24 de agosto de 2015

Vacaciones Parte II - O Mar

Tendo de escolher, seria a Montanha, sempre a Montanha... Mas o Mar, sendo tão diferente em matéria mas tão irmão na essência, tem quase o mesmo efeito sereno sobre mim. Bastaria inspirar a maresia e ouvir o barulho das ondas para me lavar a alma mas, como não gosto de facilitar, prefiro mergulhar o corpo inteiro. Já diziam os antigos que um banho de sal é bom para limpar as energias e eu, que conciliei o regresso às praias com o retorno aos treinos, tenho tido banhos de sal em abundância, seja na forma de suor ou de mar.

Os treinos têm sido sempre curtos. Mesmo quando atingem os dois dígitos, são sempre números baixos. Nos dias bons, de sol mas brisa fresca, podem chegar a ser um pouco mais "técnicos", com uma ou outra escadaria, dunas (arghh...) e trilhos em areia.




Não sei onde fica, mas ainda falta um bocadinho,
por isso é melhor sentar-me um pouco a descansar... ;)

Depois há aqueles dias em que o sol se esconde...




... e ficamos assim com extensos areais praticamente vazios, onde podemos correr livres e descalços.




Deixar a marca das pegadas em sprints feitos numa praia deserta...


... à qual se tem acesso por escadas estáveis e a inspirar segurança...


Mas não nos podemos queixar da vista, mesmo com nevoeiro.



E depois há aqueles dias da preguiça, em que o treino não passa de uma desculpa para o verdadeiro propósito, que é passar a tarde a mergulhos e ver terminar o dia, no paraíso. Nesses dias, os treinos são encurtados para números vergonhosos, mas não faz mal, porque a vida não é só corrida e restam poucas semanas de Verão.






Entretanto, e porque o regresso à rotina e aos desafios é inevitável, este fim-de-semana foi feito o primeiro grande treino pós-UTNLO. Perto de 20km, subida e descida à "montanha" possível.




Esta subida à Peninha, partindo do nível do mar, é desafiante porque, em menos de 9km, conseguimos um D+ de cerca de 700 metros. Tirando lá no alto, em que corria uma brisa fresca, estava calor, e houve ali um corta-fogo que foi especialmente difícil para mim... Estas semanas todas na ronha e depois admira-te!

Mas estou de volta (mais ou menos), vamos a isso!

14 de agosto de 2015

Vacaciones Parte I - A Montanha

Depois das duas últimas provas, em tão curto espaço de tempo, tinha decidido que iria descansar um bocado. E foi isso que fiz. Durante os dias que passei na montanha apenas corri uma vez, 6km, com o meu irmão (sim, o meu irmão também já corre!! Depois falo mais sobre isso, porque estou muito orgulhosa.)
No entanto, como não consigo estar verdadeiramente parada, tenho feito várias caminhadas e aproveitado para fazer "piscinas" na praia fluvial. E ainda bem que não consigo estar parada, porque a alimentação tem sido para esquecer... Estão a ver aquelas dietas que permitem um dia de desgraça por semana? Eu é logo uma semana de desgraça inteira. E nem falemos da "hidratação", se é que me entendem...
Mas bom, em férias não há horários e também faz parte. Depois espero voltar com mais vontade para me dedicar à próxima aventura que, em princípio, será a Serra d'Arga. Entretanto, fiquem com algumas imagens desta minha última semana.

Paisagem com vestígios de incêndio recente. :(
Havia um terreno aqui perto para venda, mas joguei no Euromilhões e não saiu...
A subir o vale.

Ribeirinha ao pôr-do-sol.
O gigante adormecido.
No topo do limite de freguesia.
Vai um mergulho? Está quentinha, juro. ;)
Abastecimento silvestre.

Não incluído nas fotos: calor seco, água de gelar os ossos, cheiro a pinheiros e figueiras (e, infelizmente, incêndios), ruído de água corrente e cigarras, sabor a amoras cheias de pó do caminho.

Boas férias (se for o caso)!

8 de agosto de 2015

Ultra Trail Nocturno da Lagoa de Óbidos


- "Calma, isto é uma subida, vamos caminhar. Ainda falta muita prova."

Na noite de 1 para 2 de Agosto, os deuses do trail estiveram comigo quase até ao fim. Como que para equilibrar a balança, o UTNLO não poderia ter corrido de forma mais diferente do CUT. Num, o drenar completo de energia, no outro, sempre ligada à corrente! Aproveitando o percurso maioritariamente rolante, queria correr e correr, estava fascinada com o raro momento de simbiose mente/corpo na corrida. Além disso, de noite todas as subidas são pardas, parece que custam muito menos. Tiveram de me refrear os ânimos várias vezes, com medo de que viesse a pagar a factura mais tarde.

Tens razão, ainda falta muita prova. Não quero estragar o carma e embater num muro monumental. Caminhemos.


Ultra Trail Nocturno da Lagoa de Óbidos


Em relação ao quanto eu gosto da ambiência desta prova, não há muito mais a acrescentar, podem ler o que escrevi sobre as edições de 2013 e 2014. E mantenho também o que já tinha achado anteriormente: esta prova, durante o dia, seria uma tortura, com os seus estradões intermináveis e dunas, a aliar à humidade que já de noite é difícil de suportar. Mas também nos proporciona um dos locais de partida mais bonitos, numa das melhores alturas para visitar a Vila.



Hidratação pré-prova. (E o segredo da inesperada energia??)

O medieval e o moderno.
Este ano a partida das provas era feita em simultâneo. Manter a partida simbólica de mais de 500 atletas no Jogo da Bola foi como tentar meter o Rossio na Rua da Betesga.


Quando chegámos, já nem dava para entrar lá em cima, por isso iniciámos a descida pelas ruas da Vila numas escadas um pouco mais abaixo. Depois da passagem no pórtico, já fora das muralhas, os atletas das diferentes provas seguem em direcções opostas, com os dos 25km a seguir em frente e os da Ultra a virarem à esquerda, juntamente com os dos 10km. Os primeiros quilómetros acabaram por ser um pouco congestionados, entre quem começa com maior velocidade para completar a distância mais curta e quem tem a noite toda. Mas recordo-me que irei passar esta primeira fase em despique com um atleta muito especial, um pastor-alemão, munido do seu próprio frontal, que acaba por se tornar uma mascote colectiva. Apesar da concorrência desleal, ele tem quatro patas, eu só duas (haviam de vê-lo a atacar as subidas), vai haver um ponto em que vamos deixá-lo para trás, para nunca mais o ver (mas apenas porque foi obrigado a esperar pelo dono, justiça seja feita).

Tirando as partes mais icónicas, como as arribas e a lagoa, é difícil lembrar-me de detalhes do percurso. Será muito disto:


E disto:

:-)

Sei que por volta dos 3km surge a primeira "grande" subida, que provoca algum engarrafamento, com viaturas encostadas à esquerda e outras a tentar ultrapassar pela berma direita, num claro desrespeito ao código da estrada do trail.



Lembro-me também do pó. Muito pó no ar, levantado pelas passadas dos atletas da frente e que o foco do frontal perfura como um sabre de luz. Sente-se a entrar na respiração, a arranhar a garganta e os pulmões. Ainda por cima respiro pela boca, claro, que a humidade é muita e o passo é de corrida. Não é bonito cuspir? Não faz mal, está escuro, ninguém vê.
A seguir ao pó, o incêndio. O ar abafado, o cheiro a cinza... Houve ali uma altura em que o vento mudou e nos trouxe o cheiro de algum fogo nas redondezas. Os tons típicos que encobrem o céu de uma lua fantástica não dão margem para dúvidas. No entanto, não é perto o suficiente para assustar.

Este ano achei os quadradinhos reflectores ligeiramenteee maiores. Mesmo assim, havia locais em que ficavamos com algumas dúvidas. Bastava o reflector estar enrolado a alguma cana, ou ramo, deitado abaixo por um atleta anterior, e já tínhamos de fazer ali algum trabalho de busca. Mais do que uma vez avistámos outros pirilampos mais à frente, às voltas, sem saberem para onde seguir. O meu frontal não era mau de todo, mas ainda bem que ia acompanhada por uns máximos!

Entretanto íamos bem e com folga para passar no corte do km39. Não tenho dúvidas de que, tal com disse, se fosse de dia já teria parado várias vezes para caminhar, mas o escuro da noite estava a afastar-me a dificuldade dos olhos e, por conseguinte, da mente. No abastecimento líquido, aos 10km, tinha tomado o primeiro gel e no abastecimento dos 24km comi fruta e bolachas.

Antes da Foz do Arelho ainda vamos apanhar uma zona de dunas. Ali ao lado ouve-se o mar. Vem-me à memória a famosa canção dos GNR e começo a cantá-la na minha cabeça.
- "Não te distraias, vai com atenção!"
Afinal parece que ia a cantar em voz alta e entendi a indirecta para me calar. :-)
A Lua Azul da noite anterior, ainda quase cheia, ilumina as arribas que percorremos. Depois do CUT fiquei vacinada, por isso não me vão parecer assim tão más, embora a descida tenha de ser feita com muito cuidado. A folga horária que tínhamos começa a ficar mais apertada.

Com cerca de 37km o vento traz-nos o som de música muito alta. Irá acompanhar-nos até atraversarmos o passadiço e descermos as escadas até ao abastecimento do corte, junto à praia, com cerca de 6h20 de prova. Conseguimos.
Tiro uma banana e uns bolinhos e, enquanto como, olho para o outro lado da baía, onde está montado um palco cheio de luzes e centenas de pessoas dançam incentivadas pelo DJ. Então é assim que as pessoas normais fazem noitadas? Já nem me lembrava. São quase 4h da manhã.
- "Bora?"
- "Bora."
Retornamos a corrida.
Prefiro esta minha noitada.


Mais uma foto de uma paisagem fantástica. ;-)
Irão seguir-se os intermináveis quilómetros que circundam a lagoa. Às vezes, se fechar os olhos, parece que ainda lá estou. Dois frontais, o luar reflectido na água, os pés que batem o estradão a ritmo certinho e os quilómetros que não passam. Estamos numa roda de hamster que não vai dar a lado nenhum, dei por mim a pensar. Aquela tenda, aquele pescador que dorme agarrado à corda, esta tenda, este pescador que dorme agarrado à corda... E as luzes do lado oposto da lagoa que parecem sempre as mesmas.
Quebro o silêncio para dizer: "bebe água", no momento em que eu própria me lembrei de a beber. Se não estivesse com a roupa toda molhada da transpiração, devido à humidade, era fácil esquecer-me de hidratar, a luz da lua não queima como a do sol... "Bebe água", vou repetir várias vezes durante a prova, sem saber ainda como uma coisa tão simples irá ser tão importante.

O abastecimento do km49 é um sacana! Anuncia-se cheio de luz, com holofote gigante, e parece que é já ali, mas ainda são uns 2km de curvas e contracurvas até lá chegar. Lembro-me dele de anos anteriores, este trajecto já é conjunto com a prova dos 25km e tenho a impressão que todos os anos exclamo a mesma coisa: "Porra, rai's parta o abastecimento, que nunca mais lá chego!" No entanto, lembro-me que em anos anteriores cedi a caminhar, desta vez não. Doíam-me já as pernas, mas o ânimo estava alto. Depois, chegámos finalmente ao último PAC, e tudo mudou.

O A. sentou-se e não quis comer nada. Levei-lhe água e, só a visão do copo, deixou-o agoniado. Ainda não íamos com 8 horas de prova, o que nos deixava mais de 2 horas para fazer os restantes 8 km (pensavamos nós, acabou por ser um pouco mais), tempo suficiente, caso não houvesse grandes dificuldades no percurso. Por isso sentei-me também, e aproveitei para mudar as pilhas do meu frontal. Mas o tempo ia passando e o enjôo continuava. O pouco que tinha bebido e comido durante a noite estava a deixar as suas marcas. Chegavam e partiam novos atletas e ele sem sinais de melhorias. Entretanto, começava a nascer o dia e decidimos ir a caminhar e ver como nos sentíamos. Cruzámos o tapete de leitura dos chips com 8h02 de prova.

Houve uma altura em que parecia que tudo ía correr bem. As sinalizações, à luz do dia, eram extremamente difíceis de seguir, mas estava quase. Intercalávamos corrida com caminhada, a um ritmo mais lento do que até então, mas suficiente para terminármos nas calmas. Penso que na altura o A. já só se esforçava para correr por causa de mim, mas eu ainda não tinha percebido. Foi então que, já de dia, avistam-se as muralhas ainda ao longe, quando pensavamos faltar já só  2km até à meta. Foram os 2km mais duros. A caminhada ficou reduzida a um arrastar que custava ver. Eu digo "vamo-nos sentar", ele diz "segue tu, eu não aguento mais", eu respondo "ainda temos 1hora para fazer estes 2km, é tempo suficiente, calma"... Já disse que foram os 2km mais duros? Não da prova em si, apesar de haver ali ainda uma zona de subidas auxiliadas a cordas que se dispensava nesta fase, mas da luta, das dúvidas, da impotência.
- "Deixa-me aqui, vai tu terminar a prova."
- "Achas que te vou deixar aqui sozinho nesse estado?? Não digas disparates!"
- "Segue tu, não aguento mais"
- "Vamos sentar-nos"
- "Segue"
- "Não"
- "Segue"
- "Não"
Foi uma luta de argumentos e teimosia, entre orgulho e preocupação. Para mim, não me passava pela cabeça deixar alguém, que se estava a sentir mal, sozinho. Não queria saber se faltava 1km ou 100. Cheguei a considerar ligar para a organização a dizer que desistíamos, ficavamos por ali. "É só uma prova, não vale a pena estares nesse sacrifício, e eu terei muitas outras para me sentir bem e terminar".
Com tudo isto chegámos às muralhas. E eu percebi, pelo olhar, que ele já não ia cortar aquela meta. Aquela subida pelas traseiras do castelo, até à Porta da Traição, era a gota de água para um organismo em rebelia. Faltavam pouco mais de 500 metros, seria morrer na praia, mas isso já não era importante. Por qualquer razão, apenas era importante que eu concluísse. Para ele, não para mim. E foi isso que fiz, não sem alguma discussão e a promessa de que não ía cair para o lado quando eu virásse costas. Faltavam menos de 10 minutos para o tempo limite das 10 horas, e fui com raiva.

Vou ser a última atleta a cruzar a meta dentro deste tempo limite, que percebi depois que foi alargado. Quando cheguei, a minha preocupação foi dar o número de dorsal do A., para avisar a Organização de que ele tinha desistido, mas parecia que ninguém sabia o que fazer com essa informação... Não é suposto apontarem os DNF, por uma questão de controlo? Se alguém cruzou o último PAC com 8 horas de prova, e depois não cortar a meta, não convém assegurarem-se de que desistiu e que não ficou para aí caído numa ravina? A mulher que estava a apontar as chegadas, quando cheguei ao pé dela para dar o aviso, perguntou-me um "que foi?", tão enfadado, que em qualquer outra ocasião me teria chegado a mostarda ao nariz, mas tendo em conta a situação nem quis saber. Informei o que achei que devia informar e virei costas, para ir ver se estava tudo bem com o A., que entretanto já vinha a subir pela entrada principal da Vila. Por outro lado, os bombeiros que lá estavam e ouviram a conversa foram muito prestáveis e mostraram-se logo disponíveis a acompanhar-me, se fosse necessário. Não foi.

Óbidos, 7h30 da manhã.

Passado umas horas já se brincava com o facto de termos levado 1 hora para fazer 2 km, e que deveríamos chamar o jurí do Guinness porque, de certeza, desistir a cerca de 500 metros da meta deverá ser algum recorde nacional, quiçá mundial! Mas... Não me esqueço do quanto custaram aqueles quilómetros finais. E aquela chegada deixou-me com sentimentos dúbios em relação a voltar ao TNLO.

Valeu pela minha primeira experiência de passar uma noite inteira a correr (foi, literalmente, do pôr ao nascer do sol) e pela partilha. Aprendemos sempre muito, sobre nós, sobre os outros, em situações extremas, mas o que se aprende melhor é que com companhia tudo é mais fácil. Vivi os dois lados da balança no espaço de 15 dias e agradeço ao companheiro de corrida o esforço que fez para me acompanhar nos dois.

Até à próxima, que, em princípio, será só em finais de Setembro. Boas férias! :-)


3 de agosto de 2015

Kms de Julho

Contagens do mês de Julho

- Distância:  185,5 km  (15 actividades)

   . em estrada: 75,9
   . em trilhos: 109,6
- Horas a correr: 27:11:07
- Ganho de elevação total: 4169  metros

(Total ano: 1396 km)

Kms a pedalar: 32 (3 actividades)

Mais um mês que ficou aquém da média 200km/mês, mas isto porque aqui há uns tempos achei boa ideia inscrever-me para duas Ultras no espaço de 15 dias... Assim sendo, entre tapering e recuperação, os treinos acabaram por ser menos e com menos quilómetros. Pelo menos, alguns foram pelos bonitos locais do costume.


Houve direito a encontro com vida "selvagem" e tudo...

Auuuuu...

Quanto às provas, já vos falei da saga do Caldas Ultra Trail, aqui. Este sábado, regressei pela terceira vez ao TNLO, a primeira em versão Ultra. 50km nos anos anteriores, que este ano passaram a 55, que foram na realidade 57.

Muralhas de Óbidos ao anoitecer.

Desta vez estava nos antípodas do CUT. Senti-me bem, cheia de energia. Mas ao km49 vi-me num papel em que nunca tinha estado antes... O papel de quem espera, de quem ajuda, de quem se preocupa com quem está a atravessar o seu momento de "morte"... Não sei se o fiz da melhor forma. Ver quem nos acompanha em sofrimento, não é fácil. Não sabemos se havemos de incentivar a continuação, ou, por outro lado, devemos aconselhar a parar. Não sabemos se havemos de falar ou ficar em silêncio, insistir para comer ou beber, sentar ou caminhar... Sentimo-nos impotentes. Prefiro quando sou eu a "morrer" em prova, ao menos já sei como gerir.
Depois de uma grande luta, depois de praticamente ter também desistido de concluir, fui "obrigada" a cortar a meta sozinha.
Desta vez, quando cortei a meta, não sorri.

No fim, ficou tudo bem. Cada prova é uma história. A história de uma noitada em Óbidos, a seguir.