13 de julho de 2017

Marginal à Noite

Recuperei muito rapidamente do OMD. Provavelmente porque pouco corri na segunda metade da prova, o que fez com que praticamente não tenha ficado com dores musculares. Assim sendo, e tirando os pés que ainda estavam um pouco massacrados, três dias depois sentia-me pronta para outra.
No entanto, à semelhança dos outros anos, resolvi fazer uma pausa de corrida nas duas semanas que se seguiram. Acho que faz bem a seguir a um grande desafio. Em duas semanas não se perde assim tanta forma, sobretudo se mantivermos outras actividades físicas, e sempre serve para fazer um "refresh", descansar o corpo, definir objectivos e voltar com outra vontade. Mas este ano abri uma excepção apenas para participar na Marginal à Noite, que foi logo no sábado seguinte.

Não é muito o meu tipo de prova - muita confusão e uma distância que não chega aos 8 km - mas arranjaram-me dorsal e ia ser feita em jeito de festa, com amigos, por isso não podia recusar. Escusado será dizer que não fiz um único treino na semana que a antecedeu. Porém, estava confiante de que conseguia fazer os 8km sem muitos problemas. Ou melhor, só havia um: o calor que se fez sentir nesse dia. Pensem no fim-de-semana mais quente deste ano até agora. Já se lembram? Foi esse mesmo.

O que vale é que a Marginal à Noite, como o próprio nome indica, realiza-se à noite, tendo início às 21h30. Mas não pensem que só por isso estava menos abafado, porque não estava. Quer dizer, se tivesse sido às 10h da manhã se calhar teria sido pior, mas a caminhada de mais de 1 km que tivemos de fazer do carro até à zona da Partida deixou-me logo a transpirar.
Estava um tempo estranho, com o ar quase irrespirável, opressivo. Começaram a formar-se umas nuvens e avistaram-se uns quantos relâmpagos ao longe, o que nos deixou esperançosos com a possibilidade de uma tempestade de Verão cuja chuva nos viesse refrescar um pouco, mas isso nunca chegou a acontecer. Quanto muito, as nuvens que se aglomeraram só contribuíram para criar mais humidade, que, junto com o calor, forma aquela dupla das condições climatéricas que os corredores mais detestam.

Passar de uma prova de cerca de 70 atletas, na semana anterior, para esta, com mais de 7000 (!), foi ligeiramente assoberbante. A faltar cerca de 20 minutos para a partida, a marginal junto à praia de Santo Amaro de Oeiras estava coberta com uma manta de retalhos (=atletas) colorida. Felizmente, como tinha dorsal com chip, entrei num separador diferente, com menos confusão, embora também já estivesse bem composto, com o vermelho - cor da t-shirt deste ano - a destacar-se.


Na praia ainda se viam vários banhistas resistentes, embora fosse quase de noite. Mais à frente, uma animadora e um grupo de música faziam o ambiente de festa até que, à hora marcada, deram o tiro de partida.

O primeiro quilómetro será acompanhado de fogo de artifício. O efeito visual, em contraste com o escuro do céu, era bastante bonito, mas vou passar os primeiros minutos da prova com o coração a mil, e não necessariamente pelo meu ritmo. É que aquilo rebentava ali praticamente ao nosso lado! Mas, pelo menos, distraiu-me daqueles primeiros metros caóticos, típicos de uma prova com tanta gente.

O bom de uma corrida com tantos participantes é que basta manter um ritmo certinho e vamos sempre a ultrapassar pessoas! E isso é muito motivante. O percurso desta prova não tem nada que saber, é seguir sempre a marginal, até ao ponto de retorno por volta dos 4 km, e voltar para trás. Penso que ainda nem tinha chegado aos 3 km e já vinham os primeiros lançados para a meta, portanto, a partir daí, a distracção era ir observando a massa de atletas que passava. "Olha, ali vai o primeiro!", "É a primeira mulher!" e "Aquele ali não era o não-sei-quantas?" - são exclamações que se vão ouvindo.

E não corria um único ar... Toda eu transpirava como se já tivesse corrido o equivalente a uma maratona. Chegando a certo ponto, já só queria chegar aos 4 km, onde estaria um abastecimento de água. A boca ia sequíssima! O problema é que, quando lá chegámos, não era água... era "chá"! É que aquilo não era água tépida, era quente, mesmo. Com o calor que esteve durante todo o dia, foi impossível evitar. Só dava mesmo para molhar os lábios e cuspir. E a quantidade de pessoas que lança a garrafa de água quase cheia, e fechada, para o chão - não para a berma, mesmo para o meio da estrada - sem se preocupar com quem vem atrás? Foram uns quantos metros de corrida de obstáculos, nesta parte.

Depois, foi só aguentar a segunda parte da prova com a garganta algo seca, mas bem. Aliás, com o pelotão ligeiramente menos compacto (foi um bater de braços com outros atletas até ao fim) deu ainda para abrir um pouco a passada e fazer esta metade mais rápida do que a primeira. Para terem uma noção da quantidade de atletas, só quando já estava a 1 km da meta é que passaram os últimos atletas para lá. Ou seja, iam ainda apenas com 1 km feito! Tudo bem que estes últimos vão fazer a prova sempre em caminhada, mas, mesmo assim, é impressionante. Devem ter levado meia-hora só para conseguirem passar a linha de partida.
Já eu, levei cerca de 45 minutos para cruzar a meta.

A Marginal à Noite é uma "prova-festa" e só faz sentido ser feita nesse espírito. Primeiro, porque não tem uma distância consensual. Não são 10 km, nem sequer são 8 km bem medidos. Não recomendo a competitivos, a não ser que alguém esteja interessado em bater o seu recorde dos 7.8 km. :) Portanto, só dá mesmo para bater os tempos do ano anterior e, mesmo assim, têm de se debater para partir mesmo lá da frente, senão vão passar a prova a "costurar" entre os atletas.
É uma prova para passarem o dia na praia, com a família e amigos, beberem qualquer coisa fresquinha na esplanada e depois irem ali terminar o dia a correr ou caminhar. Vi umas quantas pessoas ainda de biquíni e calções de praia. Vi também várias crianças e uns quantos carrinhos de bebés. Vi pais e avós. Vi umas quantas figuras públicas, do desporto e afins. Vi bloguers famosas. Curiosamente, não vi ninguém meu conhecido.

Como sabem, este não é o meu tipo de prova. Mas... quem não gosta de festas? E, se essa festa for feita a correr, ainda melhor. Acho que, uma vez por ano, talvez consiga manter esta tradição. :)

4 de julho de 2017

OMD - Ultra Trail Serra da Estrela 70K

[Pensava que ia ser uma crónica curta mas afinal há sempre muito a dizer sobre a Serra da Estrela. Os mais impacientes (TLDR) podem saltar directamente para as notas finais, em formato de lista. Os restantes, sentem-se confortavelmente.]


"There is a pleasure in the pathless woods,
There is a rapture on the lonely shore,
There is society, where none intrudes,
By the deep Sea, and music in its roar:
I love not Man the less, but Nature more."


"The is a pleasure in the pathless woods"... Começo a crónica repetindo este verso do Byron, de um poema que tão bem descreve a minha relação com esta prova. Correr pela Serra da Estrela é de uma liberdade que não se prende a trilhos. Eles estão lá, bem como os estradões, mas depois existe toda uma área onde não é permitido- e ainda bem - abrir novos caminhos, e temos de adivinhar o melhor trajecto por entre a vegetação, tendo como guia a próxima fita laranja presa a um arbusto, dezenas de metros à frente. Exige concentração e um estudo rápido do terreno, de forma a fazer a melhor escolha. Nem sempre a distância mais curta é a mais rápida. Gosto disso. É como um jogo que nos desafia numa altura em que vamos cansados, já que estes "não-trilhos" são especialmente frequentes no perímetro que circunda a Torre.
Depois, e uma das razões para continuar a optar por esta prova em específico, apesar de agora já haver outras que percorrem mais ou menos os mesmos locais na Estrela, é a paz que me permite usufruir na montanha. Não é uma prova sobrelotada ou sobrepublicitada e as distâncias maiores não têm assim tantos atletas, o que provavelmente não é bom para a Organização, mas é óptimo para mim, que prefiro provas com menos confusão. É um pouco egoísta da minha parte, talvez, mas... "I love not Man the less, but Nature more."

Este ano não tinha o mínimo espírito competitivo. Nem contra os outros nem, sobretudo, contra mim. Não tinha qualquer objectivo de tentar melhorar tempos nem, como vim a descobrir, era assim tão importante para mim concluir a distância. Só queria regressar à Serra da Estrela. E chegar à Torre. Pronto. Era esse talvez o único desejo, atingir o marco que é entrar naquela Torre da GNR, para o abastecimento, no topo mais alto de Portugal Continental. Quem já o fez sabe a que me refiro. A prova pode até acabar ali, mas aquilo já ninguém nos tira.

Mas bom, deixemo-nos de conversa. Já sabemos que a cabeça não esteve virada para a competição, mas o corpo, ai, o corpo... pior ainda! Esta foi, das três, a prova em que pior passei (o que não deixa de ser irónico, já que ia sem pressão nenhuma). Portanto, esta crónica vai ser um misto entre o habitual lirismo que a montanha me inspira e a feia realidade das dores e digestão humanas.
Assim sendo, e para facilitar, o texto será dividido em três etapas significativas, cada uma terminando num PAC - Postos de Abastecimento e Controlo - nesta prova também conhecidos por: "Locais Onde Podia Ter DNF Mas Não O Fiz Até Que Sim.

Meta OMD na manhã da partida dos K70.

Seia - Torre 

Na noite anterior não dormi quase nada. É a ansiedade habitual que nos mantém despertos e atentos a qualquer som: outros hóspedes do hotel que foram assistir à partida dos K100, à meia-noite, e depois regressaram e ficaram na conversa; o estalar da mobília e outros ruídos estranhos que, às 03h da manhã, obviamente só podem ser fantasmas de anteriores hóspedes que sofreram um crime sangrento e agora assombram o quarto 408 (culpo os podcasts policiais por isto!) e, finalmente, pelas 5h30 da manhã, o muito mais pacífico chilrear dos pássaros que acordam lá fora.
Enquanto dormir mal, ou pouco, não é problema grave - aliás, é muito frequente em vésperas de provas - já não conseguir comer... é grave. Quando tentei comer o pequeno-almoço e o máximo que consegui foi ficar ali a mastigá-lo inúmeras vezes e depois, muito forçosamente, engolir uma colherada ou duas, veio-me logo à memória a edição do OMD de 2015 e o enjoo que tive de combater durante a totalidade da prova. Hoje também estaria calor, ainda mais do que nesse ano, e a manhã estava a começar da mesma forma: a ideia de ingerir algum alimento agoniava-me. Não era um bom prenúncio.

Dirigi-me cedo para a zona Partida, que seria às 8h, na ideia de ainda ir tentar beber um café primeiro, para dar alguma energia, mas nenhum dos dois cafés junto à Meta teve olho para o negócio nessa manhã e estavam ambos encerrados.
No local, onde já se encontravam vários atletas, fala-se, sobretudo, do tempo. E não é conversa de ocasião para encher o vazio, é mesmo preocupação. Há quem já tenha falado com atletas dos 100 km para saber como está a temperatura "lá para cima" e chegam também notícias de algumas desistências das 100 milhas. Questiono a necessidade de carregar com o impermeável, tendo em conta as previsões, mas a sua obrigatoriedade manteve-se, o que até entendo, já que o clima numa montanha pode ser instável. Adianto já: o impermeável nunca saiu da mochila durante a prova. O que saiu da mochila muitas vezes: o protector solar.

Começo a prova um pouco apreensiva por não ter praticamente nenhuma comida no estômago. Carrego comigo o que levei em termos de alimentação nos 100K do ano anterior: barrinhas, frutos secos, gomas e até uns géis, que não gosto mas sei que é mais fácil de forçar a tomar, em caso de falha de energia. Se resultou no ano anterior, espero que resulte neste (embora, se leram o resumo, já saibam que algo não vai funcionar nesta lógica). Porém, nesta altura, embora o suspeite, ainda não faço ideia do mal que vou passar, por isso sigo em doce ignorância.

A primeira parte do percurso é praticamente a mesma dos anos anteriores. Os primeiros seis quilómetros sempre a subir, sobretudo em estradão, para depois descer ligeiramente até ao Sabugueiro, onde se encontra o primeiro abastecimento.
Noto que o número de atletas nesta distância tem vindo a aumentar, embora ainda seja relativamente sossegado. Farei esta primeira parte sempre rodeada de gente, o que é uma estreia. Formou-se ali um pequeno pelotão de cauda entre mim, o rapaz e a rapariga de Lisboa que iam correr 70 km pela primeira vez; o par de amigos que iam alternando entre corrida e caminhada, distanciando-se sempre, até um ficar à espera do outro; três outros atletas solitários e o casal de estrangeiros que tinha uma passada incrível... mas a caminhar! A este casal, ao longo da prova, irei vê-los várias vezes, raras a correr, mas apanhavam toda a gente na sua caminhada firme e forte. Era vê-los a passar por quem ia a correr lentamente por ali acima. Ainda tentei acompanhá-los durante algum tempo, mas tinha de dar duas ou três passadas enquanto eles davam uma, por isso não era sustentável. Não sei ao certo de que país eram, mas deviam ter um bom treino de hiking, já que terminaram a prova sempre nas "calmas" e ainda com bastante tempo de sobra para o tempo limite.

Quando chego ao abastecimento não-oficial, mas já tradicional, na Póvoa Velha (aproximadamente aos 5 km de prova), aproveito para ver se consigo comer alguma coisa e tiro uma banana do generoso abastecimento oferecido pelo alojamento Casas do Pastor. Não me pagam pela publicidade, nem nunca sequer lá fiquei alojada, mas todos os anos colocam uma mesa à porta com vários alimentos, bebidas e café à disposição dos atletas. Geralmente até é um dos locais onde temos mais "claque", já que se reúnem sempre ali umas quantas pessoas da aldeia.
Este ano apenas lá está um simpático casal e, como já indicado, peguei uma banana e segui. Pois que, essa banana, irá ser a minha companhia durante laaaargos quilómetros, até que finalmente começa a ficar preta e tenho mesmo de a deitar fora. Não que não estivesse boa, mas o meu estômago não queria ter nada a ver com comida. Mastigava, mastigava, e era um custo engolir. Uma simples banana! O que me irá safar, até chegar ao Sabugueiro, serão as gomas que trazia comigo. Meto uma na boca e deixo-a ir derretendo.

Não sei porquê, mas as memórias que tinha era de que, após aqueles primeiros quilómetros, e depois de sair do estradão, seria sempre a descer até ao Sabugueiro, mas aparentemente o meu cérebro oblitera algumas subidas, como esta, que ainda tivemos de fazer antes de chegar à Vila.

O rio Alva corre rasteiro, em baixo.

No PAC, ter a mesa cheia de sandes, queijos, marmeladas, fruta... era tão apelativo como estar cheia de pedras e areia, aos olhos do meu estômago. Até beber água já não consistia em nenhum prazer, era uma obrigação. Sei que alguns de vocês também já passaram por estes sintomas em provas e sabem que isso significa que estou fo...lixada. Mais uma vez, lembro-me do que passei em 2015 mas, mesmo assim, consegui terminar, por isso tento negociar com o meu organismo.
- Olha lá, sistema digestivo, que te apetece? Ainda temos quase 60 km para fazer, atina-te! Aqueles pedaços de tomate com sal, que achas?
- Mehhh, pode ser...
Este "mehhh, pode ser" não foi muito animador, mas aproveitei a folga. Comi dois ou três pedaços de tomate com sal. Peço-vos, agora, que retenham esta informação que será de vital importância lá mais para a frente: no Sabugueiro, por volta das 10h da manhã, comi dois ou três pedaços de tomate com sal. Avancemos.

Como não conseguia comer mais, estive muito pouco tempo no abastecimento e por isso, pela primeira vez, sigo sozinha. A seguir ao Sabugueiro entramos numa zona de trilhos, de inclinação mais elevada, que faço a passo forte. Apesar da indisposição, até me sinto bem a nível físico. Ia a um terço do trilho quando começo a ouvir o habitual "toc toc" dos bastões, atrás de mim. Mais uma vez, optei por não levar bastões, sinto que em alguma subidas poderia dar uma ajuda mas, por enquanto, não lhes sinto grande falta. Penso que será algum dos atletas que ficou no abastecimento e agora me está a alcançar mas, já sabemos, NUNCA se olha para trás para não dar parte fraca, por isso continuei ao meu ritmo, como se nada fosse. E o som dos bastões vai-se acercando. Toc toc... TOC TOC... Que raios, pensava que até ia forte, mas este atleta está a apanhar-me como se estivesse parada! TOC TOC... TOC TOC. Quando se torna inevitável e me chego para o lado para deixar passar é que me apercebo de que, ao contrário do que pensava, não era nenhum atleta, mas sim um pastor, de cajado, que ia a subir por entre as rochas e mato rasteiro como se nada fosse. "Bom dia", diz-me, e eu fico a vê-lo continuar. É certo que os pastores são rijos e aquele deve ser o seu percurso habitual e, tudo bem, não vinha desde Seia, como eu, mas... bolas, ser ultrapassada por um pastor nos trilhos foi uma estreia.

Além disso, sei que a quebra energética não tardará, e começo a senti-la quando entramos nos últimos quilómetros antes do Vale do Rossim.

"In hell I'll be in good company", foi a banda sonora que acompanhou
estes quilómetros.

O calor começou a apertar e correr em estradão descampado, com o sol sempre a refletir no piso, começou a mexer-me com a parte psicológica. As próprias gomas, das quais me vou socorrendo, ficam coladas ao céu da boca, de tão seca que vai a respiração. Ainda não é insuportável, mas tenho de ter cuidado para não me deixar entrar num poço de desespero. Sei que provas ao sol forte são a minha maior fraqueza, mas tento racionalizar. Estou protegida e continuo a hidratar-me, mantenho dois ou três atletas em vista e tento não deixar que a distância se alargue entre nós. Ninguém parece com muita vontade de largar a correr, apesar de estarmos numa parte rolante. Corro apenas o suficiente para não prolongar demasiado esta parte.
Sei que o PAC é "já ali", como duas mulheres que ali aguardavam por algum atleta, à sombra de uma das poucas árvores, fizeram questão de me relembrar. O apoio na montanha é feito assim, de forma muito espaçada e nos locais mais inesperados mas, por isso, também tem mais valor. Soube bem ter alguém que nos dá umas palavras de incentivo, assim, no meio do nada, quando não vemos ninguém, a não ser outros atletas, durante horas. 

Lagoa do Rossim.

O Vale do Rossim era um abastecimento apenas de líquidos. Bebo um copo de isotónico e reencho a minha mochila com água mais fresca. Daqui para a frente, vai tornar-se evidente que beber água já não me dá qualquer alívio ou prazer, mas bebo na mesma, da única forma que consigo - pequenos goles, de tantos em tantos minutos. Como não como há algum tempo, meto um gel "de penálti", para nem lhe sentir o sabor, mas veio a revelar-se uma má ideia, pois ainda irei ali algum tempo à beira do vómito. Nesta fase, já desisti de tentar comer os frutos secos. Gosto bastante e o ano passado fartei-me de comê-los mas, desta vez, fico ali horas a mastigá-los até formarem um bolo alimentar que tento empurrar com água. Horrível. Fico frustrada. Técnicas de alimentação e hidratação testadas e anteriormente aprovadas que agora me falham. Chego à conclusão que só pode ser do calor. Talvez o meu organismo lute tanto para arrefecer que a digestão é afectada. O que me valeu foram as gomas - minhas ricas gomas do Lidl! - quais barrinhas xpto, quais géis de marca... ficaram todos na mochila. As gomas teriam de me aguentar até à Torre, onde já estava quase decidida a desistir. Já tinha voltado à Serra, chegaria à Torre, que é a parte mais significativa para mim, e ficaria por aí. Não valia a pena continuar se não conseguia comer.

Entretanto, aqui e ali, apareciam nos trilhos uns quantos turistas e caminheiros. Ia-me aproximando deles ao longe, pensava que eram outros atletas, mas depois começava a reparar na roupa e nas mochilas demasiadamente grandes. Estávamos a aproximar-nos da Nave da Mestra, famosa pelo seu abrigo de pastores, com janelas e portadas de ferro que sabe-se lá como é que foram até lá transportadas, já que estamos, literalmente, no meio do nada, longe de qualquer estrada ou estradão onde possam circular veículos.

Antes de lá chegar, as marcações da prova fazem-nos atravessar uma fenda num enorme monte rochoso, atravessando-o de um lado ao outro.

Entrada.

Saída.

É no outro lado que se encontra o abrigo de pastores, que atrai curiosos ao local. Mas, para os atletas em prova, a verdadeira atracção terá sido o garrafão de 10 litros de água fresquinha que aguardava à sombra da rocha (costuma aqui haver um controlo de passagem, mas este ano não estava lá ninguém quando passei). No entanto, quando a bebi, não senti o alívio que esperava. Quer dizer, gostei de a beber e entornar um bocadinho por mim abaixo, para refrescar, mas não me soube bem. Quase 30 km de prova, num dia quente, e cada golo de água é bebido em sacrifício.
As minhas pernas, por seu lado, ainda estão bem. Vejo dois atletas mais à frente e faço do meu objectivo alcançá-los. Tomo a minha última goma com uma reverência tal que parecia uma hóstia. Lá no cimo, embora ainda distante, já se avista a Torre. "Vou apanhar estes dois atletas e será a minha migalha de glória antes de colapsar à entrada do PAC da Torre." Baixo a cabeça e respiro fundo. Ponho-me a caminho. A goma cola-se imediatamente ao céu da boca.

Na zona dos charcos.

- Dói-me o pé, está a ficar inchado. Vou ficar por aqui. Já ligaram à Organização para me vir buscar.


Bom, se este não é um déjà vu!!! Mais uma vez, estou quase a chegar à Torre e, mais uma vez, recebo uma chamada do Artur, que estava a fazer os 100 km, a dizer que vai ficar pela Torre.

- Pronto, está decidido, fico pela Torre também.

À má-disposição tinham-se recentemente juntado as "pedrinhas-fantasma" nos sapatos. As pedrinhas-fantasma é quando começamos a sentir picadas nas plantas dos pés e achamos que entraram algumas pedras para os ténis mas, 90% das vezes, são bolhas a formar-se. Nem me descalcei. Sabia que era mau sinal estar a sentir assim os pés quando ainda agora estava a chegar a meio da prova e, sobretudo, quando ainda estava a subir. As descidas só tendem a piorar a abrasão nos pés.
Assim sendo, decidi naquele momento que ia mesmo desistir quando chegasse lá acima. Ia enjoada, com os pés a queimar e agora, também, preocupada. Não havia condições. Sem problemas, sem arrependimentos. Estava decidido!

- Diz à Protecção Civil para esperar por mim.

E foi quando alcancei os dois atletas que vinha a perseguir. Naquela altura ainda não sabia, mas um deles irá acompanhar-me durante a minha restante prova. Mas, por enquanto, ia mesmo decidida a desistir, e foi isso que comentei com o meu recente companheiro de corrida. O outro atleta tinha parado para descansar e agora seguíamos só dois. Faltavam não mais de 3 ou 4 km para a Torre, mas aquela fase é muito chata porque a vemos lá ao fundo mas ainda temos de contornar uma encosta inteira e subir um muro de rochas, parece que nunca mais lá chegamos. Mas eu ia determinada e com uma passada mais ligeira porque, para mim, a prova estava a terminar. Por momentos até me esqueci do enjoo e dores nos pés e era verem-me a correr naqueles metros finais antes da estrada que liga à Torre, a saltar de rocha em rocha, sempre de olho na próxima fita. O senhor aguentou-se sempre junto a mim e seguia-me como se estivesse também a terminar, embora estivesse decidido a seguir até à Meta, já que era a primeira vez naquela prova. O mais incrível é que tinha estado nos 40 e tal quilómetros do Estrela Grande Trail, três semanas antes, e agora estava ali de volta para fazer os 70. Há pessoas com memória mesmo curta para o sofrimento! Eu, pelo menos, deixo passar um ano entre empreitadas destas.

Os meus pés chegam finalmente ao asfalto e, quando já estou a 300 metros do PAC, vejo uma carrinha da Protecção Civil a descer no sentido contrário. O Artur ia lá dentro.


Torre - Loriga

Entro na torre da GNR, informo o meu número de dorsal, sem emoção, e sento-me na primeira cadeira que vejo disponível. Não sei o que sentir. Estou desanimada, desesperada. A minha cabeça já tinha tomado a decisão de desistir. Tinha-me visto naquela carrinha, de regresso a Seia, a falar do que correu bem e mal, para depois chegar ao hotel, repousar, recuperar e, quem sabe, ainda terminar o dia a dar umas braçadas na piscina. O Artur já não iria concluir os seus 100 km e eu também já não via necessidade de terminar os 70. Já os tinha feito, não havia nada a provar. Mas agora... Agora, se ficasse por aqui, teria, de certeza, de esperar bem mais de uma hora para me virem buscar. Olho em volta pela primeira vez e verifico o rebuliço silencioso, típico do abastecimento da Torre. É o mais caótico em termos de pessoal mas é, também, aquele em que as pessoas estão mais caladas. Comem, cuidam dos pés, ou estão apenas sentados, de olhar fixo, a pensar na vida.

Começo também a pensar nas minhas opções e, subitamente, fico irritada. Irritada porque começo a considerar continuar até Loriga, quando já vinha decidida a ficar. Porque é que a Protecção Civil partiu sem mim?? Porque é que o Artur não os obrigou a esperar??! Sei que são perguntas fruto do cansaço, sem lógica (como se os senhores da Protecção Civil não tivessem mais do que fazer e montes de outros atletas para irem buscar), mas não consigo evitar. Até o facto de ver os outros atletas a comer, e repetir, pratos de sopa, me descontrola. Como é que conseguem comer assim?? Como é que não estão enjoados??! Nada do que está em cima da mesa me apela. Pego num pedaço de bolo que lá estava e engulo-o quase sem mastigar, só para que me entrasse alguma coisa no estômago. Parece-me um cubo de cimento a descer esófago abaixo. "Pronto, passem-me lá o raio da sopa!!" - foi isto que pensei, embora o tenha dito em voz alta de forma mais educada, graças a Deus. Ninguém ali tinha culpa nenhuma do meu colapso nervoso. Olhei para o relógio, ainda não eram duas da tarde. "Vou engolir o raio da sopa e descer o raio da Garganta de Loriga, a levar com raio do bafo de calor da tarde, até ao raio do próximo abastecimento E PRONTO."

Lagoa do Covão das Quelhas.

Bom, rapidamente me vou arrepender de sair assim de forma tão precipitada e, sobretudo, arrepender-me de ter engolido a sopa assim tão rápido. Aqueles primeiros quilómetros a descer, a seguir à Torre, são uma amostra do que aí vem. Como pensei que ia desistir, nem cheguei a descalçar os ténis para ver o estado dos meus pés e pôr algum creme. Também não espalhei creme para evitar assaduras e já vou a sentir uma impressão nas costas, na zona do top, onde transpiro muito, por causa da mochila. Também não pus protector solar e tenho de o fazer agora, em andamento. No entanto, e ao contrário do ano passado, lembrei-me de tornar a encher o depósito da água, valha-nos isso.

Não consigo correr porque sinto a sopa e a água a chocalharem dentro do meu estômago. A sério, se saltasse, até se ouvia o barulho, e temo que um impacto mais forte numa rocha me faça regurgitar o almoço. Também, mesmo que quisesse, não podia acelerar muito, porque a planta dos pés, sobretudo à frente, vai muito massacrada. A zona de pedra mais miúda, até chegar à Barragem do Covão do Meio, vai ser especialmente dolorosa.



Lembro-me de ir a descer aquela parte tão irritada, tão furiosa com tudo. Psicologicamente esgotada, com dores, impelida apenas por uma teimosia que nem eu sabia bem de onde vinha ou porquê. Porque é que tinha continuado se achava que não valia a pena? Que razão era aquela que me levava até ali?

Passam por mim quatro atletas, dois dos 100 km e dois dos 70 km, que me encorajam a seguir com eles. "Vá, anda, aproveita a companhia até Loriga", mas eu não fui capaz. Primeiro, porque não me sentia com forças para aguentar o ritmo deles e, segundo, porque precisava de estar sozinha. Seguia-se a interminável Garganta de Loriga.

Garganta de Loriga - parte 1.

O "problema" da Garganta de Loriga não é ser uma parte técnica - que é - nem ser de declive acentuado, o que leva as pessoas a pensar que é uma descida rápida - que não é. O problema da Garganta de Loriga é que está disposta de uma forma que parece interminável. Depois de descermos o primeiro aglomerado de rochas vamos dar a um pequeno vale que nos permite correr um pouco, mas que esconde o segundo aglomerado de rochas que ainda se segue.

Garganta de Loriga - parte 2.

Até chegarmos ao segundo vale, onde pensamos que está quase a terminar a descida, mas não está. Depois de chegarmos ao final da segunda parte plana que se pode ver acima, segue-se a parte pior de todas. Finalmente conseguimos avistar a vila de Loriga ao longe. Muito longe. Demasiado longe. Ainda por cima, o trilho encaminha-nos cada vez mais para a direita, o que nos parece afastar da direcção que queremos. É só uma ilusão de óptica, mas torna-se insuportável se já viermos com as emoções abaladas.

A irritação já se foi e, neste momento, só quero passar pela Garganta sem que ela dê por mim. Silenciosamente, sem lutas. 
Já desisti de tentar comer o que quer que seja, e a água é usada para evitar que os lábios fiquem muito secos, e pouco mais consigo beber. Vou em piloto automático e evito as emoções para não me desgastar. Cada passada queima mais que a outra. Às vezes meto um pé em falso e o impacto que faço para travar abrasa-me ainda mais os pés. Sinto que a segunda unha do pé esquerdo pode cair no próximo tropeção. Tropeço. Inspiro tanto e tão subitamente que até sinto o ar quente a arder-me nos pulmões. Não grito nenhuma asneira, isso seria um desgaste muito grande. Continuo apenas, conformada. É só até chegar a Loriga, repito.

Sinto que vem alguém atrás de mim desde há vários quilómetros, praticamente desde o início da Garganta mas, mais uma vez, resisto a olhar para trás. Não acelero, mas a pessoa também nunca me alcançou. Parece mesmo ir a manter uma distância "respeitosa". É só quando oiço essa pessoa a escorregar que não resisto em olhar para trás. Era o companheiro de corrida com quem tinha feito os últimos quilómetros antes da torre e que por lá tinha ficado à espera do colega de equipa. Agora vinha sozinho.
- Olha quem é ele!
- O meu colega desistiu na Torre. Tive de vir sozinho. - E acrescenta - Nem acredito que aqui estive há três semanas e que voltei outra vez. Já me tinha esquecido de como esta descida nunca mais acaba!

Estas suas duas últimas frases foram pontuadas com algum vernáculo que acho escusado reproduzir, vocês imaginam! Parece que, subitamente, tinha recuperado a memória e questionado a decisão de se inscrever para outra tão cedo. Compreendo perfeitamente.

Pude constatar que ia tão fo...lixado como eu, por isso nem foram necessárias mais palavras. Seguimos na mesma juntos, mas em silêncio, apenas intercalado com uma inspiração mais exasperada ou interjeições de desesperação.
Mais uma vez, os deuses da Garganta de Loriga não me deixaram sozinha!

Verdade seja dita, este ano as condições da Garganta estavam melhores do que no ano anterior. O percurso estava mais seco, logo, menos escorregadio, e conseguia-se avançar mais depressa. O problema era que, como fica ali encafuada num vale no meio da montanha, quase não circulava ar nenhum. Eram as horas mais quentes da tarde e foi mesmo muito duro mas, pela primeira vez não me revoltei, e acho que isso fez a diferença.

Claro que, quando chegamos ao estradão que liga à vila de Loriga, nem pensar que conseguia correr. Aliás, só descer aquilo a andar já me magoava bastante os pés. Interrompo o silêncio para dizer ao meu companheiro de corrida que desta vez é que é, vou desistir, fico mesmo por Loriga. E ele, desta vez, junta-se a mim nessa decisão, os pés dele ardem-lhe tanto quanto os meus (embora ache que ainda mantém todas as unhas) e também não se sente capaz de seguir. 

No início do estradão estava um rapaz sentado, à espera que o viessem buscar. Penso em como espero que a carrinha ainda passe pelo abastecimento, a tempo de nos levar também. Mais uma vez, não havia condições para prosseguir. Sem problemas, sem arrependimentos. Estava decidido!

Loriga - Valezim

Chegamos ao PAC de Loriga - que neste ano mudou de local e é num parque logo à entrada da vila - e reparo logo num pequeno oásis: uma fonte que forma uma pequena piscina, onde se podem mergulhar as pernas.


Está bom, não mexe mais, fico já por aqui!

Façam zoom por vossa conta e risco.

Estive que tempos com as pernas ali mergulhadas. Sem pressas. Nem sequer me aproximei da mesa com comida. Cheguei aqui, com cerca de 45 km de prova - já uma ultra, portanto - logo ninguém pode dizer que não me esforcei. Foi um bom treino e já estou em paz com a decisão de ficar por aqui. Inclusive, chego a ligar ao Artur a informar disso mesmo. Começo a fazer as contas e, com sorte, ainda consigo ir a tempo de dar as tais braçadas na piscina. Entretanto, estou aqui tão bem, tão fresquinha, à sombra pela primeira vez em sabe-se lá quantas horas. Daqui ninguém me tira. Ou tira?...

À minha volta todos se queixam das maleitas nos pés. Passam-se cremes gordos e vaselinas como se fosse contrabando. No entanto, ninguém parece interessado em ficar, só eu. Até o meu companheiro de corrida já começa a ceder à pressão de grupo e a pensar que se calhar, "só por mais 20 km", faz o esforço. Traidor! Junta-se ao coro de vozes que insiste: "Vá lá, Rute, não vais nada desistir". De repente, toda a gente que ali está parece saber que a Rute quer desistir e ninguém quer deixar que isso aconteça. E a dúvida começa novamente a instalar-se. Raios!

Distância até ao próximo abastecimento.
Cada cor corresponde a uma prova diferente. A dos 70K era a amarela.

Afinal de contas, aparentemente, estou bem. Quer dizer, só estou agoniada e sem conseguir comer nem beber convenientemente, com a planta dos pés numa bolha só, mas o que é isso, né? :)
De resto, impecável, nem grandes dores musculares tenho. Emprestam-me um creme gordo para tentar acalmar as dores dos pés e tomo uma decisão: vou beber um bocado de cola (quem me conhece sabe que não gosto nada), só para ver se consigo arrotar e ficar um pouco mais aliviada. Resultou. No seguimento, ainda consegui engolir, embora sem qualquer prazer, um bocado de bolo (aka cubo de cimento a descer pelo esófago), e achei que podia seguir mais um bocadinho.
Basicamente, deixei que fosse uma eructação a decidir o meu destino. Portanto, logo daí se vê como as coisas só podiam acabar mal.

Nos quilómetros seguintes, à saída de Loriga, parecia que tinha, finalmente, recuperado da indisposição. Como é a subir os pés não queimam tanto e vou acompanhada por dois atletas dos 100 km e pelo já companheiro de vários quilómetros. Sinto-me bem e até os consigo acompanhar sem dificuldade, apesar de ser a única que não levava bastões. Foram os últimos sinais de melhoria antes da hecatombe que se aproximava.

Notei logo, quando se inicia a grande descida antes de Valezim, que tinha sido MUITO má ideia ter continuado. Aquela é uma parte que, para quem geriu bem a prova, dá um grande gozo descer. É estradão corrível, sem desnível exagerado, e dá para recuperar bem o ritmo. Não foi o que aconteceu. As bolhas dos pés não só me impediam de correr como, para meu horror, agora me tornavam um suplício caminhar nas descidas. Sinto que, mais quilómetro menos quilómetro, vai custar-me uma segunda unha. Além disso, começava novamente a sentir-me agoniada. Não quis dizer nada ao colega que me acompanhava, mas começava a pensar seriamente ficar em Valezim, onde sabia haver um Posto de Controlo nos bombeiros, antes do abastecimento em Lapa dos Dinheiros. Ele, ao menos, ainda ia com disposição para falar, eu já nem isso.
Quando entramos em Valezim, dizemos (bom, ele diz, eu mal abri a boca) "boa tarde!" a uma senhora que está sentada à porta de sua casa e nos olha com ar desconfiado, ligeiramente assustada, como se fossemos uns ETs. Ela responde, mas continua a seguir-nos com o olhar fixo, até cruzarmos a esquina. Se calhar, eu já devia ir verde e ela estava era a prever o que iria acontecer a seguir, na fonte a poucas dezenas de metros de sua casa.

Eu já sabia da existência dessa fonte, algumas centenas de metros antes da sede dos bombeiros, e todos os anos lá parei para me refrescar. Este ano resolvi fazer o mesmo. Mas, este ano, mal as primeiras gotas daquela água cristalina me chegaram ao estômago, vi logo que estava fo... - que se lixe, aqui não pode haver censura - ...dida. Só tenho tempo de me sentar e oiço o colega perguntar-me "estás bem??".

[Nota: eu avisei na crónica anterior que iria ser bastante gráfica, prossigam com cautela.]

"Não", respondi, antes de protagonizar uma cena digna do Exorcista  - juro, acho que até revirei o pescoço e tudo - e projectar um esguicho de vómito sem qualquer controlo. Boa notícia: não era verde (na verdade, era praticamente só água). Má notícia: a seguir àquele seguiram-se vários outros.

"Oh não, aí vem mais um", pensava, sem conseguir fazer qualquer coisa para o evitar. Era uma compulsão e o estômago não ia ficar contente até se ver livre de todo o seu conteúdo. Enquanto isso, o senhor que me acompanhava assiste, impávido. "A sério, será que é possível esta situação ser mais humilhante?!!!!" Resposta: Era possível.
A descer a rua vem um homem de idade, de bengala, sereno, provavelmente a dirigir-se para casa para jantar, e depara-se com o meu espectáculo.
- Não sabem beber e depois é assim! - comenta o meu companheiro de corrida com o senhor de bengala, numa tentativa de fazer comédia com a situação.
"Oh Deus, por favor, abre um buraco no chão agora..." peço eu, na minha cabeça, já que a boca estava ocupada a expulsar mais uns quantos litros de líquidos.
Finalmente, ao fim de quatro ou cinco golfadas, as últimas já secas, parece que finalmente já não havia mais nada que pudesse sair. Mesmo assim, não quis arriscar levantar-me logo e demoro-me, de cabeça baixa, a observar o redor da fonte, onde parece que aconteceu um tsunami. Quando achei que já era seguro, tento compor-me um bocadinho, olho de soslaio para confirmar se não atingi a minha t-shirt e tento reunir uma réstia de dignidade quando oiço:
- O que é aquilo? Tomate???
Pois que, como o meu atento companheiro de corrida verificou, no meio de todos os líquidos regurgitados, saíram também peles de tomate.

E agora peço-vos que recordem a única vez que comi tomate em toda a prova: ainda era de manhã, no Sabugueiro. De toda a comida que ingeri durante o resto do dia - que não foi muita, é certo - a única que não foi convenientemente digerida foram as peles do tomate. Dos dois ou três pedacinhos de tomate que comi! De manhã! Nem as verduras da sopa, nem a banana, nem os bolos, nem umas quantas cerejas que tinha surripiado durante a tarde numa árvore à beira da estrada... Aparentemente, as peles do tomate são de difícil digestão. Que este meu infortúnio sirva como aviso.

Quase que poderia ser esta a moral da história a encerrar a minha crónica, mas faltam umas poucas centenas de metros por percorrer, tenham um pouco mais de paciência.

Depois deste episódio, a parte positiva é que, tirando o ego, recuperei bastante. Aliás, sentia-me bastante aliviada. Nem me lembrei das dores dos pés, na minha ânsia de chegar ao posto dos bombeiros. Não queria pensar nem ouvir mais ninguém, como medo de mudar de ideias.

Felizmente, e porque já não era a primeira pessoa a fazê-lo ali, os bombeiros nem questionaram a minha decisão de desistir e ligaram logo para me virem buscar. Estava a 2 km de Lapa dos Dinheiros, pouco mais de 10km de Seia... e com tempo suficiente para chegar à Meta até de rastos. Mas a minha prova acabava ali. Deixara de fazer sentido.
A única coisa que me custou um bocadinho foi ter de abandonar o colega que me acompanhava há tanto tempo, com quem tinha partilhado tanto, literalmente (!!!), e com quem tinha combinado ir até ao fim. Mas para ele era importante continuar, para mim não. Por isso, Rob, se me estiver a ler, obrigada e desculpa!

Quando a minha vez de ser levada pela Protecção Civil chegou, já estava bastante conformada e animada. Como os dois senhores tinham acabado de entrar ao serviço, em substituição de turno, eu fui a primeira atleta a ser transportada por eles! No entanto, tinham a informação de estar a ser uma prova com bastantes desistências. Inclusive, com alguns atletas a terem de ir ao Hospital, severamente desidratados. Não fiquei admirada, pois ao longo da prova, em cada abastecimento que passávamos, ouvíamos rumores das "baixas". De resto, ainda fomos ali em amena cavaqueira até chegar a Seia, pois descobri que os senhores conheciam a terra da minha mãe, que também fica na Serra da Estrela. 


Como se costuma dizer: umas vezes ganha-se, outras vezes aprende-se. Gostava de conseguir transmitir-vos tudo o que (re)aprendi, mas a crónica já vai bastante grande. Ficam algumas notas:

- O pior nas provas de longa distância não são as dores musculares, cãibras ou cansaço. Com isso já vamos a contar e conseguimos lidar. O que nos fo-lixa, são mesmo os problemas digestivos. Se não conseguimos ingerir energia, não vamos ter energia.

- A minha indisposição pode ter uma relação directa com o calor. Tenho tensão baixa e talvez isso não ajude, não sei. Ou aprendo a solucionar este problema ou só faço provas de Junho a Agosto se forem no Norte da Europa. E à noite, para prevenir.

- O que nos impede de concluir uma prova raramente é o corpo, mas sim a mente. Ao contrário do que alguns dos colegas que quiseram dissuadir-me de desistir me disseram, eu nunca me arrependi. Nem nesse dia, nem no dia seguinte, nem até hoje. A prova deste ano tinha/tem um valor muito grande para mim, mas não era um objectivo, não necessitava de uma Meta. Se fosse importante acabar, acreditem, te-lo-ia feito.

- Temos de escolher as nossas lutas. Nem todas valem a pena.

- A força, nos trilhos, não a vamos buscar às palmas, que quase não há, mas sim a momentos. À presença de pessoas nos locais mais inóspitos, a senhoras nas aldeias à janela, ou sentadas à sombra dos alpendres, que nos olham silenciosas e, até, um pouco desconfiadas, como se fossemos ETs, a um pastor que nos passa numa subida... São aqueles breves segundos em que a vida dos que ficam e dos que passam se cruza. Já para não falar daqueles que compartem as nossas dores e glórias, seja do outro lado do telefone ou ao nosso lado, como atletas. Até uma bicho-do-mato como eu, que corre na montanha como refúgio, admite como é importante esta partilha.

- Não abusem dos tomates (isto escrito assim não soa muito bem, mas quem leu a crónica toda percebe).

- Se se sentirem à beira do vómito, procurem sempre um local recôndito e sem testemunhas.


O que fica por aprender:

- O que é esta coisa que nos faz voltar sempre? Que nos adoça a memória e nos faz crer que vivemos um dia espectacular, quando existe todo um texto a querer provar-nos o contrário? Não sei, mas até para o ano, OMD.


15 de junho de 2017

OMD 2017 - o resumo


- Vale a pena perderes mais uma unha do pé? - pergunta de mim, para mim, perto do km 60.

E foi assim que o número de unhas que desejamos preservar se tornou uma bitola para avaliar a importância de uma prova. É uma bitola tão válida como outra qualquer e que adquiriu uma relevância significativa naquele sábado, quando levava mais de 11 horas de corrida e estava a pouco mais de 10 km da meta, e a minha resposta foi:

- Não.

Tão linda, tão brutal. 

O OMD 70k 2017 foi azarado desde o início. Com altas temperaturas ao longo do dia e uma má disposição que me impedia de me alimentar com a frequência desejada e, mais para o fim, até beber água.
Era para ter ficado pela Torre, aos 35km, por razões que depois contarei, sem remorsos. No entanto, ainda não tinha cumprido a razão pela qual quis voltar à Estrela, por isso segui.
A Garganta de Loriga, sem surpresas, tornou a custar. A minha never-ending story que este ano me abrasou a planta dos pés e me fez pagar uma unha. Era para ter ficado por Loriga, aos 47km, por razões que depois contarei, sem remorsos. No entanto, e embora ainda não o soubesse, ainda não tinha cumprido a razão pela qual quis voltar à Estrela, por isso segui.
Agora, para além da má disposição, cada passada era como caminhar sobre brasas. Cheguei a Valezim. Na pequena corporação de bombeiros, à beira da estrada principal, um controlo de passagem antes do PAC de Lapa dos Dinheiros, a 2 km de distância.
- Vale a pena perderes mais uma unha do pé?
- Não.

"Epá, Rute, mas a tão poucos quilómetros do fim, isso é quase morrer na praia! Não dava para continuares?" Dar, dava. Mas já não valia a pena. Este ano o prémio não estava na conclusão. Como é que eu soube? Porque o ano passado a minha resposta à pergunta anterior teria sido um determinado: sim! Ou melhor, teria sido um expansivo: F*CK YEAH!!! Teria pagado com as unhas todas, se fosse preciso, para ser finisher. Por isso, desta vez, eu soube: o que tinha ido ali fazer estava feito, não era necessário continuar. Sem remorsos.

O engraçado, é que até estava a fazer uma boa prova em termos de registo temporal, para mim. Se não diminuísse muito o ritmo nos últimos quilómetros, até iria melhorar o meu tempo em relação à minha prova de 2015. Portanto, se nem isso foi motivação suficiente para continuar, é porque tinha chegado a altura de dizer:

- Estrela, tens o meu coração, mas não podes ficar com mais nenhuma unha!

Apesar de todas as peripécias, algumas desagradáveis - para além dos pés em mau estado, posso, ou não, ter regurgitado líquidos junto a uma fonte - que farei questão de descrever pormenorizadamente (almas sensíveis abstenham-se de ler a crónica, foram avisados!), a prova acabou por ser memorável, no bom sentido. Por exemplo, porque foi completamente diferente daquilo que estava à espera, e não me refiro só à má disposição. A minha ideia inicial, como vos disse, era ir matar saudades, namorar a montanha, passar horas na sua companhia solitária. No entanto, das três participações que já levo desta prova, esta acabou por ser aquela em que menos tempo estive sozinha o que, não sendo o que eu queria, acabou por ser o que precisava.

Algumas crónicas são histórias de superação, motivadoras, outras são de reveses, cheias de acontecimentos mundanos, reais. A crónica do OMD deste ano não vai ser muito motivadora, quanto mais não seja por ter sido uma prova mais racional do que emocional (e eu, mais do que ninguém, gosto de um bom drama!). No entanto, está repleta de pequenas lutas pessoais e aspectos menos glamorosos da corrida que também merecem ser abordados. Serra da Estrela, nua e crua.
E eu, que ia só para ver as vistas... :) aprendi por lá o que precisava, e não o que queria.

6 de junho de 2017

O ano passado e este ano (OMD)

O ano passado, por esta altura, já andava uma pilha de nervos. Ou melhor, o ano passado, por esta altura, *a* prova já tinha sido, mas, como este ano a data foi adiada uma semana, vou reformular: o ano passado, a menos de uma semana da prova, eu era uma bomba-relógio prestes a rebentar de ansiedade.

Este ano, a vida pôs-se no caminho e os planos que tinha em termos de provas foram um pouco por água abaixo. No entanto, de uma coisa tinha a certeza: tinha de voltar à Serra da Estrela. E assim lá estarei, este sábado, para mais um dia memorável (pela positiva, espero eu!), em "casa".

É só retirar a neve da equação e será esta a paisagem que nos espera.

Este ano, já não tenho os aleatórios picos de ansiedade a meio do dia. Este ano, já não acordo e me deito a pensar na prova. Este ano, pouco falei sobre o que espero para este fim-de-semana, aqui ou fora do blogue (o ano passado TODA a gente - família, amigos, colegas de trabalho, desconhecidos que encontrava na fila do supermercado - sabia que ia correr 100 km).

Este ano, sei que nem sempre as coisas correm como a gente tinha planeado, e tudo bem na mesma. O ano passado, o OMD era *o* objectivo e tive a sorte de ter sido uma experiência incrível. Fui mesmo feliz. Este ano, espero ser feliz no OMD na mesma, mas com menos distância e menos pressão (auto-imposta). Quero namorar a serra, cada trilho, cada rocha, cada lagoa... E, se der, fazer as pazes com a Garganta de Loriga.

Apesar de não estar nervosa, pelo menos até hoje, com isto não quero dizer que esteja a encarar a prova com leviandade. Tenho muito respeito pela distância e, sobretudo, pela montanha. A montanha tem um Detector de Tretas infalível e é implacável com quem fez os mínimos. Por vezes, é implacável mesmo com quem fez os máximos, só para mostrar quem manda. Orgulho? Sobranceria? Vais estar a vomitá-los ao fim de umas horas, juntamente com os géis, barrinhas e isotónico ingeridos, se ela assim quiser.

Por isso, não vou lá para enfrentá-la. Não trabalhei o suficiente e não há como escondê-lo; assim que sentir as minhas primeiras passadas, ela vai saber. Vou lá para cortejá-la. Com sorte, pode ser que ela me ache piada e seja complacente. Senão, só tenho de me retirar de mansinho e voltar lá depois, tentar mais tarde. Mas voltar, voltar sempre. Ao contrário do que diz o ditado, a montanha nunca vem ter connosco, nós é que temos de ir ter com ela, e assim é que tem de ser.

Assim sendo, tenho feito os últimos treinos de forma serena e tentado evitar coisas sobre as quais não tenho controlo mas que são passíveis de me deixar muito nervosa, nomeadamente, o facto de no último treino longo me ter sentido horrível e sem energia (mau ensaio geral significa boa estreia, não é??) e o tempo. Evitei consultar sites meteorológicos nos últimos dias, portanto, como podem imaginar, foi óptimo quando hoje os noticiários começaram a anunciar as altas temperaturas para o final de semana... Dispensava esta informação que me deixa bastante apreensiva, mas, lá está, não posso fazer nada quanto a isso, por isso vou tentar não pensar muito.

Entretanto, posso dizer que estamos só em inícios de Junho mas o meu bronze de atleta já está bastante aprimorado.

Sexy...


Este ano, as provas parecem ter um percurso mais semelhante ao de 2015. O ano passado, como sabem, devido a alterações de última hora, as duas provas maiores tiveram de passar duas vezes na Torre, o que para mim não fez muito sentido. A chegada à Torre é icónica, uma vez é suficiente. Este ano a subida à Torre fica reservada para o pós-Alvoco, o que retira um pouco de distância e desnível aos 100 km+, mas nada de muito significativo.
Mas bom, desta vez deixo esse desafio para outros, para mim já será desafio suficiente tentar apelar ao coração da montanha. Só lamento não fazer a parte nocturna, já que foi o que mais gostei (e sempre escapava ao sol durante um bocado).

Agora que terminei esta crónica sobre o assunto, se calhar estou a ficar um bocadiiiinho ansiosa. Só um bocadinho. :)

24 de maio de 2017

Até ao topo

Uma vez a cada trezentos dias, gosto de fazer subidas. Com isto, não quero dizer que só treine subidas uma vez a cada trezentos dias. Eu treinar treino várias vezes, só que não gosto. Pelo menos durante. Mas depois, há uma ou duas milagrosas vezes por ano em que todos os astros se conjugam, e gosto bastante. Claro que nesses dias as subidas não me custam tanto. Não sei se se deve às exactas horas de sono, ao pequeno-almoço no ponto, à hidratação perfeita ao mililitro, ao corpo bem regenerado, a uma semana mais descansada no trabalho, ao bater de asas de uma borboleta no Japão, mas é um facto que, nesses dias, ir ali a subir não me custa tanto como habitual. Consigo fazer sempre a correr as rampas que normalmente teria de fazer parte a andar, a respiração não é tão ofegante e não vou ali todos os segundos a implorar por um acto de misericórdia divino.



Se já não andasse nisto há algum tempo, e fosse mais ingénua, ficaria toda entusiasmada a achar que finalmente o treino estava a dar resultado e que as subidas se iam tornar mais fáceis! Nope. Não se iludam. As subidas nunca ficam mais fáceis. Assim como o correr no geral. Nós é que vamos ficando mais fortes, dizem.

Neste dia em questão, suspeito que as condições meteorológicas ajudaram bastante.


Tinha chovido até minutos antes de darmos início ao treino, cá de baixo de São Pedro, mas de momento estava apenas nublado. À medida que começamos a subir, no entanto, a névoa vai-se tornando cada vez mais densa, ao ponto de começarmos a ficar molhados da cacimba. Também não é fácil correr com grande percentagem de humidade, mas ali por Sintra é quase um dado adquirido e, além disso, teria sido muito pior fazer aquela subida com o sol sempre a bater, pelo menos para mim.


Se bem se lembram, a subida ao miradouro de Santa Eufémia foi algo que fiz várias vezes o ano passado, enquanto treinava para a Serra da Estrela. Há já algum tempo que lá não voltava, pelo menos a correr, por isso fiquei contente por conseguir fazê-la toda sem parar. Devagarinho, mas sem parar. A paisagem ajudou.


Chegando ao topo dos seus quase 470 metros de altitude, e aproveitando que estava num dia bom, foi dar meia-volta e tornar a subir, desta vez, em direcção ao ponto mais alto que se pode atingir em Sintra.


Atravessando os estradões envoltos em neblina,


e os bosques ainda mais mágicos,


até à Cruz Alta.

A Cruz Alta ergue-se no topo dos 527 metros da serra e permite uma bela panorâmica de 360º sobre a mesma...

... mas não neste dia, obviamente!

No entanto, o objectivo de ganhar acumulado estava cumprido, por isso agora era só aproveitar o resto da manhã fantástica e, de preferência, acrescentar-lhe mais uns quilómetros.


Apesar de ser linda em qualquer altura, a serra de Sintra envolta em brumas é, sem dúvida, a minha versão preferida. Ao correr por aquela floresta imperturbada, com apenas os nossos passos e respiração - e o ocasional cantar de um pássaro - a cortar o silêncio, quase que me sinto no meio de um cenário de fantasia, onde a qualquer momento nos podemos deparar com uma situação ou personagens surreais.


Bom, e sendo Sintra, a verdade é que já me deparei com várias coisas estranhas, mas não neste dia. Este foi mesmo um dia de treino perfeito, física e mentalmente.


Fiz as subidinhas todas a sentir-me sempre forte e sem me queixar. Raridade! E completamente assoberbada pela minha sorte em poder ter treinos destes, num sítio tão especial.


Quer dizer, eu estou sempre agradecida dessa minha "sorte", mas há dias em que é como se nos apaixonássemos de novo pela primeira vez. Nada mau nesta relação eu -vs- Serra de Sintra que já leva uns 5 anos.


Já eu -vs- subidas... é uma relação de altos e baixos. ;)

Está a fazer exactamente um ano desde os últimos treinos "a sério" nesta área, por motivos de força maior. Quase 2000 metros maior, se bem se lembram. A seguir a isso, sejamos honestos, desleixei-me completamente. Estava farta de treinar e queria correr à minha vontade, sem pensar em quilómetros e desníveis. O que não tem mal nenhum, até querermos voltar a ter objectivos.
Agora, tenho novamente motivos de força (2000 metros) maior. Apesar de, desta vez, querer regressar à Serra da Estrela por saudades e não por desafio, a montanha não se compadece de meios-esforços.

Mas esse é um tema para outra crónica, esta foi mesmo só para vos deixar aqui fotos mete-nojo bonitas. :)

15 de maio de 2017

Longão em Sintra

A primeira semana de Maio foi a maior, em termos de quilometragem, acho que desde o ano passado, quando andava a treinar para o Oh Meu Deus. Começou com os 30 km pelos Trilhos dos Pernetas e terminou com um treino longo pelos trilhos de Sintra, que acabou por ser de cerca de 40 km.

Há alguém, infelizmente não eu, que irá tornar a tentar os 100 km do OMD e precisava de encaixar mais um treino longo em Maio. E eu, que no início do ano estava cheia de esperanças de me internacionalizar numa prova de três dígitos lá para Setembro, na altura, toda confiançuda, inscrevi-me para os 70 km do OMD para serem feitos como "treino"... Ora, a ideia da internacionalização acabou por cair por terra e depois, com isto da anemia, a ideia dos três dígitos, em princípio, também. No entanto, vou voltar à Serra da Estrela. Fazer uma prova na Serra da Estrela é como uma prenda a mim mesma que pretendo oferecer-me todos os anos. Só eu sei o bem que me faz à alma correr por ali... Por isso, ainda não sei bem quantos quilómetros por lá irei fazer, mas vou.

No sábado do treino, o objectivo era recriar o percurso do Monte da Lua, tendo em conta que haveriam partes que atravessam propriedades privadas e não poderiam ser feitas e também um ou ou troço que poderia estar fechado. Além disso, devido à chuva do dia anterior, também iríamos evitar as arribas na parte final. Mesmo assim, estávamos confiantes de que teríamos percurso para uns 40 km.


Começámos o treino na Praia Grande e seguimos na direcção de Colares. Ainda nem 3 km levávamos quando nos deparámos com o primeiro obstáculo.


Depois da ponte, as quintas que a prova atravessava tinham agora uma cerca. À conta disso, tivemos de improvisar um bocado pelo alcatrão, na direcção dos B.V. de Colares, e dali seguir uma parte do percurso do Trail Serra e Mar, até desviarmos para a vila de Sintra e seguir novamente os trilhos do Monte da Lua. Desenrascanço... O que vale é que já são muitos quilómetros percorridos nesta serra!

No entanto, isso não nos impediu de nos enganarmos num cruzamento pouco depois, claro. A este erro, devemos o maior ganho de elevação seguido de todo o treino, portanto acabou por ser por uma boa causa, embora na altura não o tenha apreciado devidamente. :)
O cruzamento irá levar-nos até aos Capuchos, e daí foi a descer (fiquei contente nesta parte) até Monserrate, de onde pretendíamos fazer a ligação à Regaleira.

Parque de Monserrate.

Em Monserrate, fizemos a primeira pausa para abastecimento e tirar umas fotos com os lobos que por lá habitam.


Auuuuuu!

Se me lembro bem, acho que também há por lá um urso, mas não o encontrámos. Depois, passámos pela Quintinha de Monserrate,


antes de fazer os cerca de 2 km de estrada que nos levariam até ao Palácio da Regaleira.


Desta vez, infelizmente, não poderíamos entrar e percorrer os seus túneis, subindo depois o Poço Iniciático (só por esta parte já vale a pena fazerem a prova). Por isso, seguimos a corrida de obstáculos que foi fintar todos os turistas que percorriam as ruas da vila, até fugirmos pelo Parque das Merendas, na direcção do Castelo.

Subimos por aquele que eu intitulo o "Trilho das Fotos Fantasmagóricas",



e continuámos a difícil subida até aos Mouros, onde passámos vários turistas, alguns visivelmente com cara de "devia ter apanhado o bus, f#ck os €5!". :)


Depois, chegando ao estacionamento da Pena - e porque não subir mais um bocadinho? Nesta fase já estou por tudo - fomos até Santa Eufémia.


De Santa Eufémia fizemos a ligação ao estradão do Chalet da Condessa, seguindo depois alguns quilómetros relativamente planos, antes de baixarmos na direcção da Barragem da Mula, através do Torgas. Já é difícil descer por ali a correr, imagino os loucos do downhill.*

Início do trilho Torgas.

(* A partilha dos trilhos de Sintra por parte dos corredores e ciclistas é sempre motivo de alguma polémica, sobretudo trilhos comummente usados para a prática do downhill. Com a utilização responsável acho que todos podemos usufruir dos mesmos, sem riscos. Eu, por exemplo, que a seguir às cobras o meu maior medo é ter um encontro de primeiro grau com uma bicicleta desgovernada, evito certos trilhos em "horas de ponta" - também as há, na serra! - e vou sempre com imensa atenção. Neste dia, por acaso, não vimos nenhum ciclista em todo o treino.)

Nesta fase já levávamos mais de 20 km, portanto estava na altura de pensar no retorno. Embora já não estivéssemos a seguir fielmente o track do Monte da Lua, não podia ficar de parte a famosa subida ao Monge. Embora não tenhamos começado desde cá de baixo do Trilho das Pontes, fomos apanhar a escadaria a seguir ao monumento aos bombeiros junto à estrada


e dali subimos até ao pinoco no alto do monge.


Agora, e já que referi cobras há dois parágrafos, imaginem o que encontrei algures durante a subida... Um esquilo! Ahah, não, foi mesmo uma COBRA! O meu mais temido encontro de primeiro grau nos trilhos.
Para ser exacta, era um fura-mato, que é outra designação para uma espécie de cobra pequena e acobreada. Segundo os Parques de Sintra é muito raro ser avistada por ali... Ãhhh, vejam só a minha sorte!!! Ainda por cima, como foi apanhada de surpresa, fez-se de morta e nem se desviou quando lhe atirei um pequeno galho (sem qualquer intenção de acertar ou magoar, apenas para a afastar). "Olha-mésta! Estou em minha casa, portanto fico aqui refastelada ao sol a fazer de morta se me apetecer e tu que te desvies, se quiseres" - pensou, obviamente, a cobra.
Tive de fazer um desvio de 50 km (eheh ;)) só para não passar POR CIMA dela (ME-DO).


E, depois de tanto subirmos (até então já íamos com mais de 1200m D+), iniciamos a descida de regresso à Praia Grande, na direcção da Praia da Adraga. Foi por esta altura que fiquei sem bateria no gps, portanto os meus dados do treino ficaram incompletos


Chegando à Adraga, um último esforço na subida da duna até ao pinhal (está bem que são só uns 200 metros, mas subir uma parede de areia naquela fase... ufa!), e terminámos o treino com perto de 40 km.

Mas tudo acaba bem quando uma corrida termina na praia, e a maré até colaborou com a formação de uma pequena baía para a crioterapia.

E descer os mais de 300 degraus de acesso ao areal? Também foi bonito. :)

Bons treinos!

11 de maio de 2017

Trilhos dos Pernetas - a vassourar os 30km

Nas dezenas de provas de trilhos em que participei até agora, já fiquei no último terço do pelotão, já fiquei quase em último e até, imagine-se, já fiquei a meio do pelotão! No entanto, e apesar de ter havido uma prova ou duas em que foi por pouco, nunca fiquei em último. Bom, há sempre uma primeira vez para tudo.

Portanto, eu, mais dois companheiros, fomos os últimos dos últimos a cortar a meta dos Trilhos dos Pernetas, com cerca de 5h10 de prova.

Na Partida, já a deixar fugir o pelotão.

No entanto, a bem da verdade, era suposto que assim fosse, uma vez que fomos os vassouras dos 30 km.

Voltando um pouco atrás na história, há já bastante tempo que queria ter a experiência de ser vassoura. Sabendo eu o que custa por vezes concluir uma prova, numa glória só nossa - já que vezes há em que não está quase ninguém na meta para nos receber ou, pior, já estão a retirar o pórtico (!) mesmo ainda dentro do tempo limite - achava que teria o perfil e, sobretudo, a paciência para acompanhar alguém no seu desafio. Mas claro que nestas coisas de superação e sofrimento cada um tem o seu feitio, há quem goste de conversa para distrair, há quem prefira ir calado e até quem prefira que o deixem em paz. No fundo, teria que haver uma certa sensibilidade para perceber as idiossincrasias de cada um, e tinha curiosidade nisso.
Ora, não estando por dentro de nenhuma Organização, era complicado propor-me para vassoura assim sem mais nem menos. Por isso, quando soube que iria haver a primeira edição oficial dos Trilhos dos Pernetas, e conhecendo o Perneta-Mor, atirei com um: "eu vou, mas só se puder ser a vassoura!", e pegou. :) Iria na mesma, mas assim ainda melhor!

Agora, voltando à história, eram 9h do dia 01 de Maio, a partida dos 30km tinha acabado de ser dada, e eu, o Nuno e o Artur, os três vassouras, começávamos com toda a calma, dando espaço para que os atletas se afastassem.


Numa coisa estávamos de acordo: ninguém quer ir ali com o vassoura atrelado logo desde os primeiros quilómetros. Portanto, a ideia era dar espaço em relação aos últimos atletas, de forma a não criar pressão logo de início. Além disso, haveria uma passagem no primeiro quilómetro passível de criar algum engarrafamento, logo, teríamos tempo de os alcançar mais tarde.


Assim, os primeiros quilómetros foram feitos na conversa, sem pressas, com atenção ao percurso e à paisagem, esta última completamente nova para mim e o Artur.


Os cartazes também eram motivo de distracção e risota.

1km já está, faltam 29! :)
FUJAMMM!!!

Para referência, esta é a loira:

FUJAMMM!!!

Algum tempo depois, começam a surgir os primeiros atletas dos 18 km, cuja primeira parte do percurso seria partilhada com o nosso, e ainda houve um registo fotográfico dos mesmos.


Por acaso, falha grave, não tirámos foto à famosa Ponte dos Pernetas que inspirou o prémio de finisher, mas era na zona da foto abaixo.

Paisagem hor-rí-vel. ;)

Em suma, nestes primeiros quilómetros íamos tão na descontra que quando chegámos ao primeiro abastecimento os últimos atletas já tinham ido embora. :) Não havia problema, só tínhamos de recuperar o ritmo, mas olhem-me para esta mesa...

Olhem bem! O que está errado?

O abastecimento estava praticamente intacto! Fruta, bolinhos, aletria... Até uma garrafa de vinho do Porto que nem sequer chegou a ser aberta!!! Está bem que só íamos com uns 8 km de prova, mas fiquei muito desiludida com este pessoal do Norte, muito desiludida...

Mas bom, daqui para a frente, e para não arriscarmos chegar à Meta sem ter apanhado nenhum atleta, assumimos a postura profissional - de vassouras, claro está - e fomos no encalço dos últimos.

Mas pára-se sempre para uma foto ou duas, quando se justifica.

É mais ou menos a metade da prova que alguns atletas começam a quebrar o ritmo e, pouco tempo depois, alcançámos o último.


Infelizmente, este atleta não ia apenas numa quebra de ritmo, ia a queixar-se de uma dor no joelho e já não conseguia correr. É nestas alturas que começam as dúvidas: o que fazer? Dar força para continuar? Aconselhar a desistir para não agravar uma possível lesão? Acompanhá-lo até ao fim, mesmo que sempre a caminhar, enquanto estivesse dentro do tempo limite? E se demorasse mais que isso? Por enquanto, o atleta sentia-se capaz de seguir, pelo menos até ao próximo abastecimento, por isso revezámo-nos a acompanhá-lo, enquanto um ou outro ia controlando o percurso e avistando as atletas que seguiam pouco mais à frente.




Mas, antes do próximo abastecimento, seguia-se um dos maiores desafios da prova: a subida ao marco geodésico.

É tudo uma questão de perspectiva! :)

E maiores também...

As fotos de subidas falham sempre em revelar a verdadeira dificuldade, mas acho que deste ângulo, visto de cima, dá para ter uma ideia.


No topo do marco geodésico, mais ou menos pelos 18 km, estava o segundo abastecimento, de onde as penúltimas atletas foram logo embora mal nos viram chegar. Isto de ser vassoura é muito ingrato! :)


O atleta que vínhamos a acompanhar decidiu ficar por ali, por isso, depois de comermos qualquer coisa, seguimos até avistar as duas atletas que iam agora em último. Pelo caminho, passámos por alguns locais que já conhecia de nome e pelas fotos, como o Marco dos 4 Concelhos,

Sta. Mª da Feira, Arouca, Castelo de Paiva e Gondomar.

e a subida ao Camouco que era, se não me engano, o ponto mais alto do percurso.


A descida que se seguiu foi uma das partes que achei mais complicadas. Era longa, inclinada e cheia de pedra. Os meus dois colegas vassouras iam um pouco mais atrás e eu ia a seguir as últimas atletas sem querer ainda aproximar-me muito. A descida pareceu-me interminável e, por azar, apoiei mal um pé e fui de escorrega! Quando me levantei tinha o tornozelo um pouco dorido e pensei: "olha, que irónico, vamos ter uma vassoura perneta nos Trilhos dos Pernetas!", mas consegui continuar a correr e a dor eventualmente desapareceu.


Se calhar, ajudou o facto de, mais à frente, termos cruzado uma linha de água, onde aproveitámos para nos refrescar e brincar um bocado na água (eu), para dar tempo que as atletas avançassem. Aproximava-se o último abastecimento e, a cada fotógrafo e polícia que passávamos, íamos deixando a palavra de que éramos os últimos.

Chegámos ao abastecimento mesmo atrás das últimas duas atletas, mas ainda por lá estava uma boa meia dúzia de pessoas, a comer e beber. Assim que nos viram chegar, adivinhem, apressaram-se todos a ir embora! Começava a achar que tinham algo pessoal contra nós... :) Ninguém queria a nossa companhia!

Rapidamente tornámos a alcançar as últimas raparigas, mas queríamos deixar algum espaço para irem à vontade, uma vez que ainda estávamos bem dentro do tempo limite. No entanto, depois de quase terem seguido pelo caminho errado três vezes (por distracção, já que estava bem assinalado), achámos melhor juntarmo-nos a elas. Faltavam menos de 5 km para o final.


E seguiu-se um momento no qual me revi em bastantes provas. O cansaço, o intervalar a caminhada com a corrida, bastante ofegantes. O desabafo de quem está farto mas que, mesmo assim, se nota que está ali com garra para terminar. "ODEIO-VOS!", chegou a dizer uma das senhoras, na brincadeira, depois de avistar mais uma subida. Parecia... eu! :)
Depois, para mostrar quem é o verdadeiro sexo forte, a três quilómetros do fim começam a apanhar outros atletas, e estas mulheres, que vinham em último quase desde o início, ainda vão ficar à frente de uns 6 ou 7 homens. WOMEN POWER!

Até ao final, fomos intervalando a companhia de alguns atletas, conforme iam passando ou ficando para trás. Neste momento, a maior parte já só quer saber se "ainda falta muito", e eu fui tentando dar sempre uma forcinha. "Está quase!", "Falta 1 km.", "O pior já ficou para trás." e "Com jeitinho ainda fazemos abaixo das 5h!"... Espero que não me tenham odiado. Muito.

Chegando à Capela de N. Sra. da Piedade, onde fora a Partida, ainda era necessário descer as escadas para tornar a subir os últimos 200 metros em direcção à Meta, e deixámos o último atleta ter o seu momento, encerrando nós a prova, com cerca de 5h10. Uns bons 50 minutos a menos das 6 horas definidas. Pernetas? Não há pernetas aqui!

Felizmente, não houve incidentes complicados, e apenas uma desistência pacífica e por vontade própria, por isso acho que todos terminaram com boas memórias. Quanto a mim, gostei bastante da experiência e descobri que não me importo nada de ir ali a acompanhar outros ritmos. Gosto de lá andar sem ser eu a sofrer, para variar. :)