29 de novembro de 2016

Maratona do Porto




- FORÇA, RUTE!

O apoio, por parte do público, tem sido fenomenal. Até para um bicho do mato, como eu, mais habituada à assistência silenciosa das árvores, à passividade dos rochedos e ao murmúrio suave dos ribeiros, esta energia é contagiante. Com o nome impresso no dorsal, é frequente recebermos um incentivo personalizado. Até ao momento, estou a ganhar ao Artur, que corre ao meu lado, por uma boa margem neste apoio individualizado. Ele diz que é por eu ser rapariga, mas eu acho que é porque não consigo deixar de sorrir. Olho as pessoas nos olhos e sorrio. Não tenho de olhar para o chão para ver se há alguma raiz exposta, para ir atenta a pedras escorregadias ou baixar a cabeça para não ver quanto falta até ao cimo da encosta. Posso ir a ver os atletas que regressam e tentar encontrar amigos e conhecidos, posso observar as pessoas ao longo do percurso e agradecer à altura.



Vou a sentir-me bastante bem. Como não foi uma prova planeada não tenho qualquer pretensão ou expectativa em termos de resultados. Estaria preparada para ter de caminhar, se fosse preciso, mas tenho conseguido manter sempre um ritmo confortável. No entanto, num cantinho da minha mente, nunca deixou de pairar o espectro d'O Muro. Onde estaria ele? Quando o encontraria? Como seria? Vou a caminho do km 30, o ponto de retorno antes de chegar à Ponte do Freixo, quando me cruzo pela última vez com os colegas de equipa que já seguem na direcção contrária. Dou um high-five ao João que grita: "agora é até à meta!". Ele vai muito bem, vamos todos muito bem, mas numa Maratona o "muito bem" não pode durar sempre, ou pode? Faltam-me 12 km, os últimos 12 km, "metade" da Maratona. O espectro d'O Muro adensa-se.




No dia anterior, eram quase seis da tarde e estava eu sentada na estação de comboios da Gare do Oriente, quase a choramingar. O dia não tinha corrido nada como planeado. Àquela hora, já deveríamos estar no Porto, a postos para um jantar de amigos, e não ali, ainda em Lisboa, depois de um dia bastante angustiante. Felizmente, depois tudo se veio a compor, mas uma série de contrariedades no Sábado deixaram-me bastante nervosa e a pensar se aquilo não seria um qualquer SINAL celeste para não ir fazer a Maratona... O stress deixa-me, claramente, virada para a espiritualidade.
Esta véspera stressante e atípica, sem respeitar refeições e hidratação, aliada à falta de treinos específicos para uma prova deste calibre, deixou-me ainda mais insegura relativamente à minha preparação. "Vamos para uma festa" - dizia-me o Artur - "é isso que tens de pensar, que vais para divertir-te e fazeres o melhor que conseguires". E eu acenava que sim, embora sem qualquer fé. Naquela altura eu ainda não sabia que seria isso que a Maratona do Porto iria ser para mim: uma festa.

Os primeiros dez quilómetros passaram bastante rápido. Após cruzar a linha de partida, ao som de Highway to Hell, continuava sem saber por qual estratégia, se alguma, deveria optar. Intervalar corrida com caminhada? Talvez fosse o melhor, dada a pouca preparação. Mas tinha em mim a curiosidade de saber se era capaz de fazer os 42 km sempre a correr. A distância não era nada de novo para mim, mas o estilo de corrida sim. O ritmo certo, contínuo, sem variação extrema de cadência, sem paragens, sem grande desnível. Como iriam os meus joelhos lidar com o impacto repetido no asfalto? Era o que mais me preocupava, não queria sair dali com alguma lesão. No fim, influenciada pela energia do pelotão que me rodeava, comecei um bocadinho mais entusiasmada do que se calhar devia, optando pela estratégia profissional do corre-para-aí-e-depois-quando-começar-a-doer-aguenta. Highway to Hell, assim seja.


Depois de passar a rotunda do Castelo do Queijo, fiz um telefonema. O pelotão já se tinha espaçado um bocadinho, perdido nas curvas e contracurvas do início e na passagem pelo porto de Leixões, onde pudemos observar os primeiros atletas que já vinham em sentido contrário. Tanto o meu ritmo como a minha respiração ainda se mantinham confortáveis, mas também seria muito mau sinal se assim não fosse, uma vez que íamos apenas com uns 11 km de prova.
Seguia-se uma longa recta sempre junto ao rio, até chegar à zona da Ribeira, e tinha de aproveitar esta parte relativamente calma, e enquanto ainda conseguia manter uma conversa coerente sem ter de arfar a cada sílaba, para ligar à minha Mãe. Não é muito habitual falar ao telefone enquanto corro, sobretudo em provas de estrada, mas era um telefonema do qual dependia a minha paz de espírito e, enquanto não o fizesse, não iria conseguir desfrutar a prova na plenitude. Claro que não fui ali de telemóvel encostado à orelha, como se estivesse na esplanada! Pus os auriculares, para disfarçar, e, felizmente, algumas frases bastaram para saber que estava tudo bem. Daí para a frente, até ao final, já ninguém me tirou o sorriso da cara.

O percurso é animado por algumas bandas a tocar de tantos em tantos quilómetros e corro ao ritmo da música. Não me consigo lembrar que canções passavam, mas na minha cabeça eram alegres e tinham dança. Tão bom correr com esta leveza! Está bem que só passaram 16 km, mas esta leveza é da alma, e não do corpo, e acredito que isso acabou por fazer muita diferença. Passamos por uma discoteca after-hours, de cujas janelas abertas nos chega um som electrónico, repetitivo, e o cheiro a fumo de tabaco. Pessoas que ainda não foram à cama dançam e acenam-nos de lá de dentro e eu aceno cá de fora. Cada um a pensar que está no melhor lado da festa.



Já estou a chegar à Ponte D. Luís quando começo a sentir uma pontada no joelho esquerdo... Na minha cabeça solto uma rajada de interjeições com vírgulas do Norte. Era a única coisa que me podia dar cabo desta experiência, raios! Abrando. Também não tenho nada que estar a correr a ritmos para os quais não treinei. Confortáveis, sim, mas provavelmente não geríveis para a totalidade da prova. Acalmo-me. Pode ser que seja daquelas dores que aparecem e depois passam.
Quando estou a atravessar o tabuleiro pedonal da ponte, um homem grita-me um incentivo personalizado, com tanta emoção que parece que me conhece. Por momentos até pensei que fosse mesmo alguém conhecido, mas não. Deve ter reparado que, naquela altura, estava mesmo a precisar de uma força extra. Mais uma vez, fiquei agradecida pelo fantástico apoio de quem assistia.


Devido à preocupação com o joelho, os quilómetros até à Afurada acabarão por ser o meu momento mais baixo de toda a prova. Quando passei a marca da Meia Maratona o ritmo já tinha abrandado um bocado e o facto de agora estarmos a correr em piso empedrado não ajuda. Tento fugir para o passeio mas toda a gente à minha volta parece que teve a mesma ideia e não consigo. Felizmente dá para nos distrairmos com o fluxo de atletas que já vem no sentido contrário e acabo por ver algumas caras conhecidas. Algumas vão tão concentradas que nem me ouvem chamar por elas, mas ainda consigo ver e acenar à Isa e ao Vitor e mais à frente trocar umas palavras de força com o João.

Quando dou por isso já estou no ponto de retorno e a dor no joelho eclipsou-se. Ainda bem! Começo a notar algum cansaço nas pernas, mas nada que não seja suportável. Ao nível do cárdio também tudo estável. Vamos com cerca de 29 km de prova quando começo a ver as primeiras pessoas a parar para caminhar, sobretudo na pequena rampa de acesso à Ponte Dom Luís. Para minha admiração, faço-a com relativa facilidade e sem destabilizar a respiração. Consigo manter uma cadência certinha e isso dá-me confiança de que irei conseguir manter o ritmo de corrida. Também ajuda muito o facto de não existirem montanhas na cidade do Porto! (Aliás, se me perguntarem, a Maratona não teve subidas. ;))
No entanto, está a chegar a fase crítica dos 30 km e não quero permitir-me a euforias antes de tempo e depois bater com a minha enorme cabeça inchada num Muro monumental. Calma. Faltam-me 12 km, os últimos 12 km, "metade" da Maratona.



FOME. Tenho muita FOME! É só isso em que consigo pensar quando chego aos 32 km de prova.

Para trás ficou o túnel da ribeira onde a música Eye of the Tiger se fazia ouvir em repeat e onde ecrãs espaçados a cada cinco metros passavam a famosa cena da corrida do Rocky. Foi um toque engraçado da Organização e que a mim muito me agradou porque, como como já partilhei uma vez no blogue, é uma das minhas cenas favoritas do filme e que aqui resultou numa inspiração inesperada. Acho que foi neste momento que tive a certeza que iria aguentar correr até ao final. Aliás, os primeiros (milhares) é que já tinham chegado à Meta, senão até tinha a certeza de que era capaz de ganhar a prova! :)


Como não se sentir motivado ao ouvir o Eye of the Tiger, como?!

Mas, como estava a dizer: FOME. Não sei se foi da pouca disciplina alimentar da véspera, se do facto de ter tomado o pequeno-almoço muito cedo, mas vou passar a prova inteira com o estômago a reclamar alimento. De tal forma, que todos os géis que ingeri, bem como as bananas consumidas nos abastecimentos, servirão mais para mitigar a carência já existente do que propriamente para dar energia extra. Nunca tal me tinha acontecido, nem mesmo em ultras que me duraram o dia inteiro. Nesta fase da prova começo a preocupar-me, não fosse dar-me a fraqueza numa altura tão crítica.
Mais à frente, vejo um rapaz que segurava um cartaz com a frase: "DESPACHA-TE! TENHO O ASSADO NO FORNO." Já o tinha visto duas vezes ao longo da prova e, desta vez, tive de me rir, quando ele, olhando para nós, aponta para o cartaz e comenta: "Eu não quero ser chato, mas...". Ia com quatro horas de prova, era hora de almoço, e mal sabia ele a fome que trazia naquele momento! Já não me lembro o que lhe respondi e rimos todos com a situação. E este foi o sinal de que estava mesmo a ter um dia bom.

Quem já correu comigo, e com qualquer atleta no geral, sabe que há ali uma ou outra fase nas provas em que o sofrimento começa a bater e o humor se torna um bocado instável. A mim dá-me para começar a resmungar com tudo ou, quando estou mesmo no fundinho mais fundo do poço, baixar a cabeça e não falar nem responder a ninguém. Se alguém que estiver a assistir me der uma força, o máximo que consigo fazer é retribuir com um esgar que pretendo passar por um sorriso mas que de certeza mais se assemelha a um AVC. Mas hoje não. Hoje vou sorrir e brincar do início ao fim. O universo decerto quis equilibrar a balança, concedendo-me um dia feliz depois de um dia menos bom. Domingo foi o Yang para o Yin do Sábado.

Portanto, vou feliz mas, claro, não sou a Super -Mulher. Óbvio que aos 35 km as minhas pernas já pesavam e bem. No entanto, nunca senti aquela necessidade premente de parar, aquela sensação de não conseguir dar mais um passo que seja, que já senti em outras provas. Se calhar, foi nesta fase que a experiência das Ultras ajudou. Passo novamente pela discoteca after-hours, pela qual tinha passado à ida, umas horas antes, e ainda continuo a achar que estou no melhor lado da festa.
Ultrapassamos várias pessoas nesta fase. Foi algo que me impressionou, o número de atletas que faz os últimos quilómetros a andar, alguns até parados, visivelmente com bastantes dores. Agradeço o dia bom, porque eu sei o que é quase chorar com a perspectiva de ter de continuar a correr e hoje não foi esse dia. Íamos com cerca de 37 km, a 5 km do final, quando finalmente tive a coragem de verbalizar aquilo que já sabia na minha mente há muito: "Vou conseguir correr até ao fim!"

Se há pouco vos disse que esta Maratona não tinha subidas, abro agora uma ligeira excepção. No regresso até à rotunda do Castelo do Queijo, sou capaz de apostar que aquilo é a subir, apesar de não ter reparado que fosse muito a descer quando o tinha feito no sentido contrário! É que parece que nunca mais acaba, livra! Mas o facto de estarmos a passar muita gente, e ninguém nos passar, ajuda a manter a moral.

Quando finalmente lá chegamos, ultrapassamos o pórtico que anuncia 1 km até ao final e, os momentos restantes até cruzar a Meta, ficam gravados na memória em câmara lenta, ao som de Vangelis. O speaker que, antes da curva para a subida da meta, grita o meu nome e diz que já está, que sou maratonista, atletas que já terminaram e que passam por mim e me dizem o mesmo, que já está, mas ainda não está, falta um último esforço naqueles duzentos metros finais de subida, já a sentir todos os músculos das pernas a queimar, as dezenas de rostos das pessoas encostadas às grades, que aplaudem, o pórtico ao fundo, com as letras PARABÉNS, o relógio que não chegou ainda às 5 horas de prova, as meninas com os pompons que formam um corredor à nossa chegada, o cruzar do tapete, parar o relógio, ouvir as palavras "és uma Maratonista". Agora sim, já está.

Digo: "afinal não foi tão mau como pensava", admirada, contente. Digo-o ao Artur, que cruzou a Meta atrás de mim, digo-o ao Carlos que lá estava a filmar a nossa chegada. Vou repeti-lo várias vezes, a várias pessoas, e rio-me como se tal constatação fosse muito engraçada. AFINAL NÃO FOI TÃO MAU COMO PENSAVA!

E cá está, a crónica de uma ultramaratonista que se tornou maratonista. Sei que não é o percurso mais comum e que resulta talvez numa experiência um pouco diferente de quem faça uma Maratona pela primeira vez como prova de maior distância. Não foi, de facto, tão mau como pensava, embora isso não signifique que tenha sido fácil! Não foi mesmo!!! É difícil explicar. É óbvio que não ia correr para bater nenhum tempo específico, e isso faz toda a diferença. Também sei que ia preparada para a dor, porque já lidei com ela várias vezes, e talvez isso me tenha ajudado mentalmente. Apenas não sabia como o meu corpo ia reagir a tanto tempo e impacto de corrida contínua. Posso já ter feito uma prova de 100 km, mas acho que nunca tinha corrido 42 km seguidos sem caminhar. Esse passou a ser o desafio, saber se conseguiria fazê-lo, assim que vi que me estava a aguentar bem. E consegui! Não foi nenhum tempo extraordinário (4:52:50), mas foi o meu tempo, o meu tempo sempre confortável, sem parar, e fiquei orgulhosa disso. Não estava certa de conseguir fazer menos de 5 horas e muito menos fazê-lo sempre bem-disposta, portanto foi um bom resultado para mim. Sobretudo, porque ia acagaçada com a falta de treino! Mas acho que a falta de pressão e expectativas, aliadas ao facto de nunca ter esticado para lá de um ritmo confortável e, porque não, tudo isso aliado também a um pouco de sorte, ajudaram a que tivesse uma boa primeira experiência.

Não sei se farei outra Maratona tão depressa. Esta deixou-me uma recordação perfeita, assim como foi. Sei que, se algum dia quiser correr outra, vou querer fazê-lo "como deve de ser", preparada, com treinos específicos, para dar o meu melhor, sair da zona de conforto. Toda aquela preparação que faz parte da viagem e que desta vez saltei. E sei também que, por enquanto, não é para aí que o meu coração pende. Mas ainda bem que, um mês antes, houve alguém que me convenceu que participar numa Maratona poderia ser uma festa. E fico feliz porque foi mesmo.

8 de novembro de 2016

Das ultramaratonas à Maratona

E eis que, três anos depois da minha última prova de estrada, fiz uma Maratona.



Um mês antes:
- "Surpresaaa! Inscrevi-te na Maratona do Porto!"

Alguém que, a tão pouca distância do evento, vos faz uma surpresa destas, é:
a) alguém que tem plena confiança nas vossas capacidades e quer proporcionar-vos um dia feliz;
b) alguém que serve uma vingança fria e vai gostar de vos ver a penar durante algumas horas;
c) ambas as respostas acima poderão estar correctas.
Respondam nos comentários.

Sei que o meu percurso não é o mais convencional, já que fiz 15 ultras, incluindo uma de três dígitos, antes de participar na "prova mítica". No entanto, como já uma vez escrevi por aqui, correr uma Maratona nunca foi um sonho meu. Não era algo que estivesse completamente excluído, mas era uma ideia constantemente adiada. Tinha feito apenas duas meias-maratonas de estrada quando comecei a participar em provas de trail e, desde que descobri os trilhos, todos os meus objectivos se viraram para aí. É nos trilhos que me sinto mais livre, mais feliz e, embora não tenha sido intencional, os anos foram passando e nunca mais tornei a participar numa prova de estrada. Inclusive, não fazia treinos longos em estrada há - literalmente - anos.

A ideia de participar na Maratona do Porto foi primeiro abordada numa conversa pouco depois do OMD. Sem nenhum outro objectivo até ao final do ano, e ainda a alguns meses de distância, parecia uma boa altura para, finalmente, estar presente na prova de que todos falam. Mas não fiquei convencida. Na minha cabeça, só fazia sentido fazê-lo por paixão, por uma enorme vontade, e, honestamente, isso eu não tinha. Depois, com a rebaldaria total de treinos que se revelaram os meses seguintes, a ideia foi completamente posta de parte. Ou assim pensava eu...

E é assim que, cerca de um mês antes, me vejo confrontada com a possibilidade real de estar presente. Só tinha duas opções: não ir, ou ir, e aguentar-me à bronca. (Bom, ok, tinha sempre a opção de encurtar para a Family Race).

Nesse espaço de tempo fiz dois treinos "longos" em estrada, de 21 e 22 km, só para testar se ainda aguentava correr sempre a um ritmo certo e contínuo, e pouco mais. Óbvio que não foram treinos suficientes, nem significativos. Sabia que não estava preparada para competir na Maratona (e, por "competir", entenda-se dar o meu melhor) mas também não o faria levianamente. Os anos e muitos quilómetros de base deixavam-me, talvez, preparada para participar. Era a isso que tentava agarrar-me. Mas sabia também que tinha, pelo menos, uma coisa a meu favor: a minha capacidade de aguentar várias horas de sofrimento. É, as ultras fazem-nos isso!

Portanto, foi esse o espírito com que fui para o Porto. Sem expectativas, sem pressão. Iria agradecer o presente, desfrutar da festa da corrida e, quando a dor aparecesse - e sabia que iria aparecer, mais tarde ou mais cedo (eu esperava que mais tarde) - tinha de cerrar os dentes e aguentá-la.

E não é que correu bem?!


2 de novembro de 2016

O armário

Todos aqueles que correm têm "O" armário. Pode até nem ser um armário. Pode ser uma gaveta, um canto no guarda-fatos, uma cesta no quarto, um alguidar no fundo da lavandaria... Mas o conceito é o mesmo. "O" armário é o baú de recordações da corrida, o depósito têxtil das nossas conquistas, o emaranhado físico das provas feitas, o caos suado do nosso esforço. Vulgarmente é também conhecido por "o armário onde estão as tshirts".

Ao início todo ele é religiosamente organizado. A primeira tshirt, depois a segunda, guardadas com o cuidado de uma peça de museu extremamente valiosa, que é posta a arejar de tempos a tempos, em algum treino (mas não muito, para não estragar). Depois, com o passar do tempo e a gradual participação em provas, o armário começa a ganhar dimensões assustadoras. De tal forma, que até temos medo de enfiar demasiado o braço naquela confusão, não vá dar-se o caso de sermos sugados para uma outra galáxia de planetas de algodão, poliéster e tecido técnico. Outras vezes, chego a suspeitar que no armário habita um monstro devorador de tshirts, pois só isso explica que não consigamos encontrar aquela tshirt azul com as letras cinzentas, daquela prova de 2012, que queríamos mesmo usar no treino de hoje, apesar de termos outras dezenas à disposição.

Os dias vão passando, acabamos por tirar sempre a tshirt que está mais à mão, enquanto olhamos de soslaio para o interior do armário e pensamos que temos de o organizar "um dia destes"...

No meu caso, como a situação já estava a adquirir contornos que poderiam pôr em causa a minha integridade física*, tive de enfrentar o mostro e arrumar O armário.

*(a sério, o armário fica num ponto mais elevado e, sempre que tinha de tirar uma tshirt, tinha de fechar rapidamente a porta, não fosse dar-se um desabamento das restantes e eu só vir a ser encontrada dias mais tarde, soterrada sob quilos de pano colorido.)

O Antes.

O que eu não contava, é que este acto de arrumar fosse abrir uma caixa de Pandora de recordações e nostalgia, o que dificultou bastante o meu trabalho.

- "Xiiii, a t-shirt da MINHA PRIMEIRA PROVA! Não a via há anos, enterrada no meio dos destroços das outras tshirts, mas, decididamente, tem significado, não posso desfazer-me dela."

S. Silvestre dos Olivais 2011.
A Primeira.

- "OMD, a PRIMEIRA VEZ QUE BAIXEI DA HORA AOS 10 KM! Nem pensar em doá-la, vou guardá-la para sempre, mesmo que não a use nunca porque o tecido causa-me alergia no pescoço ao raspar enquanto corro.

Corrida Dona Estefânia 2012.
Era sempre a direito, perfeita para bater recordes, e assim foi.

A estas seguiram-se a da primeira Meia-Maratona, da primeira prova de trail, da primeira Ultra... A ideia era guardar as melhores, deitar fora as que já estivessem em más condições e juntar outras quantas, que já não uso, para doar. Mas como é que uma pessoa escolhe entre filhos? Como?!

Agora fora de brincadeiras, é engraçado as memórias que ficam associadas a uma peça de roupa e que me ocorriam quando pegava em cada uma. Sabiam que a banda sonora do Indiana Jones fazia parte da minha playlist na minha primeira prova? (Ahah, que totó...) Sabiam que o meu pai esteve presente na prova em que baixei da hora e me acompanhou, também, em parte da minha primeira Meia Maratona? E que fiz parte de uma equipa de estafetas na Maratona de Lisboa 2012? Que foi nesta prova que me comecei a apaixonar por Sintra? Que assei de calor no Almonda de 2013 e que, por causa disso, essa prova ficou para sempre riscada da agenda para mim, mesmo que noutras edições, entretanto, até tenha chovido? Que Mafra se tornou especial, no dia em que fiz o Raide à Tapada? Que, mesmo sendo uma tartaruga, fiz aqui o meu primeiro pódio? Que, por esse país fora, conheci locais e pessoas que, provavelmente, nunca teria conhecido de outra forma? Eu sabia disso tudo, mas já não me lembrava. Só foi preciso arrumar o baú das memórias.

O Depois.

Bom, não sei se esta crónica vos vai dar vontade de fazer arrumações - provavelmente não - mas eu gostei desta viagem ao passado. "Corro para criar memórias", como já por aqui escrevi um dia (e, já agora, os 26km da Lagoa de Óbidos foram a minha primeira prova nocturna, feita com um frontal muito fraquinho, que quase não durou a totalidade da prova. Felizmente, tinha três companheiros de corrida.)

Acabei por me desfazer de menos tshirts do que aquelas que gostaria. Por outro lado, ainda sobram bastantes para um dia mandar fazer uma manta de retalhos da minha "carreira" desportiva.

Exemplo de um "race quilt", dos muitos encontrados por essa net fora.

- "Ah, e tal, tudo muito bonito. Mas, e correr que é bom, pá?"

Pois, cá vamos! Já corri mais, mas também já corri menos (ver meses que se seguiram ao OMD). Sempre sem falhar aos fins-de-semana, menos consistente durante a semana (nada de novo, portanto). Mas depois falamos melhor sobre isso.
No entanto, o meu Garmin, tal como algumas das minhas tshirts, já merecia uma reforma. Tenho-o desde 2012, o que não parece assim tanto, mas sabemos bem que, em termos de tecnologia, é quase como se fosse pré-histórico. O modelo foi descontinuado e, talvez por isso, tem dado muitos problemas na actualização e transferência dos treinos, para já não falar dos dias em que se recusa a treinar (não apanha satélites). Assim sendo, ainda não tenho as contagens destes dois últimos meses. Vou instalar uma aplicação no telemóvel entretanto, só para ter algum controlo. 

E vocês? Como anda a vossa colecção de retalhos para a futura manta de feitos desportivos?