6 de março de 2017

TCC - Vila Velha de Ródão

(E: a primeira vez que vi a Analice.)

Depois de um interregno de 7 meses, voltei às ultras. Uma ultra das "curtas" - 45 km - mas, ainda assim, uma ultra.
Regressei, pela terceira vez, a Vila Velha de Ródão. Não sei bem explicar porquê, mas esta prova caiu-me no goto, passe a expressão. Provavelmente por se situar já na transição para a Beira Interior e ter uma paisagem na qual reconheço traços da minha Serra da Estrela e, portanto, transmitir-me uma familiaridade e conforto que associo a lar. Há provas às quais se volta porque são bonitas, outras a que se volta porque são difíceis, e outras a que se volta porque nos sentimos em casa. Sei que há quem não goste de repetir provas, por haver tanto para conhecer e tão pouco tempo, e eu até entendo essa perspectiva, mas, por outro lado, há sempre coisas novas que se descobrem nos sítios do costume, basta ter os olhos e o espírito abertos.


Neste caso, a organização até dá uma ajudinha: o percurso nunca é exactamente o mesmo. Este ano, por exemplo, foi mais ou menos a repetição do percurso de 2016, mas na direcção contrária, o que altera logo toda a perspectiva.
Pessoalmente, preferi esta versão, pois passamos perto da zona industrial logo de início, deixando para trás a fábrica de celulose, com as suas grandes chaminés que mantêm Vila Velha de Ródão debaixo de uma nuvem de fumo branco permanente. Esta fábrica, ainda que importante para o desenvolvimento da região, já que é criadora de muitos empregos e, consequentemente, evita a desertificação a que estão condenadas muitas terras do interior, não deixa de ser uma feia chaga numa, de outra forma, lindíssima paisagem.

Ainda dá para ver o fumo da fábrica, ao fundo.

Ao longo da prova, será piada privada recorrente o cheiro característico do fumo, que deixa adivinhar a proximidade de Vila Velha de Ródão, quando o vento está a favor, mesmo que não a vejamos no horizonte.


Mas este é apenas um pequeno pormenor que não estraga a beleza da prova. Rapidamente deixamos a vila para trás, percorrendo trilhos e estradões na direcção de aldeias e povoações como Tostão, Foz do Cobrão, Vilas Ruivas...

Depois de dois relatos sobre esta prova já não há muito a dizer, excepto reforçar aquele que é, para mim, o ponto alto de todo o percurso: o trajecto junto ao rio Ocreza.


É a parte mais técnica e perigosa, mas também, sem dúvida, a mais bonita. Descemos até à margem do rio,



percorremos a sua berma de terreno fofo, mas irregular,


e depois tornamos novamente a subir,

Portas do Almourão.

através de um trilho rochoso e de grande declive, com auxílio de cordas.



Este percurso pedestre, e a aldeia da Foz do Cobrão, foram um daqueles achados feitos devido ao trail, e que muito agradeço.



Depois, na segunda metade da prova é quando se ganha mais desnível, embora já através de estradões e trilhos mais corríveis.

Portas de Ródão.

Terminando com a icónica passagem pelas Portas de Ródão e a temível e pedregosa subida à Torre do Rei Wamba, bastante insultada por quem já vai com mais de 40 km nas pernas. :)


Mas é nos pontos mais altos que se tem a recompensa das melhores vistas, certo?

Vila Velha de Ródão, e o seu fumo branco, ao fundo.

Torre do Rei Wamba.

Quanto à minha prova, depois de uma prestação feliz em 2015 e não tão feliz em 2016, desta vez tive uma prestação serena. Não esteve isenta de dificuldades, sobretudo de quem está a regressar aos poucos à "forma", mas soube gerir relativamente bem as actuais capacidades. Comecei cá detrás, como de costume, com as primeiras subidas a custarem-me bastante, chegando inclusive a estar em último durante alguns quilómetros, mas depois a recuperar aos poucos ao longo da segunda metade da prova. O característico funcionamento a diesel mantém-se au point. :)

Curiosamente, levei 7h20 a completar a prova, menos 2 minutos que o ano passado e menos 6 que em 2015. Não sendo os percursos exactamente iguais, é difícil fazer uma avaliação, embora a distância seja sempre a mesma. O que é engraçado é que, independentemente de ter achado que a prova correu bem, mal, ou assim-assim, a prestação tem sido constante. Acho que tem muito a ver com o espírito com que estamos no dia, que pode ajudar ou prejudicar a ideia com que ficamos da prova.

Já do "lado de cá" das Portas de Ródão, a 2 km da Meta.

E agora Vila Velha de Ródão ficará também para sempre na minha memória por ter sido a primeira prova em que vi a Analice. Bom, já a tinha visto de passagem, na partida de outras provas, e sabia que era a senhora "que se fartava de correr", mas nunca tinha falado com ela. Foi aqui, em 2015, que a alcancei por volta dos 18 km e seguimos juntas durante algum tempo. Não foi muito, mas o suficiente para ouvir algumas das suas fascinantes histórias que sempre tinha para partilhar. Sei que, passado alguns minutos, segui, ficando a Analice para trás. Confesso que na altura fiquei admirada e, até, um pouco vaidosa, porque ia ficar à frente da Analice! A Senhora Analice! Quer dizer... Como se, pelo facto de ter menos de metade da idade dela, não fosse portanto uma situação natural de acontecer. Mas o facto é que deixou uma marca. O Antes e Depois de Analice, por assim dizer. Dali para a frente, continuei a encontrá-la e alcançá-la em provas, e, em quase todas, ela tinha umas palavras ou, pelo menos, um sorriso para partilhar.
Na altura, não sabia nada do passado dela. Que tinha ganho várias provas, batido recordes. Sabia apenas que era a senhora pequenina que corria que se fartava e estava sempre sorridente.

Hoje em dia toda a gente tem uma opinião sobre quem é ou não atleta, sobre quem compete, quem vai "passear", sobre quem, inclusive, imagine-se, deve ou não participar em provas... Porque: "provas são para competir". É verdade, concordo, é um facto. Os atletas de pódio (e restante liga da frente) são importantes, tanto para a divulgação da modalidade como para a representação internacional. Importantíssimos. Mas depois há todos os outros "campeonatos" de quem participa numa prova, e acho que todos convivem pacificamente e não se atrapalham. Quem compete para ficar à frente daquele amigo que o está sempre a picar, quem compete para ficar à frente do outro que da última vez o passou a 1 km da Meta, quem compete para melhorar o seu tempo do ano anterior, quem compete para chegar dentro do tempo limite da melhor maneira possível... São todas competições ajustadas à realidade de cada um.
E refiro isto porque, como disse, eu não sabia do passado da Analice, não fazia ideia das provas e prémios que já tinha ganho, mas isso não me fez mudar a opinião que tinha sobre ela. Mesmo que nunca tivesse ganho nada, a memória que me fica dela é a de alguém que era feliz a correr. Aspirações competitivas à parte, a verdade é que quem não tiver paixão por aquilo que faz, não vai andar por aqui (na corrida, no trail) muito tempo.

Como disse uma Senhora do trail (outra) por quem passei na prova deste ano: "há tanta gente que quer aqui andar e não pode..." E essa é que é essa. Nós podemos. Aproveitemos então, tudo. Este escape, esta paixão. As alturas boas e as alturas em que vamos ali a maldizer a nossa vida (porque também as há em quase todas as provas, e fazem parte).

A Analice correu, com gosto, até quase aos últimos meses da sua vida. E isso, para mim, é o mais fantástico. O derradeiro sonho.

17 comentários:

  1. Vila Velha de Ródão é linda, MAAAAAAAAAAAAAAS! CHEIRA MAAAAAAAAAAAAL!! =P

    Um beijinho dourado,
    O Biquíni Dourado
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    1. True. :) Mas acho que quem lá mora já nem nota. ;)
      Beijinhos

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  2. De regresso às Ultras! Quem pode, pode e é bem verdade!
    Uma ultra das "curta", é uma Ultra XS? ;)
    Parabéns na mesma! :)
    beijinhos e bons treinos!


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    1. Gosto dessa designação de Ultra XS, mas não vamos dar ideias porque já começa a haver muitas "sub-categorias". :D
      Obrigada. :)
      Beijinhos
      PS: Espero que voltes a "poder" também, em breve! Força nessa recuperação!

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    2. Ok, não vamos dar ideias ao people das ultras!
      Em breve poderei correr, mas só distâncias XS (sem Ultra!)...e a ritmo de procissão! :D

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  3. E pronto ... ia começar a disparatar mas estes últimos parágrafos amainaram o meu eu parvo. Grande Analice ... uma das minhas fontes de inspiração.
    Beijinhos e parabéns pelo regresso às Ultra-distâncias

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    1. Fiz de propósito. :P
      Obrigada. E vamos lá a recuperar dessa lesão! Tanta ronhice, já pareces eu... ;)
      Beijinhos

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  4. Estiveste muito bem e foste feliz, nada supera esta conjunção!

    Muito bonito e assertivo o texto sobre a Analice e considerandos sobre corrida!

    Beijinhos e força para mais desafios

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    1. Não nos podemos esquecer do que é mais importante. :)
      Obrigada, João!
      Beijinhos

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  5. R...estes ultimos parágrafos, não havia necessidade!

    Ou melhor, há, porque essa é que é essa, não é para quem quer mas para quem pode mas tem que se querer e muito.

    E tudo o resto.

    Bom, voltando à prova, posso dizer que as tuas fotos sacados do Bing são tão boas ou melhores que algumas de outros tascos que por aqui leio, muito bem!

    A foto sacada da net de Celulose deve ser tão feia que no meu pc nem abre, é a única! É para não manchar mais um belo relato.

    Beijinhos

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    1. Como não tens feicebuque ficas de fora das "polémicas" (e não perdes nada ;)).
      Eu consigo ver as fotos todas! Mas olha que até essa com a fábrica do papel ao fundo é bonita, só se vê praticamente o fumo branco.
      Obrigada. :)
      Beijinhos

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  6. Fui mal interpretado (1ª vez na vida, jurooo, cross my hart):

    Não é a questão das polémicas sobre corredores a sério, quem é maratonista, se é trail a sério ou para brincar, nop, era mesmo tudo o resto, no fundo...em especial os últimos 2 parágrafos quase, quase, me fizeram transpirar dos olhos.

    Sou é muito macho para tal ;)

    Era isto ;)

    PS: Sabes que eu cresci não ao lado dessa celulose mas de uma prima.
    A sorte é que regra geral o vento está para os lados de Constância SUl.
    Quando não está...

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    1. Ah, eu percebi!!! Queria era poupar-te a esse momento de dizeres que te entrou qualquer coisa para o olho.. ihihih :P Espero não ter sido eu a mal-interpretada!! (E afinal estás por dentro das temáticas :)) Mas olha que o feicebuque também tem coisas muito boas, entre as quais os perfis destas pessoas que por aqui andam nos blogues corredeiros (eu não costumo publicar muitas coisas, mas há aqui alguns que valem a pena. ;) E outros que são uns chatos constantemente a publicar selfies, mas não vou referir nomes... ;))
      Beijinhos
      PS: Depois de um dia quase inteiro a correr em V.V.R. as roupas cheiravam mal, mas, desta vez, não apenas devido ao esforço. :D

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  7. Muito bonitos aqueles últimos parágrafos. Vou copiar, meter num grupo do facebook, e esperar a guerra civil eheheh estou a brincar. Gosto mesmo destas provas do circuito centro e, atenção, só fiz uma!! Mas gosto do conceito, e mal posso esperar por sábado para ir a Vila de Rei.

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    1. Ahah :) Geralmente mantenho-me à parte dessas polémicas, porque eu é mais "team corre e deixa correr (ou andar :P)" mas, claramente, ontem estava com demasiado tempo livre. :D Mas a parte da Analice é sentida.
      Gosto da zona centro em geral e deste circuito em particular. No entanto, já falhei Proença-a-Nova, por isso ainda não é este ano que as faço todas... :(
      Beijinhos

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  8. Para mim "ultra é ultra"!! ...passa dos 42k ??? então é ultra !! :)

    ...ainda bem que não leio essa tretas dos facesbuks das corridas , senão era bloqueado outra vez !!
    ...se fossem mas é pro #%&/"#&%...isto com estas redes sociais só serve para juntar os idiotas e imbecis que se julgam melhores , ou grandes homenzinhos...e amplificar para os outros as idiotices e anormalidades que pensam ser a realidade ! o mal é que "damos" importancia a essa gente.
    ...porque no fundo são pessoas carentes de afectos ou com traumas de inferioridade infantis, que a internet vem consolar e disfarçar. Enfim...é a sociedade que temos...por mim ficam a falar sozinhos!

    Quanto á prova em si , tambem gosto muito da zona . É uma prova bastante acessível e desafiante ao mesmo tempo. As paisagens são brutais , os trilhos são lindos, só é mesmo pena o cheiro característico da fabrica, mas prontos, pelo menos acho que a saude publica está salva-guardada.

    Parabens pela prova , pela força e resiliência até ao derradeiro metro!!

    Venham mais...andamento nisso.
    bjs
    ajb

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    1. Olha, é como diziam os Guns&Roses, naquela bela música... :D
      E, já agora, citando os pinguins do Madagáscar: "é sorrir e acenar". :)
      Não vale a pena chateares-te com isso.
      Penso que aquela zona será toda assim. Montes, rochas e, felizmente, águaaaa! lol
      Obrigada, não estavam fáceis os primeiros... 20 km!
      Beijinhos

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