31 de maio de 2016

Treinos de Maio e pensamentos a menos de uma semana...

De vez em quando, ultimamente, estou eu muito bem na minha rotina do dia-a-dia e, de repente, sinto uma descarga de adrenalina, um misto de excitação e nervosismo, aparentemente vindo de lado nenhum. Como nas vésperas de uma reunião importante, uma viagem que esperamos há muito ou um primeiro encontro com aquela pessoa por quem estamos apaixonados mas, ao mesmo tempo, achamos que é demasiada areia para o nosso camião. E depois lembro-me. É exactamente isso. Esta sexta-feira, à meia-noite, tenho um encontro com a minha paixão e estou nervosa como há muito não estava, porque ela é linda, de uma beleza selvagem e personalidade implacável e, às vezes, questiono-me se estarei à altura. Por isso, sinto um aperto no peito e borboletas na barriga sempre que baixo a guarda. Ai, Estrela, Estrela...

Fora esses segundos de ansiedade quase diária, Maio tem sido um mês de viagem a ritmo de cruzeiro. Depois de todas as incertezas, este mês foi de consolidação e aceitação. Não vou faltar ao encontro e também não há muito mais a fazer, por isso mais vale aproveitar da melhor maneira o tempo até lá. Foi isso que fiz.

Com o regresso do sol, regressaram também os treinos pelo areal.


A Praia Grande, ainda com pouca gente, dá uma bela pista, seguida de um treino de escadas para ficar logo com o aquecimento para as arribas feito.

350 degraus até ao topo!

Depois segue-se um deslumbre para os sentidos, entre o contraste de cores e cheiro a flores e mar.


Passagem pela Praia da Adraga...


Falésia junto à Praia da Cavala...


E aproximação a uma das minhas praias favoritas....


De acesso complicado, não sei se é pior a subida ou a descida, mas vale sempre a pena.


A Ursa.

E, depois do banho de gelo, é altura de pôr outra vez os músculos a arder!


O treino tem ponto de retorno no ponto mais ocidental da Europa. Atingindo o Cabo da Roca é hora de regressar, desta vez pelo interior para evitar as arribas e terminar o treino de forma mais rolante.


Até à próxima!


Entretanto, num dia menos solarengo, troquei a água do mar pela água do rio e foi feita nova visita às Cascatas de Anços.



Com caudal elevado devido às chuvas, chegar até à principal cascata foi quase um desporto radical.


Apesar disso, estavam lá mais umas quantas pessoas aventureiras a tirar fotografias.



Pena a água não ser muito límpida, senão também dava para uns banhos de gelo. :)


E, quando não se corria, pedalava-se!


Houve um final de tarde em que se alugaram umas BiCas e fomos percorrer a ciclovia que liga Cascais ao Guincho.


Estavam poucos carros na estrada, por isso, não fosse a pressa devido ao horário de encerramento para entrega das bicicletas, teria sido um passeio muito relaxante, sempre a ladear o oceano, com o sol quase a pôr-se.


Maio foi também o mês em que finalmente mandei arranjar a minha Blackie, por isso esperam-se vários passeios em duas rodas em Junho, quando estiver de "férias indeterminadas" da corrida. ;)


Depois, e apesar de não contar para treino, pelo menos físico, fui assistir a várias partidas do Campeonato da Europa de Triatlo, que decorreu no passado fim-de-semana.



É uma grande inspiração assistir a atletas profissionais e pessoas "comuns" a realizarem esta prova de esforço.

Área da natação.

Gostei especialmente de ver a prova dos atletas do Paratriatlo, pois realmente coloca tudo em perspectiva e deixamo-nos (deixo-me) de pieguices. Inspiração, mesmo.

Meta.

E têm sido assim os últimos dias. Uma vida que não pára mas sempre com a expectativa do encontro de dia 4.
Soube há poucos dias, com a actualização do gráfico, que este ano, pela primeira vez, há duas subidas à Torre, em vez de uma. Nem sei o que pensar sobre isso mas, lá está, como é algo que não posso controlar, não vale a pena estar já a sofrer por antecipação. No entanto, confesso que o limite horário, que já me pareceu enorme, me parece cada vez mais apertado. Vamos ver se o meu camião aguenta... :)

Fiel à minha tradição de deixar tudo para a última, ainda não tratei da mala, embora já tenha tudo o que preciso levar (mentira, falta comprar barrinhas). Antes da prova ainda queria ainda escrever uma crónica sobre o material, vamos ver se consigo.

Tiquetaque... Tiquetaque...

24 de maio de 2016

Kms de Abril e pensamentos a 2 semanas da Estrela

Nesta viagem a caminho da Estrela já segui a bom ritmo, a ritmo de cruzeiro, mas também já efectuei muitas paragens e abrandamentos nas mais variadas estações e apeadeiros. Alguns minutos em Nossa Senhora da Miúfa, uma troca de carruagem em Vila Pouca de Energia, horas exasperantes na A-do-Desânimo, um (felizmente) breve abrandamento em Santa Tomba Dor, e até, confesso, estive a alguns segundos de descarrilar na Aldeia do QueSeF-LixeIstoTudo. No entanto, o pior momento de toda a viagem foi o longo e negro Túnel da Dúvida que me levou grande parte do mês de Abril a atravessar. Mas vamos primeiro aos números.

Contagens do mês de Abril

- Distância: 284.3  (22 actividades)
   . em estrada: 129.9
   . em trilhos: 154.4
- Horas a correr: 39:34
- Ganho de elevação total:  6995 metros

Total do ano: 1032.3 km

Os números até nem são assim tão maus, embora tenha ficado aquém das desejadas três centenas. Não estive longe, mas, após incidentes vários que antecederam o quase descarrilamento em QueSeF-LixeIstoTudo, desisti dessa ambição. Foi aí que se iniciou a entrada no longo e negro túnel. Não me apetecia correr e sentia-me uma fraude. "Como é que vais fazer 100km se nem queres correr 10km hoje?". Longa Dúvida. "A queixares-te nos 20km de hoje? Espera até chegares a Alvoco, ao fim de 60. SE CHEGARES". Negra dúvida. "Esta subida de 200mD+ em 1km custa-te? Quero ver como é que fazes o km vertical em 3km!"
Também não me orgulho, mas o túnel da Dúvida teve um desvio pela Estação da Comparação. Comparação, a povoação onde os seus habitantes correm 400km por mês, iniciam o dia com um pequeno-almoço saudável que inclui aveia e abacates biológicos das árvores que crescem no quintal e nunca falham o reforço muscular no ginásio. Têm as provas estudadas e sabem o que vão comer e quantas gramas de hidratos/proteína têm de consumir a cada hora de esforço. São metódicos, organizados e motivados. Eu não. Queria ser como eles, morar ali, mas não consigo. A viagem segue e reentro no túnel da Dúvida. O caminho já não me leva só através do "será que sou capaz?", agora leva-me para "será que quero isto o suficiente?".

Entretanto, uma coisa na viagem se manteve sempre regular, a minha passagem por Santa Eufémia.


A subida de Santa Eufémia não é a maior, nem sequer a mais desafiante da Serra de Sintra, mas é difícil o suficiente para dar luta. Além disso, é perto da vila e de locais turísticos, pelo que sempre me senti segura a fazer treinos por ali, mesmo quando sem companhia.

A chegar ao miradouro.

Foram dois meses de treinos semanais em Santa Eufémia. Uma vez por semana deslocava-me até lá e fazia aquela subida, e outras, por esse enorme jardim natural que é o Parque de Sintra. Desde aquele dia em que subi até ao topo pela primeira vez sem caminhar, consegui fazê-lo sempre excepto uma vez, num daqueles dias em que sabemos logo à primeira passada que não estamos bem. De resto, chuva ou sol, sozinha ou acompanhada, não falhei ao encontro semanal com aquela encosta da serra a quem comecei a conhecer os cantos, cada curva, cada árvore, o canito que esteve quase sempre à espera no mesmo local, umas vezes para subir comigo, outras apenas para se deixar afagar. Dias em que me senti forte, dias em que me senti miserável. Subi tantas vezes a Estrela nesses treinos que apenas os meus pés estavam em Sintra.
Conheci ruas e becos pelos nomes ou dei-lhes eu um. Como o Caminho das Árvores Caídas, onde pratiquei agachamentos vários para ultrapassar os obstáculos:



A Rua da Fonte Branca, onde parei sempre para beber água fresca:


E subi incontáveis escadas sob o olhar atento dos Mouros:



Sendo um treino feito durante a semana, nunca foi muito longo. Com altimetria relativamente elevada, 7 a 9km era a média que conseguia completar antes de ficar demasiado tarde.
Nem sempre me apetecia ir. Houve até uma ou outra vez em que foi mesmo uma ida negociada comigo própria até ao último minuto. Mas, mesmo naquela semana em quase descarrilei e parecia que ia desistir da viagem, Santa Eufémia manteve-se. Peguei no carro, conduzi até lá, saí sem vontade a pensar que ia mudar de ideias a meio da subida, mas cheguei lá acima.



Parei, respirei e concluí o treino.

Tudo isto para dizer que Santa Eufémia é a razão porque eu sei que quero isto o suficiente. A par dos treinos longos, que, maiores ou menores, sempre fiz, este treino semanal foi a única coisa estável, sólida, de todo o meu (não) plano.  É difícil guiarmo-nos sem ajuda ou um programa que sirva de fio-condutor. É certo que tinha umas bases, mas todos estes meses acabaram por ser uma prova de tentativa e erro.
No entanto, esta não é uma crónica para arranjar desculpas. Não estar presente naquela linha de partida não é uma opção, e irei para lá consciente do que fiz. Não sou ingénua ao ponto de pensar que são estes treinos com meia dúzia de quilómetros com 400/500m de D+ que farão alguma diferença na montanha, mas sei que foram estes, mais que os outros, que me ajudaram a manter o foco quando comecei a duvidar. Foram sinal da minha força quando achei que não a tinha.
Esta também não é uma crónica de inspiração. Fui indisciplinada e falhei mais do que gostaria. Não saí para correr às 23h depois do trabalho e poucas vezes acordava com vontade de ganhar ao sol numa corrida. Não sou feita dessa fibra. O sonho, que é grande, tem de caber dentro da minha vida que segue para além dele.
Também não quero com isto dizer que não me esforcei, porque não seria verdade. Acho que nunca me esforcei tanto por nenhuma outra prova na vida, ao ponto até do reforço muscular se tornar presença habitual nos meus dias (quem sou eu??). Não fiz os quilómetros que gostaria de ter feito, mas a Serra da Estrela esteve sempre comigo ao longo dos últimos meses. Cada metro a mais que não queria fazer, cada subida, cada descida, até os treinos que não fiz... Cada escolha, foi com ela em mente. E, tal como a trouxe comigo por Santa Eufémia, espero levar Santa Eufémia comigo para a Estrela. A firmeza no meio do caos, a estrelinha no caminho de outra maior.

20 de maio de 2016

Pelo Caminho, nas Lezírias (ou: correr 40km num dia de tempestade)

Com o tempo que tem estado nos últimos dias já é difícil lembrar mas, há cerca de duas semanas, esteve um enorme temporal. Nesse fim-de-semana tinha combinado um treino longo que não poderia ser adiado, por isso, sábado de manhã, mesmo com a morrinha que já começava a cair, saí de casa o melhor equipada possível, tendo em conta as previsões.
Como a tendência para uma pessoa se perder nos treinos longos tem sido grande, mesmo com gps :), sugeri que se fizesse um trajecto que já andava para fazer há algum tempo: os primeiros quilómetros do Caminho de Santiago (e de Fátima) a partir de Lisboa. Pelo menos sabia que esta "Organização" não engana e o percurso está sempre muito bem assinalado com as habituais setas amarelas, por isso dificilmente haveria preocupações relativamente ao rumo a seguir. A ideia era fazer pelo menos uns 20km para lá, o que nos levaria sensivelmente até Vila Franca de Xira, e regressar, mas indo avaliando as condições ao longo da manhã.

Neste dia estava também a decorrer o Triatlo Internacional de Lisboa e, durante o primeiro quilómetro do treino, ainda deu para acompanhar a passagem dos atletas que já faziam a parte do ciclismo. Se num dia normal já é difícil haver muita gente nas ruas a apoiar os atletas, imaginem numa manhã de chuva! Por isso gostei de ir ali um bocadinho a dar força aos atletas que respondiam sempre com um sorriso ou aceno e, em troca, receber a sua inspiração. Na altura já estavam/estávamos a ser fustigados pelo vento, embora a tendência fosse para piorar ao longo da manhã.

Até sair de Lisboa o Caminho é feito por estrada ou passeio e o piso só altera à passagem da ponte de Sacavém quando, ao virar à esquerda, abandonamos a cidade para subir a foz do Trancão.


O percurso irá seguir junto à margem do rio durante uns três ou quatro quilómetros, ao longo de um trilho já um pouco enlameado, mas nada comparado com o que irá estar umas horas mais tarde. O caudal do rio, que podem ver agora nas fotos, terá duplicado quando regressarmos.



É também neste local que iremos encontrar os primeiros peregrinos. Primeiro, ultrapassamos um casal estrangeiro de terceira idade e, em seguida, um caminhante a solo. Pouco depois, o primeiro obstáculo do dia: temos de sair do trilho onde estamos para subir para outro, por uma pequena parede enlameada. Se, para nós, que estamos habituados a correr com lama em algumas provas e temos ténis adequados, não foi fácil subi-la, pois estava bastante escorregadia, fiquei a pensar como seria para os peregrinos que seguiam atrás, sobretudo para aquele que ia a solo. Sugeri que esperássemos um pouco pelo senhor que seguia sozinho e ainda bem que o fiz porque, segundos depois, começo a ouvir: "Oh, shit! Oh, shit!". Era o caminhante pelo qual tínhamos passado e que caía agora na lama! Formámos um cordão humano para o ajudar a subir, mas mesmo assim foi muito complicado. O calçado do senhor não era o mais adequado e as calças de ganga que trazia não lhe davam a elasticidade necessária para alargar a perna e subir. Escorregou várias vezes e só repetia "oh, shit, oh, shit!". E entretanto já estávamos encharcados e o homem a ficar cada vez mais coberto de lama. Toda a situação teria sido até cómica, se não estivesse a ser tão difícil puxá-lo. Eventualmente lá conseguimos. Se fosse mais crente, diria que Santiago nos cruzou no caminho daquele peregrino exactamente naquela altura para que lhe déssemos umas mãozinha a subir. Ao fim da manhã ainda vamos rir ao recordar a situação do senhor do "Oh, shit!" mas é um facto que, aquele bocado do trajecto, em dias de chuva, não é pêra-doce para quem o percorre, sobretudo se não estiverem com calçado mais aderente.


Passando a zona dos trilhos, entramos em zona de quintas, antes de chegarmos à primeira povoação. Por nós passa um grupo de ciclistas e um deles grita: "É só maluuuucos!" :) A chuva já engrossou e começam a soprar umas rajadas mais fortes. Como já estamos ensopados, chega-se a um ponto em que já nem se dá pela chuva, o pior é o vento, que nos arrefece se pararmos um segundo que seja.


Paramos com cerca de 12km de treino para comer qualquer coisa, meio abrigados debaixo de uma árvore, mas não dá para ficar muito tempo. A chuva está cada vez mais forte, e a lama começa a dar lugar a grandes poças. Nesta altura guardam-se também os telemóveis, pelo que, daqui para a frente, terão de seguir os meus passos apenas através das minhas palavras. Mas já sabem, talvez um dia destes, com melhor tempo, volte para ilustrar o treino.

Depois de termos avançado cerca de 15km rumo ao interior, o Caminho começa agora novamente a regressar à zona ribeirinha. Para tal, temos de atravessar um túnel que passa por debaixo da A1 e nos leva ao Forte da Casa. O problema é que, ao descer do Forte da Casa para as Lezírias do Tejo, o vento começa a ficar mais forte. Percorremos os passadiços junto ao rio, numa zona que sei ser muito bonita, mas não se vê nada devido ao temporal e a chuva magoa como granizo devido às rajadas. Mal consigo abrir os olhos. Concordamos que é melhor não continuar mais naquelas condições e, infelizmente, temos mesmo de tomar a decisão de encurtar a distância e iniciamos o regresso com cerca de 18km percorridos.
O que vale é que, afastando-nos da beira-rio, o vento já não é tanto. Por outro lado, agora iremos volta aos trilhos e quintas já anteriormente percorridos mas que agora estão completamente alagados.
- "Pensava que já tinha tido a minha dose de lama este ano, na Lousã!" - digo.
Esta lama é diferente, mais clara, mais aguada, mas não deixa de ser lama. Já não dá para fugir e atravessamos várias poças com água até meio das canelas. Os peregrinos devem conhecer variantes pela estrada ou então já deram o dia por terminado em algum albergue, porque não tornamos a ver quase nenhum no regresso, apenas o primeiro casal pelo qual tínhamos passado de manhã e que também nos reconhece. Todos encharcados, parecemos uns pintos, mas ao menos eles têm os ponchos impermeáveis. Sorrimos. Pergunto-me o que terá sido feito do senhor do "Oh, shit!" e se já estará a repousar, de banhinho tomado, a pensar que foi bem enganado quando lhe falaram do sol de Portugal. :)

Começamos a aproximarmo-nos novamente das margens do Trancão, o que significa que já não faltam muito mais de 5km até Lisboa. Nesta altura vamos a correr o mais que conseguimos para não arrefecer quando, ao passar junto a uns arbustos, levo com uma vergastada de um cardo. Levo imediatamente a mão à cara e sinto que se espetou um pico no nariz. Um pico e-nor-me no nariz! Tenho os dedos sem sensibilidade nenhuma e não consigo tirá-lo. Tento explicar que tenho um pico no nariz e não consigo tirá-lo porque tenho as mãos geladas, mas não consigo porque não consigo parar de rir com a situação. Quanto mais me tentam ajudar, mais eu me rio! Estão a ver nas provas quando vai alguém a correr à vossa frente e grita "CUIDADO!" quando desvia algum ramo? Bom, a probabilidade é que, se forem demasiado perto, vão levar com o ramo na cara na mesma e, se tiverem a minha sorte, vai ser um cardo com picos enormes. Não sei como é que tenho sobrevivido a estes anos todos de corridas em trilhos, é o que vos digo. :)

Mais à frente, já a faltar apenas 2km para Sacavém, vamos passar a parte mais sensível de todo o treino quando corremos, ou melhor, andamos, junto ao caudal duplicado do Trancão. Lama por todo o lado e, com a chuva a engrossar e a maré a encher, estou a ver que o rio ainda alaga os trilhos e vamos ter de chamar os meios de socorro aéreo (exagero dramático devido ao cansaço). Depois de enfrentar o vento nas Lezírias do Tejo, as poças das quintas e retirar um pico espetado no nariz, já estava a imaginar o rodapé do jornal da noite: "Atletas resgatados na cheia do Trancão".
Felizmente, depois de alguns "Oh, shit!", desta vez da minha parte, esta minha previsão não se veio a concretizar e regressámos ao - e nunca me imaginei a escrever isto - abençoado asfalto, para percorrer os últimos quilómetros do treino.

Apesar de já estarmos com 36km e o tempo estar cada vez pior, por coincidência vamos acabar por encontrar as duas últimas participantes do Triatlo que, nesta altura, estariam a dar a última volta para concluir os 21km de corrida. O vento era tão forte que era quase como estar a correr contra uma parede e havia zonas em que as ondas do Tejo quase galgavam o paredão mas, se aquelas atletas, que já tinham nadado e pedalado antes, conseguiam concluir uma Meia Maratona naquelas condições, eu conseguia fazer mais um esforço e ir até à zona da Meta, dar algum apoio.

Foto da Meta, tirada no dia anterior.

Foi assim que concluí 40km num dos piores dias de treino que me lembre. Acho que só em Arga 2013 é que tinha corrido com um tempo semelhante. Não foi um treino com muito desnível, mas teve imprevistos e dificuldades várias, sempre e testar o espírito de sacrifício e capacidade de desenrascanço. E, o melhor, terminei com a consciência de que conseguia continuar a correr, se o tempo não estivesse tão mau.

Agora, de volta às corridas com calor... Oh shit!...

Bom fim-de-semana!


11 de maio de 2016

Pelos Montes Saloios (agora sim, versão completa!)

No fim-de-semana a seguir ao Montejunto Trail senti necessidade de fazer um treino sem pressões de distância, tempos ou altimetria. Como o dia estava bonito, resolveu-se voltar ao percurso dos trilhos da Costa Saloia que,  da última vez, não tínhamos completado devido ao mau tempo. Dessa vez, também devido ao mau tempo, não se tirou nenhuma foto, portanto hoje levam com uma carrada delas, para compensar. :)

Depois do café da manhã em Colares, segue-se para Mucifal, onde se estaciona o carro, junto ao campo do Mucifalense. Por aí, segue-se o caminho dos pinheiros que se dirige para a zona de quintas, afastando-se da localidade e deixando a serra de Sintra para trás.

Contornos do Palácio da Pena ao fundo, no monte.

Alguns trilhos com alguma pedra a ladear as quintas mas, sobretudo, muito estradão para ir calmamente a rolar e observar as cores da Primavera.


Cerca de 3 ou 4 kms depois, cruza-se a estrada nacional, atravessamos umas quintas onde, da última vez, estava um tractor a lavrar a terra e onde nos deparámos com a cobra e, poucas centenas de metros à frente, estamos no campo.


No campo, mas com umas quantas sanitas (!!!) que por ali pululavam quais cogumelos selvagens no meio da vegetação, não vá algum transeunte dar-lhe a vontade. :) Enfim, curiosidades com que nos deparamos na natureza.

Pode dar jeito nunca se sabe...

Tirando o pinhal ao início, o treino estava a ser muito exposto ao sol, com apenas umas árvores aqui e ali a fazer sombra.


Por volta dos 7km já se começa a vislumbrar uma nesga de mar ao fundo, para onde o trajecto se começa agora a encaminhar.


Entretanto, continuamos a percorrer os montes saloios, com as suas cores, cheiros e animais.




Sempre num percurso muito rolante, com o ocasional carrossel de subidas e descidas.


Aos 11km uma pausa para um ligeiro abastecimento à sombra, junto a uma vinha, enquanto se estudava o restante trajecto a seguir.


Daqui para a frente, até ao mar, iremos sempre a seguir a Ribeira da Mata, que nesta zona ainda não passa de um ribeiro com pouco caudal, mas que começará a alargar na aproximação à praia. Num dia quente, é refrescante seguir a ouvir o barulho da corrente.


Atravessando novamente a nacional, damos com a GR11, que conduz ao Magoito. Seguindo a placa, faltariam apenas 1,5km mas, depois de confirmar no gps, viramos para um trilho à esquerda que se afasta do estradão e segue junto à ribeira.


Era um trilho, em algumas zonas, já um pouco bloqueado devido à vegetação, o que significa que não tem sido muito percorrido, mas que se veio a revelar uma descoberta fantástica. Incrível o que às vezes temos tão perto de casa sem saber.


Este trilho, como já referido, seguirá sempre junto à Ribeira da Mata até à sua foz, na Praia do Magoito e é verde e fresco, com muitas árvores e, viemos a descobrir, até uma pequena cascata!



Pelo que pesquisei depois, penso que se trata da cascata do Magoito, ou cascata da Mata. Não sei se terá muita água nos meses mais secos mas, por agora, e não sendo tão grande e imponente como as cascatas de Anços ou de Fervença, serviu para refrescar as pernas e serviria também para um duche, caso estivesse ainda mais calor. :) Inclusive, esta água, pelo menos à primeira vista, parecia-me mais límpida do que a das cascatas acima referidas.


E continuamos, sempre a cruzar a ribeira e já sem problemas em molhar os ténis.


"Ao passar a ribeirinha pus o pé/ molhei a meia/ pus o pé..." :)

Depois de atravessar uma zona de canavial começamos a apanhar muita areia, o que significava que a praia já não devia estar longe.


E lá estava ela!


Entramos num pinhal que me pareceu que deve ser zona de merendas no Verão, mas que também é muito frequentado pelo pessoal do motocross e moto 4, como dava para perceber pelas autenticas pistas.


Este piso, cheio de areia, era muito escorregadio, pelo que, na foto seguinte, eu não caí nem me estou a rastejar alcoolizada, estou apenas a subir com tracção às quatro rodas. :)


(E eu sei que desta perspectiva não se percebe, mas era uma parede muito inclinada, sim?! Não gozem...)

Nesta área de pinhal perdemos um bocado o gps e não seguimos exactamente o percurso da prova mas, o importante, é que fomos dar à Praia do Magoito na mesma.


Fizemos um pequeno desvio até ao areal, antes de começar a subir até ao marco geodésico que se via lá em cima. Esta foi a parte do treino com a maior subida.


Chegando ao pinoco, estava um vendaval enorme, pelo que não foi possível ficar lá em cima muito tempo e tirar umas fotografias à paisagem, que era muito bonita.


Foi aqui que, devido ao vento, entrou-me areia ou qualquer cisco para um dos olhos e não saía. Como uso lentes tornou-se um caso complicado, porque não podia esfregar ou tirar a lente, e continuar sem ela estava fora de questão pois não queria fazer a zona das arribas, que se aproximava, metade cegueta! Depois de muito choro (do olho esquerdo) e paciência, lá se resolveu, mas serviu de alerta para ter de andar com um frasquinho de colírio na mochila para limpar as lentes. Vai fazer parte do material a levar no OMD. Sempre a aprender.

Imaginem fazer esta descida cheia de pedra com a visão reduzida...


Entretanto, crise ocular resolvida e deixamos para trás a Praia do Magoito,


passando em seguida a Praia da Aguda,


e atravessando as Azenhas do Mar, descendo quase até ao areal para em seguida subir as escadas até à sua saída.

Pouco antes de chegar à Praia das Maçãs o percurso afasta-se da costa para seguir novamente em direcção ao campo, percorrendo o pinhal de Janes até chegar ao Mucifal.


Apesar do pequeno engano no percurso antes de chegar ao Magoito, conclui-se o treino com os 25km da prova oficial.



Foi um bom treino, que incluiu campo e praia, ribeira e mar e a descoberta de novos locais. Soube bem correr pelo prazer de correr, o que estava a precisar para recuperar a moral.

O treino que se seguiu, e último longão, foi igualmente muito bom e incluiu também muita água mas, desta vez, caída do céu... aos potes! 40km feitos num dia de grande temporal. "É só malucos!" Também haverá uma crónica sobre ele.

Bons treinos!