28 de outubro de 2015

Buen camino!

Uma das poucas coisas que não gosto nesta época é, sem dúvida, a mudança horária, que, aliada às cada vez menos horas de sol, faz com que os meus treinos de final de dia sejam sempre "nocturnos". Uma coisa boa é, por vezes, poder correr sob luares magníficos às sete da tarde.
ERA magnífico, juro... Mas na câmara do telemóvel encolheu umas cinco vezes.
Ontem fiz aquele que será, em princípio, o meu último treino do mês. Como alguns de vocês adivinharam, a minha próxima aventura será o Caminho de Santiago.
Segue as setas!
Vou voltar e conhecer uma parte do Caminho Central Português que ainda não conheço. Não é corrida, mas uma média de 25-26km de caminhada por dia vão manter-me bastante activa.
Entretanto, a pedido de várias famílias (ok, foram só duas pessoas...) vou tentar manter um registo fotográfico do percurso.
Como, às vezes por falta de tempo, ou história, para escrever a crónica que as acompanha, há muitas fotografias tiradas em treinos e provas que ficam por partilhar, resolvi criar uma conta no Instagram para guardar alguns desses momentos.
Já lá pus algumas fotos de paisagens mete noj... lindas! :)
Tentarei partilhar algumas durante o Caminho, caso as condições climatéricas e o wi-fi nos albergues sejam favoráveis. Caso entre em retiro das redes sociais (o mais provável), quando voltar espero ter boas imagens, e respectivas histórias, para mostrar e contar.
Agora, vou ali criar memórias e já venho! Até breve.
Bom Caminho ->


26 de outubro de 2015

Novos companheiros de asfalto e a próxima aventura


Lembram-se de ter referido que andava com uma moinha no joelho direito depois dos treinos? Como nos últimos dois treinos antes de Arga, e no dia da própria prova, essa dor não se manifestou, pensei que tivesse sido alguma dor "fantasma", psicológica, do nervoso pré-prova. No entanto, mal voltei aos treinos, lá estava ela novamente. Foi então que comecei a pensar que talvez pudesse estar relacionada com o calçado. Não podia ser por acaso que a moinha só se manifestasse após os treinos em que não estava com os ténis de trail.
Tenho dois pares de ténis de estrada, sendo que os primeiros já têm, literalmente, milhares de quilómetros nas solas, uma vez que foram comprados em 2012, quando treinava para a minha primeira Meia Maratona, e os segundos, embora mais recentes, não ficam muito atrás em quilometragem. Embora, na minha opinião, aquilo que habitualmente é  indicado como limite de vida útil de uns ténis - 600-800km, pelo que tenho lido - seja um exagero de marketing  (e, dessa forma, teria de comprar três pares ou mais por ano, o que está fora de questão), a verdade é que já estavam muito gastos e, quer a moinha fosse resultante do calçado ou não, já estava na hora de comprar uns ténis novos. Desconforto = hora de investir.
E foi assim que surgiram os Mizuno Wave Maverick 2 nos meus pés.

Razão número um da escolha: estavam com 40% de desconto. Razão número dois: não são os meus fiéis asics, mas são igualmente nipónicos. Razão número três: achei-os extremamente confortáveis a primeira vez que os experimentei e continuo a achá-los agora, cerca de 80km depois. Têm a estabilidade necessária à minha pronação, mas sem serem demasiado pesadões, e sinto-me a pisar nuvens sempre que os calço. Nem precisei de trocar de palmilhas, o que às vezes tenho de fazer devido à pouca curvatura no arco dos pés. E, ainda é muito cedo para dizer mas, como têm tecido reforçado, parecem-me mais resistentes a rasgões (geralmente, ao fim de um ou dois meses de uso, rasgo sempre alguma costura de lado ou rompem-se à frente).


Devia era ter-me lembrado de tirar uma foto quando eles ainda estavam novinhos e limpos... Para compensar, uma tentativa de foto artística com a lua (e centenas de mosquitos a voar) no horizonte:

Catálogos de running, não fiquem com inveja da minha criatividade fotográfica. :)

Não sei se foi efeito placebo, provavelmente não, mas a verdade é que desde que comecei a correr com os ténis novos nunca mais tive essa moinha depois do treino. Espero que se mantenha assim, que tenho muito a recuperar até ao final do ano.


Entretanto, quem adivinha qual será a minha próxima aventura?



Uma dica: não é corrida, mas envolve percorrer muitos quilómetros...


Boa semana!
 


20 de outubro de 2015

Kms de Setembro (e um temporal)

Com um bocadinho de atraso e dados incompletos (desde que actualizei o Garmin Connect para Express tenho tido algumas complicações a sincronizar, alguém com o mesmo problema?), mas aqui fica a informação quilométrica em relação ao mês mais preguiçoso do ano:

Contagens do mês de Setembro

- Distância:  172,7km  ( 12 actividades)
   . em estrada: 80,5
   . em trilhos: 92,2
- Horas a correr: ?
- Ganho de elevação total: ?

(Total ano: 1749,3 km)

Kms a pedalar: 0 (zero, nicles, niente)

Entretanto, e sem objectivos de maior até ao final do ano (embora ainda esteja a pensar participar em uma ou duas provas) tenho corrido sem grandes planos. Tem sido melhor assim, já que estava claramente a atravessar uma fase de desmotivação e desta forma, sem pressões, voltei a somar quilómetros e a ter mais vontade de sair para correr novamente. É que, parecendo que não, 2016 está aí ao virar da esquina... (#omd100k+.)

Além disso, estamos na minha estação favorita para correr, com temperaturas e paisagens mais frescas.


No passado domingo os estragos do temporal do dia anterior eram visíveis em Sintra, com alguns dos trilhos habituais de treino completamente obstruídos.



Embora não tenha sido tão agressivo quanto o de há dois anos, que ocorreu em vésperas do G.P. Fim da Europa, ainda provocou algum caos. Ainda bem que o treino que tinha previsto ser feito no sábado foi adiado para domingo, teria sido assustador (e perigoso) correr por lá com aquelas condições.


Dá pena ver a queda de dezenas de árvores centenárias, para já não falar nos prejuízos do património, mas a natureza por vezes também é assim, implacável. Quem for para lá treinar nas próximas semanas tenha em atenção que a limpeza ainda irá levar algum tempo.
Contudo, a Serra e a Vila de Sintra não perdem o seu encanto.


E quem aproveitou as primeiras chuvas para correr a exibir o seu colete de finisher mái lindo, quem foi?...

 

Toda contente e vaidosa, até corri com melhor espírito e tudo! (Infelizmente, não foi o espírito do Sá, como pude depois comprovar pela média min/km...) :)

Boa semana e bons treinos!



16 de outubro de 2015

GTSA: O Bom, o Mau e o Vilão

Depois da história, a conclusão. Como nos contos e fábulas, onde há sempre uma moral a retirar, numa prova, independentemente do quão bem ou mal correu, há sempre uma ou outra coisa que fizemos bem e uma ou outra lição que aprendemos. Ao pôr por escrito é mais fácil apercebermo-nos  dos nossos pontos fortes (e, com sorte, repeti-lo na próxima) e daquilo que temos de melhorar (e depois tentar melhorá-lo).
Aqui fica o que correu bem, menos bem e aquilo sobre o qual não tive qualquer controlo, em Arga. (Intercalado com fotos aleatórias do pré e pós prova, só porque sim.)

Local de levantamento dos dorsais, na noite de véspera.

No centro histórico de Caminha, by night.


O Bom

1) Mantive um ritmo.
Muito lentinho, é certo, mas nunca cheguei ao ponto de exaustão de outras provas, em que nem nas rectas consigo/quero correr. Pode ter a ver com o facto de ser uma mariquinhas e começar sempre de forma muito conservadora (demasiado, dirão alguns), mas não sei se alguma vez isso irá mudar e, desta vez, nem poderia ser de outra forma.

2) Portei-me mais ou menos nas subidas.
Tendo em conta o deserto de treinos e reforço muscular dos dois meses anteriores, o facto de não querer morrer a cada metro de ascensão (pelo menos até aos 46km) foi uma agradável surpresa.

3) Continuei a sorrir.
Nem sempre com os lábios, confesso, mas sempre com a alma (awww... :)). Tirando um breve iatus depois do último abastecimento, não havia outro local em que preferisse estar.

Passeio matinal de despedida, junto ao Rio Minho.

Forte da Ínsua, ao fundo.


O Mau

1) Correr em terreno técnico, sobretudo a descer.
O maior objectivo para provas futuros será melhorar nas descidas. Especialmente, mas não só, aquelas que envolvem pedras e raízes. Já tentei anteriormente e sempre sem sucesso. É frustrante ser ultrapassada por todágente, um caracol e um sardão de três patas quando vamos a descer uma encosta... (No entanto, tenho conseguido manter a dentição completa nestes últimos anos de trail, há que ver o lado positivo.)

2) Ser derrotada pela Senhora do Minho mesmo antes de a começar a subir.
No momento em que pus um pé naquela subida, já tinha perdido. Como vos disse, aquele pico nem é assim tão mau, mas eu já ia com o estado de espírito errado, devido a fantasmas do ano anterior.

3) Não ter em atenção o equipamento.
O elástico dos calções que levei já estava um pouco lasso nas pernas, mas não dei importância... Erro indesculpável de principiante. Como já não ajustavam bem, com o movimento foram subindo. Um ou dois centímetros foi o suficiente para acabar com uma assadura nas duas pernas tão grande que ia chorando no duche. Também notei na manhã da prova que me tinha esquecido da vaselina. Claro. E do protector solar.

Espanha à vista!
A exibir a jersey do GTSA no dia seguinte,
porque as pessoas precisam de saber a razão do andar torto. :)



O Vilão

Sol.
Não tanto o calor, mas a luz do sol sempre a bater-me directamente afecta-me bastante, ao ponto de às vezes já não conseguir concentrar-me noutra coisa. Não há muito que possa fazer em relação a isso, excepto evitar provas no Verão, coisa que já faço. Ainda bem que o GTSA é no Outono...;) Talvez tenha melhor sorte para o ano!


Almoço de recuperação (de calorias), no Porto.

Bom fim-de-semana!



8 de outubro de 2015

Grande Trail Serra d'Arga

No momento em que resolve levantar a vista do chão para, depois de mais uma infinitude de passos arrastados, confirmar se é desta que está finalmente mais perto do topo, ela vê-os. Descem pelo trilho que terá de subir. Não estão a mais de cinco metros de distância, mas não parecem ter medo. Param e observam os espécimes coloridos de mochila às costas que invadem a sua serra, com, parece-lhe a ela, alguma curiosidade sobranceira. São fantásticos. Ela nem respira, para parar o tempo. Depois do espanto da novidade inicial, os restantes três parecem decididos a prosseguir, cortando para subir o monte à esquerda, mas o líder continua a olhar para ela. Ela sabe que ele é o líder porque responde com um relincho e uma cabeçada no dorso do companheiro, quando este, impaciente, parece querer que ele avance. O líder olha-a uma última vez e depois sacode a cabeça e segue a restante manada. Ao seu tempo e quando quis. Ela fica ainda um bocadinho a observar a cena, a pensar na sorte que teve de viver este momento. Os cavalos da Serra d'Arga. Garranos. Tão ágeis, tão livres. Depois segue também. Ao tempo que consegue e conforme as pernas deixam.



Subida à Senhora do Minho (km25)

- 4h30, bolas, já vou com atraso.
Foi ali, prestes a chegar ao PAC dos 25km, que eu me apercebi que, muito provavelmente, o objectivo de fazer melhor tempo que em 2014, já era.
Foi depois de conversar um bocadinho com outro atleta (que me pareceu ser leitor deste cantinho, embora não se tenha acusado directamente :)) sobre as dificuldades da subida que se seguia, que olhei pela primeira vez para o relógio e me pus a fazer contas. Já ia com mais 15 minutos do que no ano passado, no mesmo local. Eu sei, porque me lembro perfeitamente de, um ano antes, ter olhado para o gps no início da subida, só para ver quanto tempo me iriam levar aqueles cerca de 3,5km. De qualquer forma, páro na mesma no abastecimento e como qualquer coisa.
Uma das estratégias, na qual tinha pensado previamente, era não demorar mais do que 3 ou 4 minutos em cada abastecimento, ficando apenas mais tempo no PAC dos 33km, se necessário. É que, bem feitas as contas, 5 minutos em cada abastecimento (num total de 5) significariam 25 minutos a mais no tempo final, e essa poderia fazer toda a diferença. No entanto, serei forçada a admitir a falha no meu plano logo no abastecimento de Arte na Leira, aos 17km. O calor que se fez sentir levava a que fosse necessário reabastecer o depósito de água em todos os abastecimentos, com a logística e espera que isso implicava.

Inicio a subida da Senhora do Minho já com o espírito um bocado derrotado, e acho que isso fez toda a diferença. Para ser sincera, acho que esta subida não é o bicho-papão com que fiquei na ideia o ano passado, mas a consciência do atraso e o sol a pique tornaram-na, novamente, uma experiência dolorosa. Dizem as más-línguas que até precisei de reboque durante um bocado, mas como não há fotos não há provas. ;)

Este ano não tenho fotos da Senhora do Minho. Fica uma do ano passado.

Antes da última escalada de cerca de 50 metros, que nos leva ao seu topo, ainda me vou sentar um bocadinho à sombra de uma rocha. Estava lá uma pedra colocada mesmo a jeito de um convidativo banquinho, juro! Nas passadas finais da conquista do cume, disfarço e ergo os braços ao alto, em modo de vitória, para os fotógrafos. Dirijo-me para as torneiras junto à torre, para abastecer e refrescar. Este ano não ouvi anjos a cantar, mas a música de um órgão saía do Santuário da Senhora do Minho e compunha o ambiente.

Senhora do Minho: 2, eu: 0. O campeonato continua para o ano. Entretanto, deixa-me cá sentar mais um bocadinho, à sombra, que este sol das 13h mata-me. E pensar que às 8h, quando partimos, em Dem, estava um nevoeiro brutal.

A partida

- Raios, #$%@@# mais a bexiga nervosa!
Faltam 12 minutos para a partida, ainda nem fiz o controlo zero, e estão cinco mulheres à minha frente na fila para o wc. Já não basta ter dormido muito pouco, não ter bebido café e ter apanhado alguns nervos para estacionar e agora esta pressão do tempo. Mas lá me consigo despachar ainda com uns minutos para tentar posicionar-me na partida.


A neblina cerrada e fria fazia questionar a decisão da Organização, divulgada dois dias antes na página oficial, em dispensar os impermeáveis do material obrigatório. Eu, pelo menos, trazia o meu vestido. Mal sabia que bastariam 3km para ficar acima das nuvens e ficar exposta ao sol durante todo o dia...



Tal como em anos anteriores, as oito badaladas do sino da igreja dão o mote para a partida e, em semelhança a 2014, fazemos um percurso circular pelas ruas de Dem, de forma a espaçar o pelotão, antes de iniciarmos a primeira grande subida.

Em seguida, emergimos do mar de nuvens e...


sobe...

E sobe...


Tanta gente concentrada e focada no seu esforço... Mas quem não olhou em volta perdeu o espectáculo da natureza que ficava para trás.




Esta primeira subida é logo um belo aquecimento para as nossas "cruzes", mas as pernas ainda vão frescas e aguenta-se bem. Provavelmente comecei de forma muito conservadora, sou assim, vou sempre na retranca, com medo de abusar e pagar mais tarde. Por isso, cheguei fresca e fofa ao topo, só para passar os 4km de descida que se seguiram a ser passada por toda a gente, devido à minha manifesta falta de jeito a descer por aqueles trilhos mais técnicos! Mas o dia vai ser longo e a manhã ainda está amena, sigo feliz.

 A Meta

Vejo os segundos a passar no cronómetro ao lado do pórtico. 53seg... Oiço o speaker. 55seg... Oiço aplausos. 57seg... Oiço aplausos ainda mais fortes e incentivos, quando acelero para a meta e quem assiste confunde este meu sprint como uma corrida para ficar bem na fotografia. +1seg... Mas este meu sprint final era apenas uma corrida de orgulho imbecil numa tentativa de terminar abaixo da hora determinada. Falhei por 1 segundo, diz o cronómetro. Falhei por mais de 40 minutos, diz o meu tempo de 2014. Falhei por mais de 1 hora, diz aquela que em mim traçou os objectivos.
O Grande Trail Serra d'Arga não é uma prova que se faça de ânimo leve, nem à qual se vá destreinada. Paguei por isso, sofri bastante nos últimos 20km. De Arga tempestiva em 2013, à Arga doce em 2014, passei à Arga impiedosa em 2015. Sempre diferente, sempre especial. Todos os que alguma vez lá vão podem confirmá-lo, esta Serra tem algo de único. Ganhei pela viagem. Volto para o ano.

São Lourenço da Montaria (33km)

- Não tivesse eu vindo de tão longe e ficaria por aqui.
Não tivesse eu feito mais de 400km para regressar a Arga, e teria encurtado a jornada para os 33km, não tenho dúvidas. Penso nisto enquanto como pipocas salgadas no PAC da Montaria e olho com alguma inveja para os atletas dos 33km, que se estendem pelas sombras do relvado, ou conversam alegremente, enquanto bebem umas minis, na zona de merendas.
Esta última descida até aqui foi um suplício. Sempre a tentar poupar o joelho que se tinha manifestado nas últimas semanas (mas que graças a Deus se manteve silencioso durante a prova) fiz uma dança disparatada e lenta pelo monte abaixo. Revelo já inícios de um belo bronze do lado esquerdo, lado que estará maioritariamente exposto ao sol ao longo da prova, fruto do esquecimento do protector.

Ninguém merece estar a sofrer com este calor. Quando, depois da Senhora do Minho, tentei aproveitar as rectas para correr, o meu corpo quase se rebelava. Que estás a fazer? Não vês que está quente? Queres que eu me mova mais rápido? Ahahah, que piada... Vamos mas é movimentar-nos como um caracol com calma e poupar líquidos e energia. Nada do que a minha cabeça argumentou pareceu fazer efeito. Cheguei à Montaria já muito perto do tempo de corte, mentalmente exausta, vermelhinha, e já com umas quantas assaduras a formarem-se devido ao roçagar piorado com o suor. Sabia que se iria seguir a zona do Vale do Âncora e tinha esperança que as suas cascatas e sombras frescas me animassem. Olho mais uma vez para os atletas que ficam (e muitos ficarão por ali), enfio mais uma mão cheia de pipocas na boca, e continuo.
Atravessamos as ruas sem sombras, quase desertas de habitantes que devem estar a esta hora a almoçar. O meu olhar tenta evitar o monte que sabe que ainda teremos de subir e lembro com saudades a minha Arga de 2013, chuvosa, tempestiva. Não seria fácil correr tantos quilómetros encharcados, mas para mim a Serra será sempre mais linda assim, numa revolta de elementos. Agora contento-me com molhar o boné na fonte à saída da povoação e deixar escorrer as gotas. Vai ter de servir.




Pedrulhos (km 44,5)

- Então, que achas, continuamos?
Sabemos que não estamos mesmo a ter uma boa prova quando, a 8km do fim, nos questionamos se ficamos por ali. Os últimos 3 ou 4 quilómetros, antes de chegar a este último PAC, pareceram-me intermináveis. Como não víamos ninguém há imenso tempo, primeiro temi estarmos perdidos, depois questionei-me se ainda estaria mais alguém em prova...
Algures pelos montes de Arga o meu telemóvel assumiu a hora espanhola e eu, que não reparei, deduzi que estava com um atraso ainda pior do que pensava. Como é possível ter levado tanto tempo a fazer estes 12km, como?? Confrontando com os dados do gps as contas não batiam certo mas, naquela altura, até a mais simples soma ou subtracção exigia muito esforço! Quando, finalmente, me apercebi que afinal tinha menos uma hora de prova do que pensava, foi o ímpeto que me faltava para me levantar do muro em que estávamos sentados e decidir seguir. Sabia que já não iria conseguir terminar abaixo das 10h e, por causa disso, a grande parte dos atletas que estava naquele abastecimento resolveu ficar por ali. Dos que estavam, apenas mais dois atletas seguiram connosco. Na altura era uma incógnita se iriamos sequer aparecer na classificação. Tinha ouvido uns rumores durante a prova de que o tempo de corte e respectivo tempo limite teriam sido alargados, mas nenhum dos voluntários soube confirmar. Para os dois atletas que se juntaram a nós era a estreia em Arga e a sua inocência era uma bênção. Já eu, infelizmente, sabia muito bem o que me esperava... E sim, resolvi seguir na mesma. (Queria o meu colete de finisher, raios!)

Passado 1km já estava mais do que arrependida. Quero lá saber do colete, vou-me sentar aqui e mandem um helicóptero buscar-me! Subir novamente a montanha, depois de 46km, e ainda com calor, é tão divertido como soa... Na minha cabeça vociferava impropérios contra a teimosia em continuar, apenas para ir naquele sofrimento e, ainda por cima, forçar o mesmo sofrimento a quem me acompanha. Foi quando ia neste ruído mental que se deu o encontro com os garranos. Este momento, que não teria vivido caso tivesse decidido regressar a Dem de rabo alapado na carrinha da Organização, deu-me o alento que faltava. Recordava-me ainda do exacto local, o marco geodésico, onde a subida terminava e se podia avistar a meta ao fundo. Já não devia faltar muito, não podia era parar.

3km para Dem

Mas parei, ao km49, para tirar esta foto.... A PAZ.

Sim, mais uma vez esta fotografia, porque a paisagem merece. :)

Corria uma brisa agradável e agora seria sempre a descer até à freguesia. Não faço ideia do que custará mais, se subir esta encosta no início da prova, mas com as pernas ainda frescas, ou descê-la ao fim de 50km... Deve ser engraçado analisar os dados para ver o que levou mais tempo, mas ainda não o fiz. De qualquer forma, não sei se foi só por alívio relativamente aos últimos quilómetros penosos, mas penso que este ano esta descida já não me custou tanto. Pelo menos ainda conseguia dobrar as articulações, coisa que não aconteceu em 2014. :)
Na entrada de Dem desato numa correria contra o tempo. Este ano a chegada não era no local da partida, como em anos anteriores, mas sim um pouco antes da igreja, virando à esquerda de forma a fugir da estrada principal.

Avisto a meta. Finalmente, depois de tanto cansaço, desilusão, dúvida, mas também momentos únicos, a meta.

"Vejo os segundos a passar no cronómetro ao lado do pórtico. 53seg... Oiço o speaker. 55seg... Oiço aplausos. 57seg...(...)"