15 de julho de 2016

OMD - Ultra Trail Serra da Estrela 100k+


Agosto 2015, 23h00

- Ouvi dizer que a luz das estrelas leva anos a chegar até nós.
- Estamos a olhar para o passado, então?
- Sim, de certa forma. Não é fascinante?
- Olha, viste aquela estrela candente? Era enorme!
- Pediste um desejo?


04 de Junho de 2016, 00:15

É uma noite sem estrelas, na Estrela. O céu está encoberto desde a partida. Tal como suspeitara, assim que comecei a correr desapareceu todo o nervosismo. Lá fora havia palmas, incentivos e música, mas cá dentro estava o silêncio da concentração. Chegou a hora, estou mesmo a fazer isto.
Passei por pessoas às portas dos bares que nos olhavam com ar divertido, vi algumas quantas nas esplanadas, que acenavam de copo na mão, percorri as vias iluminadas de Seia e as ruas cada vez mais escuras e solitárias à medida que deixávamos a cidade para trás. Entrei no primeiro estradão de terra batida sob a luz avermelhada e intermitente do carro-vassoura que nos escoltara até ali. Dali para a frente, a única iluminação seria a dos cerca de 60 frontais dos atletas que alinharam à partida dos 100km. Sou quase a última dos pirilampos, mas não faz mal. O caminho ainda é longo e tenho companhia.

Nesta noite não se dorme. Já não é a primeira vez que faço uma prova nocturna, mas foi nesta noite sem estrelas, na Estrela, que tive a confirmação de que, para mim, correr de noite é das formas mais puras da corrida. Nesta noite não há distracções nem, curiosamente, medos. Somos só nós e os cinco metros que o nosso frontal ilumina à nossa frente. Não estamos a ver o caminho que falta nem a pensar no que ficou para trás, todo o nosso foco está na exacta passada que estamos a dar. Raras as vezes na vida conseguimos estar assim tão presentes, apenas ser, existir, naqueles segundos. Foi muito libertador e uma das memórias mais intensas que guardo de toda a experiência, as horas nocturnas em que toda a vida se resume ao agora.
Se calhar por isso é que, apesar da escuridão, as memórias mais vívidas que tenho são desta primeira noite. Os amigos que encontrei e com quem falei durante os primeiros quilómetros, rostos a coberto da luz dos frontais e apenas vozes, risos, passadas e tropeções. As senhoras da aldeia de Póvoa-Velha que, tal como no ano anterior, lá estavam, aos 5km de prova, com mesa cheia à porta de casa, num gesto de bondade espontâneo de apoio aos atletas que passam. O PAC do Sabugueiro, aos 12km, onde os percursos dos 100km e 100 milhas convergem pela primeira vez e onde parei apenas um par de minutos, para comer uma banana. A confusão com a sinalização à saída desta aldeia e que causou o único momento de dúvida da noite. E não esquecendo a autêntica selva de arbustos que tivemos de atravessar nos quilómetros seguintes. Era de tal forma densa que, na minha cabeça, me imaginava, qual Rambo dos trilhos, a usar os bastões como uma catana, sempre que penetrava na vegetação. Mas, na realidade, limitei-me a usar os braços como defesa e a coleccionar mais uns quantos arranhões nas pernas. Ali, no interior daquela floresta de arbustos, sem os avistar, ouviam-se os pássaros que cantavam como se fosse amanhecer, ludibriados talvez pela falsa manhã causada pela luz dos frontais dos atletas que passavam. Será já quase no fim, numa aberta da vegetação, pelo canto do olho esquerdo, que vislumbro o precipício que ladeava este caminho. Bastava uma distracção na escolha do percurso, um passo em falso... É, a noite esconde muitos perigos, mas manteve o medo na ignorância.

- "O que é aquilo? Um prédio de 20 andares?"

Neste momento, estou a chegar à Lagoa Comprida, 26km e último PAC antes da Torre. Para cá chegar, tive de subir a primeira parede do dia. Estão a ver aquelas subidas que no gráfico nem se dá por elas, de tão insignificantes que parecem em relação a outras maiores?


À frente avistamos uma fila de pirilampos que parece elevar-se céu acima. Se tivesse sido durante o dia, acredito que esta subida teria custado muito mais. Desta forma, a coberto da noite, sabemos que ela lá está porque vimos o carreiro de frontais que a subia, mas, assim que pomos um pé na primeira rocha, deixamos de os ver. A subida, que ainda durava uns bons 5km, pareceu interminável, mas foi feita sempre na leveza de quem tem a esperança que os próximos dez metros sejam os últimos ("agora é que é mesmo o fim. Bolas! Não, agora é que é. A seguir àquela rocha é que é. Ok, na próxima curva é mesmo..." etc... etc... durante 4000 metros.) Olhos que não vêem, coração que não sente.
Já a chegar ao topo, o nevoeiro adensa e fica muito complicado seguir as fitas. Houve uma altura em que chegámos a estar quatro atletas com os focos apontados para cima a ver se encontrávamos sinalização. Ninguém queria perder-se ali e recriar o mito sebastianista, sobretudo porque era a subir.
Agora que começamos a atravessar as nuvens começa a ficar mesmo frio. Quando piso o asfalto que faz a ligação ao PAC da Lagoa Comprida, aproveito para correr a bom passo. O abastecimento é já ali à frente, numa casinha de apoio à Lagoa.
Ao contrário do anterior, este tem apenas o básico de líquidos e fruta. É o suficiente. Desde o início da prova que tenho tentado comer de hora a hora, sobretudo barrinhas e frutos secos, por isso ainda não cheguei a ter fome. Evitar a má disposição do ano anterior era uma das minhas preocupações e irei manter este sistema que pareceu resultar em treinos. Igualmente com a hidratação, pequenos goles mas com maior frequência. Mais para a frente, com o avançar do dia, conto reforçar em abastecimentos estratégicos.

Abandono o PAC ainda de noite e continua frio, mas o amanhecer começa a anunciar-se no som das aves, na cor do céu e no aroma mais fresco da brisa. O dia nasce e a Torre está à espera.



Julho 1996, 06:30

Despertei e não consigo adormecer. A luminosidade pastel que inunda o quarto revela que, lá fora, o dia também já despertou. Começo a ouvir um sininho tímido, depois outro, e outro mais, como pequenas fadas que acordam. Quando se torna num carrilhão , levanto-me e vou à janela. Um rebanho de cabritas inicia a sua subida serra acima. Atrás segue o pastor, pele curtida, boina de viés, dando comandos em linguagem incompreensiva que, no entanto, o seu rebanho parece seguir. Uma cabrita tresmalhada regressa de imediato à formação. Sorrio, encantada com a ideia desta língua secreta de comunicação entre humanos e animais . Volto a deitar-me e, aninhada no lençol, depressa adormeço.


04 de Junho de 2016, 07:00



São 07 da manhã e estou dentro da Torre, sentada numa cadeira, a comer sopinha, embrulhada num cobertor. Os últimos quilómetros, antes de cá chegar, foram iguais aos do ano passado, num adivinhar de percurso por entre a vegetação, rochas e pequenas lagoas, num parque natural e protegido que não permite muitos trilhos. O ano passado fizera este percurso já por volta da hora do almoço, com muito calor, e lembro-me como me apetecera mergulhar e partilhar do banho fresco com as dezenas de rãs que davam som ao ambiente.



Este ano não está calor e vêem-se ainda resistentes tapetes de neve. As rãs partilham a banda-sonora com os pássaros que acordam. O sol está a nascer e eu estou no topo de Portugal.



Estou em êxtase. Tenho de me controlar para não dar gritinhos histéricos com o espectáculo visual que a natureza me está a proporcionar. A mim, a nós, que tivemos a sorte (e, vá, a lentidão), de estar neste exacto local a esta hora. Estou literalmente sobre as nuvens, primeiro avermelhadas, depois alaranjadas, rosadas, culminando num mar de espuma branca.


Nunca nenhuma foto ou vídeo fará jus a este momento. Perdi alguns minutos nisto, mas também ganhei. Ganhei nos saltos que dei sobre o primeiro tapete de neve que vimos (não resisti!), e ganhei uma paz enorme ao parar, olhar em volta e inspirar aquele silêncio fresco de uma montanha ao despertar.




Estava feliz da vida, nada cansada e até com algum calor quando finalmente cheguei ao PAC, naquela que seria a primeira das duas subidas aos 2000 metros. Então porque é que agora estou a ingerir uma sopa quente e a tentar aquecer com um cobertor pelos ombros?

Um equipa médica mede a temperatura dos atletas que entram e apenas podem seguir de imediato aqueles que registarem pelo menos 36º. Eu estou com menos de 34º... Engraçado como, sem qualquer sintoma de aproximação de hipotermia, podemos estar com a temperatura tão baixa. Achei que uma maneira de aquecer mais rápido seria comer uma sopa quente, e é isso que faço. É certo que não é propriamente uma comida que nos imaginemos a ingerir ao pequeno-almoço, mas já estou a correr há sete horas, é quase como se fosse jantar, não é? O que interessa é que soube-me bem e em menos de 15 minutos tive luz verde para sair.



Lá fora já é dia claro, apesar do vento ainda ser cortante. Depois de termos subido dos 550 metros de altitude de Seia até aos quase 2000 metros da Torre durante a noite, teremos de tornar a perder essa mesma altitude nos próximos 17km que faltam até Unhais da Serra, o próximo abastecimento e que marca metade da prova. A longa descida será bem-vinda, para variar, embora não esteja isenta de dificuldades.

Logo à saída da Torre temos a oportunidade de correr sobre um manto de neve agora congelado. Apesar da visão idílica que sempre tive em relação a esta oportunidade, este pequeno manto já é mais gelo que neve, e torna-se bastante escorregadio percorrê-lo. Talvez por isso a maior parte dos atletas tenha optado por seguir as exactas pisadas deixadas pelos anteriores, marcando um carreiro de pegadas profundas, a lembrar o rasto de um yeti.


Devo dizê-lo que o fiz com verdadeira elegância e destreza, como podem comprovar. Nada assustada com a possibilidade de escorregar. Nada.


Passaremos também pela Senhora da Boa Estrela, santa padroeira dos pastores, esculpida na rocha (e da qual tenho pena de não ter conseguido uma boa foto, devido à posição do sol) antes de começarmos a descer até à Barragem do Padre Alfredo, por um autêntico caminho de pedras.


Pedras? Calhaus, mesmo! Dos grandes, às centenas, tornando esta descida bastante morosa. No entanto, nesta altura vamos acompanhados por um atleta das 100 milhas, pelo que, se ele não se queixa, também parece mal queixar-me. Sigo em silêncio e aprecio a vista.



Além disso, tendo em conta que já vou com quase 50km de prova, não me sinto nada mal. Nenhum indício de bolhas, assaduras ou dores maiores, apenas o normal peso das pernas há tanto tempo em movimento. Será apenas já nos últimos quilómetros antes de Unhais, que terão de ser feitos na sua maioria em asfalto devido às más condições em que se encontravam os trilhos usados no ano anterior, que começarei a acusar algum cansaço.



Era de esperar que o facto de poder percorrer um trilho rolante seria um alivio, mas a descida constante começa a massacrar as pernas. Há ali uma altura em que tenho a certeza que continuo a correr apenas devido à força da gravidade, que me impele para baixo. De resto, parece que não tenho qualquer controlo sobre as pernas, que se deixam ir. Comento isso mesmo em voz alta. "Sinto as pernas tão cansadas neste momento, que acho que só me estou a mover devido a uma qualquer força gravítica". O rapaz das 100 milhas, que nos acompanha, diz que sabe o que isso é, e que já se sente assim desde o km 20. Ora toma! Mais uma vez, nada como irmos acompanhados por alguém cujo desafio é mais longo que o nosso, para ajudar a pôr tudo em perspectiva.



A chegada ao H2otel, local onde se encontra o PAC dos 53km, é feita por trilhos muito bonitos, sempre a acompanhar uma ribeira lá em baixo. Essa mesma ribeira teve de ser atravessada a pé, por entre as rochas que se sobrepunham ao caudal, o que foi difícil devido ao facto de a envergadura das pernas já estar bastante condicionada nesta fase. Felizmente tive ajuda, senão essa travessia teria tido um desfecho muito cómico e/ou catastrófico.



E já está! Metade da prova, dentro de um tempo que deixa uma folga considerável para completar a segunda parte. Estou sentada num dos cadeirões colocados em frente ao relvado traseiro do hotel. Mudei a t-shirt e, depois de recolocar alguma vaselina, optei por manter os mesmos ténis, já que me sentia confortável. Aproveitei também para colocar protector solar, já que o calor vai começar a apertar. Estou a comer nova sopinha e uma banana, comida que repetirei nos abastecimentos daí para a frente já que o meu estômago está a aceitá-los bem e em equipa vencedora não me mexe. Estico as pernas e aproveito a brisa fresca que temos à sombra. A encosta da montanha que acabámos de descer ergue-se sobre nós, imponente. Vista daqui, deste cantinho em que aproveito a moleza, surge-me à vista quase como inofensiva, protectora. O gigante adormecido.

- A minha prova acabou, vou ficar por aqui.

Lá está. Novamente a mesma frase que ninguém quer proferir ou, neste caso, ouvir. Tal e qual como em 2015, mas, desta vez, mesmo definitiva.  A prova do Artur, que me acompanhava até então, irá ficar por ali. Brinco com a situação e digo que aquilo é é vontade de visitar o spa ou a piscina, mas não insisto. Sei a luta em que vai. Não digo que não seja um duro golpe perder a sua companhia e apoio, sobretudo agora, que se seguirá a fase mais complicada, mas desistir nunca foi opção para mim, a não ser que sucedesse algo de maior gravidade. Estou cansada e já com as pernas doridas, mas estar cansada não é razão suficiente para parar. "É claro que estou cansada, estou a fazer uma ultra na Estrela!", digo para mim sempre que começo a sentir-me miserável e cheia de vontade de ficar com pena de mim própria.
E é por isso que, embora me custe, já que não era sozinha que tinha imaginado cortar a meta, continuo.


Outubro 1988
- Vês aquela estrelinha? É ali que agora está.


04 de Junho de 2016, 13:00

De certeza que terás um sítio muito melhor para estares, mas podes vir aqui abaixo e dar-me uma ajudinha, por favor? Afinal, esta era, é, a tua terra, a tua montanha. Sei que nunca foste muito de correr, aliás, acho que nunca te vi a fazer exercício, ias de carro para todo o lado. Não sei como funciona agora, mas basta um empurrãozinho, uma ligeira brisa, coisa pouca, apenas para me aliviar o peso desta subida interminável. Questiono-me se, na tua juventude, também percorreste estes mesmo trilhos? Há tanta coisa que nunca te cheguei a perguntar...




Nos 12km que separam Unhais de Alvoco da Serra, irei falar muito, digamos, comigo própria. Sobretudo na minha mente, mas, às vezes, também desabafos em voz alta. Podia ser do facto de agora estar sozinha, ou do sol do meio-dia, mas, quando soprava alguma rajada de vento mais forte que me refrescava num momento estratégico, quis acreditar que alguém me ouvia e essa era a sua forma de responder.
Nestes 12km vamos ganhar um acumulado de cerca de 700 metros nos primeiros 6km, para depois os tornar a perder na restante metade, na descida até Alvoco, que fica no fundo de um vale. É um percurso longo e monótono, em estradão, com muita pedra, exposto. Saco pela primeira vez dos bastões, que servirão de apoio físico, por contraste ao apoio moral que agora me falta. Toc-toc, toc-toc, marca o ritmo das minhas passadas e sigo quase em piloto automático. Se me perguntarem, ainda no dia de hoje afirmarei que segui sempre atenta às marcações e que não faço ideia de onde me possa ter perdido, mas a verdade é que vou dar por mim a descer numa zona onde, segundo o gráfico, ainda deveria estar a subir, e vejo ao fundo um grupo de atletas que sobe na minha direcção. Era um grupo de espanhóis, que me indica a direcção certa e com os quais seguirei durante um bocado, a ouvir as suas histórias. Tornarei a cruzar-me com eles mais vezes ao longo da prova e servirão sempre de alerta para me lembrar de seguir com atenção e não me alhear em pensamentos. É difícil manter o foco durante tantas horas, o que se torna complicado quando contamos só connosco para nos mantermos no caminho certo.



Toc... toc........ toc... toc....... Com o avançar dos quilómetros e das horas, o ritmo é cada vez mais lento. O ziguezaguear do percurso que se avista desde cá de baixo e, depois, desde lá de cima, é quase torturante. No ponto mais alto, junto às antenas, alguém da Organização deixou um garrafão de água protegido do sol por uma manta. Ainda estava fresca, por contraste com a da minha mochila, que estava tépida, e por isso aproveito. Estudo agora o ziguezaguear que prossegue e decido recuperar um bocadinho da corrida. Ao início é difícil, apesar de ser a descer, pois as pequenas pedras do estradão massacram a sola dos pés quentes.



Só a cerca de 3km do PAC, quando já se avista bem Alvoco, é que consigo imprimir algum ritmo. Qual será o meu aspecto a descer isto? Será que pareço um pinguim desajeitado a correr, como me sinto, ou ainda consigo disfarçar bem? Apanho um atleta que se queixa do joelho e não sabe se vai conseguir fazer a segunda subida até à Torre. Já é o segundo ano em que participa e sabe bem o que o espera. Perante isto, deixo de me preocupar com questões estéticas e dou graças a Deus por não ter nenhuma dor incapacitante. É agora que irei ter a oportunidade de conhecer o famoso quilómetro vertical, que faz parte da subida de 8km que me levará ao topo da Serra da Estrela pela segunda vez nessa dia e que me tem assombrado os treinos dos últimos meses. Quantas vezes não subi Santa Eufémia a pensar nisto? Estava na hora de enfrentar a besta. Vamos a isso (car#aças)!



- "Menina, olhe c'ainda falta muuuito!", diz-me uma senhora à minha entrada na vila.

- "Essa subida c'agora se segue é RUIM!" (assim mesmo, com letras grandes), diz-me um senhor de boina, sentado à saída do abastecimento.

É assim, com este espírito apocalíptico, de mau augúrio e catástrofe, que chego a Alvoco. Como compreendem, fiquei muito mais descansada em relação ao que aí vinha.
Felizmente, correu tudo bem no abastecimento. Continuo a comer e beber com facilidade, sem sinais de enjoo, e aproveitei para reaplicar a vaselina e o protector solar. Começo a perder um bocado de tempo nos abastecimentos, cerca de 20, 25 minutos, coisa de que me arrependerei mais tarde quando o tempo limite começar a apertar mas que, visto agora de uma forma mais pragmática, penso que foi importante para me manter funcional ao longo de toda a prova. Terminarei sem escaldões, problemas de pés (apenas com uma pequena bolha já no final) e sem qualquer raspão ou assadura, o que, para mim, em longas distancias, é inédito. O facto de ser a primeira vez que me aventurei nos três dígitos fez-me ser muito mais cautelosa do que o normal e penso que isso fez toda a diferença. "A primeira é apenas para acabar, sem preocupações de tempos" e foi esse o espírito que mantive. Ou,  pelo menos, mantive quase até ao fim... Mas não quero adiantar-me na narrativa.


Agosto 1990

- Não!
- Dá cá isso!
- É meu!
- Está bem, também não quero saber dessa #%$&# para nada!
- Ó avóoooo, o Pedro disse uma asneira.


04 de Junho de 2016, 15:00

FOXTROT. UNIFORM. CHARLIE. KILO.



Um quilómetro vertical, segundo a Federação Internacional de Skyrunning, consiste (e esta é a minha explicação simplória) num ganho de acumulado de 1000 metros, ao longo de uma distância nunca superior a 5km. Aqui, em Alvoco, iremos fazê-lo em cerca de 3,5km... Auch!

FOXTROT. UNIFORM. CHARLIE. KILO.

Para ser sincera, não percebi muito bem onde se iniciou exactamente o quilómetro vertical, já que à saída do abastecimento de Alvoco começamos imediatamente a subir e assim será sempre durante os 8km que se seguem.



Abandonando a vila, começamos por atravessar umas quintas, ainda em terreno de inclinação relativamente acessível, e aproveito para fazer um telefonema de reforço de energia. "Vou agora iniciar a subida. Ligo quando chegar lá acima. Se sobreviver." A minha veia dramática, empolada pelos comentários encorajadores ouvidos anteriormente, claramente a vir ao de cima.
Depois, segue-se um autêntico e literal caminho de cabras (já que várias se atravessaram no meu caminho) por ali acima. As marcações da Organização começam a ser mais escassas, mas aqui não há que enganar, com a marcação do trilho oficial e as mariolas. Além disso, É. SEMPRE. A. SUBIR.



FOXTROT. UNIFORM. CHARLIE. KILO.

Não pode ser. Não pode ser! Quantas pessoas terão alguma vez feito este percurso? Acredito que muitos dos moradores de Alvoco nunca farão esta subida na vida. Aliás, duvido que até as cabras que passei mais abaixo venham até cá acima. Mais que a dificuldade física, é um desafio mental. Não vemos o fim da subida, mas vemos a montanha ao lado e sabemos que estamos a dirigir-nos para o ponto mais alto, logo, mais acima do que aquilo que a vista alcança. E aquilo que a vista alcança nunca mais termina. Subimos e subimos e subimos. E as montanhas continuam ali, altas e sem fim à vista. Olho para cima e vejo dois atletas, olho para trás e vejo o grupo de espanhóis mais abaixo. Parecem já ali, e até estão, em termos de metros, mas estamos, acredito, a pelo menos 15 minutos de distância entre nós. De vez em quando vejo lá em cima um ou outro atleta que se senta, mas nunca chego a alcançá-los. A progressão é muito lenta. Impossível correr. Não só porque é inclinado, mas porque é terreno muito técnico, com muita pedra. Para ajudar, estamos na hora do calor e não existe uma única sombra até ao topo. E pensar que já estive enrolada num cobertor...

FOXTROT. UNIFORM. CHARLIE. KILO.

Apesar de tudo, estou orgulhosa da minha resistência. Da escadaria dos Mouros, às rampas da vila, aos treinos pelos trilhos da serra de Sintra, alguma coisa deve ter resultado, pois não me sinto tão de rastos como imaginava que iria estar nesta fase. Sigo devagar, mas não sinto necessidade de parar. Devagar é melhor do que parada, é o meu lema, e continuo no meu passinho lento, mas firme, ao ritmo do mantra que repetirei durante quase toda a subida. Foxtrot. Uniform. Charlie. Kilo. Não sei porquê, mas ao avistar a brutal encosta que teria de subir, veio-me à memória este hit do início do século, dos BHG, cujo refrão são estas palavras do alfabético fonético que formam um curioso acróstico... F.U.C.K. Bom, não me julguem, pelo menos está a ajudar!


Junho 1991, 05h30

- Acorda, está na hora.
Todos os anos, num dia das férias, acordamos antes do sol e fazemos, a pé, os 12km que nos separam do nosso cantinho especial na serra. É sempre a subir e, nos primeiros quilómetros, finjo sempre que estou meio a dormir para o meu pai me levar ao colo. Agora já começo a ficar muito grande para isso.
- Toma, leva este ramo para servir de cajado e anda.
É, crescer é difícil, sobretudo porque se perde as cavalitas do pai.


04 de Junho de 2016, 17h00

Morri e cheguei ao céu??!

Posso não ter bem a certeza onde começou o km vertical, mas sei bem onde terminou, porra! (Até porque estava bem assinalado).




- "Força, está quase. Isso é que é coragem!"

Cerca de 300 metros mais abaixo, quando começava a perder toda a esperança na vida e já me via numa qualquer espécie de purgatório de Dante, obrigada a subir uma montanha eternamente, sem nunca lhe ver o final, avisto dois vultos parados mais acima. Não era nenhuma miragem, eram mesmo dois militares da GNR, que lá estavam a controlar a subida dos atletas e tinham garrafões de água com eles. Paro e sento-me pela primeira vez em toda a subida, enquanto bebo um copo de água fresca e olho para baixo. "É mais fácil olhar para o que já fizemos do que para o que ainda falta", respondo, quando um dos militares comenta como é curioso que todos os atletas que ali passam tenham, tal como eu, parado, voltado as costas ao topo, e ficado a olhar para trás. Depois dão-me a boa nova. Que o km vertical estava quase a terminar, seriam apenas 300 metros até ao fim da subida e depois mais 1km, mas mais a direito e corrível, até à Torre. E eu tive fé nos senhores guardas e acreditei, apesar de, daquele ponto, ainda não conseguir ver o final.



Esses últimos 300 metros pareceram eternos, mas que dizer do último quilómetro antes de chegar à Torre? Que tortura.
Chegada lá acima a temperatura tornou a baixar e tive de vestir o corta-vento novamente. O PAC dos 72km já se avista por entre as brumas e tento correr. Acho eu. Pelo menos, levanto um bocadinho os joelhos e simulo um movimento que se assemelha a correr. Quando finalmente entro na torre, fazem o segundo furinho no dorsal a assinalar a segunda passagem pelo ponto mais alto e sento-me, ou melhor, aterro, num dos sofás.
Foram umas 3 horas para fazer 8km, só para terem noção do monstro. Seria difícil mesmo feito com as pernas frescas, quanto mais depois de 64km e numa SEGUNDA ida ao topo. É uma subida que, todos aqueles que gostam de trilhos e montanha, deviam fazer um dia. Já sabem, começa em Alvoco, reservem uma manhã para a subida e descida. Levem mantimentos. Bastões opcionais, mas muito recomendados.

Neste momento só lá está mais um outro atleta, das 100 milhas, com quem já me tinha cruzado antes. Cheguei, caraças! Estava tão feliz! Mas aquele feliz sem emoções exteriorizadas, apenas sentidas, enquanto repousava, quase inerte, no cadeirão. Sabia que, chegada aqui, já nada me impediria de terminar a prova. Daqui para a frente, apesar de ser terreno desconhecido em termos de quilómetros, já que o máximo que tinha corrido até então eram os 70km do ano anterior, era percurso conhecido por já o ter percorrido antes. Faltavam "apenas" 34km. Sabia que ainda ia ter pelo menos uma última prova de fogo, a Garganta de Loriga. O local onde tinha tido o colapso emocional em 2015. Mas, à luz da memória desvanecida de um ano depois, achei que tinha sido um exagero. Quer dizer, era, sem dúvida, uma parte complicada, mas não podia ser assim tão complicada. Lembrava-me vagamente de, inclusive, ter chorado nessa descida... Pfff, de certeza que este ano estou mais forte e menos mariquinhas! Vai correr tudo bem...


Fevereiro, 1998
- Weeeeeeeeee!
Saco de plástico debaixo do rabo e aqui vamos nós, pista de gelo abaixo. De vez em quando um de nós apanha um tufo mais alto e salta disparado. Todos riem às gargalhadas. Existem rochas encobertas na neve e outros perigos, mas ignoramos ou fingimos ignorar. Regressamos aos carros afogueados e encharcados, foi uma tarde em cheio.


04 de Junho de 2016, 20h00

- "Tirem-me deste filme!"

Não fui eu que o verbalizei, mas também o pensei. A Garganta de Loriga, esse local de beleza perene e imutável, que não deixa ninguém indiferente pela sua grandiosidade, sai muito prejudicada nesta prova por se encontrar já, praticamente, na sua recta final (os últimos 30km de uma prova de 100 já podem ser considerados recta final, não podem?). Chegamos aqui cansados, ansiosos por terminar, e não temos a paz de espírito necessária para admirar o seu percurso lento. As rochas e a inclinação natural (perda de acumulado de 1100 metros em cerca de 12km) exigem uma firmeza e atenção que já não temos. Além disso, este ano temos a dificuldade acrescida da imensa água que ainda por ali brota e escorre, tornando a pedra mais escorregadia, a par da extensa vegetação e respectivos mosquitos que por ali abundam devido à humidade. Não, este ano está a ser ainda mais difícil do que o anterior. Tirem-me deste filme!



Felizmente, os deuses deste vale de origem glaciária enviam-me sempre um anjo da guarda, na forma de colega de corrida, para me acompanhar nestas horas difíceis. Este ano terei a companhia do Hélder, que encontrei ainda na Torre a pensar desistir (que brincalhão). Não desiste não senhor, e seguimos juntos.



E ainda bem que tive companhia, porque, a par da pressão de tentar completar esta parte antes do pôr-do-sol (nem queria imaginar ainda andar por ali, na Garganta, à noite), cedo me apercebi de um enorme erro que tinha cometido. Num momento de distracção estúpida, tinha saído do abastecimento da Torre sem qualquer água na mochila! Tinha chegado lá já sem água e a ideia era tornar a encher o depósito antes de sair mas, entre o cansaço e o modo zen em que estava, prossegui sem o fazer. Com o avançar das horas este género de coisas tem cada vez mais tendência a acontecer, por isso é que toda a atenção é pouca. Senti-me uma tolinha por ter cometido este lapso tão básico. Por isso ficarei eternamente agradecida pela sua partilha. Não me livrei de escorregadelas várias, uma queda (estilosa!), arranhões, mosquitos a quererem servir de refeição e a servirem-se de mim como refeição, torcidelas, resmunganços e vernáculo mas, ao menos, não acrescentei "ficar desidratada" à lista de créditos finais deste filme que é sempre a travessia da Garganta de Loriga.

Esta foi a melhor foto que consegui tirar da Garganta de Loriga ao anoitecer.
De nada.

Terminaremos esta etapa ainda de dia, aliás, cinematograficamente ao pôr-do-sol, mas começo a aperceber-me de que os cerca de 20km finais terão de ser feitos a contra-relógio, se ainda quiser terminar dentro do tempo limite, por isso perco um bocadinho da emoção perante tal beleza cénica. Por alguma razão, a partir do momento em que tive a certeza de que (salvo alguma catástrofe) terminaria a prova, terminar dentro das 26 horas tornou-se imperativo para mim. Como é óbvio, ficaria imensamente feliz apenas por terminar, levasse o tempo que levasse - afinal, já tinha ficado muito feliz na Torre, só por lá chegar - mas queria saber se conseguia fazê-lo dentro do tempo limite e, enquanto fosse possível, não ia desistir. Nesse momento, entrei em modo competição, ainda que apenas com o relógio.
Infelizmente, e ao contrário de 2015, em que consegui correr sempre, e muito, assim que finalmente alcancei o estradão que liga a Garganta à vila de Loriga, desta vez as minhas pernas estiveram-se bem a lixar para o meu modo competitivo e fizeram-me um manguito. Recusavam-se a funcionar como os membros de um normal ser-humano e tenho quase a certeza de que a minha chegada à vila assemelhou-se a isto:



À entrada, numa esplanada, um grupo animado pergunta-nos se queremos uma cerveja e a gente responde que "não, queremos é terminar", coisa a que eles parecem achar muita graça, já que desatam a rir às gargalhadas. A gozar com quem sofre, é o que é!

Já no PAC, e com 83km percorridos, tento demorar o menos possível. Reabasteço o meu depósito de água, como qualquer coisa rápido e, depois de colocar novamente o frontal, já que começava a escurecer, torno logo a sair. Mesmo assim, ainda devo ter levado quase uns 10 minutos.
Faço um novo telefonema e começa o choradinho... "Não vou conseguiiiiiir... Chuif! Faltam poucas horas e eu não consigo correeeeer...  Chuif chuif! Pareço um pinguim engessado. Não te rias, não tem graçaaaaa...." O colapso emocional tardou, mas chegou.


03 de Junho de 2016, 15h

Porra, não consigo dormir! Nem uma sestazinha. Como é que vou aguentar toda a noite a correr? Dorme. Dorme. Ohmmmmm.... Ohmmmm.... Bolas, não consigo! Vai ser bonito, vai.


04 de Junho de 2016, 22h00

Já estou fora de Loriga, a percorrer um troço de calçada romana, quando ligo o frontal. Engraçado, nunca senti sono algum. Já estou acordada desde as 8h de sexta feira, logo, há mais de 38 horas, mas a adrenalina tem sido suficiente para me manter sempre desperta. Talvez, se soubesse que ainda teria de lá andar mais uma noite, o caso fosse diferente, mas, desta forma, sabia que era uma questão de mais um par de horas e, quanto mais depressa terminasse, mais depressa me deitaria.
Tento correr sempre que posso, para contrariar a rigidez das pernas, mas faço-o de forma hilariante, sem velocidade ou coordenação alguma. A prova é que, mesmo a caminhar, o Hélder consegue ir sempre à minha frente. Sei que está numa fase forte e que estou a atrasá-lo, e isso incomoda-me. "Tu estás forte, aproveita, não te atrases por causa de mim!", mas ele só me irá dar ouvidos já quase a chegar ao último abastecimento.

Antes de Valezim, onde havia um posto de controlo nos bombeiros, aos 94km, vejo um frontal a vir na direcção contrária. Seria algum atleta perdido? Afinal era o Artur, que, preocupado com a minha choradeira, tinha vindo até ali dar uma força. Já mais calma, digo: "Artur, eu vou terminar, mas tenho medo de não chegar antes das 2 horas da manhã, porque não consigo correr como deve ser. Não dobro as pernas, pareço um pato." (Seria uma melhoria em relação à fase pinguim??)



- "E achas que és a única que está assim?", responde-me ele - "A maioria dos atletas que tenho visto a passar também já corre toda empenada. São muitas horas e muitos quilómetros, é normal!"
Foi mais um abre-olhos para mim, para deixar de me achar uma flor de estufa especial. Sim, é verdade que estás toda partida, talvez seja porque já estás a correr há quase 24 horas... Desenrasca-te!


01 de Janeiro de 2000, 00h00

- Anda ver, depressa!
Conseguimos, chegámos ao ano 2000 e o mundo, contra todos os vaticínios mais fatalistas, não acabou. E, pelo menos até ao momento, não me parece muito diferente do que em 1999.
No terraço assam chouriço na brasa, bebem-se minis, outros preferem fazer brindes com champanhe. Olho para cima. O perfil da montanha destaca-se escuro, encimado por uma fina cobertura de neve que brilha sob o céu magnificamente estrelado. Nunca vi estrelas como aqui... Um segundo depois, juntam-se estrelas verdes, vermelhas, amarelas, explosões de cor. Começou o fogo de artifício.


05 de Junho de 2016, 00h00, 24 horas de prova.

Hoje já é uma noite com estrelas, na Estrela. Observo o céu estrelado e, por momentos, esqueço-me da "competição" e volto a estar exactamente onde estou. Ahhh, o poder de correr ao abrigo da noite! Falta cerca de 1km para o abastecimento de Lapa dos Dinheiros, a partir do qual ficarei a menos de 10km da Meta.
Guardei os bastões e decido "correr" como posso. Não páro. Custa-me muito, mas também é verdade que, até hoje, nunca senti que tenha dado tudo de mim numa prova. Nunca estive sequer perto da "zona vermelha", de cruzar a Meta com a sensação de que fui ao meu máximo e deixei toda a minha alma nas passadas que dei, que não poderia dar um passo que fosse a mais. Geralmente aceito bem isso, já que levar o meu corpo ao limite não é a razão porque corro, mas achei que, a ter de algum dia fazê-lo, seria hoje. Nestas 24 horas já tive os meus momentos de admiração e contemplação, de conversas e brincadeiras, de descanso, até, nos abastecimentos. Agora, ainda tenho hipóteses de terminar a minha estreia nos 100km e ser classificada, portanto vou dar tudo por isso.


01:00, 25h de prova, 1 hora para o tempo limite.

Não sei o que puseram naquele café que me serviram em Lapa dos Dinheiros, mas tive direito uma segunda vida. Mais que uma segunda vida, quase um novo corpo, jovem e fresco! Sinto-me TÃO BEM. Nem acredito.

Entrei no PAC apenas decidida a dar o número do dorsal e partir sem mais demoras. Continuava a seguir no meu corrinhar lento, mas sem ceder à tentação de caminhar. Às vezes custava tanto que até me apetecia chorar um bocadinho, mas penso que seja assim que se sabe que estamos a correr com o coração, e não ia desistir do meu objectivo. Depois, no abastecimento, alguém me ofereceu um café acabado de tirar e eu, após uma ligeira hesitação, decidi aceitar. Eram só mais uns segundos e podia ser que a cafeína me arrebitasse. Bom, penso que tenha sido só mesmo da cafeína mas, se puseram mais qualquer coisa naquele café, condoídos pelo meu esforço, não quero saber! O que quer que tenha sido, resultou.
Essa energia cafeinada, a par da aproximação da meta, deu-me uma vaga de força que pensei já não ter. Começo a correr a uma velocidade estonteante (na verdade, deve ter sido a um ritmo de 7min/km, mas sejam compreensivos e vamos considerar este ritmo como "estonteante", devido ao facto de já ir com 100km feitos. Obrigada!), até respiro alto e tudo, com sons de esforço, à verdadeiro atleta a dar o litro, como sempre quis.

Depois de fazer a subida da floresta que passa pelos Cornos do Diabo, e a sentir-me muito melhor do que o ano passado, começo a acreditar que vou mesmo conseguir terminar dentro do tempo limite. Segue-se a zona da levada, que é muito rolante, embora, neste meu estado de foco total, pareça interminável. Mais à frente, na subida à Cabeça da Velha, a última subida considerável da prova, tenho novamente de caminhar, mas tento manter um bom ritmo. Nesta fase passo por vários atletas das 100 milhas, inclusive por um senhor espanhol muito simpático e com uma grande força. Inspirador! No topo sei que irei ver Seia, com os seus contornos adivinhados nos pontos de iluminação de uma cidade já adormecida, nas primeiras horas da madrugada de domingo.
Agora será sempre a descer até à meta.

Nesta fase, descer dói mais que subir. As pernas travam instintivamente, castigando as coxas. Os pés que derrapam levantam pó, bem visível no túnel de luz formado pelo frontal. Respiro poeira e insectos colam-se à pele fria de suor. Deixo de ver as sinalizações e entro em pânico. "Aqui não podem falhar as marcações, raios!" Fico furiosa com a Organização, que neste ponto devia ter assinalado melhor os cruzamentos, pois estamos na segunda noite e a concentração dos atletas já não é a mesma. Estou quase a chegar à Meta e ainda tenho uma margem de tempo confortável, mas perder-me agora seria frustrante. Mais à frente, vejo uma fita. "Graças aos deuses dos trilhos e das fitas reflectoras!" Ainda bem que não tenho de voltar atrás.


A Meta.

Entro na cidade e não resisto a olhar para o relógio a cada dois minutos. Não levei o gps ligado na prova porque não teria bateria suficiente para aguentar-se tantas horas, mas tenho-me guiado pelas distâncias dos abastecimentos e pelas horas. São 01:15 da manhã. Consegui!
Faço os últimos dois quilómetros, já em asfalto, em modo de piloto automático, é como se não sentisse cansaço ou dor alguma. Devido à hora tardia não está muita gente na rua. Só já na curva antes da Câmara Municipal é que se começa a ouvir música e vozes. 106km, 6000m D+ , 25h24 e muitas memórias depois, estou de volta ao ponto de partida.

- É a primeira mulher das 100 milhas?
- Não, devo ser a última mulher dos 100km.
São estas as primeiras frases, completamente anti-climáticas (ahah) que troco no momento da meta, com uma senhora que assistia. E, a bem dizer, cerca de 15 minutos depois, chegará a primeira mulher das 100 milhas.
Estou à espera de uma emoção que ainda não sinto. Pensei que fosse chorar, sentir-me imensamente feliz mas, para ser sincera, neste momento sinto apenas um grande alívio. Terminou. Vou poder deitar-me, descansar. Finalmente!

Na tenda junto à chegada, onde passo para comer qualquer coisa, está o elemento da equipa médica que, na manhã de sábado, na primeira subida à Torre, me tirou a temperatura e me "obrigou" a embrulhar-me num cobertor. Reconheceu-me.
- "Estás com muito melhor aspecto agora!"
- "Ahahah... Obrigada.", respondo eu, a pensar que, provavelmente, ele também ainda não se teria deitado e já não estava a ver com clareza.
- "Muitos parabéns! Deve ter sido uma grande aventura."
- "Sim, foi. Foi, sem dúvida, uma grande aventura."

Regresso ao hotel, a pé, amparada num braço, em silêncio. Sinto-me a levitar, num estado de alheamento como se estivesse num sonho. O sono em falta caiu-me em cima, atordoando-me, quando se apercebeu de que parei. Vai haver uma altura para sentir todas as emoções, assimilar a realidade que vivi, mas ainda não será agora.
- "Vamos, preciso de dormir."