30 de março de 2015

Piódão: 3 horas antes ou "E agora?"

9h30. Foi este o tempo que demorei a percorrer os cerca de 52km pela Serra do Açor.

A t-shirt da prova e o prémio de finisher, uma casinha em xisto.

Mas, às 6h00 de Sábado, quando finalmente me levantei depois de uma noite muito mal dormida, ainda não sabia.

Às 6h00 de Sábado também ainda não sabia que, ainda hoje, Segunda-feira, traria a serra comigo. Poderia dizer que a trago nas bonitas memórias que ganhei, o que não seria mentira, mas trago-a comigo sobretudo no enorme empeno do corpo, como já não tinha há algum tempo.

Às 6h00 de Sábado, esperavam-me imagens como estas

6h00 + 1h35
6h00 + 2h00
6h00 + 7h??

mas eu também ainda não sabia.

Também ainda não sabia que seria apenas quando passei pelo local da primeira foto, a caminho do Piódão, que cairia a ficha e iria sentir toda a adrenalina que não sentira até então.

Às 6h00 de Sábado sabia, no entanto, que não tinha sido um dia pré-prova ideal. Cheguei, imaginem, a deixar o saco do equipamento em Lisboa! Menos mal que trago sempre os asics na mala do carro e tinha alguma roupa de treino de férias na casa da Serra, mas não me livrei de uma visita de emergência a uma loja de desporto. Confesso que depois disto, e tendo em conta o desânimo nada típico das últimas semanas, perguntei-me se não seria um qualquer sinal divino para evitar esta prova.

Já estava por tudo e, inclusive, alinhei em esquemas de hidratação menos próprios...


Sentia-me mal com a minha "desinspiração", como se fosse uma pessoa ingrata que não consegue dar valor a oportunidades como estas. Ter saúde, liberdade e algum dinheiro para poder viver esta experiência... "Porque é que não estás entusiasmada, mulher, porquê?!!"
E eu dou valor, muito valor. É o facto de saber que estas coisas são um privilégio que me ajuda a superar as partes mais difíceis das provas. "Tu não tens de estar aqui. Tu escolhes estar aqui. Tu podes estar aqui. Aproveita."
Mas na Sexta, vésperas da prova, não conseguia pensar assim e desanimei. Se calhar estava a ser muito dura comigo mesma, a massacrar-me com o que supostamente devia sentir, mas não conseguia evitar. Na Sexta-feira fui uma pessoa cansada, ingrata e mimada.

Às 6h00 de Sábado acordei e tinha uma Ultra pela frente.
"E agora?" - foi o meu primeiro pensamento...

26 de março de 2015

A poucos dias de Piódão...

Chegámos aos derradeiros dias antes da prova. Os dias em que começamos a ver a vida a andar para trá...ãhh... quero dizer, os dias em que começamos a fazer introspecção e passar revista ao que foi feito. Mas já lá vamos. Antes, o último treino longo.

Para último treino longuinho antes da prova tinha em vista cerca de 18 a 20km, sem pressões e sem grandes aventuras.

O treino teve início na Vila de Sintra, que nunca deixa de surpreender nos pormenores.

Quem não tem cão... :)
Em direcção à Serra, seguiu-se um caminho com mais escadaria do que estava à espera.

Escadas.

Mais escadas...
Rumo ao topo.


Passando por um Parque de Merendas, houve direito a uma exposição de fotografias permanente, ao ar livre.


Eram retratos a preto e branco, a reproduzir um ambiente místico muito adequado ao local.

"Ligeiramente" fantasmagórico...





Não entrei pela "porta da traição" em nenhuma área paga do Parque de Sintra. Desta vez, todas as portas estavam abertas:


A porta acima está aberta para o público somente aos fins-de-semana e leva, se não me engano, à Quinta da Amizade. Tenho a certeza que me espera uma bela história quando a atravessar, mas este dia não era um dia para histórias, era um dia para passar por elas e continuar em frente. Para a próxima volto.

Em compensação (?), mais escadas...

Isto é que foi trabalho de glúteos!

Foram cerca de 5km a subir, para um resto de treino bastante suave.



É claro que a temática da aventura de Piódão esteve presente. Na altura ainda não sabia bem o que dizer, estava estranhamente apática. Agora, a poucos dias da prova, não me sinto apreensiva, nem, por outro lado, entusiasmada. Simplesmente, sinto que não estou com o espírito.

Devia estar preocupada com o treino que por várias razões (ou nenhuma) nunca é suficiente, sobretudo porque nada do que fiz me prepara para aqueles ganhos de acumulado brutais em tão poucos quilómetros:

"Peaners", como diria o JJ...

Devia estar preocupada com os tempos de corte apertados, com o material que ainda não preparei, com as poucas horas de sono que tenho tido.

Devia estar animada com o desafio, a viagem, a paisagem, o regresso à minha "casa".

Mas não.

As últimas semanas têm sido tão extenuantes a nível extra-corrida que ainda não parei. Tenho uma Ultra à minha frente e ainda não tive muito tempo para pensar nisso. Estou psicologicamente cansada e esse não é o melhor dos lugares para estar nesta altura do campeonato.

Gostaria de estar aqui a descrever-vos o meu entusiasmo, o nervoso miudinho, o amor que eu sei que tenho a isto, mas tenho de ser honesta. Tenho 50km no sábado e não sei o que sinta.

E depois, por outro lado (e eu sei que este pensamento é estúpido), penso "qual é a probabilidade de vir a ter uma prova tão boa como em Vila Velha de Ródão?" Na minha cabeça as probabilidades de ter duas provas seguidas em que me sinto bem são diminutas. Não há qualquer lei racional que sustente esta ideia, até porque são duas provas completamente diferentes, mas não podemos argumentar com estas lógicas supersticiosas, elas estão lá, no cantinho do cérebro agoirento, que até uma optimista como eu tem. E neste momento não sei se estou com a garra suficiente para escalar as dificuldades.


Tirei o dia de amanhã no trabalho, para poder seguir viagem com tempo e descansada. Se calhar amanhã, ao volante, ao deixar todo o stress dos últimos tempos para trás, vão chegar em catadupa os sentimentos bloqueados até agora. O meu coração vai inchar quando sair do túnel da Gardunha e avistar a minha Serra. Vou sentir o peso e a ansiedade do desafio.

Espero que sim.


22 de março de 2015

O treino do octogenário

O treino do octogenário é o treino que se segue à noite em que somos invadidos pelo espírito de um idoso durante o sono. E não o espírito de um idoso qualquer, o espírito de um idoso em muito má forma.
É um processo que passa despercebido. Nessa noite vamos deitar-nos e somos nós, jovens atletas energéticos e/ou esperançados e, no dia seguinte, quando acordamos, albergamos a alma de um octogenário sem saber.

Ele ao início nem se manifesta. Seguimos a mesma rotina ao equiparmo-nos, tomamos o pequeno-almoço de sempre, inocentes, pegamos no carro e acompanhamos desafinadamente as músicas que passam na rádio, como de costume. Ao chegar ao local aguardamos pacientemente que o gps apanhe os satélites (então mas esta #$&%# nunca mais apanha a #"%$&?»# dos satélites??!!) e iniciamos o treino cheios de expectativa.

Mas basta correr umas poucas dezenas de metros para perceber que não vai ser um bom dia...
Mas o que é isto??? Esta carcaça velha que estou a arrastar hoje não pode ser o meu corpo!!!
Ficamos na esperança de que seja apenas uma questão de "aquecimento" e que mais para a frente é que é, daqui a 4 ou 5 km é que vai ser!
Depois passam 5km e só com sorte é que ainda não parámos para caminhar e pensamos ok, hoje está frio, se calhar é por isso, mas aos 8km, aos 8km é que já ninguém me pára!
Entretanto são 9km e já parámos para caminhar umas duas ou três vezes, sem sequer termos a desculpa de a subida ser inclinada
Tentamos procurar uma explicação... Tenho treinado regularmente, não estive doente, nem lesionada, tenho-me alimentado bem... 

Não vale a pena atormentarem-se. Agora já sabem: é o Treino do Octogenário. Este Octogenário serve para esfrangalhar o ego do atleta e contrabalançar com outro fenómeno mais ou menos frequente que é a visita da Fada da Bazófia.

Nesse dia nada mais há a fazer do que aceitar que transportamos connosco o peso dos anos que ainda não temos. É concluir a corrida a custo, tentar não desanimar muito, e esperar que para o treino seguinte o Octogenário passe-a-outro-e-não-ao-mesmo.

No passado sábado calhou-me a mim. Dos 24km de treino só me custaram os últimos... 19! :)


Felizmente, o local escolhido tinha sido a Quinta do Pisão, que não apresenta desníveis malucos nem dificuldades de maior. Embora, naquele dia, tudo me parecesse imenso...



Octogenária a subir o monte.
Ohhh, lá se vai o jantar... ;)



Com cerca de 11 ou 12km, e na esperança de que mudar de ares ajudasse um pouco, saímos da Quinta pelo lado oposto à Serra e acabámos por ir dar a um local que ainda não conhecia, o Parque Urbano das Penhas do Marmeleiro, para os lados de Murches.



Apesar de um pouco ao abandono, é um local interessante. E tem ainda uma grande escadaria, ideal para os (malucos que fazem) treinos de escadas.






Aqui, talvez por estar num local diferente, recuperei um bocadinho o ânimo. Mas acreditem que apesar de às vezes parecer assim:

A planar!
Eu sentia-me realmente assim:

Infelizmente, não posso dizer que foi encenado!

Como não era o dia ideal para mais explorações, voltámos ao Pisão para completar o treino. A conquista dos montes teria de ficar para outro fim-de-semana.

Sob o olhar da Serra, ao longe.

Quis correr mais um pouco apenas para terminar o treino com mais de 20km e porque queria também ver se tornava a dar com o local onde estão escondidas umas "escadas" para lado nenhum. Não sei o que esta obra pretende ser, mas é engraçado e inesperado.

Arte abstracta no meio do mato.


Uma  paragem para uma visita a alguns dos animais da quinta:



E consegui concluir um treino muito arrastadinho de 24km.



Não foi fácil, mas foi feito!

O treino de ontem, embora não tenha sido visitada pela Fada da Bazófia, já não foi tão mau, mas essa é outra história.

Boa semana!

18 de março de 2015

Pedalar ao Domingo

I am the passenger
and I ride, and I ride
I ride through the city's backside
I see the stars come out of the sky
Yeah, they're bright in a hollow sky
You know it looks so good tonight.

(The Passenger, Iggy Pop)


No passado Domingo, em recuperação do treino de Sábado (que terá direito à sua própria crónica), fui fazer um passeio de bicicleta. A ideia era fazer pelo menos uns 20km e ir até onde me sentisse bem.



Ruas sem trânsito (automóvel) entre o Terreiro do Paço e o Cais de Sodré. Em compensação, era um engarrafamento de pessoas. Fartei-me de andar aos "ésses" e gastar pastilhas dos travões, mesmo quando na ciclovia...

Por acaso através desta foto não conseguem ter uma ideia muito fidedigna
da confusão que estava... :)
Passando o Cais de Sodré continuava a sentir-me bem, por isso fui pedalando.


Cheguei a Belém com mais de 19km feitos, a distância que tinha definido para o passeio. Como ainda tinha de voltar tudo para trás, digamos que acabei por dobrar os quilómetros pretendidos.

A minha velhinha Blackie e a Torre.
Uma pequena pausa para o primeiro gelado do ano enquanto assistia ao "mergulho" do HIPPO (o autocarro anfíbio) no rio. De vez em quando sabe bem sermos turistas na nossa própria cidade. :)

Na viagem de regresso comecei a acusar o cansaço. Vinha um vento frio de frente mas não podia abrandar porque estava a começar a anoitecer e não tenho luzes. A maior parte deste percurso está coberto por ciclovia mas, mesmo assim, não gosto de pedalar de noite.

No entanto, tinha que limpar o orgulho ferido no treino do dia anterior e continuei a dar com a força possível no pedal, mesmo quando o sol se começava a pôr e já nem sentia os dedos nem o nariz congelados, mesmo quando apanhei aquela subidinha final que tanto me custou nas coxas...

Fiquei sem bateria no gps quando já estava a chegar à Expo mas, tendo em conta os quilómetros de ida, e sendo o percurso de regresso praticamente idêntico, calculo que tenha sido um passeio de perto de 40km. A minha maior volta de bicicleta até à data! (É verdade, já fiz mais quilómetros seguidos a correr do que de bicicleta).

Estes passeios de bicicleta são uma alternativa que tento arranjar aos exercícios de reforço muscular que raramente faço. No entanto, por questão de tempo, ficam limitados a um dia por semana, geralmente ao Domingo. O que funciona em termos de recreação, mas é insuficiente em termos de complementaridade. Faltam duas semanas para o Piódão...

10 de março de 2015

Segue o Track - Colares

Este fim-de-semana resolvi aproveitar uma funcionalidade do gps à qual nunca tinha dado uso, que é a de seguir um percurso. Geralmente gosto mais de partir à descoberta, tendo apenas como referência o retorno ao local onde deixei o carro. No entanto, esta funcionalidade é muito útil quando se está menos inspirado ou gostámos especialmente de algum trajecto ou até quando não conhecemos a zona que vamos explorar.


Dentro das opções de track que tinha disponíveis, e tendo em conta que estava um dia bonito, quis aproveitar o que de melhor a serra e a praia têm para dar e optei pela recriação do percurso da prova Trail Serra e Mar B.V. Colares. (Não confundir com a prova Entre Serra e Mar deste treino, de que já falei aqui.)

Enviei o track para o dispositivo e no Domingo lá estavamos, por volta das 9h (muito tarde!), à entrada dos B.V. de Colares, para iniciar o treino.



O meu modelo de gps não inclui mapa, temos de nos guiar por uma bússola e pequena seta, que se vai inclinando na direcção a seguir conforme nos vamos aproximando do local. Em zonas de estradão não há muito que enganar, mas nas separações dos trilhos que são muito próximos uns dos outros já exigia mais atenção. No entanto, das poucas vezes que houve dúvidas, aparecia logo a mensagem “Fora de Percurso” no ecrã, e era só voltar atrás até surgir nova mensagem: “Percurso Encontrado”.





Um dos problemas de seguir o trajecto de uma prova é que, tanto tempo depois, os trilhos podem já não estar limpos ou então incluírem a passagem em alguma propriedade privada que agora, obviamente, não estará aberta. Já aconteceu isso quando tentei passar em algumas zonas do Monte da Lua. Neste caso, não houve essa questão. Os trilhos são de passagem frequente e não incluíam atalho por nenhuma quinta. Mas acreditam que quase um ano depois ainda encontrámos algumas fitas sinalizadoras pelo caminho?? Não sei se seriam da mesma prova, mas pelo nível de desgaste já lá estavam há algum tempo…

Depois de muito subir, passámos no cruzamento da Cruz dos Bombeiros,


a caminho da Peninha.


Onde fizemos uma pausa para abastecimento junto a uma fonte, com cerca de 9km de percurso.

E em seguida começamos sempre a descer até à zona do Cabo da Roca.



Ao chegar aí, o gps indicava que já íamos com mais de vinte minutos de atraso em relação ao recorde de percurso (tempo feito originalmente na prova). Estávamos a perder para o parceiro virtual, portanto. Mas para quê apressar uma corrida tão bonita? (É uma boa desculpa... :) )



A descida até à Praia da Ursa é um dos pontos altos.



E depois a subida.

Toca a escalar! E não resmunga... Muito! :)

A recompensa no topo.
Mais pessoas a admirar a recompensa (e a aproveitar para comer um lanchinho).

O dia cheirava a Primavera e muita gente aproveitou para um passeio ou uma ida à praia. No estacionamento da Praia da Adraga parecia uma manhã de Verão, estava quase lotado.

Depois dessa parte apanha-se um bocado de areia na subida de regresso a Colares, coisa que não me apraz muito, mas faz parte. Passando os 200 metros iniciais a areia já não é tão mole e dá para correr (hipoteticamente). :)

E, cerca de 3km ou 4 km depois, completa-se o círculo.



Se alguém quiser este track, é só pedir. Tem um percurso agradável, circular (numa circunferência quase perfeita para trilhos, como podem ver), que engloba Serra e Mar e diferentes tipos de piso.
A distância é de pouco acima da Meia Maratona e o ganho de acumulado não é muito agressivo, cerca de 800 metros, mas ter em atenção que os primeiros quilómetros são sempre a subir e vão ter de escalar uma arriba já mais para o final.



Assim se passou a minha manhã (e início de tarde, vá) do Dia da Mulher. Não queria que tivesse sido de outra forma.


Boa semana!

PS: Já agora, se alguém tiver tracks nas zonas da Arrábida, Mafra ou Ericeira que queira partilhar, agradeço! Eu sei que há muitos sites onde se pode ir buscar, mas se o percurso vier com o vosso selo de aprovação, melhor.