou intenso no fim-de-semana e não ao nível da prova que foi.
Um dia depois, quando fui trabalhar, é que acordei com ele. O empeno, bem entendido. Este empeno não chegou a ser tão agressivo quanto o do pós UTML e foi-se embora de mansinho, não tendo quaisquer dores quatro dias após a prova. Mas… (claro que tinha de haver um "mas"!) quando regressei aos treinos, um primeiro treino curto apenas para testar a máquina, senti pontadas em todos os músculos, ossos e mais alguns. Ai o joelho, ai coxa, ai o gémeo, ai a anca, ai a planta do pé, ai o peito do pé... Felizmente tudo coisas breves.
No domingo seguinte à prova, fui correr/caminhar para a zona de Sintra e, excepcionalmente, já me senti bastante bem, levezinha, quase a voar.



Estava vento, também pode ter sido por isso.



De resto, sinto um ligeiro cansaço que tem custado largar-me e o regresso aos treinos tem sido constituído por corridas muito lentinhas para o mesmo nível de esforço, só nos últimos dois treinos é que já notei algumas melhorias. Ontem acordei, ouvi a chuva a cair lá fora e deu-me a preguiça de ir fazer o treino matinal habitué. O que significa que fui adiando e adiando e acabei por fazê-lo ao final da tarde, ainda com mais preguiça e a chover na mesma! Mas foram 13km muito agradáveis. O que calha bem, já que neste fim-de-semana tenho outra aventura… (Eu culpo as páginas e sites das provas que cada vez mais apostam em fotografias e vídeos com paisagens apelativas e depois uma pessoa não se controla). Vamos lá ver…


Contagens do mês de Setembro*

- Distância:  187.09 km (+ 10km?) 
   . em estrada: 73.11
   . em trilhos: 113.98 (+ 10km?)
- Horas a correr: 25:49
- Ganho de elevação total: 4457 metros

- Quilómetros a pedalar: 15.5 (1 actividade)

Distância total: 1756.28 km (Janeiro a Setembro)

* Valores por aproximação, já que fiquei sem gps por volta do km42 em Arga.


Mês mais soft, de resguardo para o Grande Trail, mas que incluiu ainda a participação nos Trilhos dos Templários (que correu bleh...) e GNR Trail Sintra (que correu bem).


Boa semana!

8 de outubro de 2014

Grande Trail Serra d'Arga

- Até arrepia, car****!

Não fui eu que disse, mas podia. Um desabafo ouvido entre as pessoas que nesse momento, ao bater das 8 badaladas, iniciavam a aventura de Arga. Pequenos foguetes, música, incentivos, palmas, cornetas e até o som de uma vuvuzela aproveitada de outros campeonatos. O entusiasmo era contagiante.

Esta foto não é minha (infelizmente já perdi a conta aos álbuns que visualizei,
para poder dar os devidos créditos) mas gosto muito dela.
Os risos, a determinação, o ambiente da partida.

Se me perguntarem agora, à distância de uma semana, o meu primeiro instinto é dizer que esta prova foi perfeita. Sempre feliz, em harmonia com a paisagem, sem muitas dores, sem dúvidas, sem lamurias... Todos sabemos que isso é uma grande treta. Recordo-me perfeitamente de estar a subir e desejar uma descida, de estar a descer e implorar por uma recta, de estar a rolar e não ver a hora de ter uma subida para poder andar. Tenho até a impressão de que, numa subida particularmente dolorosa, tive este monólogo comigo mesma:
- Miúda, tu lembra-te bem disto. Tu lembra-te bem do que estás a sofrer agora quando te vierem mais objectivos mirabolantes à ideia. Tu lembra-te!
Já me esqueci.

... 5... 6... 7... 8! Aí vamos nós.

Este ano, em vez de atacarmos logo a primeira subida, seguimos por um percurso circular com cerca de quilómetro e meio que nos levaria novamente a cruzar a linha de partida. Penso que terá sido uma forma de tentar espaçar o pelotão a rondar as 1000 pessoas, juntando os atletas da Ultra com os do Trail Longo, que nos deu a oportunidade inédita de viver o ambiente da meta com apenas uns 10 minutos de prova. A freguesia, com a população aumentada em mais de 100% pela presença de familiares e amigos dos atletas, estava ali em peso a incentivar. Entre agradecimentos, acenos, sorrisos para as fotos e a procura de caras conhecidas, uma pessoa alarga a passada e quase que se esquece de que não está a terminar a prova... Quase. Porque o primeiro monte a ultrapassar ergue-se ali, na sua imponência, a lembrar-nos de que ainda nem sequer começou.




Esta é capaz de ser, das provas que já fiz, aquela com o início mais desafiante. Ai não tiveste tempo de aquecer? Não te preocupes que já tratamos disso.



Será sempre a subir até ao km5, e não daquelas subidas meiguinhas, suaves, em que uma pessoa tem tempo de se afeiçoar ao monstro. É daquelas que chegamos ao fim já com as pernas a dar sinal e os rins a queixarem-se e nos questionamos como ainda vamos fazer mais 48km nestas condições tão auspiciosas...





Ufa...

Mas este ano, se calhar por já saber o que me esperava, apesar da dificuldade consegui lidar bem com o aspecto psicológico do desafio e não deixei que o gigante me abatesse. Eu – 1, Serra d’Arga – 0. Vamos estar atentos ao evoluir da classificação ao longo do jogo. Perdão, da corrida.

Os quilómetros seguintes devem ter sido dos quilómetros mais felizes de toda a prova. O ar da manhã é novo e agradável, o sol ilumina em tons laranja o topo da serra, em toda a sua amplitude e vastidão, e podemos respirar a liberdade, apesar de um pelotão ainda muito compacto. As pernas estão relativamente frescas e vamos ter oportunidade de recuperar do esforço anterior ao longo da descida, ainda não muito inclinada, que se segue. Ouve-se uma corneta ao longe, que de tempos a tempos irá quebrar o silêncio da serra. Aqui e ali, pequenos grupos que se reuniram para apoiar os heróis lá de casa pincelam de cor a paisagem maioritariamente árida do cume. Fotógrafos, às dezenas ao longo do percurso, quais paparazzi sentados em rochas, apoiados a árvores, escondidos entre a vegetação, imortalizam o momento. Decerto não terá ficado um único atleta por registar, perpetuados em high-fives, com os dois dedos da paz erguidos, o polegar do fixe, até a meio de saltos no ar, tudo com ar jovial e de quem está a viver a melhor manhã dos últimos tempos. Nesta fase.

E é assim que, quase sem dar por isso, chegamos ao primeiro abastecimento (9km).


Este abastecimento também era um velho conhecido do ano passado. Em 2013 chovia a potes e as pessoas procuravam o abrigo escasso do telheiro. Se calhar por isso, somado ao maior número de participantes, este ano montaram um toldo ao lado. Desta vez, porém, São Pedro colaborou com as condições perfeitas para a corrida. Tempo encoberto, com algumas abertas ao longo do dia, mas nunca chegando a estar tanto calor ou tanto frio que incomodasse ou distraísse do percurso.



A partir daqui, inicia-se uma longa subida até aos 750 metros de elevação, passando a meio por um abastecimento de água no Mosteiro de São João de Arga. Gosto muito deste local, já o ano passado tinha sido um ponto alto da prova para mim, infelizmente não tirei fotos.

Retirada daqui.
As provas de trail têm destas coisas fantásticas, que nos levam a passar por paisagens deslumbrantes e locais mais recônditos que, por vezes, sem sabermos bem porquê, nos tocam mais que os outros e com os quais sentimos uma ligação especial. Este local foi um deles, apesar de em nenhuma das vezes ter demorado mais do que 2 minutos neste abastecimento. Um dia volto, fica prometido, mas agora estava na hora de seguir. A viagem ainda nem estava a um terço e havia ainda muito que subir, antes de iniciar a descida até ao abastecimento seguinte, aos 17km.







Muita rocha nas subidas, muitas pedras nas descidas, tirando uma ou outra zona mais florestal onde os pés agradecem o amortecimento do musgo e das agulhas secas dos pinheiros. A progressão não é das mais fáceis neste tipo de percurso, mas sentia-me muito bem. Aliás, é sem falsa modéstia que afirmo que não me recordo da elevação nesta fase. Sei que existem duas subidas, porque estão no gráfico e são significativas, provavelmente na altura terei soltado um ou outro queixume, mas se calhar por terem sido ainda na primeira metade da prova, por ir deslumbrada com a paisagem e entretida na conversa com a companhia, mal dei por elas. Não ia em esforço e estava a fazer uma média acima (neste caso abaixo) das expectativas. Fiquei inebriada com a minha própria resistência. - "Miúda, estás fortíssima! A continuar assim passas nos 33km com pouco mais de 5 horas. Espectáculo! Serra d'Arga, outro ponto para mim, ahah! A razão porque assumo aqui sem vergonhas este momento gabarolas é porque mais tarde, como vão perceber, a realidade vai bater-me de frente com a delicadeza de um camião TIR. Mas por enquanto sigo na paz da minha doce ignorância.

Paisagem quase "gémea" da minha Serra da Estrela.

Recordava percursos que se cruzavam com o do ano anterior, comentava a familiaridade que sinto com este tipo de paisagem e brincávamos com o facto de este ano ainda levarmos os pés secos (a sério, quem não participou o ano passado não tem noção da diferença!). E tanta gente que ainda ia à nossa volta... Foi notório o número elevado de participantes. Só já depois dos 33km, onde os atletas do Trail Longo terminariam a sua prova até então integralmente partilhada com os atleta da Ultra, é que vão existir aqueles momentos de partilha solitária com a natureza.

Mas antes, ainda o abastecimento dos 25km.

Neste abastecimento passámos o primeiro posto de controlo. Segundo o chip, cruzei esta etapa com 4h21 de prova. (Esta informação é importante e já vão perceber porquê.) Aqui, também não quis perder muito tempo. Para mim o objectivo primordial desta prova era vencer o tempo de corte aos 33km, para ter oportunidade de concluir a prova toda. A "dança completa", como lhe chamei, e esse objectivo ainda não estava ganho. Mas a Serra, até então, tinha-me permitido a ilusão de achar que era eu que estava ao comando, que era a dona dos nossos passos...

...Só que NÃO.

A matreira. Essa grande dissimulada e perversa.

Não interessa que até aqui achasse que estava a ganhar por 2-0 ou até 15-0...  Na subida à Senhora do Minho fui trucidada, Arga deu-me mil a zero sem hipótese de defesa.

Não sei se por ter coincidido com aquela fase da corrida em que geralmente me vou mais abaixo (entre os 25-30km), não sei se por ter cometido o erro crasso de olhar bem lá para o topo logo no início da empreitada, mas achei esta subida muito pior do que aquela que iremos encontrar mais à frente, para a qual o Carlos Sá nos tinha alertado nas jornadas.


Pelo menos a minha...

Os quilómetros 25 a 28, sensivelmente, serão uma interminável marcha fúnebre. Ninguém fala, já não se ouvem gargalhadas nem cornetas e eu nem me atrevo a tirar os olhos do chão, pois cada vez que arrisco olhar para cima, depois de um penoso arrastar de pernas ao longo daquilo que considero um grande avanço, olho para o topo e a torre continua longe, parece que até mais afastada, como que a zombar da minha miséria.

- Agora é que descobri, Sá é diminutivo de Sádico! - desabafo eu numa epifania entre passadas. (Carlos, se me estiveres a ler, peço desculpa, era o cansaço a falar. A posteriori, assumo que não mudaria um décimo da dificuldade que dá a beleza a este percurso.)

Cada curva no percurso era uma esperança vã. A moral foi um bocadinho abaixo. Sei que era uma questão de tempo, sei que iria recuperá-la mais tarde e foi nisso que tentei concentrar-me. Agora estás no vale da morte, mas mais à frente sabes que vais ficar bem outra vez. Pensa que estás aqui porque queres, pensa que quando estiveres sentada à mesa do teu local de trabalho vais recordar com nostalgia estes momentos. Sim, até deste momento específico vais ter saudades, sabes que sim...
É disto que são feitas estas provas, de um carrossel de emoções. Já não sou completamente inexperiente, contudo é sempre uma luta, sempre a mesma luta para sair dos momentos negros...

- Não olhes para cima, olha para o que já ficou para trás - diz sabiamente o meu companheiro de corrida. E eu, apesar de me ter recusado a parar uma vez que fosse nesta subida, para não dar ideias às pernas, de vez em quando aproveito a caminhada vagarosa para olhar para baixo.






Os últimos 50 metros desta escalada, numa derradeira e impiedosa estocada de Arga ao meu coração, são uma bela de uma parede. Os fotógrafos inexistentes nos últimos 4km (pudera...), concentram-se agora ali, a sacar zooms do nosso ar derreado.

- Força! Estão quase lá, faltam 20 metros, não parem agora. Um último esforço, vá lá, têm água ali à frente! - grita a voz de um anjo. Ou de um voluntário qualquer, já nem sei bem, e para todos os efeitos aqui são a mesma coisa. Nunca uma torre em cimento me pareceu tão celestial.

792 metros! O topo! Finalmente!

Não se pode ganhar a uma montanha. Mesmo quando ela nos permite pequenas vitórias acabamos sempre postos no nosso lugar.  É um desafio constante, amparado por muito respeito, e se calhar por isso é que gosto tanto dela.

Vaquinhas. (Desta vez não vi os cavalos selvagens.)

Vou cruzar o pórtico dos 33km com quase 6 horas de prova... O que significa que levei mais de hora e meia a fazer 8km. E hora e meia da qual fiquei muito orgulhosa, porque cheguei a temer muito mais! Se houve algo que aprendi nesta prova é que não valia a pena fazer previsões.

A descida até S. Lourenço da Montaria, meta do Trail Longo, tinha muita pedra e era inclinada, o que castigou um bocado as coxas, mas saber que o meu grande objectivo estava ali tão perto não me deixou abrandar. Depois, chegando a esta meta mental, permiti-me o descanso que tinha adiado até então.

A partir daqui o tempo já não me impede de completar esta Ultra.

No abastecimento dos 33km vou levar o meu tempo. Sentei-me (acho que algo inédito em provas), pus vaselina no calcanhar esquerdo que sentia a esfolar e estiquei um bocado as pernas. Comi fruta e salgados e só não comi sopa porque me sentia um bocado mal-disposta e tinha medo que me caísse mal. Bebi coca-cola (outra estreia), porque precisava de arrotar. Não é uma coisa muito bonita e feminina de se dizer, mas é a verdade. Entre atletas não podemos estar com formalidades, arrotei e fez-me muito bem. Não torno a dizer mal de tal bebida.

Não sei se alguém terá ficado por ali. Quer dizer, sei que vários atletas chegaram depois das 6h30 e já não puderam continuar, mas não sei se algum daqueles que ali estava naquele momento, com um ar um bocado em baixo, tendo vencido a barreira do tempo, resolveu dar a prova por terminada. Olho para o desalento de algumas caras e consigo compreendê-los. Há uma altura em que nos questionamos se vale a pena continuar, e às vezes a resposta é não. Ainda não passei essa linha, mas já estive muito perto e sei que nem sempre é fácil ter o discernimento para assumir que continuar nos vais fazer mais mal que um DNF. Did Not Finish... Palavras amargas. Sei que, continuando nestas aventuras como espero por muitos anos, chegará o meu dia de as engolir, mas agradeço esse dia não ter sido em Arga, porque se tivesse ficado por ali, pelo tentador posto de controlo dos 33km, não teria tido oportunidade de correr um dos percurso mais bonitos que conheci de entre todas as provas que já fiz, o Vale do Âncora.

Venham comigo.









(Bom, acho que já chega para ficarem com inveja uma ideia... :) )

Serão cerca de 4 km sempre ao lado do rio Âncora, que forma cascatas e pequenos lagos tentadores. Houve mesmo quem não tivesse resistido à tentação e tivesse aproveitado para um mergulho ou pelo menos para submergir as pernas. Eu fui desafiada, mas resisti. Irei só aproveitar para tirar a lama dos ténis, que me acrescenta peso que já faz mossa ao fim de tantos quilómetros. Ainda não vos disse, mas aquela fase que no UTML só surgiu quase aos 40km, aquela em que as pernas doem tanto que até já parece que nem as sentimos, aqui já estou assim desde os 25km. Ahh, os bons momentos! O que vale é que chegando a esse ponto uma pessoa resigna-se e pensa: desde que não piore/caia/me lesione, tudo bem. É esta a fantástica capacidade de relativização do bem-estar nas distâncias longas.

Depois, como que achando que já era passeio a mais, até porque estávamos a subir mas ao menos íamos distraídos, o percurso lança-nos novamente aos lobos da montanha.


Passo no PAC dos 43km, último abastecimento, com 8h21 de prova. Como uma mão cheia de batatas-fritas, metade de uma banana e não consigo comer mais, mas bebo água. O meu estômago já chocalha, mas sinto falta. Em compensação, não parei uma única vez para "ir atrás dos arbustos", por isso não sei se hidratei de mais ou de menos.

Esta subida, em comparação com o vale da morte, pareceu-me mais curta, embora mais inclinada.

Sim, é para subir.

Nesta fase já somos muito menos e noto num rapaz à nossa frente que dá dois ou três passos muito lentos e depois pára, e assim sucessivamente. A cabeça baixa, os braços caídos ao longo do corpo. Reconheço a luta mental que está a atravessar e tento passar-lhe um bocadinho de ânimo. Já nem me lembro se chegámos a falar com ele, ou o que lhe dissemos, mas não deve ser fácil atravessar estes momentos sozinho. Aqui fiquei agradecida por ter a companhia do Artur, que mais uma vez teve de pôr travão para me acompanhar. Nada como ter ao lado um amigo para nos dar a mão quando começamos a caminhar no abismo do desânimo. Um dia que tenha de fazer uma Ultra sozinha vai ser um verdadeiro desafio (extra).



Quando passei as 9 horas de prova, recorde de tempo de corrida para mim, comecei a ficar preocupada. Faltam 6km, será que menos de 2 horas chegam? Agora que estava tão perto confesso que queria terminar dentro do tempo para evitar a frustração de ficar a escassos minutos da marca.

O último topo.

A partir daqui será sempre a descer até à meta, repetindo os primeiros quilómetros da prova, mas em sentido inverso.

Dem, ao fundo.

Seria de esperar que descer fosse uma bênção, mas não quando os músculos já estão perros e as articulações não dobram na sua plenitude. Além disso, tinha o calcanhar ferido, o outro, aquele em que não tinha posto vaselina... Movimentava-me tão agilmente como um pinguim entrevado, mas era uma pinguim entrevada com uma missão! Tinha de chegar à meta antes das 11 horas, por isso aproveitava as ligeiras rectas para "acelerar" um bocadinho e ainda passei algumas pessoas no meu louco sprint a 7:30min/km! Acho que as impressionei. :)

Quando cheguei à Vila sabia que tinha conseguido. Estivesse eu mais hidratada e teriam caído algumas lágrimas que assim guardei para mim. Ainda havia várias pessoas a aplaudir e incentivar, fiz questão de agradecer a todas. Sim, até ao senhor que disse "os últimos serão os primeiros"... (Tem sido uma constante nas últimas provas, resigno-me a esta minha fama! :)). Piso a passadeira vermelha, aperto a mão que o Sá me estende, olho para o cronómetro oficial (o meu já tinha sucumbido há mais de duas horas). 10h20. Um novo recorde de tempo a correr e uma dupla vitória sobre aquele que era o meu grande desejo: poder conhecer os 53km de Arga.

O homem que recolhe os chips, antevendo a ginástica que eu teria de fazer para o retirar da sapatilha (estamos no Norte!)  numa altura destas, oferece-se para ser ele a tirar-mo. Agradeço o gesto. Mais um apontamento, entre tantos, que ficam desta experiência e a tornam tão especial.

A sensação de cruzar a meta de uma prova em que se batalha tanto é indescritível. O alívio, a alegria e, porque não, um bocadinho de orgulho. O até-que-enfim-parei, o não-quero-voltar-a-correr-tão-depressa, o quando-é-a-próxima?  É uma sensação que queremos repetir as vezes que nos forem possíveis.

As dores?

Já me esqueci.