20 de fevereiro de 2015

Novos companheiros de corrida e o corta-fogo do Monge

Antes de mais, para entenderem melhor aquilo de que falei na crónica da prova, aqui fica a foto da t-shirt:


Gosto do facto desta t-shirt poder ser usada num treino mas também não destoar num concerto de Xutos. (O regresso da dupla-funcionalidade, depois de termos perdido pijamas de Verão confortáveis com a proliferação das t-shirts técnicas em detrimento das de algodão.)

Em relação à medalha, olhem para ela como sendo a perninha direita do X, para visualizarem o efeito final das quatro medalhas juntas.

Engraçado, não é?

Agora as notícias do título: comprei uns novos companheiros de trail. Os meus Trabuco já estavam todos rebentados nas costuras e, pior, com a sola desgastada. Foram os meus primeiros ténis específicos para trilhos e foram vividos com toda a intensidade, mas mesmo assim ainda não consegui desfazer-me deles e lá estão, na bagageira do carro, à espera de um dia de treino inesperado num local bonito. Entretanto tenho feito as provas com uns Salomon XA Pro 3D Ultra 2, também já a ficarem desgastados.
Vou confessar-vos uma coisa: eu sou daquelas pessoas que sempre achou que a história das "marcas" era uma tramóia de marketing (apesar de ter vindo a dar a mão à palmatória em relação a certas coisas). Usei quase sempre asics porque foram dos meus primeiros ténis de corrida, era o que tinha de referência da juventude de atleta do meu pai, e sempre me senti confortável com eles. Quando me perguntavam, brincava com a resposta de o meu carro também ser marca japinhas e nunca me ter deixado apeada, por isso seguia a mesma linha de escolha em relação ao que me transporta nas corridas.  Além disso, depois de ter aberto a loja do Freeport, também não prejudicava o facto de conseguir comprá-los com 50% de desconto.

Estou contente com os Salomon. São ténis robustos e têm excelente aderência em/resistência a terrenos mais complicados, apesar de poderem tornar-se pesados em provas muito rolantes. Mas nunca poderia investir noutros como segunda opção. Assim sendo, fui passear até Alcochete para ver as escolhas em promoção e tive a sorte de encontrar uns Fuji Trabuco 2, lá está, por metade do preço. Feito!

Vieram treinar comigo no fim-de-semana passado. 23km por alfalto, trilhos, estradões e rochas. Já que é para testar, que se teste à séria! Nem uma bolhinha ou amasso para amostra. Tendo em conta que são muito semelhantes aos Trabuco, já sabia que seriam confortáveis, mas por vezes podem levar alguns quilómetros a moldarem-se aos pés. Neste caso, assentaram que nem pantufas desde o início.

Uma foto do "antes", para me lembrar deles limpinhos.


Uma foto em acção.

Digno de um verdadeiro anúncio.
Representantes da asics, ponham os olhos nisto!

Alguma ideia em relação ao local onde foi tirada a foto acima? Eu sei que é difícil desviarem o olhar da minha postura naturalmente graciosa de modelo de ténis de trail para pensarem sobre o assunto, mas tentem. :) Ok, aqui vai outra:


Quem se lembra desta subida do Monge? 

Nos meus treinos por Sintra já me tinha perguntado onde ficaria o famoso corta-fogo do Monge. A Corrida do Monge, em Outubro de 2012, foi a minha primeira prova em trilhos, mal eu sabia que ia ser o início de uma belíssima história de amor. Na altura lembro-me de duas coisas: gostei muito e custou para caraças. Tendo ficado na memória, em especial, essa parte do corta-fogo que nos aparece à frente sensivelmente aos 10km de prova.

Vista de cima.

Este fim-de-semana, sem programar, demos com ele. E, querem saber uma coisa? Dois anos depois, esta subida já não assusta! Ainda me lembro tão bem de ir ali a subir e os meus músculos me queimarem tanto que quase não conseguia avançar... Agora continua a ser uma parede, claro, mas já sem a magnitude com que me lembrava dela. Agora só queimou um bocadinho. É tão bom ver a evolução nas pequenas coisas. Naqueles dias (que continuam a haver), em que o mínimo desnível me parece os Himalaias, tenho de me focar nisto.

E os novos companheiros passaram com distinção. Eu, eles e os azulinhos (Salomon) vamos ser muito felizes os três.

Para terminar fiquem, agora sim, com um verdadeiro modelo fotográfico, que conhecemos no Domingo:


O burro, em cima, a alimentar-se.

Depois, reparou que estava a ser fotografado e chegou-se para o lado, para se pôr mais a jeito para a objectiva.


Atraído pelo "som dos flashes", começou a aproximar-se. Nesta última foto quase que me arrancava o telemóvel das mãos para tirar uma selfie.


Wazzup?!!

Um querido. <3


Treino longo de recuperação de VVR / teste dos Fuji Trabuco 2:
- 23km
- 950m D+
- Sintra (Vila, Mouros, Monge)


Bom fim-de-semana!

18 de fevereiro de 2015

TCC Etapa II - Vila Velha de Ródão



Espectáculo, é mesmo por isto que ando aqui! Vou naquele estado de alma que é precioso de tão raro, estado de plenitude, de simbiose, de força. Podia correr aqui, e assim, para sempre. É mesmo muito raro. Sentir-me assim aos 12km, aos 25, aos 33 e, incrível, continuar a sentir-me assim aos 42km de uma prova. Até tenho medo de estragar, mas está quase, falta pouco. Só mais um bocadinho.

...



Quando saí de casa, às 07h, o termómetro do carro marcava 0 graus. "Bom, Vila Velha de Ródão fica a menor altitude e, com o nascer do sol, decerto que aquece", pensei eu.

Hmmm,.. Não.

Às 8h, ao chegar à Vila, o termómetro marca 3 graus negativos. Abro a porta do carro e parece que acabei de entrar numa arca frigorífica. A dúvida que trazia em relação a correr de calções ou de calças foi logo desfeita.

A relva branquinha.

Ao sair da autoestrada, enquanto descemos, avistamos Vila Velha de Rodão ao fundo, coberta por aquele bonito mar de névoa, que nos faz parecer acima das nuvens. Pena que essa névoa se deva em grande parte ao fumo que saía de duas grandes chaminés da fábrica da zona, o que foi logo denunciado pelo cheiro, assim que abri a porta do carro. É pena, mas Ródão não é menos bonita por causa disso.

Olá, Portas de Ródão! Até daqui a sensivelmente 7h.

Não houve controlo do material obrigatório (foi-nos dito que de forma "excepcional" neste circuito. Quem for a Vila de Rei depois comunique), mas a partida foi dada às 9h em ponto (nisso da pontualidade nunca há razões de queixa).

Os primeiros quilómetros da prova são muito rolantes. Os atletas dos 48km e dos 28km partem todos juntos e depressa fico quase na cauda. Felizmente vou junto a um grupo onde havia pessoas da zona e fico a conhecer a história da fábrica do papel, responsável pelo fumo, e outras singularidades da terra.



Ao fim de quilómetro e meio começo a sentir o alerta dos gémeos. Já tinha preparado um plano emergencial para o caso de isso acontecer, e reduzo mais o ritmo. Acreditem que é difícil reduzir o ritmo quando já somos praticamente os últimos, mas tentei concentrar-me no longo prazo. “O teu motor é a diesel, lembra-te disso. Diesel. Daqui a pouco já aqueces, não desmoralizes”. Sim, o meu plano emergencial era diminuir a velocidade e concentrar-me no facto de ser um veículo de combustão lenta. De génio, eu sei.


Despedi-me dos novos amigos da terra, que seguiram. Aos 5km temos a primeira subida do percurso. Não era muito agressiva, mas ainda sentia as pernas presas. Aproveito para tirar fotos. 


Sabia que pouco depois dos 6km tínhamos o primeiro abastecimento e que depois de parar um bocadinho tudo ia ficar bem a nível muscular. Pode parecer cedo para um abastecimento, mas foi de localização estratégica antes da separação dos dois percursos.


Quando lá cheguei já não havia quase nada, já tinham feito uma razia! Apenas muita coca-cola, que não bebo, e alguns bolinhos secos. Também ainda não ia a contar comer nada, por isso bebi apenas um pouco de água e levei comigo uma tangerina. Acho que nem um minuto parei, mas foi o suficiente. Finalmente tinha aquecido e pude seguir para o desvio que indicava k40+, com confiança.



Do desvio para a frente, e até chegar mais ou menos aos 13km, irei sempre sozinha. Não se avista vivalma para a frente ou para trás. Não me importei. Passava as aldeias em que os velhotes sentados à porta diziam “Força, menina”, em resposta ao meu bom dia, passava por quintas em que os cães ladravam em resposta ao meu bom dia e seguia por trilhos acessíveis e bonitos. Estava uma manhã fria, via-se gelo pelo caminho, mas o sol sorria para mim (em resposta ao meu bom dia), e acabei por tirar as luvas para não mais as tornar a calçar. Sentia-me bem.





Espectáculo, é mesmo por isto que ando aqui!

Aos 12km segue-se outra subida desafiante. O percurso estava a ser bastante rolante, mas de vez em quando lá aparecia uma subida ou outra para nos lembrar onde estávamos. Não tinha bastões e, como quem não tem cão caça com gato, agarrei num ramo caído para fazer de cajado.

Um smile deixado pela Organização, com um ar muito perverso, não acham?:)
(Sim, estávamos a subir).




Não sei se foi dos meus dotes de escalada pastoral, mas o certo é que finalmente avisto um outro atleta mais à frente e consigo alcançá-lo. (Mas antes desfiz-me do cajado.)

Daqui para a frente, e até ao segundo abastecimento, aos 20km, irei ficar a saber que este homem já esteve em provas como o MIUT e o UTMB. "Monte Branco" foi a palavra mágica para a conversa que se seguiu. Nem dei pelos quilómetros passar, a ouvir contar as histórias e experiências de quem faz 160km pelas montanhas. A par disso, atravessámos uma das zonas mais bonitas do percurso, já com alguma "tecnicidade" (como se diz na gíria do trail), onde pude dar largas à Heidi que há em mim (como se diz na minha gíria), saltitando de rocha em rocha. 





Algum gelo no trilho.
Uma das minhas fotos favoritas do dia.
Muito calhau.


Quando chegamos a Foz do Cobrão (Cobrão, com "O”, para não haver confusões), quase nem reparava no abastecimento, escondidinho numa curva, não fosse as senhoras chamarem-me à atenção. 

E como é que quase passava por isto?!

O "banquete".

Rissóis, queijo, chouriços… Era um verdadeiro banquete, mas em provas nunca tenho apetite, como porque tem de ser, e acabei por comer apenas uma sopa quentinha e batatas-fritas. As senhoras do abastecimento eram muito engraçadas e ainda ali partilhámos muitas gargalhadas. Gargalhadas deviam ser alimento disponível em todos os abastecimentos, saí dali de barriga cheia e cheia de energia para enfrentar os restantes 28km de prova.


No abastecimento tinham-nos dito que a Analice tinha passado pouco antes de nós e, de facto, lá estava ela, pouco depois. O homem do UTMB tinha ficado para trás, estava novamente sozinha, por isso juntei-me a ela. Enquanto eu caminhava nas subidas, ela seguia sempre no seu ritmo de corrida certinho. "Não tens vergonha de andar quando uma senhora de 70 anos corre ao teu lado em quase todas as subidas?" Não, não tenho. Ela ia contando a história das suas provas e eu só pensava em como gostaria de ter a mesma felicidade de ser saudável e forte para correr até essa idade e mais além.

Há pouco ouvi histórias do Monte Branco, agora oiço histórias de Ronda e outras provas de três dígitos contadas na primeira pessoa. As minhas pernas correm em Vila Velha de Ródão, mas o meu coração já se fartou de viajar.

Espectáculo, é mesmo por isto que ando aqui!





Depois de um rolante estradão nas margens do Ocreza, começamos novamente a subir por volta dos 27km. Fiquei logo arrependida de me ter desfeito do anterior cajado e tive de me lançar na busca de outro. Encontrei-o, perfeito, sem farpas, da altura ideal. Tanto que, quando finalmente chego ao cimo, mantive-o comigo, porque nunca se sabe. Passo por um atleta que tinha feito uma "paragem técnica" na mata. Não fosse ele perguntar-se "mas o que é que aquela está a fazer a correr de pau na mão?"“ adiantei-me logo com a justificação da subida.


Até ao abastecimento líquido dos 33km, vou continuar a passar por algumas pessoas. Comecei a acreditar que talvez estivesse num dia sim. Aqui ainda não sabia, mas vou acabar por fazer uma segunda parte da prova mais rápida que a primeira, o que é perfeito.


Abastecimento líquido, ao cimo.

No abastecimento, da Organização dizem-nos que agora já “só” vamos encontrar duas subidas até ao final. Uma pouco depois, por volta dos 35km, e que daí seria sempre a descer até ao último abastecimento, aos 40km, antes da “subidinha dos 43km”. Este “subidinha dos 43km” foi acompanhado de um trejeito facial que não augurava nada de bom, mas decidi não me preocupar com isso por agora.


Outra subida, outro sorriso (já não tão perverso) e um gorro.



Continuava muito bem e ainda não tinha dores musculares, apenas o desgaste normal dos quilómetros. Chego ao fim da subida, aos 37km, e passo por uns atletas que me perguntam se sou das primeiras raparigas. (!!!) Ahah! Realmente havia poucas mulheres, acho que só passei por duas ou três ao longo de toda a prova, mas isso apenas porque as primeiras já tinham passado muito antes.

A descer.
Como tinham avisado, daqui para a frente será praticamente sempre a descer até ao abastecimento. Apanho asfalto e acho que me entusiasmo um bocadinho, entusiasmo que comecei a notar nos joelhos e achei melhor deixar-me de "voos"... (Pronto, acharam que era atleta de pódio e tive logo de me exibir. :) )

Marcações sempre excelentes.




Em Vilas Ruivas tenho o abastecimento dos 40km todo para mim e daí para a frente, quase até ao final, seguirei novamente sozinha. Avisto o Tejo em baixo e as Portas de Ródão ao fundo. Ia mesmo feliz e em paz.

Também não é difícil, com paisagens destas...




Nem a “subidinha dos 43km” me vai derrubar, apesar de ter estado quase! (E, desta vez, nem consegui arranjar nenhum bastão improvisado). Ainda devo ter resmungado um ou dois insultos, para efeitos analgésicos (está provado cientificamente, googlem! :) )

A subida dos calhaus.

Só nessa altura começarei a sentir as dores, mas falta pouco para o final. Recebo um telefonema. “Faltam 4km, ligo-te depois da meta”. Hoje não precisava de reboque mental, hoje só queria partilhar a alegria. Tiro uma foto para enviar a quem não está.

Outra das minhas favoritas.

Espectáculo, é mesmo por isto que ando aqui!




Já se avista Vila Velha de Ródão.

Sei que ainda terminarei de dia (uma das minhas preocupações era o frio, se entretanto ainda estivesse em prova depois de anoitecer) e em menos tempo do que previ. Digo boa tarde aos bombeiros, à senhora que passeia o cão, ao casal de namorados que aparece à frente no trilho, de mãos dadas. 




Ao chegar a Ródão, ao atravessar a ponte para o parque e já perto dos 47km, apanho outro atleta e terminamos a prova juntos. Ou, melhor, ele deixa-me terminar à frente. (Afinal ainda há cavalheiros. ;) )

E o melhor: ainda terminei a sentir-me com força!

Espectáculo, é mesmo por isto que ando aqui! - não sei se já vos tinha dito antes. :)

Aqui fica a história de uma prova feliz, que até tem sido a maioria, mas que se destaca especialmente por se ter seguido a uma prova em que me senti pessimamente. É sempre assim, um carrossel de surpresas, como é que será a próxima?

(Sei é que fiquei com inveja de quem for fazer o circuito completo. Não só as zonas são todas lindíssimas, como, eu que nem ligo a medalhas, ia gostar de formar o "X" com as quatro medalhas de finisher totalista. Talvez para o ano.)