14 de junho de 2016

O dia antes

No passado fim-de-semana, quando falava com o meu Pai sobre a minha participação no OMD, ele comentou qualquer coisa sobre a dureza que deve ter sido a prova e eu respondi qualquer coisa como "mas foi muito giro!"...
Ora vamos lá ver! Fazer 106km pela Serra da Estrela não é muito giro. Giro é ir passear à Lagoa Comprida e fazer um piquenique. Giro é ir com a família até à Torre e pisar os últimos e resistentes mantos de neve. Giro é mergulhar ou apanhar banhos de sol na Praia Fluvial de Loriga. Giro é tirar selfies no Vale Glaciar. Fazer 106km pela Serra da Estrela é brutal! Belíssimo, sim, mas duro. No mínimo, é uma experiência inesquecível. O que significa que ter qualificado o OMD 100k+ como "giro", quer dizer que já começo a esquecer o sofrimento e a recordar esse dia sob o véu cor-de-rosa que se torna a nossa memória selectiva.
Não quero esquecer-me daquele momento, entre Unhais e Alvoco, em que disse para mim: "ok, está a ser uma bela experiência mas, daqui para a frente, fica-te apenas por provas mais curtas, como os 50km" (ihihihih). Nem aqueles segundos após cruzar a Meta em que pensei: "a minha primeira vez nos 100km foi perfeita, dificilmente vou superar isto, acho que me fico por aqui." Não me deixem esquecer isso e remetam-me para este texto se (quando?) eu vier para aqui dizer que quero repetir.

De igual forma, não quero esquecer a ansiedade que vivi nas semanas que antecederam a prova, piorando à medida que se ia aproximando a data e atingindo o pináculo naquelas horas de sexta-feira, dia 3, antes da meia-noite. E ficar assim tão nervosa é atípico para mim. Não sei se foi a responsabilidade da distância, de enfrentar o desconhecido, se foi da importância que teria a prova. É que uma coisa é falhar numa prova cuja distância se pode repetir dali a duas semanas, se for preciso. Outra coisa é a prova para a qual a gente se preparou durante meses. Além disso, como já vos tinha confessado, eu não queria apenas os 3 dígitos, eu queria os 3 dígitos na Serra da Estrela e, se não fosse agora, apenas tornaria a tentar em 2017. Penso que tudo isso junto me colocou sob alguma pressão. Pressão totalmente auto-imposta já que, sinceramente, acho que ninguém quer saber, todos compreenderiam se não conseguisse e os meus pais continuariam a gostar de mim na mesma. Na verdade, acho que teria sido um descanso para a minha Mãe se eu tivesse desistido dessa "ideia maluca" que a deixou em cuidados durante toda a duração da prova. Se mais alguma pessoa andou ansiosa para além de mim, foi ela.
Mas voltemos a sexta-feira, dia 3. 

Partida/Meta OMD.

Por volta das 12 horas chegamos a Seia e na praça em frente à Câmara ultimam-se os preparativos. A partida das 100 milhas será às 16 horas. Ainda há tempo para almoçar num restaurante mesmo ali ao lado (esparguete à bolonhesa no menu), ir levantar os dorsais, assinar o termo de responsabilidade e tentar descansar um pouco antes de ir assistir à partida dos atletas que, na sua maioria, iriam andar praticamente dois dias pela Serra. No dia seguinte irei partilhar o caminho e várias palavras com alguns. MUITO respeito. Nunca me deixem sequer considerar uma empreitada dessas.

Partida das 100 milhas.

Depois de assistir à partida a ideia era tentar dormir até à hora de jantar. A palavra-chave aqui é "tentar". Quem é que consegue dormir com um aperto no peito e borboletas na barriga? Sempre que começava a relaxar um bocado, a realidade do que iria viver dali a umas horas atingia-me como uma bigorna e lá voltava a ansiedade. Não adiantava tentar convencer-me de que era apenas uma prova e de que iria fazer o melhor possível e tentar divertir-me. Não é possível argumentar com lógica nestas alturas. O coração vence, e o coração estava decidido a bater o recorde mundial de pulsações naquela tarde. Acredito que nem na subida de Alvoco, no dia seguinte, bateu com tanto vigor. O que significa, portanto, que não dormi, mas ao menos estive deitada e descansei as pernas.

Por volta das 19h foi hora de dar um pequeno passeio para descontrair (ahahah!) e procurar um restaurante. Tal como o meu coração, o meu cérebro também deveria estar a rebelar-se, porque de entre todas as opções inteligentes pelas quais poderia ter optado para última refeição pré-prova, esta foi a que escolhi:

Alheira!
Consta nos manuais de nutrição desportiva, não consta? :)

Eu sei que poderia ter corrido muito mal, mas soube-me muito bem. Graças a Deus, o meu sistema digestivo manteve sempre a calma no meio dos meus nervos. E, quem sabe, não tenha descoberto aqui um segredo de super alimento para ultras? É que tive energia a noite toda, mas não quero fazer já mais spoilers da prova. :)

O pôr-do-sol é sempre um belo calmante natural.

Às 22h foi altura de ir entregar, junto à Meta, o saco que iria seguir para Unhais da Serra, aos 53km de prova. Nesse local, iríamos poder mudar de roupa e até tomar duche nos balneários do Hotel, se necessário. Optei por lá colocar uma muda de t-shirt, outros ténis e meias e até outro top, caso aquele que levasse me começasse a criar assaduras. Coloquei também alguns géis suplentes.

O local de partida, ainda vazio.

De volta ao Hotel, foi altura de começar a equipar para a prova. Tudo o que levava vestido tinha sido testado e sentia-me confortável. A única coisa novidade seriam os bastões, mas não pesavam assim tanto e, a verdade, é que até à saída de Unhais, a primeira vez que pegarei neles, quase que me irei esquecer que os transportava. 

A uma hora da prova a ansiedade atingiu os píncaros. O dia, que pareceu arrastar-se, começava agora a correr a uma velocidade impressionante. Por um lado, eu já não via a hora de começar, porque sabia que os nervos ficariam para trás na Partida.
Antes de sair do quarto, ainda houve tempo para um momento de aquecimento e descompressão, enquanto dançava "shake it off, shake it off" (sim, nas vésperas de correr 100km descomprimi, sem vergonhas, ao som de Taylor Swift. Mas, se me perguntarem agora, irei negar sempre.) :)

Tum-tum, tum-tum... (Batimento cardíaco.)

E são 23h55! (Tum-tum tum-tum tum-tum tum-tum.)



23h58! (TUM-TUM TUM-TUM TUM-TUM TUM-TUM.)



23H59 e os batimentos cardíacos fundem-se com o som dos bombos.

Três...
Dois...
Um...

0h00!
video


E é hora de começar uma grande aventura.

6 de junho de 2016

O dia em que vivi 106km


It was the best of times, it was the worst of times.
                                                                                                         
- Charles Dickens




Há um ano foi assim:

"Quando, a cerca de 3km da Meta, decido que o que era mesmo bom era voltar cá para o ano e fazer os 100km.
Your head will colapse, but there's nothing in it
And you'll ask yourself
"Where is my Mind?"
Where is my Mind, Pixies

À chegada a Seia, na passagem pelo Estádio Municipal, alcanço um atleta que depois vejo que é das 100 milhas. Vai a caminhar, já não corre, e noto que o discurso cansado já é feito mais em jeito de desabafo mental, para ele mesmo, do que em resposta às minhas perguntas.
É quando ele me diz que "se alguma vez te passar pela cabeça quereres fazer 100 milhas, PENSA BEM! Olha que não é nada, NADA, fácil", com ênfase nas palavras destacadas, e lhe respondo que "talvez, quando me esquecer desta, para a próxima queira fazer os 100km", que eu descobri que a decisão já estava tomada. A minha estreia nos 3 dígitos teria de ser ali, na minha Serra, mesmo com todas as rochas, os campos minados, a subida à Torre, a  exposição à intempérie e o colapso nervoso na Garganta de Loriga. Não é a escolha mais fácil para a primeira abordagem a essa distância, mas tenho um ano até lá, vamos ver onde a vida me leva."


Um ano passou e, na passada sexta-feira, lá estava eu, à meia-noite, alinhada à partida dos 100k+, preparada para uma das maiores aventuras da minha vida. Depois de meses de treinos, avanços, recuos, confiança e dúvida, mal dei o primeiro passo sabia que só podia parar na meta. Lá pelo meio, vivi um dia terrivelmente belo e belamente terrível, numa dicotomia de sensações que só entendemos quando somos expostos ao desconforto, ao fora do normal, a coisas que fogem do nosso controlo.
Estive embrulhada num cobertor às 7h da manhã na Torre, estive a escorrer suor às 15h na subida de Alvoco, vi o nascer e o pôr-do-sol em andamento, tive fome e fiquei enjoada de comida, corri acompanhada, corri sozinha, corri em silêncio, falei comigo mesma. Tive muitos momentos altos e, felizmente, poucos momentos baixos. Cruzei-me com atletas dos 100km e 160km que, por poucos minutos que tivessem partilhado comigo, passaram a fazer parte da minha história. Em 25 horas pode caber uma vida inteira, se as vivermos com intensidade.
Aprendi que temos, devemos, ir bem preparados para uma prova na montanha mas, mais importante que isso, há que saber deixarmo-nos desarmar por ela. 

Nascer do sol sobre as nuvens, na (primeira) chegada à Torre.

Pela primeira vez, acho que me vão faltar as palavras para escrever sobre a experiência... Ainda estou meio abalada do cansaço e de tudo o que vivi. Mas queria agradecer todas as mensagens de apoio que me deixaram através do blogue, pessoalmente ou por mensagem. Pensei nelas várias vezes durante o dia de sábado, acho que quem está de fora nem sabe a importância que um simples sms de "Força!" pode ter. Aqueles que ligaram no domingo, peço desculpa pela zombie semi-atordoada que atendeu e se calhar nem soube agradecer convenientemente a chamada. Espero que compreendam que era do empeno e falta de sono. :)
Depois, aqueles que partilharam presencialmente este dia comigo, porque também lá estavam para escrever a sua história: obrigada pelos minutos, horas, que estiveram ao meu lado. Os espanhóis, que me salvaram quando me perdi e que eram um grupo animado e faziam sempre uma festa quando nos cruzávamos, o Vasco que me deu uma ajuda importante na preparação para esta prova e com quem corri uns quilómetros nas primeiras horas nocturnas, o Hélder, amigo já de outras corridas e que foi um grande apoio durante umas das piores partes - física e psicologicamente - de toda a prova para mim... novamente na Garganta de Loriga (obrigada por partilhares da tua água!). E, por último, o Artur, que já corria estes 106km comigo meses antes de começar a prova. Por toda a paciência que teve sempre, mesmo nos dias que eu não queria correr mais e respondia com rosnanços ou olhares assassinos quando ele se atrevia a sugerir para "correr mais depressa" ou "terminar a subida em sprint". Todos esses momentos em que corri "contrariada" foram importantes para, neste fim-de-semana, conseguir terminar esta minha viagem com sucesso e de coração cheio.

De volta a Lisboa mas com a mente ainda na Estrela (e sim, levei Santa Eufémia comigo e deixei um pedacinho dela (e anos de vida!) em cada metro da segunda subida à Torre)... Crónica(s) a seguir.

2 de junho de 2016

O novo pirilampo e tudo a postos!

Na minha última deslocação a Santa Eufémia, em jeito de despedida, resolvi fazer um nocturno e, assim, aproveitar para testar mais a fundo o novo frontal.

Lusco-fusco, na chegada ao miradouro de Santa Eufémia.

Desde a última crónica sobre o assunto da iluminação, na qual deixaram várias opiniões e sugestões, as quais agradeço muito, dediquei-me à busca intensiva de um novo frontal. Tendo um orçamento limitado, não podia comprar o primeiro "bom" que me aparecesse à frente. Várias pessoas me deram boas referências do Led Lenser H7R.2, que inicialmente deixei de parte por considerar que excedia bastante o valor que tinha ideia gastar mas, passado algumas semanas a comparar preços nacionais e a equacionar se compensaria mandar vir do estrangeiro, dei com uma óptima promoção do mesmo e não hesitei.

A tirar fotos à paisagem nocturna.

O que notei logo à partida, em relação a outros que tinha experimentado, é que é feito de um material bastante leve. Mesmo com a bateria colocada não deve chegar a 200 gramas mas, no entanto, esse facto não parece afectar a sua resistência.


Tem dois níveis de intensidade de luz mas depois tem também outra característica interessante, que é o regulador de intensidade, o que, rodando o botão traseiro, permite oscilar entre mínima e máxima, permitindo adaptar a intensidade da luz ao terreno. Tem também incorporada a luz vermelha traseira (que dá para reparar na foto abaixo), que pode estar no modo fixo ou intermitente.



Nas fotos que se seguem fica uma tentativa de mostrar a intensidade da luz no modo mínimo e máximo, respectivamente, embora sem muito efeito. A intensidade mínima dá perfeitamente para rolar em estradão e, em terreno mais técnico, oscilei entre a intensidade média e máxima.



Este treino, que durou cerca de duas horas e meia, não deu, obviamente, para pôr à prova a autonomia do frontal (que pelas críticas me parece ser bastante razoável). No entanto, este modelo permite que a bateria seja substituída por pilhas (4 AAA), quando esta ficar sem carga. O que, no caso do OMD, será uma salvaguarda, já que irei entrar pela segunda noite.

Foco apontado para a frente.
Foco apontado para baixo.

E pronto, este foi o único investimento que tive de fazer em relação a material para a prova e que ficará igualmente para aventuras futuras. Depois da prova dou um parecer sobre como se comportou durante a primeira noite e parte da segunda.



De resto, o material obrigatório para esta prova não difere muito do dos outros: frontal, manta de sobrevivência, impermeável, telemóvel, apito, reservatório de água, reserva de alimentos, etc... Tudo coisas que trago sempre comigo na mochila, mesmo em treinos, também como forma de me habituar ao peso. A única coisa extra que levarei para o OMD, e que não costumo carregar, são os bastões. Já os usei uma ou duas vezes mas não costumo levá-los para provas. No entanto, se há provas em que se justifica o uso de bastões, esta será uma delas! Pensei muito sobre o assunto e penso que prefiro levá-los, não posso contar que surjam uns "bastões da natureza" (vulgo ramos de árvores) à beira do caminho sempre que precisar deles, como o ano passado. Testei umas quantas formas de os colocar na mochila e penso que consegui encontrar uma maneira que me é cómoda e parece prática (mas depois falamos, ao fim de os carregar um dia inteiro). Felizmente a minha mochila tem vários elásticos e adaptadores que o permitem.

Não há foto do material disposto em cima da cama, como num blogue de corrida que se preze :), mas acho que dá para terem uma ideia do que é uma mochila artilhada. Apesar de não ir muito cheia, preocupa-me o peso. O que vale é que pelo menos o dos mantimentos irá ficar mais leve ao longo do dia.

E está tudo! Mala feita, saco para a muda de roupa e ténis (a metade da prova) também. Não sei se irei necessitar de mudar de t-shirt ou ténis mas, mais uma vez, prefiro ter essa opção. Até porque, apesar do tempo estar a ficar mais quente, as noites ainda são frescas e há neve na Torre!
Apenas existe uma barreira horária nesta prova, e são 16h em Unhais da Serra. Esta vila fica a 53km do percurso, ou seja, a metade (106km total no gráfico), e essa barreira parece-me bastante exequível. No entanto, se chegar muito perto das 16h, isso significa que dificilmente se conseguirá cruzar a meta no limite das 26h, já que a segunda parte do percurso é a mais complicada. Nova subida à Torre pelo Alvoco e descida da Garganta de Loriga (onde o ano passado tive o meu colapso nervoso e a prova de que nem sempre descer é mais fácil ou rápido que subir). O ideal seria conseguir chegar a Unhais com menos de 13h de prova, mas não posso prever para além disso.

Apesar de tudo o que fiz e treinei, a única coisa que vou poder realmente controlar no Sábado será a minha forma de reagir às situações, dificuldades e dores que forem surgindo. Não posso, nunca, esquecer que faço isto porque quero e estou ali de livre vontade, embora saiba que em determinado ponto do percurso irei questionar a minha sanidade nessa escolha. Estou ali porque quero percorrer a "minha" Serra e todas as memórias que ela me traz, condensadas em 106km e/ou 26h e, felizmente, sou saudável para poder tentá-lo. Já fui tão feliz naqueles montes e tudo isto só faz sentido se continuar a sê-lo. É muito mais que uma prova mas, ao mesmo tempo, é só uma prova.
Estrela, estou a caminho, com serenidade.


(Ahahahah! "Serenidade"... Não. Queria só acabar a crónica a parecer descontraída, na boa... ;) Estou um bocadinho nervosa! Mas é assim que sabemos que se trata de um encontro promissor, não é? Borboletas... :) )