25 de junho de 2015

OMD - últimas (talvez...) considerações

Apesar da Organização desta prova não ser consensual, nunca tive muitas razões de queixa. As marcações são sempre excelentes e os abastecimentos, apesar de não serem dos mais frequentes e completos, na minha opinião são suficientes no regime de semi-autonomia que é anunciado. No UTML do ano passado notei que não houve controlo ao longo da prova (pelo menos que tenha dado por isso) em termos de recursos, se calhar necessário na zona das arribas, e a ausência de meios de socorro. No entanto, o mesmo já não aconteceu no OMD e passámos várias vezes por equipas de bombeiros em pontos estratégicos. Além disso, uma semana antes é-nos sempre enviado um manual com informações relevantes, bem como o mapa do percurso, mapa dos abastecimentos com indicação das distâncias muito precisa e gpx.
E gosto das t-shirts deles. É uma mariquice acessória que vale o que vale, mas é uma recordação a que dou uso e agradeço o cuidado no design e no corte feminino no modelo das senhoras.

Medalha de finisher do OMD 70K sobre uma t-shirt da 2º etapa TCC.


Quanto à minha prova, levei 13h50 minutos a concluí-la mas, apesar de tudo, fiquei muito contente com a minha prestação porque foi sempre em crescendo. Ou seja, do primeiro ao último abastecimento fui sempre a recuperar lugares na classificação. Sabem o que isso significa, não sabem? Mais uns 100km e ganhava aquilo tudo! Muahahah... :) (Ainda a delirar, não liguem...)

Agora em assuntos mais sérios: como puderam depreender pela crónica, esta prova não foi fácil para mim em termos digestivos. Sentia-me mal disposta, o que foi piorando ao longo do dia, até chegar ao ponto de não conseguir comer mais nada. Felizmente, consegui terminar sem problemas de maior. O pior foi quando se esgotou a adrenalina. Quando terminei a prova, e já a caminho do hotel, comecei a ter ataques de vómito não concretizado. Não conseguia dar dois passos sem ficar logo agoniada. Parava e ficava melhor, mas bastava tornar a dar dois passos para voltar ao mesmo. Por causa disso, ainda tive de ficar uns bons cinco minutos à entrada do hotel,  a apanhar ar, com medo de entrar no átrio e regurgitar as entranhas para cima do piso em carpete... Acho que, depois disso, iam adorar receber-me novamente como hóspede para o ano. ;)

Mas vamos a algumas considerações:

Material


Na foto de cima, pode ver-se algum do material obrigatório para esta prova:
- Mochila com reservatório de água de 1,5l.
- Apito (na própria mochila).
- Impermeável (que, com o calor que se fez sentir, obviamente não cheguei a usar).
- Manta de sobrevivência.
- Luz traseira vermelha (que aproveitei da bicicleta).
- Frontal.

Em relação a este último, que foi uma aquisição recente, ainda não posso fazer grandes considerações. Quando o liguei ainda estava lusco-fusco, servia mais para incidir nas fitas reflectoras e facilitar a sua localização, e quando finalmente escureceu já estava na cidade e as luzes da iluminação pública quase que tornavam o frontal desnecessário. De qualquer forma, e apesar de ser de gama média, a intensidade da luz não tem nada a ver com o que tinha anteriormente. Será com ele que irei fazer o TNLO, portanto depois terei uma opinião mais fundamentada sobre o mesmo. E talvez ainda tenha a possibilidade de o testar em algum treino nocturno até lá.

Restante material:
- Termo de responsabilidade (que acabou por não ser necessário).
- Gráfico do percurso com anotações bonitinhas, que depois plastifiquei para levar comigo na prova e ter alguma referência quando ficasse sem GPS (acabei por me esquecer e deixar no quarto do hotel, BOA...).
- Protector solar (previsão de 35º...).
- Vaselina.
- 2 Brufen (just in case... Mas não foi necessário e acabei por dispensar um, a um atleta que me pediu)
- Reserva de alimentos*.

*Em relação aos alimentos, estes merecem a sua própria secção.

Equipamento principal

- Mochila Salomon Advanced Skin (ando há que tempos para vos falar desta mochila que é um espectáculo).
- Asics Fuji Trabuco 2
Estes ténis, apesar de serem umas autênticas pantufas e de ter terminado a prova sem uma única bolha, não têm a melhor tracção em piso rochoso. Além disso, sempre que molhados tornam-se muito escorregadios, o que também não funciona bem no dito piso rochoso. Foi uma das razões para a descida do Vale de Loriga se ter tornado uma marcha dolorosamente lenta.

Alimentação

A prova de 70 km teve 5 abastecimentos ao longo do percurso, mais 1 no final, o que eu achei suficiente. Sabia, no entanto, que em certos locais a distância entre PACs poderia levar mais de duas horas. Por exemplo: Vale do Rossim -> Torre, que me levou quase 3h30 para fazer. Assim sendo, ia prevenida e levei:
- 3 barrinhas Aptonia clak, de alperce.
- 4 géis (1 Energel Myprotein + 3 Xgel Extreme)
- 2 pacotinhos de pó da Gold Nutrition
- 1 Shot Energy (Gold Nutrition)
Ora, isto seria suficiente se eu tivesse conseguido comer alguma coisa de jeito nos abastecimentos, o que não aconteceu. Tal como indiquei no relato da prova, acordei já com alguma má disposição que não me deixou tomar o pequeno-almoço, e só piorou ao longo do dia. O calor também não deve ter ajudado. Gostava de poder fazer uma avaliação mais correcta dos abastecimentos, mas eu nem conseguia olhar para a comida quando lá chegava. A única coisa que tolerava comer, e mesmo assim de-va-ga-ri-nho, não fosse o estômago querer pôr cá para fora o seu parco conteúdo, eram batatas-fritas e bananas. Tudo o que era doce era para esquecer: marmelada, bolos... Na Torre ainda tentei comer uns pedacinhos de bôla de carne que eles lá tinham, mas saí de lá ainda com o resto do pedaço na mão e andei com ele durante vários quilómetros a ver se marchava, até que desisti e enfiei-o no bolso da mochila onde estava a guardar os invólucros vazios dos géis. E os géis... Ai, os géis...
Antes de mais, tenho de relembrar: não sou grande consumidora de géis. Sei que há atletas que juram por eles e conseguem correr duas e três ultras seguidas só com isso. Têm a minha admiração, mas eu não consigo. Quando muito, tolero um ou dois, mas depois preciso de outra opção menos doce. Neste dia na Serra, ingeri-los foi um suplício. Para o fim, quando comecei a notar que estava claramente a fraquejar mas já não conseguia comer nada, nem as barrinhas (nesta altura valeram-me as gelatinas nos abastecimentos, que curiosamente o estômago aceitou bem), metia um bocadinho de gel à boca, bochechava com água e cuspia. Sei que não é uma imagem muito bonita, mas preciso de falar disso, porque acontece. Podemos ser obrigados a desistir de uma prova, não porque estejamos exaustos ou com dores musculares ou lesionados, mas porque não estamos a conseguir ingerir calorias. Esta realidade lapalissada, que eu já conhecia mas não na primeira pessoa, assustou-me.
Depois do último abastecimento, em Lapa dos Dinheiros, até ingerir água tinha de ser aos poucos. Nesse abastecimento só consegui beber coca-cola, apesar da muita insistência, por parte da senhora que lá estava, para que comesse alguma coisa.
Felizmente devia ter algum combustível no depósito da reserva que, depois de abanar um bocadinho, me permitiu ter forças para acabar a prova bem. No entanto, estivesse eu a fazer os 100 km e não os 70, se calhar a história teria sido diferente.

Dos alimentos que levei ainda voltaram:
- 1 barrinha e três quartos de outra.
- 1 gel e meio.
(Estes três quartos de barrinha e meio gel são a prova de que eu estava a esforçar-me para comer!!!)

Poderia tentar arranjar explicações para esta situação: alimentação fora do habitual no dia anterior, duas noites mal dormidas, o calor... Talvez um bocadinho disso tudo, mas é sempre complicado chegar a alguma conclusão. Já tive provas em que a véspera foi muito semelhante e tal não aconteceu.
Daqui para a frente também não irei excluir totalmente os géis, já que são uma forma rápida e simples de ingerir calorias em situação de urgência, mas irei optar por versões menos doces e espessas.


Recuperação

Não me vou alongar muito, deixo-vos só com as fotos dos locais por onde a recuperação andou a ser feita...

Hidroterapia.

Crioterapia parte 1.

Crioterapia parte 2.

Crioterapia parte 3.

Aldeias serenas.

Descobri onde fica, e não é no km35! ;)

...

E tenho pena de, no dia seguinte, ainda me sentir um bocado mal-disposta para comer como deve de ser, porque num restaurante em Loriga comi das melhores vitelas estufadas com batata a murro da minha vida... Até foi um crime o que tive de deixar no prato. Qual Schwarzälder Coiso que alguns de vós comem qual quê... :) Infelizmente, não há fotos.

O regresso aos treinos tem sido pacífico. Não me tem apetecido fazer corridas muito longas, o que acho que é normal, e também não tenho forçado. Andei a fazer uns ajustes na bicicleta para poder dar passeios maiores, em alternativa. Ainda tenho duas provas até às "férias", em Agosto.

Má-disposição, agonia, vómitos, indisposições gástricas e/ou intestinais em provas, já vos aconteceu, como gerem/geriram, contem-me tudo.

22 de junho de 2015

Vencedores dos Dorsais para o Onyria Running Challenge




Os vencedores dos dois dorsais para o Onyria Running Challenge, que irá decorrer a 12 de Julho, foram:

- Tiago Marques
- Sérgio Pontes

Irão receber um email com mais informações. Boa prova!


19 de junho de 2015

Oh Meu Deus - 70K (Parte II)

(Continuação da Parte I)


“Não vais nada desistir, rai’s parta!”
Acho que nas corridas que fiz até agora, só pensei em desistir verdadeiramente uma vez. Claro que há sempre momentos em todas as provas em que estamos fartos ou achamos que não vamos conseguir. Há desabafos, muitas vezes feitos como pedidos de socorro a quem nos acompanha, para que nos lancem a corda de umas palavras encorajadoras que nos tirem do poço. Agora desistir, chegar a um estado tal de exaustão sobretudo mental em que achei que já não valia a pena, foi só uma vez.
Agora vou muito cansada, mas acho que ainda vale a pena, por isso continuo. Mas ouvir assim, do outro lado da linha, as palavras “acho que vou desistir”, da parte de uma pessoa que até ali ia tão bem, custa um bocadinho.

Começo a apressar o passo e apanho o atleta que ia à minha frente. “Acho que a minha jornada vai ficar pela Torre”, diz-me depois de algumas frases trocadas. Oh, não, outro?! Tem uma lesão mal curada de anteriores desafios e já não está a desfrutar. Chegou ao ponto dele do “não valer a pena”. Compreendo. “Tendo em conta o que aí vem, é mais sensato terminar por aqui”, afirma. Nem lhe pergunto o que ele quer dizer com “tendo em conta o que aí vem”, prefiro não saber! Incentiva-me a continuar porque estou "forte”, e nem sabe o quão importante para mim foi ouvir aquilo. Eu não me sentia forte, mas ouvi-lo assim, de outra pessoa, mesmo que sejam apenas palavras simpáticas, fazem com que a gente não queira desiludir essa confiança. Este companheiro de corrida que acabei de conhecer e provavelmente já se esqueceu desta conversa daqui a 5 minutos diz que eu estou forte, portanto não posso decepcioná-lo! :)
Este atleta, a quem não cheguei a perguntar o nome, vai mesmo dar a sua prova por terminada na Torre mas, daqui a várias horas, vai estar na Meta a assistir às chegadas e vai parecer genuinamente feliz por mim quando chego. Se precisarem de restaurar a fé no ser humano, uma das formas é observarem uma zona de Meta. É como o terminal de chegadas de um aeroporto, mas com menos bagagem e abraços muito mais suados.


Agora a minha força é a vontade de chegar o mais rápido possível à Torre, onde espero não encontrar ninguém. Ou melhor, espero não encontrar quem disse que estava a pensar desistir. Espero que tenha sido bluff.

Torre. 1993 metros de altitude. 2067 metros de acumulado positivo. “Metade já está”

Once I get you up there
Where the air is rarefied
We'll just glide
Starry-eyed
Once I get you up there
I'll be holding you so near
You may hear
Angels cheer
Come Fly With Me, Frank Sinatra

AAAALELUIA!

O abastecimento era na torre da esquerda.

Saio dos trilhos e entro na centenas metros finais de estrada que ligam à Torre. Tenho pressa e resolvo correr. “Corres até um dos postes e depois andas até ao seguinte e depois assim sucessivamente”, penso. A boa vontade só vai durar os três primeiros postes mas, mesmo assim, sigo a passo rápido.
Entro na Torre onde fica o abastecimento e olho em volta... Não está. Boa! Pela primeira vez em sete horas, sento-me e descanso.

Ia decidida a ficar neste abastecimento algum tempo, preciso mesmo de tentar comer algo de jeito. Não há sopa, nem cafés, o que eu achei uma falha neste PAC tão icónico. Não tanto por mim, mas pelos atletas das provas mais longas, que também ali param para descansar. Foi o único abastecimento que achei que podia estar melhor. Enquanto como umas batatas fritas observo quem ali se encontra. Um atleta das 100 milhas dorme numa maca, outros estão estendidos nos sofás. Um homem da prova dos 100km, ao meu lado, trata das bolhas dos pés, outro esfrega creme nas pernas. Uns quantos estão de pé junto da mesa a comer, mas muito poucos, a maior parte aproveita e senta-se onde dá. Parece um hospital de campanha, onde as voluntárias andam, quais enfermeiras, de um lado para o outro a perguntar se está tudo bem e a encher recipientes de água.

Penso naquilo que acabei de fazer. Poder dizer que se subiu a montanha da Estrela até à Torre a pé é fantástico, uma experiência que fica para a vida. Quantas pessoas vão poder dizer que alguma vez fizeram o mesmo?
Por outro lado, penso que ainda bem que fui racional e me inscrevi apenas para os 70. Os atletas aqui presentes contam horrores da subida de Alvoco e o cansaço nos seus semblantes é notório. Da minha parte, metade já está. A partir daqui será sempre a descer até Loriga. Simples. É agora que vou recuperar o ritmo! (Pensa ela inocentemente....)

11.823 metros até Loriga. 1331 metros de D-. (Sim, de desnível negativo.) “Quando cruzarem aquela rocha, vão ver o paraíso.”

When she was just a girl
She expected the world
But it flew away from her reach
So she ran way in her sleep
Dreamed of para- para- paradise
Everytime she closed her eyes
Paradise, Coldplay


- Mas que m*#%a é esta?!

Podia estar a referir-me à quantidade de bosta de vaca que encontro pelo caminho, mas não. Saí da Torre depois de uma pausa de cerca de 20 minutos, refrescada e disposta a largar a correr por ali abaixo, mas vou encontrar uma zona relvada, de terreno fofo que se afunda a cada passo à semelhança de areia seca, e minado de buracos encobertos. Perfeita para pasto mas não tanto para correrias. Quando Camões escreveu o seu famoso poema sobre a Leonor, ela deveria ir a caminho da fonte numa verdura como esta. Da minha parte, depois de 36km, nem segura nem formosa. Quem assistir ao de longe, vai pensar que estou a tentar fintar dispositivos num campo de minas.
Nem todos têm esta minha inaptidão. Passam por mim três ou quatro atletas dos 70km todos lançados. “Só pode ser pessoal de cá, que já treinou aqui muitas vezes”, penso eu, numa tentativa de desculpar a minha clara aselhice.




Pouco depois, passamos do terreno minado para terreno lunar. Transpondo a lindíssima Lagoa Comprida, percorremos solo rochoso no enquadramento de uma paisagem que não destoaria num filme de ficção científica. Não fosse a barragem indubitavelmente feita por mão humana que já se avista ao fundo e quase poderíamos imaginar correr noutro planeta. Tento simular a sensação de leveza que teria na lua, mas aprendi que não se desafia a gravidade terrena quando escorrego e desço metade de uma pedra como se fosse um escorrega aquático, mas sem água e muito mais rijo. Os Fuji Trabuco, apesar de muito confortáveis, não foram a melhor opção num terreno deste tipo.




Nesta parte alcanço um outro atleta que nunca chegou a saber, mas foi o meu anjo da guarda nos quilómetros que se seguiram. Descemos juntos até à Barragem do Covão do Meio, onde estava um grupo de escuteiros que nos estenderam logo prontamente garrafas de água.


Nesta fase comecei a ir-me um pouco abaixo. O calor das três da tarde e as calorias insuficientes que estava a consumir fizeram mossa. Sentia-me agoniada desde manhã, não me apetecia mastigar comida sólida mas agora só o facto de pensar em ingerir outro gel dava-me asco. Nesta altura o que me foi valendo foram uns pacotinhos de pó para desfazer na língua que empurrava com água. Além disso, estávamos em zona de progressão lenta, sempre a descer rochas, o que fazia com que andasse imenso tempo e depois quando olhava para o relógio só tinha avançado 200 metros.
O outro atleta seguia pacientemente atrás de mim. Fartei-me de lhe dizer para seguir, para não se empatar por minha causa, mas ele não se afastava. Mesmo quando seguia alguns metros à minha frente, ia sempre a olhar para trás para ver se eu lá vinha. Houve uma altura em que, cansada de o estar a atrasar, disse que precisava de me sentar e descalçar para tirar pedrinhas dos ténis (o que era verdade) e para ele seguir, que eu depois apanhava-o. Não é que não estivesse a gostar da companhia, mas tinha noção que não ia num bom momento. A verdade é que, mesmo assim, ele seguiu lento e quando finalmente voltei ao trilho ele lá estava.

- "Quando cruzarem aquela rocha, vão ver o paraíso", diz o rapaz que passa por nós a subir. Cruzamo-nos com um grupo de caminheiros que faz a caminhada no sentido ascendente. Por paraíso, o rapaz referia-se ao Vale de Loriga. Na altura mal consegui esboçar um sorriso como resposta ("estou aqui há mais de hora e meia a descer e não há meios de apanhar um carreiro em que se possa correr para despachar isto, porra!) mas depois tive de parar e contemplar.

PARADISE
(Foto não lhe faz justiça e isto era muito mais alto do que parece)

O Vale de Loriga é de formação glaciar e parece uma zona parada no tempo. Não me admirava nada se passasse por ali um Pterodáctilo a voar. Aposto que não terá mudado muito nos últimos milhares de anos e assim se há-de manter por outros tantos. É daquelas paisagens que nos sobrevive e tem uma energia especial por isso. Recuperei um bocadinho. Mais à frente apanhamos uma atleta que se vê claramente que está tão farta de por ali andar em caminhos de cabras (montesas) como eu estava. Adianto-me um pouco e acabo por perder de vista o "anjo da guarda" que me tinha acompanhado até então. A outra atleta agora precisaria mais da força do que eu.



Km 44(?). Ainda a descer até Loriga...

My fingers in my ears to block the sounds
My eyes shut tight to avoid the sight
Antecipating the end, losing the will to fight
From the bottom, it looks like a steep incline
From the top, another downhill slope of mine
(...)
No one listens
Because I'm somewhere in between
My love and my agony
Falling to Pieces, Faith no More

A agonia... Sol abrasador, devem ser cerca das 15h, estou sentada numa rocha a meio do trilho.
O choro vem da alma, mas é quase seco. A hidratação não chega às lágrimas que não chegam a escorrer pela cara.

Fiquei sem gps há uns quilómetros, não sei há quanto tempo aqui ando mas parece-me há uma vida. Depois daquela zona do Vale de Loriga que podem ver na foto acima e em que deu para correr, chego ao fim do mesmo só para ver que íamos voltar a descer rochas... E eu adoro descer rochas, se estivesse em treino ia estar nas sete quintas, mas aqui tinha um limite a cumprir e queria dar o meu melhor. Às vezes dava por mim a ver as fitas mas a não conseguir encontrar caminho para lá chegar, o que me levava a perder ainda mais tempo. "Por este andar, nem chego lá [a Seia] à meia-noite". Mais que o meu corpo, a minha mente começava perigosamente a fervilhar, como um vulcão à beira da erupção. Sentia que estava lenta, muito lenta, exausta... Queria correr, chegar a um trilho e sair do sol. E é nesse estado de espírito que, ao tentar transpor um calhau de cerca de meio metro, coloco mal a perna e bato com os joelhos. Ouço o som do osso a bater e as esfoladelas começam imediatamente a sangrar. Ahhhhhhhhh!!!! Era só o que me faltava... Sinto-me no limite do colapso e por isso sento-me e deixo a enxurrada de auto-comiseração sair. Um choro de cabeça apoiada nas mãos, sem lágrimas. Tenho noção do ridículo que é, estar ali sentada no meio do mato, a meio da prova, a sentir pena de mim mesma.

Para terem noção da perspectiva:
se olharem com atenção vêem atletas a descer à esquerda da foto.

O som de vozes desperta-me deste estado de torpor. Vem lá gente ao fundo e a réstia de dignidade em mim não permite que me vejam nestes preparos. Olho em volta, respiro fundo, digo-me para deixar de ser patética e aproveitar a experiência, "na pior das hipótese ficas em Loriga, pronto, não há-de ser nada, não dramatizes", e sigo.

Eventualmente, lá alcancei o bendito carreiro e posterior estradão que me levaria a descer até Loriga. Corri tanto que parecia que tinha acabado de começar a prova. Queria chegar ao abastecimento o mais depressa possível, só para tornar a sair e continuar a prova. Eu sabia que o corpo aguentava, não podia ceder à mente.
Devo ter feito a entrada na Vila num lindo estado, cheia de sal na cara e joelhos a sangrar, mas as pessoas na esplanada faziam uma festa. Alcanço mais dois franceses que serão a minha companhia silenciosa em  alguns momentos do resto da prova. Aproveito uma fonte de água fresca para encher o depósito de água e lavar os joelhos. Outros atletas mergulham as pernas inteiras. Aproxima-se de mim uma mulher que me diz que se lembra de mim na aldeia X (a tal do abastecimento improvisado). Diz-me: "e vens sozinha, que coragem..." Tivesse ela me visto há pouco mais de meia-hora e perceberia... Agradeço. O carinho das pessoas ao longo desta prova, em muitas histórias que ficam de fora neste relato, tem sido surpreendente.

Entro no abastecimento por indicação de alguns familiares de atletas que lá estavam, já que este ficava dentro de uma casa e mal sinalizado. Finalmente! Depois de quase 2h30 para fazer menos de 12km, cheguei.

12.095 metros até Lapa dos Dinheiros. 58.546 m de prova. 700 D+. 702 D-. O equilíbrio. "Muita coragem, menina. Vá com Deus!"

...and the earth becomes my throne
I adapt to the unknown
Under wandering stars I've grown
By myself but not alone
Wherever I May Roam, Metallica

Avisto ao fundo da rua duas velhinhas que me vão lançando olhares enquanto comentam qualquer coisa uma com a outra entre sorrisos. Já sei que vão querer dizer-me alguma coisa. Ao longo do dia, o ritual tem sido sempre o mesmo: as pessoas das aldeias por onde passo, sentadas ou encostadas à sombra de uma casa, ficam a olhar intensamente para mim, de sorriso aberto no rosto, à espera que seja eu a tomar a iniciativa de um “Bom dia”. Depois disso, o difícil é convencê-los de que não podemos ficar à conversa!
- "Menina, o que é isto que está a haver? Alguma corrida? De onde vindes?", pergunta uma das senhoras depois do meu cumprimento.
Eu sabia. :)
Quando eu lhes respondo que vamos para Seia, elas ficam preocupadas.
- "Menina, isso ainda é tão longe! Vai chegar lá de noite!"
Nesta altura deveriam faltar cerca de 3km para Lapa dos Dinheiros, portanto pouco mais de 15km para o final. Quase "nada", comparado com o que ficou para trás. Quando lhes disse a volta que já tinha dado, juro que quase se benzeram! :)
- "Olhe, vem ali o seu companheiro de corrida! Não o perca, para não ir sozinha!"
O "meu companheiro de corrida", que elas referiram, era um atleta das 100 milhas que entretanto estava a chegar ao início da rua. Não lhes disse que era a primeira vez que estava a ver aquele companheiro e que, apesar de ele já vir com mais 100 km que eu nas pernas, muito provavelmente ainda me ia deixar a comer o seu pó! Achei melhor ocultar essa informação.
- "Muita coragem menina, vá com Deus!". O meu coração derrete-se.



Depois de Loriga o meu ânimo vai melhorar consideravelmente. Não consegui comer muito no abastecimento, mas bebi duas gelatinas que estavam quase líquidas, coisa que o meu estômago conseguiu suportar.

Tenho vindo a parar em tudo o que é fonte para molhar a cara e o boné, mas tento não me demorar. Alguns atletas sentam-se junto à fonte e isso é uma perdição. Depois quem me tirava dali?! Não pode ser, sigo, sigo sempre.
À entrada desta aldeia houve o primeiro e, para mim, único problema com as sinalizações. A certo ponto, deixei de as ver. Segui para a direita porque via um atleta ao fundo e pensei que, mesmo que fosse enganada, já não seria a única (atitude inteligente!:)). Depois soube que alguém tinha tirado as fitas e a organização tentou resolver à última hora com umas setas pintadas no chão. Como as setas eram de cor vermelha e não muito distinta (a cor das fitas e indicações da Organização era laranja), não tinha a certeza de pertencerem a esta prova. O atleta da frente ia certo, foi o que me valeu.

Nesta fase, as três provas principais já partilham o mesmo percurso. Sempre que passo por alguém ou alguém passa por mim há sempre um olhar discreto para o dorsal, como quem mede a competição.
Alcanço a minha última francesa do dia, que será a 3ª classificada dos 100km. Ainda vamos alguns quilómetros juntas, mas numa zona de calçada romana ela conseguiu distanciar-se. Raios mais este piso irregular, se alguém consegue andar aqui direito! O Obélix é que tinha razão, "estes romanos são doidos".



Começamos a percorrer muitas aldeias e zonas agrícolas, nota-se claramente que estamos a regressar à "civilização". Não sei bem o que sentir em relação a isso. Por um lado tão aliviada por estar a terminar, por outro já com saudades de uma experiência fantástica. Apesar dos constantes louvores de "coragem" ao longo da prova, eu nunca senti que o merecesse. A verdade é que correr sozinha pela montanha não me custa, pelo contrário, é algo que faço com muito gosto. Nada me dá mais gosto do que passar horas neste prazer introspectivo e contemplativo. Acho que temos poucos momentos de silêncio na nossa vida de todos os dias, por isso aproveito para respirar a paz que cada quilómetro me concede. Claro que prefiro ter companhia para poder partilhar a alegria e ter em quem descarregar o mau-humor nas fases más (vocês sabem bem que em provas grandes isso vai acontecer, não há hipótese!) mas, tendo de ir sozinha, os momentos de solitude acabam por ser bem intercalados com partilhas momentâneas e algumas muito importantes, que nos dão força.

A conselho das queridas senhoras da aldeia, vou tentar também não perder o "meu companheiro" de vista. Não é fácil, mas consigo mantê-lo a uma distância visível. Em Lapa dos Dinheiros ele nem chega a parar no abastecimento, já deve ir num estado de ansiedade tal que não quer perder um minuto até à Meta. Entretanto, eu entro naquela que será a minha última paragem antes do destino final: Seia.


Últimos 10km até Seia. "Um momento impagável, de serenidade ímpar."
I see skies so blue and clouds of white
The bright blessed days, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world
What a Wonderful World, Louis Armstrong



No PAC uma das voluntárias mete conversa e faz imensas perguntas. Penso que deve ser uma forma de confirmar se os atletas ainda estão com um discurso coerente. Ainda há pouco passei por um rapaz dos 100km que ia a falar sozinho. Tantos quilómetros e horas seguidos deixam-nos delirantes em maior ou menor grau, não há como fugir. O meu problema é que não me apetece comer. Deveria ser expectável que tal desgaste me desse uma fome de lobo, mas eu nem consigo pensar em comida. Sinto-me agoniada e vou chegar a um ponto em que até beber água me vai deixar à beira do vómito, e não sei se depois desta prova alguma vez vou conseguir tornar a ingerir algum gel. Foi a primeira vez que tal me aconteceu e algo que terei de ter em conta para o futuro. 


Praia Fluvial de Lapa dos Dinheiros.

Depois de Lapa dos Dinheiros indicaram-me que agora "apenas" teria mais duas subidas, a segunda um pouco pior do que a primeira. De facto, estes quilómetros finais foram bastante corríveis, com um par deles junto a uma levada. Aqui tentei sempre correr, quando me sentia tentada a caminhar fazia jogos mentais: "só até à próxima fita, depois caminhas", "só até àquela árvore", "tens de chegar a horas de jantar, vá lá!"



O que me preocupava mais era o facto de estar a anoitecer e não querer estar em zona ainda de floresta muito cerrada quando tal acontecesse. Por via das dúvidas, tinha comprado um frontal de melhor qualidade para esta prova, mas todos sabemos como os ruídos nocturnos da natureza podem tirar anos de vida a um coração já cansado de emoções fortes. :) Por isso, quando estava a subir a primeira das duas últimas subidas, fiz ponto de honra em não parar.
Quando explico no que consiste uma prova de trail a quem não sabe, muitas pessoas pensam que é fácil porque podes caminhar. Isso é porque nunca fizeram uma subida desta inclinação em pernas cansadas. Até caminhar custa! Pôr um pé à frente do outro exige negociação constante. Penso nisso quando olho para um tronco tão apetecível para me sentar a meio do trilho. Sou capaz de jurar que vários atletas antes de mim já lá se sentaram. A tentação é tão grande... Mas não posso, está a ficar de noite.

Estou neste momento a subir a Cabeça da Velha. Se calhar por ir a temer uma segunda subida muito pior, não a achei assim tão má. Às vezes é bom fazermos logo o pior cenário! Além disso, estava a anoitecer e pude ver o pôr-do-sol mesmo no topo. Mais uma vez, as fotos não lhe fazem justiça...

Cabeça da Velha.
Pôr-do-sol sobre Seia.

Foi um momento impagável, de serenidade ímpar. Fiz as pazes com os momentos menos bons do dia e resgatei a energia que me faltava. Pus o frontal, coloquei a luzinha pisca-pisca na mochila e fui rumo à Meta.

Seia.


Quando, a cerca de 3km da Meta, decido que o que era mesmo bom era voltar cá para o ano e fazer os 100km.


Your head will colapse, but there's nothing in it
And you'll ask yourself
"Where is my Mind?"
Where is my Mind, Pixies


À chegada a Seia, na passagem pelo Estádio Municipal, alcanço um atleta que depois vejo que é das 100 milhas. Vai a caminhar, já não corre, e noto que o discurso cansado já é feito mais em jeito de desabafo mental, para ele mesmo, do que em resposta às minhas perguntas.
É quando ele me diz que "se alguma vez te passar pela cabeça quereres fazer 100 milhas, PENSA BEM! Olha que não é nada, NADA, fácil", com ênfase nas palavras destacadas, e lhe respondo que "talvez, quando me esquecer desta, para a próxima queira fazer os 100km", que eu descobri que a decisão já estava tomada. A minha estreia nos 3 dígitos teria de ser ali, na minha Serra, mesmo com todas as rochas, os campos minados, a subida à Torre, a  exposição à intempérie e o colapso nervoso na Garganta de Loriga. Não é a escolha mais fácil para a primeira abordagem a essa distância, mas tenho um ano até lá, vamos ver onde a vida me leva. "E para a próxima preparo-me melhor".

Mas pronto, neste momento estou a terminar os meus primeiros 70km, a maior distância corrida até ao momento, e sinto-me bem. Desde que entrei em Seia e até cortar aquela Meta, vou correr sempre, vou voar, embora vídeos da minha chegada possam dar uma impressão diferente. :) Ajuda ser quase sempre a descer e em estrada alcatroada. Tenho sorte, porque àquela hora está muita gente na rua e na chegada e sinto o apoio. Sei que ainda consigo terminar na casa das 13horas, e é para isso que faço um esforço final.

Foto da Meta, tirada na noite anterior.
Foi assim, mas com muito mais pessoas à volta.

Se me perguntarem, eu vou dizer que estava a passar a música do Bowie: Heroes, quando cortei a Meta. Eu sei que é mentira, e vocês também. Além disso, não fui heroína de coisa nenhuma. Não ganhei, não subi ao pódio, o meu tempo não foi nada por aí além, não salvei nenhuma vida - embora na serra tenha estado atenta para não pisar nenhum lagarto - e tenho demasiadas crises de mau-humor durante a jornada para poder dizer que esta prova me tornou mais forte ou melhor pessoa. Mas terminei muito feliz, e o mundo precisa de pessoas felizes. Nesse sentido, todos podemos ser heróis por um dia...

E foi este o dia em que "corri" 70km. Peço desculpa pela extensão do relato, mas quero guardar tudo, para nunca esquecer. Os excertos de músicas aqui deixados são músicas de uma lista de faixas que não levei, mas que o silêncio da montanha me trouxe.

OMD. Mesmo.

18 de junho de 2015

Oh Meu Deus 70K (Parte I)

Cidade de Seia. 550 metros de altitude. 06 Junho. 7h00. "Let the games begin".

Birds flying high, you know how I feel
Sun in the sky, you know how I feel
Reeds driftin' on by, you know how I feel
It's a new dawn
It's a new day
And I'm feeling good...
Feeling Good, Muse cvr. Nina Simone

Na verdade, não me sinto muito bem. Não fui assistir à partida dos 100km à meia-noite, para tentar descansar mais um bocado, e depois arrependi-me porque acabei por não conseguir dormir nada na mesma. Passei a noite às voltas. Primeiro ouvi o burburinho das pessoas na rua, depois ouvi o som de uma porta que fecha, depois os pássaros e depois já é manhã. Também tenho o estômago embrulhado e não consigo comer... Três colheradas de Cerelac são pequeno-almoço suficiente para 70km, não são?... Tento não me preocupar, levo algumas barrinhas na mochila, devem chegar se me der a fome até ao primeiro abastecimento.
Recebo um telefonema do A. que me diz que já está com quase 50km de prova, a caminho de Unhais da Serra. Com 7h de prova, muito bom! Não digo que não dormi, nem que não consigo comer, não adianta de nada e não é o meu momento. Desejo só boa prova, com uma esperança extensível a mim própria.

Foto da zona da Partida/Meta, tirada no dia anterior.

No café junto à partida deixo a chávena a meio. Nem consigo engolir o café todo, isto está bonito! Quando chego junto ao pórtico já o briefing tinha começado, mas apanhei o essencial. Deixo o número do meu dorsal, que será controlado ao longo da passagem em todos os PACs e colocado imediatamente online, o que permitiu que os familiares e amigos pudessem seguir a nossa evolução. Somos 58 atletas a alinhar à partida.
8h59 - o meu estômago parece que levou um banho de gelo.
9h00 - deixei o estômago para trás na partida, de certeza, juntamente com os nervos.
Let the games begin.

A Jornada.


10.325 metros até ao Sabugueiro. 689 metros de D+. "Para a próxima preparo-me melhor".

And you took me to hell and back
My mind's like a one way track
And you tell me "Just one more time"
And you're lying like you always do
Yeah, I know it well
Hell and Back, The Airborne Toxic Event

É muito rara a prova em que nos primeiros 5km não pense que "é desta". "É desta que não vou aguentar e vou ter de desistir pela primeira vez, pronto!" Deve ser um mecanismo de auto-preservação do corpo que desencadeia a dúvida e consequente insegurança. Aliado a isso, ou se calhar causa-efeito, custa-me sempre soltar os músculos e fico logo para trás.

Segundo o mapa de altimetria, temos pela frente uma longa e interminável subida até à Torre, aos cerca de 35km de prova. Intercalada com pequenas descidas mas, maioritariamente, uma longa linha ascendente. Não é de estranhar, afinal, um dos ex libris desta prova é a subida ao ponto mais alto da Estrela. Uma subida assim é maravilhosa da forma mais literal e, ao mesmo tempo, irónica, que possam imaginar.

Cruzámos algumas ruas alcatroadas de Seia em direcção ao estradão de terra que nos levará para fora da cidade, em direcção à Serra. Mal começa a primeira subida oiço os cliques dos bastões que são montados à minha volta. No grupo em que seguia, era a ÚNICA que não tinha bastões. Não era fruto de nenhum atestado de valentia que queria passar, era parvoíce mesmo. Acho sempre que não é necessário e que não me vou ajeitar com eles... Enquanto vejo os restantes atletas bastonados desatarem a subir por ali acima como aracnídeos alienígenas do filme Starship Troopers (a minha mente viaja para os locais mais bizarros nesta fase), começo discretamente à procura de ramos que possam servir de cajado à beira do estradão. Não encontro nenhum... Parece que este ano a limpeza dos terrenos florestais foi feita atempadamente. Não sei se ria ou se chore.

Colo-me a um dos "aracnídeos" que, depois de uma tentativa de diálogo, vim a descobrir ser um "alienígena" francófono. Não sabia português e o pouco inglês que falava não deu para grandes conversas. Além disso, estava compenetrado e pouco dado a distracções por parte desta estranha espécie de duas patas que teima em sorrir-lhe como se quisesse estabelecer a paz intergalática. Assim sendo, não conversamos, mas faço-lhe marcação cerrada. Os outros atletas já seguem mais à frente e uns poucos ficaram para trás. Tento nunca o  deixar afastar-se mais do que 10 metros e, em algumas partes que o permitem, corro e consigo passá-lo, para ele logo me tornar a apanhar numa subida mais inclinada.
Passamos por uma aldeia, da qual infelizmente não me lembro o nome, onde os habitantes montaram um pequeno abastecimento e se juntaram para ver passar os atletas. Repito: não era um abastecimento oficial, mas até ofereciam café a quem quisesse e foi o local onde a recepção foi mais entusiasta. Tenho pena de não ter tirado foto. Nós, os atletas dos 70km, íamos com pouco mais de 5km de prova, mas acredito que aquele carinho tenha sabido ainda melhor aos outros que vinham com mais quilómetros e uma noitada no corpo.
O meu parceiro francês não pára (raios!), mas eu não resisto. Ainda não tinha conseguido comer nada, por isso como ali um pedacinho de banana e fico um minuto à conversa. Mais tarde, em Loriga, uma das senhoras ali presentes vai reconhecer-me e dar-me força (Spoiler Alert: e bem que estava a precisar na altura....) No dia seguinte, em Seia, e vestida "à civil", vai haver outro casal que se vai lembrar de mim deste abastecimento e vem falar comigo. Mais do que o estômago, fiquei com o coração cheio, por isso acho que valeu a pena deixar fugir o "adversário". Mas eu já o apanho! :)



Nesta fase o terreno ainda não é muito complicado nem demasiado técnico. Por vezes saímos dos estradões para entrar em vegetação e aí, coisa que será frequente ao longo da prova, vemos a sinalização mas não há nenhum trilho definido, somos nós que temos de nos orientar por onde parece ser a zona mais limpa. Agradeço aos meus pais que em criança sempre me deixaram solta para brincar (e esfolar) na Serra, porque, modéstia à parte, acho que me safo bem. Que o diga o francês, que agora é ele que não me larga, salvo seja, e segue os meus exactos passos neste emaranhado de relva seca e arbustos. Ao cimo alguém grita: "Cucu! Çá va?!" e ergue os bastões. Olha, mais uma! Sinto-me encurralada, mas não posso dar parte fraca. Respondo "oui", apesar da pergunta não ter sido para mim, mas para o francês que vinha atrás e era da mesma equipa. Alcançamos a atleta e agora somos três, eu agarro-me com força aos músculos das coxas para os conseguir acompanhar na subida e eles recolhem os bastões para correrem comigo nas rectas e descidas. Acolheram-me bem e seguimos, às vezes mais próximos e outras mais afastados, mas sempre silenciosos, confortáveis na moderação de quem sabe que ainda tem muitos quilómetros pela frente.

Uma das poucas descidas.

Também é muito rara a prova em que, depois do impacto inicial, não passe do estado de insegurança para o estado de resignação. "Ok, vais sofrer, mas vamos lá fazer isto. Mas para a próxima preparas-te melhor, ouviste?!! Treinos à séria e não apenas correr conforme te dá na gana. Para a próxima preparas-te melhor!" E, naquela altura, acredito nisso com todas as minhas forças.
"Sim, para a próxima preparo-me melhor".

E é assim que chegamos ao Sabugueiro, terra do primeiro abastecimento oficial.

Igreja no Sabugueiro.


7.646 metros até ao Vale do Rossim. 445 metros de D+. 17.971 de prova. "Então boa caminhada"


Someday girl, I don't know when
We're gonna get to that place where we really wanna go
And we'll walk in the sun
But till then tramps like us
Baby we were born to run
Born to Run, Bruce Springsteen

No abastecimento do Sabugueiro também não consegui comer grande coisa. Houve quem se tenha logo atirado aos queijos e presunto, mas eu olhava para aquilo e sentia um nó no estômago. Comi umas bolachas com algum custo. Tenho bebido água, já para me precaver em relação ao calor que se começa a fazer sentir, mas não sinto apetite nenhum. Começo a mastigar uma barrinha que me vai levar uns bons dois quilómetros para comer.

Água, sempre muita água.

Os companheiros franceses demoraram-se um pouco mais no abastecimento e agora sigo sozinha. Passa por mim um grupo de três homens, um deles leva um cajado de apoio. Se ele conseguiu encontrar eu também hei-de conseguir, e intensifico a minha busca pelo cajado ideal. A primeira tentativa revela-se infrutífera, quando o ramo que arranjei se parte ao primeiro impulso. A segunda, embora não seja perfeita (muitas farpas e ligeiramente torto), vai ter de servir. Será a minha companhia até à Torre, e que jeito que me deu!




Um homem que limpava o terreno com uma motosserra ao lado do trilho desliga o motor quando passo. Achei simpática a consideração. Pergunta-me se a jornada é longa, decerto para eu lhe confirmar o que já vários antes de mim lhe terão dito e ele ter a oportunidade de, novamente, responder o que já deve ter respondido antes: "Vós sóis doudos!" :) Mesmo assim, com um sorriso onde já lhe falta um dente, foi impossível não lhe sorrir de volta. Depois, diz-me que "fica triste" por o nosso percurso não passar em determinado local, que ele diz ser muito bonito. Eu também fico, mas "talvez para o ano", respondo-lhe, e continuo a subir agarrada ao meu cajado. Passado uns segundos, oiço o som da motosserra.

Pedras, sempre muitas pedras.

De qualquer forma, locais bonitos é o que não irá faltar. Alguns já conhecia, mas é sempre diferente vê-los desta perspectiva, da perspectiva de quem conquista com suor a sua recompensa.

A forma de gerir o constante ganho de acumulado é tentar correr sempre que o percurso o permita. Não é fácil e os caminhos corríveis agora tornam-se menos frequentes mas, mesmo assim, tento fazê-lo. Nesta altura até estava a fazer uma média que, para mim, considerava razoável e até fiquei a achar que as 16 horas de tempo limite eram um exagero (tomem nota, que mais à frente voltaremos a este assunto).  Estou quase a chegar ao Vale do Rossim, que tem uma lagoa onde já mergulhei antes e que hoje me irá obrigar a um grande auto-controlo para não fazer o mesmo.

Lagoa do Vale do Rossim. "Auto-controlo", certo?!

O abastecimento fica numa esplanada mesmo em frente à lagoa e, quem é que encontro nessa mesma esplanada? O Armando Teixeira, que andava por ali a treinar. Que bom ter este campo de treinos disponível... Alguns atletas aproveitam para lhe pedir uma foto.
Mais uma vez, está alguém a apontar o número do nosso dorsal e oiço comentar que faltam chegar 10 pessoas. Como, exceptuando os franceses e os três homens que passei, não via ninguém há quilómetros, pensei que estivesse menos gente atrás, nada mau.
Entro no bar e obrigo-me a comer qualquer coisa, desta vez com sal. Aproveito também para encher o reservatório de água. Segue-se uma das etapas mais duras da prova e o sol não dá tréguas.
Quando finalmente eu e outros atletas saímos, a voluntária que lá estava despede-se de nós com um: "Então boa caminhada"...
Ora toma! Estavas toda orgulhosa da tua média?? Vens para aqui passear, é o que é... :)

(Spoiler Alert 2: E, de facto, haverá uma altura em que vou ter de caminhar durante tanto tempo que quase me esqueci o que era correr, mas ainda não será agora.)

Outra perspectiva da lagoa.


16.657 metros de subida à Torre. 993 D+. 34.628 metros de prova. "Que dia e local incríveis para estar viva e poder correr"

Today is the greatest day I've ever known
Can't wait for tomorrow, I might not have that long
I'll tear my heart out
Before I give out
Today, Smashing Pumpkins

Para abandonar o Vale do Rossim teremos de contornar a lagoa. Não resisto e vou molhar os braços. Ao contrário do que pensava, a água nem está muito fria. Mais à frente irei também molhar os ténis, mas dessa vez já não foi de propósito. Rocha daquela mais lisa e terreno lamacento não é a melhor combinação.

O abastecimento ao fundo.

Em seguida começamos a entrar naquela paisagem típica da Estrela. Muita rocha, vegetação e nenhuma árvore. O sol bate directo e queima, naquele calor seco que aquece os pulmões a cada inspiração e parece que nunca ficamos satisfeitos de oxigénio. Continuo a seguir as fitas por trilhos improvisados, perco conta à quantidade de lagartos e sardões que se aqueciam ao sol e se afastam a fugir quando me aproximo. Eu é que estou na casa deles e tento incomodar o menos possível, mas nem sempre vou pelo local mais limpo de arbustos e que dá uma volta maior. Graças a isso já colecciono uma série de arranhadelas que mais logo de certeza me irão arder no duche. Não me ardem agora porque, com este calor árido, a transpiração é pouca. 


Não sei se por estar focada na ideia de chegar à Torre que, não sei porquê, considerei sempre que seria a parte mais difícil da prova (não foi), consegui abstrair-me do calor. Continuo a tentar correr sempre que posso. Quando, depois de uma encosta, finalmente olho e consigo avistar o topo da Estrela, levo os braços ao ar de alegria. Foi um bom boost mental, apesar de ainda estar a cerca de 10km de distância e isso significar, optimisticamente, umas boas duas horas até lá chegar.

Juro que ali, algures ao fundinho, já se consegue ver a Torre.

Entretanto, viro momentaneamente costas à encosta para começar a descer as suas entranhas, a famosa Fenda da Nave Mestra. E ainda bem que tinha comido pouco ao pequeno-almoço, porque a passagem era estreita. :)




Quando saímos do ventre da montanha estão dois voluntários a apontar a nossa passagem e a disponibilizar água. Ali, no meio do extenso nada. Contam-nos depois que passaram ali a noite, sempre a controlar os atletas.

A tenda onde pernoitaram.

Não sei se já o sentiram, mas o silêncio da Serra da Estrela é ensurdecedor. Com o estado de espírito errado, pode chegar a ser angustiante. E não estou a dizer isto como um defeito, é uma das suas características mais marcantes e a razão porque acho que não há outra que se lhe iguale em Portugal. Em contrapartida, com o estado de espírito certo, nunca vão conseguir paz maior.


Eu ainda não estou no estado de espírito certo. Depois da descida à Fenda fiquei novamente sozinha e cantarolo baixinho para não ouvir o silêncio que ainda me angustia. Estou focada na Torre e não consigo pensar em mais nada. Vejo-a, cada vez mais perto mas ainda tão longe...


Quando parece que finalmente estou quase lá, o organização troca-nos as voltas e leva-nos a contornar a encosta, pelo caminho das rochas.


Estou cheia de calor. A aridez do clima serrano é brindado pela abundância de água que às vezes até nem vemos mas ouvimos a sua corrente, e só o facto de ouvir o seu som borbulhante ajuda. Neste caso, não oiço mas vejo. Pequenos lagos que surgem aqui e ali entre as rochas. Olho em volta e vejo um atleta mais à frente, mas já a alguma distância, e não vejo ninguém para trás. "E se me despir e der um mergulho rápido?"... Sinto-me protegida pela extensão de uma paisagem onde estamos expostos e o horizonte se perde ao longe.  "Miúda, estás a delirar, bebe água, segue a sinalização e deixa-te disso!"

Continuo a passar lagos mas nenhum tão apetecível como o primeiro. O silêncio é agora interrompido pelo coaxar de dezenas e dezenas de sapos. Rãs gordas saltam para a água à minha passagem. 

<3

Depois dos lagos seguem-se as encostas rochosas. Largo o cajado que ainda mantinha comigo e escalo como posso. As mãos ajudam quando as pernas não são suficientes. Por momentos perco-me no tempo e quase que oiço a voz do meu pai que me diz: "Anda cá, desce daí!" e eu fujo a rir, porque quando somos crianças temos a leveza dos anos. Tenho a certeza que nunca subi por estas rochas, mas subi outras muito semelhantes. Na altura recusava as cavalitas e agora bem que me fazia falta uma mão que me puxasse...

Num último impulso mais forte, com tracção às quatro patas, olho para cima e vejo o atleta que ia mais à frente a tirar uma fotografia deste meu momento tão elegante. Afinal ele não estava assim tão longe, ainda bem que desisti do mergulho... :)  Aceno e tento, acho que infrutiferamente, salvar a dignidade da foto.


Quase a chegar a metade do percurso, ainda não o disse em voz alta, nem para vocês, mas já o repeti para mim muitas vezes: esta está a ser a prova mais difícil que fiz até hoje... Tento abstrair-me. Cada vez que chego a mais um topo, olho para trás e, em vez de pensar em como está a ser a prova mais difícil até hoje, penso na sorte de estar ali. Que dia e local incríveis para estar viva e poder correr. Vai haver alturas em que não consigo apreciá-lo, confesso, mas aquelas em que consigo valem ouro.

Falta um último esforço, não devem faltar muito mais de 2km para o topo.

Recebo uma chamada.

- "Estou a chegar à Torre, acho que vou ficar por aqui.", oiço do outro lado do telefone...

(Continua...)

12 de junho de 2015

Oferta de Dorsais para o Onyria Running Challenge

Sei que devem estar à espera do meu relato sobre os 70km. Na verdade, confesso que ainda nem sei bem como poderei descrever tudo o que foi vivido, as dificuldades que começo (perigosamente) a esquecer, a paisagem magistral que nos torna pequenos, o carinho e cuidados das pessoas das aldeias por onde passei, o quilómetro vertical até à Torre, o pôr-do-sol na Cabeça da Velha já com a vista de Seia ao fundo... Mas enquanto a minha cabeça e coração não regressam da Serra da Estrela, tenho dois dorsais para vos oferecer para o Onyria Running Challenge, gentilmente cedidos pela comunicação do Grupo Onyria.



A 2ª edição do Onyria Running Challenge irá decorrer a 12 de Julho, em Cascais, e consiste numa Corrida de 10km e Caminhada de 4 km (a oferta dos dorsais será apenas para a corrida).
O evento apoia a Associação Portuguesa Contra a Leucemia e o projecto CASA PORTO SEGURO, que tem como objectivo criar um local onde familiares de pessoas em tratamento no IPO de Lisboa possam ficar durante o decorrer dos tratamentos. Citando a página da prova, "os familiares e doentes, por questões de carência económica, ficam muitas vezes a dormir na rua, em carros ou em outros locais pouco dignos", o que é uma situação desumana que ninguém deveria ter de atravessar, sobretudo no apoio a alguém numa fase tão difícil. Assim sendo, o valor das inscrições será a favor da APCL e do projecto Casa Porto Seguro.

Como alguns já saberão, o cancro é uma doença que infelizmente já vivi e vivo de perto, por isso tenho o maior respeito por qualquer iniciativa que possa aliviar um pouco o sofrimento de quem a atravessa e facilitar o trabalho dos profissionais e voluntários. Se conseguir que este evento chegue ao conhecimento e participação de pelo menos mais uma ou duas pessoas, já fico feliz.

Para se habilitarem a ganhar um dorsal, basta enviarem o vosso nome e e-mail através do formulário. Os vencedores serão escolhidos aleatoriamente na próxima sexta-feira, dia 19 de Junho.



Para aqueles que, entretanto, se quiserem inscrever e obter mais informações, podem fazê-lo na página do evento

Boa sorte!


10 de junho de 2015

A(s) minha(s) Estrela(s) - Lenda e Realidade

"Esta é a história de um pastor pobre que vivia numa aldeia triste e tinha por única companhia um cão. Este pastor fitava o horizonte e o seu coração enchia-se de esperança de um dia viajar para além das montanhas que envolviam a sua aldeia. Uma noite de luar em que o pastor olhava o céu estrelado, desceu até ele uma estrela pequenina com um rosto de criança que lhe falou do seu desejo. Estava ali por vontade de Deus, para guiar o pastor para onde este desejasse ir. A partir de então, a estrela nunca mais abandonou o pastor, sorrindo-lhe do céu noite após noite. Até que veio o dia em que o pastor tomou a decisão de partir e chamou a estrela. Os velhos da aldeia abanaram as suas sábias cabeças a tamanha loucura. O pastor partiu e caminhou durante intermináveis anos. O seu cão não aguentou a dura jornada e ficou pelo caminho, marcado por um sinal de pedra. O pastor chorou e continuou em busca do seu destino, envelhecendo junto com a estrela até que um dia chegaram ao seu destino, à serra mais alta, a que ficava mais perto do céu e ali ficaram juntos. O rei da região mandou-lhe emissários com promessas de poder e fortuna em troca da estrela. O pastor respondeu-lhe que a estrela não era dele mas do céu e que nunca a abandonaria. A lenda diz que ainda hoje da Serra da Estrela é possível ver uma estrela que brilha mais do que as outras, de saudade e de amor por um pastor."

Lenda da Serra da Estrela




Esta é a história de uma menina pobre que vivia numa cidade triste e tinha por companhia os seus sonhos. Esta menina fitava os prédios que lhe encobriam o horizonte e o seu coração enchia-se de esperança de um dia viajar para a montanha mais alta e abraçar o infinito. Uma noite, enquanto navegava na Internet, descobriu a prova que lhe permitiria realizar o seu desejo. Estava ali, o OMD, para guiar a menina nesta conquista da sua Estrela. A partir de então, o sonho nunca mais abandonou a menina; iria conquistar não uma, mas setenta estrelas, e essa expectativa sorria-lhe nas noites antes de dormir e nas horas vagas do trabalho. Até que veio o dia da partida e a menina quase que chamava o Gregório com o nervosismo. Os velhos do Restelo abanaram as suas sábias cabeças a tamanha loucura. A menina partiu e correu durante intermináveis horas. Quase que não aguentava a dura jornada e temeu ficar pelo caminho, quando tropeçou numa rocha e bateu com os joelhos. A menina sentou-se nessa exacta rocha e chorou, de cansaço, exaustão, mas depois parou, olhou em volta, e seguiu o seu destino, envelhecida em físico mas de espírito renovado, até à meta mais desejada, a mais perto do céu, onde finalmente se reuniu com as suas 70 estrelas. Foi já de noite que ela chegou, entre fotos e sorrisos de desconhecidos, outros parceiros de jornada e companheiro de luta, que entendem que poder e fortuna era aquele momento. Parabéns, diziam eles e ela respondia que as estrelas não eram verdadeiramente dela, mas agora nunca mais a abandonariam. Esta história diz que ainda hoje, da Serra da Estrela, é possível ver a Constelação 70K, que brilha mais do que as outras, de saudade e de amor por uma menina.


História Real de uma Finisher do OMD 70k