20 de abril de 2016

Montes Saloios #1 e rolar na Quinta do Pisão

Há umas semanas, através de um amigo que fez a prova, arranjou-se o track dos Trilhos da Costa Saloia.
Como, desde que fiz a actualização para o Garmin Express, deixei de conseguir fazer uploads dos tracks para o meu FR410 (grrrr... Mais alguém com este problema?), a solução foi instalar uma aplicação no telemóvel e seguir o trajecto dessa forma. Assim sendo, estava há três semanas à espera que o tempo melhorasse para ir testar este percurso, uma vez que, com chuva, seria mais complicado manter o telemóvel à mão. Acontece que o tempo tem estado sempre instável e sair para treinar é como uma lotaria meteorológica. No dia que nos dirigimos para Mucifal, a localidade de partida do track, parecia que íamos ter jackpot de sol mas a aposta foi ao lado.
Os primeiros quilómetros até correram bem. Não chovia e, apesar do nevoeiro, dava para perceber que a zona era bonita. O percurso é bastante rolante, com pouco desnível, e as únicas dificuldades surgiram apenas devido à lama - sendo uma zona de quintas, os tractores deixam a sua marca na terra humedecida. No entanto, por volta dos 9km, aquilo que começou por ser uma chuva miudinha começou a engrossar e tornou-se complicado estar sempre a confirmar o trajecto no telemóvel. Além disso, com o nevoeiro, não conseguíamos ter nenhum ponto de referência, fosse a serra ou o mar, o que teria sido uma grande ajuda num dia limpo. Assim sendo, decidimos voltar para trás, para voltar a tentar noutro dia.
Claro que voltar para trás acabou por não ser assim tão simples (nos trilhos nunca é) e acabámos por nos perder na mesma! Já começa a ser habitual (ihihih) e até ajuda a desenvolver o espírito de orientação, vulgo desenrascanço. Desta vez só nos afastámos da rota durante uns 3 ou 4 km, e terminámos com um belo treino de 23km.
O problema é que entre a chuva, gps no telemóvel e desenrascanço, não houve grandes oportunidades para registo fotográfico (mas fica para a próxima, porque merece), tendo apenas ficado para a posteridade a fotografia desta amiga que encontrámos a barrar-nos o trilho.


Pela foto não dá para ter noção, mas era grande, devia ter cerca de 1.2 metros de comprimento. Não sei se estava viva ou morta mas, como não se mexeu, suponho que estivesse morta, embora não tenha ficado mais tempo para indagar. Tive de SALTAR POR CIMA dela e desatei a correr sem olhar para trás. Brrrrrr!
E esta foi a primeira tentativa de recriar o percurso dos trilhos da Costa Saloia. "I'll be back" (ler com entoação de andróide-Schwarzenegger, do Exterminador).

Entretanto, por entre a conquista de cumes que têm sido os meus treinos (ou, pelo menos, a intenção), achei que deveria fazer um longo mais rolante, para ser "sempre a correr". E foi assim que voltei à Quinta do Pisão.



Esta quinta é perfeita, pois está rodeada da beleza natural da Serra de Sintra mas possui uns belos estradões que parecem pista tartan dos trilhos. Além disso, é enorme. Tentámos percorrê-la quase sempre junto aos seus limites e deu um circuito de 6km. Com outras voltas e atalhos lá por dentro, dá perfeitamente para fazerem cerca de 10km sem terem de repetir percurso.



É o local ideal para quem se está a estrear nos trilhos ou não conhece a serra e não tem companhia. É seguro, não se perdem, e, para além dos estradões, há também trilhos e bosque e até uma ou outra parede.


Um corta fogo mais à frente. Não deve ter mais de 300 metros,
mas já puxa bastante pelas coxas.



Aliás, se não fossem as plantações que por lá se vêem,


e os diferentes animais,




quase que dava para esquecer que se está dentro de uma quinta.




Acabámos por dar três voltas ao "circuito". Acreditem que à segunda e terceira voltas já não parece um local assim tão rolante... Tem SUBIDAS! Não são uma subida à Pedra Amarela, nem a Santa Eufémia, mas não deixam de ser subidas. E mais cedo ou mais tarde vão dar por elas. :)

E vocês, por onde andam a "rolar"?
Bons treinos!

14 de abril de 2016

Kms (e treinos longos) de Março


Contagens do mês de Março

- Distância: 292 km  (20 actividades)
   . em estrada: 153,8
   . em trilhos: 138,2
- Horas a correr: 43:39
- Ganho de elevação total: 8,289  metros

Total do ano: 748 km

Penso que terá sido o mês em que mais quilómetros fiz desde que corro. No entanto, não pensem que não fiquei com tiques nervosos quando me apercebi que terminei Março com 292km quando podia facilmente ter atingido as três centenas... Mas claro que estou a brincar e isso são pormenores (obsessivo-compulsivos).
Fiquei especialmente contente com o ganho de elevação total. Moro numa zona plana como uma panqueca e, para conseguir algum desnível significativo, tenho de ser criativa com pequenas rampas e escadas ou deslocar-me para outros locais, o que praticamente só acontece aos fins-de-semana. O treino semanal em Santa Eufémia também contribuiu para o aumento de acumulado, mas fico sempre com a sensação de que não estou a fazer o suficiente, daí ter sido importante ter-me inscrito para fazer o Trail Serra da Lousã e poder subir uma serra maior do que a de Sintra, com os seus 500 metros de altitude máxima

Já vos disse que o OMD tem perto de 6000m D+? Por vezes isso preocupa-me mais que a própria distância e pergunto-me se não terei sido demasiado ambiciosa para estreia. Por outro lado, sei que não poderia ser de outra forma. Eu não quero apenas fazer 100km, eu quero fazer 100km na "minha" serra, e isso é que lhe dá significado. Em qualquer outro lugar eu estaria apenas a correr pela distância, mas, na Estrela, a prova entra na esfera emocional. É onde me sinto em casa. E espero que seja isso a levar-me quando as forças começarem a faltar.

Nos entretantos, como não se pode deixar tudo nas mãos (pernas?) do destino, tenho posto mãos (pernas) à obra. Março começou com o treino na Serra da Arrábida, do qual já vos falei aqui, porque queria treinar num terreno diferente e numa serra mais alta (embora não muito mais). Depois seguiu-se o treino Serra & Mar, o que, não sendo novidade, é sempre bom, por ir praticamente da altitude 0 (nível do mar), ao topo da Peninha (aprox. 470m). No fim-de-semana seguinte fui testar as pernas à Lousã e, finalmente, no último fim-de-semana de Março, tive um agradável treino de "recuperação" por Sintra, com início na Barragem da Mula, onde já não passava há algumas semanas.
Nesse dia estava um nevoeiro brutal o que, na minha opinião torna aquela serra ainda mais mágica. Ora atentem...




Claro que se fica a perder em termos de paisagem mais distante. Era esta a "vista" no miradouro da Pedra Amarela:


E na Peninha não lhe ficava atrás...


Apesar de tudo, acho que o nevoeiro é mesmo a condição meteorológica em que mais gosto de correr por ali.


E voltámos a percorrer um dos meus trilhos favoritos, o Trilho da Viúva.



Há imensos trilhos na Serra de Sintra e a maioria das pessoas já lhes conhece o nome. A maior parte deles foi baptizada pelo pessoal do BTT e Downhill. Caso dos famosos Trilho do Dimas I e II, Trilho das Pontes, Kamikaze, entre outros. E este, o Trilho da Viúva. 


Provavelmente, terá este nome por uma qualquer razão banal (é um trilho cheio de ramos de árvores salientes e pedras, tornando-o relativamente perigoso para quem desce a correr desgovernado e, sobretudo, de bicicleta. Queda="morte"=viuvez? No entanto, gosto sempre de imaginar uma história mais fantástica, como a de um fantasma de uma viúva carpideira, que percorre para a eternidade estes trilhos, em dias de nevoeiro, a chorar o seu amor perdido. É uma história mais adequada ao ambiente, não acham? :) E acreditem que vos faz correr mais rápido. ;)




Acabou por ser um treino de 21km com cerca de 900 D+, o que não foi nada mau para um treino de recuperação.

Apesar de estar, inegavelmente, mais preocupada com os números dos treinos (kms, D+, horas...) do que alguma vez estive (sou mais de correr por sensação do que por dever), e de já ter tido alguns momentos de fraqueza, continuo a apreciar cada momento. Afinal, como sempre disse, a viagem é grande parte da diversão. Sendo que, "diversão", tem sempre um sentido muito lato nisto de longas distâncias. ;)

Bons treinos (boa viagem)!

6 de abril de 2016

Trail Serra da Lousã

Hey, ho, let's go!

Às 8h30 é dada a partida ao som de Ramones.
De forma a acelerar o Controlo Zero, nesta fase inicial apenas foi verificada a posse do impermeável e do telemóvel. No entanto, e de forma inédita, quando cruzar a Meta ser-me-á pedido para mostrar a manta de sobrevivência e o frontal. Ainda bem que levo sempre tudo e não foi necessário penalizar em mais minutos as várias horas que andei pelo parque de diversões da Lousã. Cheguei encharcada, enlameada e em disputa de honra cerrada pela 160ª posição que, como todos sabemos, é aquele número que separa uma boa prestação de uma vergonhosa. :) Mas estou a adiantar-me.


O primeiro quilómetro, pelas ruas de Miranda do Corvo, é feito ao ritmo do pelotão, que é rápido para os meus parâmetros, mas ainda estamos a percorrer asfalto e sei que, mais à frente, terei tempo para "descansar". Deixo-me ir na corrente.


De manhã, enquanto conduzia até ao local da prova, e atravessava zonas de intenso nevoeiro e chuva, cheguei a temer condições meteorológicas adversas para os mais de 50km de corrida mas, na verdade, não está assim tão mau. Pelo menos, durante os primeiros quilómetros não chove. A lama já seria de esperar, devido às chuvas dos dias anteriores, mas o tempo não estará muito diferente daquele que apanhei em 2014. Chuviscos, nevoeiro, vento e, em algumas partes, até granizo. O que deu origem a umas primeiras fotografias muito desfocadas e obrigou a manter o telemóvel dentro da bolsa, durante a maior parte do percurso.


Os primeiros 10km, até ao abastecimento em Gondramaz, serão dos mais bonitos da prova, mas também complicados. A euforia inicial do passo rolante já passou e agora percorro trilhos junto ao rio, terra enlameada, pedra, pontes feitas de troncos e cascatas atrás de cascatas, cada uma mais bonita que a outra, mas num piso que não facilita a progressão e, em algumas zonas, quase escalada. Já estamos na Primavera, mas a paisagem poderia ser quase de Outono, como a Lousã que tinha na memória. As árvores, cobertas de musgo e liquens, são quase obras-de-arte.


Vou entretida com o cenário, mas não alheada da competição. Como é habitual, nestes primeiros quilómetros fico sempre para trás. A minha mente é determinada mas o meu corpo leva sempre algum tempo a convencer-se de que SIM, é para continuar, e SIM, vai fazer 50km por isso é melhor pôr-se fino.
Depois de me erguer de mais uma escalada e levar as mãos aos rins, e pensar que se calhar não era má ideia apostar nos exercícios lombares, sou alcançada por uma rapariga com que às vezes me cruzo noutras provas. Ela leva uns bastões, que foi uma coisa com que me debati dias antes da prova, se haveria de levá-los ou não. Estou a pensar levá-los para o OMD e preciso de treinar com eles, mas não sabia se o TSL seria a prova ideal, devido à característica do terreno e à lama. Reparo que, pelo menos nesta parte, seriam mais um empecilho do que uma ajuda e fico contente por não os ter levado. No entanto, a companhia durante alguns quilómetros acabou por ser benéfica nesta fase que me é sempre tão complicada. E assim chegamos a Gondramaz.


Gondramaz é a primeira Aldeia de Xisto pela qual iremos passar. Um dos pontos altos desta prova (literalmente também, já que ficam sempre em altas encostas), para além de toda a beleza natural circundante, é a passagem nestas povoações típicas, sempre tão pitorescas.
No abastecimento bebo um copo de isotónico, como qualquer coisa rápido e levo umas gomas para depois. 


O percurso está bem assinalado, com as habituais faixas "És tu e o trilho", que já são imagem de marca e, até aos 26km, é partilhado com o da prova UTAX.

Esta segunda parte, até à Lousã, é bastante mais corrível que a primeira, com os trilhos enlameados a serem entrecortados com algum estradão, que permitiu recuperar algum tempo e até algumas posições. Até ao momento, estou bastante contente com a minha prestação nos escorregas de lama, que estão a ser percorridos de forma muito mais rápida do que foram há dois anos, tendo, inclusive, ultrapassado uns quantos atletas a descer. A descer! Onde geralmente sou uma tartaruga mais cautelosa do que a subir! Acho que o facto de a lama ser fofinha ajudou a superar o medo de partir os dentes e arrisquei mais do que normalmente faço. Atrás de mim segue um rapaz que não deve estar tão confiante quanto eu nas minhas capacidades de descida porque, de vez em quando, dá-me umas dicas quanto à melhor posição para colocar os pés nos relevos do trilho... Se calhar foi por isso que nunca me ultrapassou e se deixou ir atrás, com medo de ser arrastado na minha provável e épica queda que, felizmente, não se veio a concretizar. :)

Entretanto, quase a chegar à Lousã, começa a cair uma saraivada que torna o caminho branco, mas da qual apenas consegui registar esta foto abaixo.

Não têm de agradecer. ;)

O abastecimento dos 22km situa-se num anexo do Hotel Palácio da Lousã. É uma sala abrigada, com WC, onde, para além do habitual, servem bebidas quentes. Apesar de estar encharcada da queda de granizo, não me sinto gelada e até as mãos se mantém quentes, por isso recuso a oferta de chá ou café. No entanto, não quero estar muito tempo parada e arrefecer, por isso não me demoro mais do que uns dois ou três minutos.


Estava curiosa (acagaçada talvez fosse um melhor termo) em relação a esta parte, porque o abastecimento do Talasnal seria aos 26km, ou seja, a apenas 4km de distância. O que haveria neste troço para ser necessário outro abastecimento tão perto?

Esta prova está a ser completamente distinta da edição de 2014, pelo que não havia muitos pontos de referência. Sei que, depois da Lousã, tivemos de atravessar as águas geladas e corrente forte de um rio.

Ainda se vê um atleta a completar a sua travessia, em baixo.

E sei que houve também muito sobe e desce, sempre em trilhos, até chegar a uma zona que reconheci, o Castelo de Arouce.




Este castelo tem a particularidade de se encontrar num vale, por oposição aos topos dos montes onde geralmente se encontram, pelo que, depois da sua passagem, foi novamente sempre a subir. Não sem antes beber água numa fonte intitulada Fonte da Vida, na esperança de que, à semelhança dos jogos, este água fosse o elixir que me daria uma vida extra e mais energia.



Acho que resultou, pelo menos durante umas centenas de metros... A minha energia já devia ir na reserva, devia ter bebido mais água.


É que, entretanto, iniciamos a subida até Talasnal, que no gráfico não assusta nada perante as outras, mas que aqui se vai revelar um castigo. Para compensar, apanhamos um grupo enorme de escuteiros a descer que, sendo o trilho apertado, tiveram de se chegar para os lados e formar um corredor à nossa passagem, o que me fez sentir uma craque do skyrunning a subir a montanha com tanto apoio! Foi da maneira de tive de apressar o passo, para não parecer mal.

E quando chegamos à aldeia, e pensamos "ufa, aquela subida finalmente ficou para trás!", apenas para termos à nossa espera escadas...


... e mais escadas!


Bom, aqui acho que o treino de escadas tem ajudado, porque não me custou assim tanto. Ou, pelo menos, não tanto como há dois anos, quando tive de ser "rebocada" escadaria acima.



O abastecimento ficava numa casa já fora da aldeia, e penso que terá ficado tão próximo do anterior porque é aqui a última paragem antes da separação dos dois maiores percursos.
Neste local, entre atletas do TSL e UTAX, estava bastante gente. Mesmo assim, ainda consegui uma cadeira vaga e aproveitei para me sentar um pouco e comer uma canja.
Dois espanhóis do UTAX que iam a sair comentam que estão com 60km de prova. Aproveito e saio com eles também, já que quando me sento muito tempo as pernas acostumam-se à folga e depois é o cabo dos trabalhos para voltarem a trabalhar. Nem de propósito, à saída, antes da separação dos percursos, têm logo uma curta descida inclinada, auxiliada por corda, para despertarem.

Faço um telefonema em busca de apoio. "Agora vem a parte pior...", digo. "A pior não, a melhor!", responde quem está comodamente sentado do outro lado. Mas sim, é esse o espírito que tenho de adoptar. Até agora, tirando os quilómetros iniciais, até me estava a sentir bastante bem. Teria de continuar assim, um quilómetro de cada vez. Mesmo que esse quilómetro de cada vez fosse a subir até aos 1000 metros de altitude, no topo do Trevim.


Como no gráfico, lá está, aquela subida era a mais assustadora, preparei-me para o pior. Tinha algumas memórias desta subida, também conhecida por subida às antenas, em 2014, mas como o trajecto estava a ser tão diferente não tinha grande previsão.



Avistei alguns atletas mais à frente e tentei nunca me distanciar muito. A ideia era mantê-los sempre no meu raio de visão e acompanhar o ritmo. Entre passadas, convencia-me com elogios enganadores: "Tu estás forte", "Tu ÉS forte", "Tu consegues...#$#%%!!" (Desculpem, mas li em qualquer lado que os palavrões ajudam a superar a dor...;)).



E, passinho a passinho, fui-me aproximando do final da primeira parte de subida, à qual se segue cerca de três ou quatro quilómetros de estradão bastante corrível, e percebi que o meu corpo estava a reagir bem à farsa mental e consegui recuperar rápido e correr aquilo tudo a uma boa velocidade (para mim). "TU ESTÁS FORTE", "TU ÉS FORTE", "TU CONSEGUES...#$#%%!!"


Claro que entretanto aproximou-se a segunda parte da subida, aquela onde se alcança as antenas, e tive de parar. Estava vento e frio e, para cúmulo, começa novamente a cair uma saraivada. Ando a passo, que tento que seja apressado, mas começo rapidamente a arrefecer. As mãos, como as tinha mantido em movimento, até estavam quentes, mas noto, em pânico, que não sinto a cara. Toco nos meus lábios e é como se estivesse a tocar num bocado de borracha insensível. O meu buff está encharcado, por isso não tenho muito com que tapar o rosto. Baixo a cabeça e tento mover os lábios um contra o outro, numa tentativa de recuperar a circulação. Estou sozinha. À minha frente seguem dois atletas do UTAX, cujo percurso se tornara a cruzar, mas vão igualmente calados e de cabeça baixa. Tento diminuir a distância. Não me importo de correr sozinha mas agora aqui tive medo. Eles notam a minha presença e murmuram algo que entendi como uma frase de apoio que se perde no som do vento e do granizo que caí. Tornam a baixar a cabeça, mas agora seguimos juntos, numa fila indiana de almas penadas perdidas no nevoeiro.

Quando finalmente deixamos as antenas, a meteorologia, juntamente com o humor, muda por completo. Agora os meus companheiros já brincam e mandam piadas mas, mais à frente, dá-se novamente separação do percurso e viro sozinha para a placa do TSL.
Seguir-se-são os quilómetros mais longos de toda a prova.

Já estou sem gps, por isso não faço ideia a quantas ando, e o telemóvel, devido à chuva, está guardado na bolsa impermeável (razão pelo que não tirarei mais fotos até quase ao final), por isso também não sei que horas serão, mas sei que não poderemos estar muito longe do próximo abastecimento, em Sra. Piedade de Tábuas. Mas aqueles quilómetros desde o topo das antenas (cerca dos 38km) até ao abastecimento (cerca dos 42,5km) vão arrastar-se imeeeeenso! Tanto que, por momentos, até pensei que me tivesse enganado nas fitas e tivesse entrado no percurso do UTAX. Para piorar, era lama por todo o lado. Não havia como fugir. Deslizava pela lama, agarrava-me a troncos, rochas e até no chão, enterrando as mãos naquele lodo lamacento. Eu era o trilho e o trilho estava em mim. Estava em comunhão com a natureza, era uma amazona, um rambo sem faca do mato. Estava até a ser engraçado, até que precisei de me assoar... E aí as coisas tornaram-se feias.

Agora falemos de atleta para atletas. Não é bonito mas, nestes casos, ou bem que se domina a arte do snot rocket (não sei o equivalente em português...Projéctil nasal??), o que infelizmente, não domino, ou vão ter de usar a manga. Sim, a manga, vocês sabem bem que é verdade. Admitam que, a meio de uma prova, sobretudo se já estiverem com 40km no meio da mata, se precisarem de se assoar, não vão pensar "ai, deixa-me cá puxar de um lencinho de papel"... É claro que não. Vão limpar-se à manga, como qualquer selvagem que se preze. ÉS TU E O TRILHO.
O problema é que a vossa mochila, o vosso impermeável, o vosso buff, as vossas mãos, as vossas mangas, tudo... Tudo vai estar cheio de lama. E vocês vão esquecer-se disso...
Vou poupar-vos a pormenores mas, resumindo, ainda bem que haviam fontes antes de chegarmos a Sra. Piedade de Tábuas.

Depois deste abastecimento, em princípio faltariam apenas cerca de 8km para a Meta, embora tenham sido um pouco mais. Relativamente ao que ficara para trás, seria teoricamente mais rolante, embora, logo à saída da povoação, tenhamos levado com uma parede de 100 metros em jeito de prenda de despedida. Toma lá quase um ângulo recto de rochas e lama e não digas que vais daqui! Eu e os atletas que me acompanhavam nessa subida gostámos bastante e alguns não se coibiram de lançar uns bons agradecimentos "à moda do Norte".

Daqui para a frente já estava naquela fase de exaustão tão grande em que já não se tem energia para mais nada senão para correr. Parece que não faz sentido, mas é a única forma de cortar a meta mais depressa, e o corpo sabe disso. Subida: corre. Recta: corre. Descida: corre. Mais trilhos enlameados: (refila e) corre. Ia tudo à frente. Já nem me preocupava em desviar-me das poças. Quer tivessem cinco centímetros de profundidade ou cinquenta, era pé dentro e fé em Deus.

Já se avista Miranda do Corvo.

Ao aproximar-me de Miranda do Corvo a minha mente começou a trair-me quando me questionou o que seria ter de fazer mais 50km. CALA-TE! Não posso pensar nisso assim, não posso sequer pensar nisso.
Felizmente, o barulho de um touro em debandada, que se veio a revelar ser apenas um atleta que corria feito um doido para me ultrapassar nas últimas centenas de metros, afastou a mente das dolorosas dúvidas e soltou o seu lado competitivo. Ultrapassar-me aqui? Quando faltam apenas 500 metros para a Meta? Depois disto tudo?? Eraoquemefaltava!!! Abandonei o pensamento da metade do OMD, para me concentrar nestes 500 metros.
E vocês já sabem o final desta história. "Cheguei encharcada, enlameada e em disputa de honra cerrada pela 160ª posição que, como todos sabemos, é aquele número que separa uma boa prestação de uma vergonhosa. :)"

Acho que o truque será sempre esse, 500 metros de cada vez, as vezes que forem, até chegar ao fim. Neste caso, segundo o gps do atleta que chegou logo de seguida e que aceitou a derrota com honra :), foram perto de 53km.
Ainda bem que voltei onde fui tão feliz, neste caso, à  Serra da Lousã. Continuo apaixonada por esta serra, o que seria uma belíssima história de amor, não me tivesse ela dado uma porrada tão grande que no dia seguinte quase nem me mexia.

Fim.